Canto II
Canto II
CANTO II
Este é o mesmo de quem eu disse: depois de mim vem um homem que me foi preferido, porque era antes de mim. E eu não o conhecia, mas por isso eu vim batizar em água, para ele ser conhecido em Israel.
(João I, v. 30, 31).
I
Das grandes catedrais nas altas torres
O sol Oriental bate festivo,
Dourando as primorosas esculturas
E as frechas atrevidas; jubilosos,
Os sinos colossais o espaço abalam,
Chamando o rico e o pobre, o fraco e o forte
Ao templo do Senhor. As oficinas,
Tornam-se mudas, mudas as roldanas,
A bigorna e a forja, a lima e a serra;
Depõe a enxada o honrado jornaleiro;
A menina do povo a agulha esquece;
Esquece o proletário as dores íntimas.
Deixam os lares, correm às Igrejas,
Aos públicos jardins, às belas praças,
Às risonhas campinas dos subúrbios.
Aqui, à fresca sombra das nogueiras,
Dançam ao som de rústico instrumento
Guapos mancebos, vivas raparigas;
Ali, sentados sobre toscos bancos
À porta da espaçosa hospedaria,
Os mais velhos praticam gravemente;
Mais longe, alegre chusma de crianças
Retorcia-se na relva aveludada.
Tudo descansa, folga e se diverte
No dia memorável do domingo;
Tudo, exceto o mesquinho encarcerado
Na fétida prisão, o pobre enfermo
Sobre o leito de angústias e martírios,
O esquálido avarento, fascinado
Pelo demônio do ouro, e o ente impuro,
Aleivoso, cruel, irmão da serpe,
Herdeiro de Caim, — sócio de Judas!
II
Mas os filhos das selvas não conhecem
Marmóreos torreões, sonoros bronzes,
Áureos altares, santuários ricos;
Não tem jardins, nem primorosos parques,
Calçadas ruas e adornadas praças.
O deserto é o templo, os astros círios,
Aras os montes, e sacrário o peito,
Depois... a natureza e a liberdade!
III
Qual medonho leão da Líbia ardente,
Quando deixa a caverna onde pousava,
E saindo às planícies requeimadas,
Para, sacode a juba e mede o espaço,
Enquanto, ao longe, as tímidas girafas
E os poldros aterrados, pressentindo
Das brenhas o senhor, bufam, relincham,
E arrojam-se velozes pelos ermos:
Assim o sol na extrema do horizonte
Majestoso aparece, e expele as sombras
Filhas da noite e do terror escravas.
Um novo dia os seres ilumina:
Belo, nos trouxe a claridade, belo
Seria se as tormentas o obumbrassem!
Salve, dia sagrado! Branca folha,
Macia, perfumosa e acetinada
Do calendário dos Cristãos! Sublime
Intermédio de paz e de repouso
Do poema brilhante do universo!
Cada sol, que te aclara, é círio amigo
No altar da natureza, que recorda
O complacente olhar do Onipotente,
Quando, formando a terra, o mar e os astros,
Os pássaros do céu, do ermo as feras,
Os monstros dos abismos e o terrível
Bruto que fala e pensa, concentrou-se
Na iminensidade da divina essência!
— Salve, Bendito dia do domingo!
IV
Simples, formoso altar, limpo, e coberto
De alvíssima toalha, erguido à sombra
De graciosa tenda, entretecida
De lianas sutis e verdes palmas,
Avulta ao lado da pequena ermida.
Junto aos círios acesos, débil, frouxa,
A brisa da manhã volteia e brinca;
Sobre o missal fechado, estende as asas
Mimosa borboleta azul-celeste,
Alada flor do mato; aos pés da imagem
Sanguenta de Jesus, voa e revoa
Esperto colibri. Cantam à roda
Sonoros sabiás, e o manso vento,
De quando em quando, suspirando, passa,
E o chão alastra de cheirosas flores.
O ministro de Deus medita e ora
Na sossegada ermida; um velho padre,
De longa barba e descorado rosto,
Antigo companheiro, hoje de volta,
Sentado à porta sobre dura pedra,
Folheia grossa Bíblia; de joelhos
A seu lado, Naída, atenta e muda,
Considera as gravuras primorosas
Do mais belo entre os livros conhecidos.
V
Dos quatro pontos cardeais, aos poucos,
Arem chegando os fieis: — o velho imbele
Pelo filho amparado, — o infante frágil
Sobre os ombros do pai, — tristes extremos!
