Canto III
Canto III
CANTO III
Quão formosos são sobre os montes os pés do que anuncia e prega a paz, do que anuncia o bem, do que prega a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus está para reinar!
(ISAIAS LII V. 7).
I
Símbolo eterno! — Rutilante escudo
No pavilhão celeste suspendido,
Como um troféu divino! Astro dos astros;
Senhor das estações, glória do espaço!
Fonte da luz, da vida e da esperança!
Farol da criação!... Alfim te mostras
Nas raias do Levante, afugentando
Da noite infausta os lívidos espectros,
E as sombras vis, do crime protetoras!
Oh sol! Oh sol brilhante, sê bem-vindo!
II
Atra tormenta, inundação medonha,
Derribaram a mísera cabana
Do ministro de Deus. Pesados troncos
Boiam ainda nas barrentas águas,
Represadas nos úmidos algares,
Que as enxurradas do verão cavaram.
Os arbustos vergados, encobertos
De lodo e solta argila, restos guardam
De pobres utensílios, móveis pobres,
Pelo furor da enchente arrebatados
Ao triste eremitério. Galhos secos,
Combros de areia elevam-se nos sítios
Onde mais bela a relva vicejava:
Mas, sobre a fina areia e sobre o lodo,
Nem sequer um sinal de humanos passos!
Senhor! que é feito do piedoso mestre?
Por que no santo dia de teu nome,
Quando os ingênuos crentes se reúnem
Para ouvir tua história e teus preceitos,
Tudo está frio, desolado e morto?
Porventura... Mas não: como suaves,
Repassadas de amor e de humildade,
Sobem aos céus as maviosas preces
Dos singelos conversos! Ei-los juntos
No topo de um outeiro, ajoelhados
À roda do piedoso missionário,
Cantando teus louvores! Ruja o vento,
Estale o raio, o temporal braveje,
Vingue a enchente voraz os altos montes,
Que importa! O zelo vencedor do tempo,
A crença viva que produz milagres,
Farão novos sacrários, novas aras,
Onde as almas fieis, Senhor, te adorem!
III
Como bendito lenho, arca bendita,
Depois da horrenda convulsão das águas,
Sobre risonha, plácida montanha,
Leves, tênues vapores exalando,
Ao suave calor do sol propício,
Pequena choça, sobre verde cole
Tranquila se levanta. Ali não chegam
As escumas do rio intumescido,
Pôde ali meditar, dormir sem medo
O apóstolo feliz do Novo Mundo.
O céu é todo paz, frescura o campo,
Sossego o bosque umbroso, — a tempestade
Como um sonho passou, — ei-lo, de novo
Rodeado dos seus, o mestre ilustre,
A sagrada missão continuando.
IV
Depois dos costumados exercícios,
Dos alegres folguedos, não vedados
Pelo pio varão, a cujos olhos
Nunca o riso e o prazer foram delitos,
Quando os preceitos da moral não ferem,
— À voz do mestre ajuntam-se os conversos
Guardam silêncio, esperam ansiosos
Da narração cortada o seguimento.
V
— A divina jornada no deserto,
Do sagrado Batismo a cerimônia,
Os austeros jejuns, as penitências
Em triste soledade, e as execrandas
Tentações de Satã, — deveis lembrar-vos
Irmãos, repete o narrador, — contei-vos,
No passado serão; direi agora
Como deixou Jesus o isolamento,
E apresentou-se aos homens, ensinando
Os preceitos da lúcida doutrina.
Prestai-me ouvidos, sabereis prodígios.
VI
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Não mais insiste o rígido Batista
Ao povo israelita predizendo
A vinda do Messias; não, agora,
Agora que Jesus reconhecera
Como o filho de Deus, e anunciado
Por todos os profetas, o apresenta
Às multidões surpresas: — Vede, exclama,
Eis o cordeiro do Senhor, que afasta
Os pecados do mundo! Oh! sim, é ele,
De quem eu sempre disse, e em toda parte:
Depois de mim virá o preferido!
Virá quem era, e é, quem eu não via,
Quem batizei com água, aparelhando
A grande estrada, que trilhar devera! —
Estas palavras escutando, o povo
Que o Batista respeita, corre, apinha-se
À roda de Jesus; modesto e simples,
Ele, porém, retira-se a outros sítios,
E procura mais tarde, finalmente,
Da linda Galileia os frescos vales.
Dois amigos de João, seguem-no logo;
Depois Filipe o pescador, e o lhano,
Meigo Natanael, seu companheiro.
Foram estes paupérrimos mancebos,
Paupérrimos dos dotes da fortuna,
Porém ricos de amor e de esperança,
Limpos de coração, mansos e crentes,
Os primeiros discípulos de Cristo.