A mocidade alegre; a meia-idade
Séria e calada. O caçador das brenhas,
O sagaz armador de finos laços,
Trazem para o banquete o mantimento;
As matronas severas, doces frutos,
Saudáveis confeições; flores as virgens;
Delicadas ofertas as crianças.
A multidão recresce, a ordem reina.
VI
Mas, à porta da ermida, majestoso,
Trajando as sacrossantas vestimentas,
Sustendo o argênteo cálix, e seguido
Do velho companheiro, o missionário
Aparece, e caminha lentamente
Para o singelo altar. Longo sussurro,
Semelhante ao das ramas da floresta
Às primeiras rajadas da tormenta,
Corre entre as turbas, as mais altas frontes
Curvam-se, como as hastes da cecrópia,
Quando sopram do Norte os frios ventos.
Depois tudo emudece: ouve-se, apenas,
O brando ciciar da aragem mansa
Nos taquarais viçosos, os queixumes
Do cristalino arroio entre pedrinhas,
E a voz grave, solene e vagarosa
Do sábio do Evangelho, repetindo
As palavras do santo sacrifício.
Quadro sublime! Encantadora cena!
Era assim, ao ar livre, à luz suave
Do céu da Galileia, nas encostas
De relvosas colunas, ou nas margens
Verdes, risonhas, de serenos lagos,
Que o Homem do Martírio doutrinava
As multidões humildes que o seguiam!
Era à sombra dos altos sicomoros,
Junto das fontes gemedoras, longe
Dos rumores das praças, que os mais nobres
Os mais santos preceitos resvalavam
De seus lábios divinos! Seus olhares
Prezavam as campinas e os outeiros,
As cabanas dos vales sossegados,
O retiro dos bosques, e a beleza
Do firmamento azul, vaga e profunda!
Era da natureza nos altares
Que elevava su'alma ao Pai Celeste!
VII
Ardem fogueiras: — terminada a Missa,
Aviam as mulheres o banquete;
De lado a lado correm as crianças
Trazendo o musgo, as parasitas rubras
Do cimo dos rochedos, e as mais lindas
Frutas e flores das escuras matas,
Que aos pés do sábio mestre depositam;
Os homens reunidos junto à ermida
Discorrem seriamente; as moças cantam,
Não as lendas das tabas belicosas,
Mas da Musa Cristã saudosos hinos.
VIII
Acabado o banquete, farto e simples,
Depois de alguns momentos de descanso,
Ergue-se o missionário, avisa o povo,
E continua do Senhor a história:
— Quando da aurora a doce claridade
O passado serão interrompeu-nos,
Eu vos contava, irmãos, deveis lembrar-vos,
Da Sagrada Família a retirada
Para o famoso e celebrado Egito,
Fugindo às iras do cruento Herodes.
Silêncio! E como sempre, ouvi-me atentos:
— É morto Herodes. Arquelau governa
O desgraçado povo Israelita;
Cessam as sanguinárias diligências
Que seu pai ordenara: estulto conto,
Sonho falaz, a plebe e o rei vaidoso
Julgam dos sábios Magos as palavras.
O mundo está tranquilo, a paz Romana
Por Augusto instaurada, permanece
Deslumbrando as nações. Quem nesses tempos
De festas triunfais, brilhantes feitos,
Justas do gênio, exaltação das artes,
Poderio supremo: quem voltara
De tanto luxo, e gala, e pompa, e glória„
Os olhos receosos, timoratos,
Para ir buscar no meio do vulgacho
Da mais pobre província, uma criança,
Que gentios boçais apregoaram
Rei de Israel, destruidor dos thronos,
Inimigo dos Césares? — Tranquila,
Volta, pois, a Família abençoada
Da terra estranha à suspirada pátria.
IX
Correm semanas, meses, correm anos,
E o menino formoso e delicado,
A quem seus nobres pais deram no exílio
O nome de Jesus, torna-se forte,
Avisado e gentil. A etérea calma,
A candura dos anjos, resplandecem
Em seu rosto adorável; a prudência,
A graça, a discrição, em belas máximas
Dimanam de seus lábios. A doçura
Da palavra eloquente, os gestos meigos,
A expressão inefável dos olhares,
Cativam corações, que ardentes buscam,
Além daqueles dotes felicíssimos,
Um — que — de estranho e grande, que presentem
E os enche de alvoroço!... — Asas, quem sabe,
Ligeiras, invisíveis, se recurvam
Sobre aquelas espaduas! Misterioso,
Vedado aos olhos dos mortais, descansa,
Talvez, o diadema do Infinito
Sobre aquela cabeça imaculada!...
Dois lustros tinha apenas e dois anos,
Quando em Jerusalém seus pais zelosos,
Finda a festa da Páscoa, o procuravam,
Que a seu lado o não viam, — assombrados,
Foram achá-lo em meio de doutores,
Dos livros de Moisés volvendo as folhas,
Reduzindo ao silêncio os mais sagazes
E velhos sacerdotes. Tão profunda,
Tão vasta sapiência então mostrava!...
Dos serões estivais, das quentes sestas,
Dos folguedos do povo, ingênuo e simples,
Era Jesus o mimo, o encanto, a vida;
As jovens mães paravam junto à porta
Do pobre carpinteiro, e contemplavam
Suspirosas, a cândida criança:
— Feliz aquela cujos seios puros
Te aleitaram, — diziam; outras vezes,
Traziam seus filhinhos inocentes
Para ouvirem o lindo companheiro,
Folgar com ele pelos verdes prados,
Crendo, oh! divina fé! que a inteligência,
A graça, a mansidão, a ingenuidade
Do afortunado, loiro Nazareno,
Passassem a seus tímidos amigos.
Longe, porém, de se entregar incauto
Aos loucos brincos dos primeiros anos,
Ou simular austeridade imprópria
Da ridente estação das esperanças,
Ele enchia de amor e de alegria
Tudo quanto o cercava! Seus olhares
Fariam desbrochar na sombra os lírios,
Cantar os maviosos passarinhos,
Que, do basto arvoredo, vinham mansos
Pousar sobre seus ombros! As torrentes,
As virações ligeiras, e os rumores
Dos silvados espessos, a seu gesto,
Das harpas e saltérios imitavam
As harmonias ternas e saudosas.
X
Como as rosas de um dia, como as flores
Da anêmona do monte, os anos passam
Da sonhadora infância; o Justo, o Santo,
Curva-se à lei fatídica do tempo:
Cede o lugar ao homem a criança.
Quinze anos havia que subira
Ao trono imperial Tibério César,
O abutre dos Romanos; governava
Outro sinistro Herodes a risonha,
A verde Galileia; eram os grandes,
Os príncipes, então, dos sacerdotes
Anás e Caifás, entes perversos,
Mercadores sacrílegos do templo.
Cruel como o primeiro, e mais doloso,
Nos vícios mais vezeiro, era o segundo
Senhor da Galileia, astuto Herodes:
Criatura sem crenças, sem virtudes,
Quebrando a fé jurada a cada instante,
Desprezara a prudente e fida esposa,
Filha do rei da Arábia, e fascinado
Pelos encantos pérfidos, lascivos,
Pelo amor criminoso de Herodias,
Mulher de seu irmão Filipe, cego,
Da casa do marido a arrebatará,
E com ela vivia em seu palácio.
XI
Ora, naquele tempo, dos desertos,
Das regiões incultas, que se estendem
Para o Setentrião, onde só vivem
Sinistros corvos, esfaimadas águias,
Venenosas serpentes; onde as pragas
Das eras de Moisés passam ainda
Pejando as soledades de terrores;
Das estâncias fatais, onde nem pousam
Do velho mundo as tribos forasteiras,
— Implacável censor, áspero Mestre,
Desceu pregando às turbas depravadas
A palavra de Deus, chamando os homens
Às fontes do Batismo. Era mancebo,
Entrava na estação próspera e bela,
Em que o farol brilhante da esperança
Clareia até o fundo dos abismos;
Em que os prazeres, as paixões fogosas,
O vivo imaginar, a terra e as cousas,
Fáceis, transformam num jardim de fadas;
Entretanto, seu vulto e seu aspecto
Eram a encarnação, lúgubre e triste,
De tudo quanto há rígido, severo,
Acerbo e rigoroso neste mundo!
Duro couro de velho dromedário
De manto lhe servia, duro couro
Encarquilhado, cru, preso às ilhargas,
Servia-lhe de cinto. Era sozinho.
Não trazia sandálias, nem guardava
Dos rigores do sol a fronte altiva.
Tinha o rosto trigueiro, o corpo magro,
Crivado das picadas dos insetos,
Dos agudos espinhos dos silvados;
Habitava os fraguedos e as cavernas,
E passava seus dias meditando
Nas leis do Criador. Seu alimento
Era o silvestre mel, e os gafanhotos,
Que em densas nuvens, dos sertões da Síria
Baixavam da Judeia aos tristes campos.
João Batista chamava-se. Movidas
Pela eloquente voz, pelas doutrinas
Desse inspirado e ríspido mancebo,
E mais ainda pelo santo exemplo
Do santo proceder, de toda a parte
Vinham as gentes confessar-lhe as culpas,
E receber as águas do Batismo.
Era como o gigante dos profetas,
Como o assombroso Elias.
— Raça impura!
Raça de negras víboras! — dizia
Aos fariseus e saduceus perversos,
Que divisava entre os humildes crentes:
— Quem avisou-vos de fugir à cólera
Prestes a rebentar? Produzi frutos
De santa penitencia, e não, vaidosos,
Vos julgueis de Abraão diletos filhos!
Oh! filhos de Abraão serão as pedras,
Se o Senhor decretar! D'árvore ao tronco
Vejo inclinar-se o gume do machado:
A planta estéril cairá por terra,
Será lançada ao fogo!
— O que faremos? —
Perguntavam-lhe as turbas ansiosas.
— Sede puros, humildes, compassivos;
Se duas vestes possuís, dai uma
A vosso irmão mendigo; Si estais fartos,
Chamai-o à vossa mesa. Nunca pouse
A mentira e a calúnia em vossos lábios,
Nem oprimais, se poderosos fordes,
Os vossos semelhantes. Na verdade,
Com água vos batizo, mas não tarda
Alguém, alguém maior, cujas sandálias
Indigno sou de desatar, conheço!
Esse no Santo Espírito e no fogo
Vos há de batizar! — O povo insonte
Enleado escutava estas palavras.
XII
Um belo dia, ao alvejar d'aurora,
Às verdes margens do Jordão sagrado,
Entre as turbas solicitas, zelosas,
Que do Batista às vozes acudiam,
Veio também Jesus. Surpreendido,
Turba-se aquele: — Quem sou eu! exclama,
Para esta glória merecer! — Minh'alma
Devera ser por ti purificada,
Senhor! e tu me buscas!...
— Não te inquietes,
Responde-lhe Jesus, — faze o que digo;
Quero plena justiça: é necessário
Que de minha pessoa o exemplo parta. —
Estas razões ouvindo, João Batista
Inclina-se e obedece. Oh! mas, apenas
Das águas do Jordão as gotas frias
Molham a fronte santa, as nuvens róseas
Afastam-se, quase trêmulas cortinas
Que vendassem o Empíreo, os céus se entreabrem,
E o Espírito de Deus, rasgando os ares,
Sob a corpórea forma de uma pomba,
Desce até o Senhor! No imenso espaço
Faz-se ouvir uma voz altissonante:
— Eis o meu Filho muito amado! Nele
Hei posto minha eterna complacência!
XIII
Depois desta solene cerimônia,
Jesus deixa o Batista, o povo deixa,
Deixa os vales amenos, as campinas
Das bordas do Jordão, e solitário,
Imerso em pensamentos insondáveis,
Busca o deserto, as solidões agrestes,
Que para as bandas do Emaús se estendem.
João continua as prédicas severas.
XIV
Quarenta dias e quarenta noites,
No seio estéril de profundos ermos
Passou o Filho augusto de Maria
Um jejum rigoroso, em longas preces,
E vastas reflexões! Quarenta dias
Gastou no isolamento, assim mostrando,
Quanto o retiro e a paz, quanto o sossego,
As preces e orações são necessárias
Sempre ao começo das missões pesadas.
Quarenta dias e quarenta noites
Velou, sofreu, chorou, pediu o auxílio
De seu Eterno Pai! Depois... Mistério!
Semelhante aos mais homens, sentiu fome!
Então da sombra de espinhosa sarça,
Sinistra e pavorosa levantou-se,
Maculada de sangue, e lodo e cinzas,
Negra, hediondamente mutilada
De Satanás a esquálida figura!
— Se és o Filho de Deus, zombando fala,
Ordena que estas pedras se convertam
Em outros tantos pães. — Jesus responde,
Fazendo estremecer o negro gênio:
— Não só de pães os homens se alimentam,
Mas também das palavras que procedem
Da boca do Senhor! — Medonho riso
Partiu dos lábios do rebelde arcanjo,
Ouvindo esta sentença; pertinace
Continua, porém, tentando o justo,
E por fim o conduz ao alto cimo
De escarpada montanha, onde descansa;
Estende para o espaço a mão tisnada,
E com voz temerosa assim lhe fala:
— Jesus de Nazaré, olha, contempla
Essas grandes nações, esses impérios,
Que brilham a teus pés, como os desenhos
Da um mapa gigantesco, iluminado
Por quantos sóis existem. Ao Levante
A portentosa China se dilata
Pelas terras de Sem, maravilhando
Com sua profusão, luxo e grandeza
Os estados do mundo, conhecidos.
Não guarda o tempo a mínima lembrança
De sua fundação, nem fala a história
Das dúbias tradições de seu passado.
Calam-se os reis, os sábios emudecem,
Considerando a antiguidade e a glória,
O poder e a opulência desse povo
Fastoso e original. Vê que províncias,
Que cidades extensas! Que muralhas
Rijas e monstruosas! Que palácios
Pomposos e soberbos! O granito,
O alabastro e o mármor de mil cores
Fulgem à luz do sol sobre os zimbórios
Dos tempos colossais; o ouro, a prata,
Os lúcidos cristais ornam as salas
Dos nobres alcaçares. Pelas praças,
O cetim, o veludo, o linho, a seda,
Os mais finos tecidos, que o Ocidente
Jamais imitará, rolam sem preço.
As angras desiguais, os fundos portos,
Os caudalosos rios, são pejados
De guerreiros baixéis, juncos mercantes.
— Além — surge atrevido à flor dos mares
O vaidoso Japão; três grandes ilhas
Abrange seu domínio. Irmão nos usos,
E rival no esplendor, não tem, contudo,
Tão vasto território, e tanto povo
Como a pátria das sacras tartarugas,
Dos alados dragões. — Deixa a península
Mais extensa do sul, transpõe o golfo
Sereno, azul sombrio de Bengala:
— Eis a sublime Ofir dos patriarcas,
O berço de Vishnu, de Shiva e Brahma,
A índia adusta, a inesgotável fonte
De etérea poesia, a grande mina
Das maiores riquezas do universo.
A seus pés, como a nítida esmeralda,
Caída do colar de soberana,
Jaz a verde Ceilão, mimo das águas,
Paraiso dos nautas levantinos.
— Agora considera a bela Pérsia,
O vergel de Bulbul, plumoso amante
Da rosa purpurina; o doce asilo
Das fadas e princesas encantadas,
O antigo reino de Dario e Xerxes;
Tão vistosos jardins, fontes tão frescas,
Aves tão lindas, tão risonhas veigas,
Não doura o sol Oriental; as graças,
O gênio, o amor e a glória, abençoaram
Do velho Zoroastro a descendência...
— Ali está Babilônia, — além a Pártia, [2]
Depois a Média, — a tenebrosa Assíria,
A Caldeia sombria, a Bactriana,
Abortos sociais, mesclas sinistras
De riqueza e poder, de luz e trevas,
De esplendor e miséria! À roda giram,
Sobre os mares de areia do deserto,
Hostes errantes, indomáveis povos,
Torvos herdeiros dos cruentos citas...
Ao meio-dia estende-se, apertada
Pelo Vermelho-mar e mar da Pérsia,
A rica, celebrada e livre Arábia.
Os suaves perfumes que vaporam
Os braseiros reais, os finos óleos,
Os bálsamos propícios, eficazes,
Que os feios golpes de cortantes ferros,
E as fundas chagas dolorosas curam,
Saíram de seus bosques; os mais fortes,
Mais ligeiros corcéis, que conquistaram
No campo da batalha, ou na carreira
A palma da vitória, por seus campos
Nitriram soltos, lestos e bravios...
— Volta-te agora para o Norte, a Síria
Desdobra-se risonha, limitada
Ao Oriente pelo ameno Eufrates,
Pelos montes de Elão, ao Ocidente
Pelo mar Interior... Desde o reinado
De teu avô Davi, cruentas guerras
Fez sempre ao povo hebreu. Em seu circuito
Levanta-se Antióquia a hospitaleira;
Depois Damasco, a rosa do deserto,
Tear imenso das mais finas sedas,
Grande oficina de polidas armas;
Ao longe Tadmor, a obra-prima
Do sábio Salomão, deleita a vista
Dos cansados romeiros: — Heliópolis
A denominam hoje os peregrinos.
Desde Abila até Chaleis, desde as bordas
Do Orontes cristalino, até os vales
Que forma o grande Líbano, repara,
Quantas lindas cidades, quantas vilas,
Quantos casais e herdades derramados!..
— Ao lado ocidental, próxima às ondas
Do buliçoso mar, ergue-se altiva
A próspera Fenícia, o grande empório
Do comércio do Sul e do Levante.
Foram seus filhos os primeiros nautas
Que afrontaram as ondas do oceano,
E as colunas de Hercules vingaram;
Foram seus filhos os primeiros mestres
Que o manejo das velas conheceram,
E a direção dos ventos, e a maneira
De computar as horas e as distâncias.
Em seus amplos depósitos e fábricas,
Vão procurar cativos mercadores
A púrpura que tinge os régios mantos,
E a madeira do Líbano, tão cara,
Para os tronos dos príncipes da Europa,
E para os templos de seus deuses mudos...
— Deixa o mundo de Sem. Preso a seu flanco
Por uma nesga de terreno apenas,
O patrimônio de Caim se estende,
E espanta os continentes. Nos rochedos
De seus montes lavrados pelos raios,
O epitáfio da glória e do progresso
Avulta em letras hórridas; nas bordas
De seus rios malditos, se reúnem,
Sócios dos crocodilos e das boas,
Sinistros nigromantes, rudes magos,
Ervanários fatais que a morte plantam,
E o desespero vendem. Nos ladrilhos
Dos caídos palácios de Sesóstris,
Latem anúbis, adorados perros;
Broncas esfinges de granito rubro
Erguem dos areais a fronte morna,
E consideram mudas e surpresas
As gerações que passam... por seus lábios
Fala dos Faraós o gênio às vezes.
No fastígio das lúgubres pirâmides,
Delírios de grandeza, o feio abutre
Lança um grito de fero desafio
Às serpentes do Nilo. Não te agrada
Este escuro painel? — Bem, volve os olhos
Para a ruidosa Europa, o ilustre berço
Dos filhos de Jafé.... Oh! como airosas
Surdem à flor das vagas transparentes
As verdes ilhas da formosa Grécia!
São cestinhas de flores delicadas,
Que em momentos de ócio e desenfado
Soltara a natureza sobre as águas
Nos tempos primitivos; são risonhas
Constelações de mundos pequeninos,
Sobre a escuma dos mares flutuando,
Matizados de vinhas e olivedos,
Povoados de Sílfides lascivas
E fagueiros tritões. Naquelas praias,
Sobre aquelas colinas, coroadas
De mirto e de açucenas, largas horas
Cismaram Safo, Anacreonte e Mosco,
Teócrito e Bion, meigos cantores,
Amigos dos outeiros e dos vales,
Da vida pastoril. Quios e Samos
Coreira, Paxos, Ítaca, Zacinto,
Pátrias de heróis preclaros, se derramam
Quais leves, graciosas borboletas,
Sobre o sereno mar. Além, avultam,
Citera, o asilo da mimosa Vênus,
Chipre, o lagar dos vinhos os mais puros,
Creta, a prisão do Minotauro, — Egina,
Imbros, Siros, Eubeia, e centenares
De perfumados, lúcidos abrigos,
Gratos aos olhos, ao prazer propícios.
— A terra gloriosa, a terra clássica
De Sócrates, Platão e de Aristóteles,
Inimitáveis sábios, se levanta
Vedando a luz ao Bizantino império.
O farol das nações, o insigne templo
Da beleza real, do gênio o berço,
A luminosa Atenas, lá descansa
No meio de prodígios. A seu lado,
Esparta, a destemida, encara ufana
A férrea estátua de Licurgo, e zomba.
Dos povos do Universo. Além, agita
O manto de florestas viridantes
A áspera Tessália: de seus montes
Os fundos ecos, abalados sempre,
lnda repetem de Alexandre o nome!..-
— Filha e senhora, imitadora e mestra,
Ao flanco ocidental da Grécia ilustre,
Espreita os gestos das nações vizinhas,
Sequiosa de sangue, a grande Roma.
Tudo o que abrange seu olhar nefário
De negra escravidão conserva o selo!....
— Mais longe, a linda e deleitosa Ibéria,
Fértil em doces pomos, estremece
Como se alma tivera, pressentindo
Nos sucessos proféticos da história,
Da Lusitânia o esplêndido futuro....
— Além, vingando cerros que a limitam,
Avulta a Gália transalpina, escrava
Outrora dos gauleses e ligúrios,
Celtas e volcos, e dos francos hoje;
Quando o pesado ferro da charrua
Passar por esses campos desprezados,
Quando o martelo, a serra e as alavancas,
O cinzel e o malho ressoarem,
Afugentando o ócio das cidades,
Será dos povos do Poente o mimo.
Um lidador da têmpera de César,
Do gênio de Alexandre o Macedônio,
Da tenda de soldado irá sentar-se
No trono das antigas dinastias.
Tirano e popular, grande e mesquinho,
Magnânimo e baixo, escuro misto
De fereza e bondade, calma e raiva,
Ódio e clemência, de seus paços áureos
Fará tremer o mundo!... Retalhada
Por imensos marnéis, valas imensas,
Da Gália ao Norte estende-se a Batávia:
Herdeira da Fenícia, seus pilotos
Por virgens mares e remotas praias
Desfraldaram audazes, denodados,
O pátrio pavilhão... Mudas, nublosas,
Ao lado ocidental da Gália forte.
Surgem altivas das sombrias ondas
As ilhas da Britânia. A liberdade,
O poder, o comércio, a indústria, as artes.
Terão ali seu pouso predileto,
Quando rotas as bátavas bandeiras
Dos mastaréus caírem. Seus governos
Quebrarão as cadeias opressoras
De milhares do servos: sua esquadra
Será dos mares soberana... Ao longe,
Nos climas boreais entre neblinas
Ergue-se a Escandinávia, a rude filha
Das tormentas polares; depois dela,
A terrível Sarmátia se prolonga
Do Norte ao Meio dia dominando
A Europa oriental...
Por um momento
Guarda silêncio o gênio dos abismos:
Volve rápido olhar ao mar profundo,
Aos claros horizontes, e prossegue
Mostrando àquele, a cujos pés os reinos
Jazem como torrões, onde se movem
Os bichinhos do pó, — as várias zonas,
As regiões incultas, mas repletas
De auríferos tesouros, os impérios
Fortes e populosos, explicando
Sua origem, seus usos, seus costumes,
Seu lugar no porvir; depois se curva,
Estende a mão tisnada e denegrida
Para as remotas linhas indecisas,
Onde as águas e as nuvens se confundem:
— Olha — Rei dos Judeus — Rei sem coroa,
Sem cetro e sem vassalos, olha! — exclama.
Oh! maravilha! O túmido Oceano
Torna-se firme, liso, alvinitente,
Como se de seu rumo transviada,
Longe do amigo sol, se congelasse
Toda a terráquea esfera! As sombras fogem,
O horizonte ilumina-se: milhares
De delicadas, vaporosas ínsulas
Pejam o azul puríssimo do espaço,
Quais flutuantes, primorosos ninhos
De brancos cisnes e alcions errantes;
E além, além, na solidão dos mares,
Aparecem os píncaros formosos
De vastas serranias, os ligeiros,
Esbeltos vultos das palmeiras altas,
Cujas copas virentes enlaçadas
Balançam-se nos ares, como as plumas
Vistosas dos pavões; as verdes selvas,
As campinas, e as praias alvejantes,
Como as túnicas brancas das armênias
À beira das torrentes estendidas;
E, qual no dia primo do Universo,
O mundo desbrochando à voz do Eterno
— Um novo mundo brota do Oceano.
A terra e o mar, o mar e o firmamento,
Saúdam no seu berço de princesa
A jovem filha da imortal Cibele.
Lança-lhe aos pés o mar pérolas finas,
O céu acende as lâmpadas dos trópicos,
A terra esparge as flores mais cheirosas
Que produzem as maltas e os outeiros.
Se uma ilusão não foi, não foi um sonho,
Nem de um grande poema o belo esboço,
Essa fecunda região, chamada
— Terra da promissão — descrita outrora
Pelo exímio Moisés, oh! certamente,
É nesses climas, sem iguais no globo,
Que ela deve existir!... A luz etérea
Inspira os passarinhos maviosos;
Acorda o reino mágico das flores
Irmãs dos colibris, que dão fagueiras
À viva abelha o mel, o aroma ao vento;
Beija os lagos de anil, e nas espumas
Das torrentes raivosas do deserto,
Serena transparece e amortecida,
Como vendada pelas asas brancas
De uma volúvel multidão de cisnes,
Que adejassem às bordas dos abismos.
Semelhantes aos príncipes fastosos
Das histórias do Irã, por toda parte,
Onde passam seus rios opulentos
Lançam de lado a lado ouro e diamantes.
A beleza, o prazer, a paz, o júbilo,
O ar festivo, a juvenil frescura,
A louçania dos primevos tempos,
— Essa irradiação da natureza —
Virgem ainda, ainda soberana,
Não pelos homens profanada, — brilham
No azul do céu, na solidão das matas,
Nos fastígios dos montes, nas correntes
Dos arroios queixosos, e amenizam
Os livres campos, as aldeias livres,
Os livres lares de uma raça ingênua,
Senhora das florestas. — Indulgente
Jesus contempla o grandioso quadro,
Meigo sorriso os lábios lhe descerra,
Doce expressão de amor e de bondade
Anima-lhe o semblante. — Considera,
Prossegue Satanás, esse prodígio
Que dos seios das águas se levanta,
Igual aos sonhos das empíreas sestas.
Nenhum rei dos antigos continentes
Conhece-lhe a existência, nenhum padre
Das crenças todas que os mortais cativam,
Aí pregou as rígidas doutrinas;
Mundo esplêndido e forte, ao longe dorme,
Feliz, desconhecido dos tiranos,
E dos servos de Plutus, cobiçosos,
Entregue à eterna lei da Providência!
— Pois bem, tudo o que viste e vês ainda,
Reinos, impérios, territórios vastos,
Regiões fecundíssimas, tesouros
Para comprar os tronos do Universo;
A força, o poderio, a fama, a glória,
Tudo, tudo te dou, se engrandeceres
Meu nome, pelos séculos maldito!
Se beijares meus pés, se reverente,
Prostrado sobre a terra me adorares! —
Ruga severa apareceu na fronte
Serena do Senhor, estranho lume
Correu no santo olhar.
— Impuro gênio!
Responde, e se levanta, — escrito existe:
A Deus adorarás, a Deus somente
Humilde servirás! — Então, ouvindo
Este preceito memorando, eterno,
Que das sombras do tempo despertava
Negras lembranças de medonha culpa,
Sentindo ainda na cabeça horrenda,
Doerem as feridas incuráveis
Que os raios vingadores produziram;
Satanás emudece, abaixa os olhos,
Um momento depois, tomando alento.
Prossegue opiniático: — Sossega,
Não mais te enfadarei, mostrando o quadro
Das nações e dos povos; se quiseres,
Te levarei mais perto.... — Quero, vamos!
Lhe responde Jesus. — Nos largos ombros
Satanás o sustém, sacode as asas,
Eleva-se do chão e ganha o espaço,
Atravessa veloz os densos ares,
Chega a Jerusalém, por fim, e para
No fastígio do templo: — Precipita-te
Daqui ao chão, se do Senhor és Filho;
Também escrito está, diz motejando,
Que as celestes, inúmeras falanges
Te ampararão nos braços protetores
Para que não tropeces, nem molestes
Os pés nas duras pedras!
— Ouve, escravo
Da mentira, do orgulho e da impureza:
Teu Deus não tentarás, — também foi dito! -
Afasta-te do mim! — Jesus ordena.
— Forçado então a obedecer, vencido
Por um poder maior, Satã se curva,
Lança medonho e furioso brado,
E some-se entre lúgubres negrumes,
Deixando o ar infecto e o espaço turvo.
Mas de todas as partes do horizonte
Brilhantes legiões de anjos excelsos
Surdem, batendo as asas alvejantes;
Deixam o firmamento, e circulados
De etérea claridade, ao mundo descem,
E prostram-se, cantando augustos hinos,
Aos pés do Salvador. Depois se ajuntam:
Uns inclinam as cândidas espáduas
Onde Jesus repousa; outros, alegres,
Abrem as amplas, perfumadas asas,
Formando um grande pálio, que protege
Dos rigores do tempo a fronte santa;
Os outros em falanges divididos
Buscam a vastidão, rasgam velozes
As nuvens purpurinas do Oriente,
Derramando às aldeias e cidades,
Aos agrestes casais e às pobres choças
As bênçãos do Senhor. Por fim, serenos,
Baixam remoinhando, e ledos param
Da Galileia nos ridentes vales.
XV
Mas o clarão da aurora inunda o espaço;
Apagam-se as estrelas, as neblinas
Deixando os altos montes, se desdobram
Em véus ligeiros pelos fundos vales;
Cantam os passarinhos, desabrocham
As flores odorosas dos silvados.
Está findo o serão, cala-se o padre,
Faz o sinal da cruz e se ajoelha.
Prostra-se o povo humilde, e repetindo
As palavras do mestre, pronunciam
As santas orações da madrugada.
— Ide em paz, meus irmãos, Deus vos conduza,
— Fala; depois se erguendo: — ide tranquilos;
No próximo domingo vos espero
Para seguir do Salvador a história.
A benção do Senhor vos acompanhe.
— Um momento depois, sozinho e mudo
Retira-se ao modesto santuário.