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VII
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Triste como um sorriso compassivo,
Entre prantos de amor e de saudade;
Triste como um olhar de despedida,
Como um adeus de amigo que se ausenta,
Quando de longe da arenosa estrada,
Pela última vez contempla as serras,
E as campinas natais: assim no espaço,
Do sol quase a sumir-se, o frouxo lume
Descansa inerencório sobre os tetos
Da tranquila Caná, cidade humilde
Da humilde Galileia; e nessas horas,
Quando as vagas lembranças, agridoces,
Dos tempos que passaram, tumultuam
No pensamento humano, e a voz das aves,
O murmurar das fontes solitárias,
O ciciar das auras na espessura,
Casam-se d'alma aos fugitivos sonhos;
Quando as brilhantes ilusões da infância
Revoam pela mente do que sofre,
Como em tarde de estio, à flor dos lagos,
Um bando de andorinhas forasteiras;
Nessas horas de calma e de amargura,
De aflição e prazer, de riso e lágrimas,
Chusmas alegres de louçãs pastoras,
Camponesas gentis, zagais esveltos,
Em trajos festivais, brincam e dançam,
Cantam e jogam, do arvoredo à sombra,
Ou sobre as alcatifas de verdura,
Que a frente adornam de formosa granja:
É dia de noivado. Pressurosas
Acodem dos subúrbios e arredores
Dos maiorais mais ricos as famílias,
E as famílias dos pobres jornaleiros,
Aos folguedos das bodas; vem entre elas
A filha de Joaquim e o santo esposo;
Chega também Jesus e seus amigos.
VIII
Os tangeres de simples instrumentos,
Doces, melodiosos, e a toada
Dos tamborins sonoros, algum tempo
Medem da mocidade as ágeis danças,
E dissipam as mágoas da velhice;
Os bons vinhos depois, os bons guisados,
A fartura da mesa do banquete,
As condições confundem e as idades.
Os pais dos desposados, diligentes
Andam de lado a lado, as taças enchem,
Os criados incitam, e solícitos
Trazem novos manjares, novos pratos
Que aos convivas afáveis apresentam.
Tecem da noiva as cândidas amigas,
E os amigos do noivo o epitalâmio
Usado nessas eras. Entretanto,
Da noite as horas infiéis e tredas,
Que lentas esvoaçam sobre a fronte
Do solitário pensador, que cercam
A dura barra do infeliz cativo
De pavorosas sombras, e prolongam
Do lívido, aterrado agonizante
Os martírios cruéis, correm velozes
Onde brilha o prazer, soam os risos,
Onde o júbilo agita as asas de ouro!
O dia se aproxima. A grande mesa
Terceira vez coberta de iguarias,
Gostosos acepipes, doces frutos,
Não mais alegra os olhos, — a tristeza
Debuxa-se no rosto dos convivas.
Está findo o festim?... Estão vazias
As ânforas e taças! Vinho, vinho!
Dai-nos mais vinho! Um dos amigos grita.
— Pois acabou-se o vinho? diz surpresa
A rainha da festa, — que desgosto!
Nem uma gota ao menos acharemos:
Os odres estão secos. Mais penoso
Mostra-se o enfado nos semblantes todos.
Então Maria volta-se a seu Filho,
Que ao lado estava pensativo e mudo,
Sobre um velho taburno recostado.
— Vês? — murmura com gesto suplicante.
IX
Ora, no fundo da espaçosa sala
Sobre tosco alicerce ou rijo assento,
De forte alvenaria, colocadas
Seis grandes talhas de granito estavam,
Destinadas, segundo a lei antiga,
Às santas abluções; Jesus ouvindo
O materno pedido se levanta,
Acerca-se da mesa do banquete:
— Enchei aquelas talhas d'água pura! —
Fala com voz sonora, imperiosa.
— D'água?... todos exclamam? — Sim, responde
A esposa de José, ele não zomba,
Fazei o que vos diz, tereis o vinho —
Num volver d’olhos, servos e senhores
Incrédulos, mas lhanos e corteses,
Atendendo aos caprichos da amizade,
Que inocente capricho o caso julgam,
Enchem, a transbordar, as grandes talhas.
— Tomai agora os cântaros e jarras,
Ordena o Salvador, — tomai os frascos,
E as ânforas também: — estão repletas
De vinho aquelas talhas. — Curiosos
À roda de Jesus todos se apinham.
Primeiro, enchem os servos grandes vasos,
Depois os canjirões, depois os copos
Que a seus amos entregam... Maravilha!
Em vez d'água das fontes, clara e fresca,
Tão grata aos caminheiros do deserto,
Aos cabreiros das serras, rubro vinho
Escuma e ferve nas vasilhas fundas,
Acordando o prazer e o regozijo
Entre os cansados, mudos bebedores.
Uma grita estrondosa e prolongada
Saúda o autor do portentoso feito.
Jesus, porém, esquiva-se aos aplausos,
E como d'antes, vai sentar-se calmo
Sobre o velho taburno que deixara.
X
Ora, quando estas cousas sucediam,
A nuvem negra de ódios, suspendida
Sobre a fronte severa do Batista,
Rebentara terrível! Os senhores,
Os magnates de então, cujos defeitos
Eram publicamente censurados
Pelo implacável, rígido profeta,
Uniram-se cruentos, e o lançaram
Nas fundas e pestíferas masmorras
De Macaur, sinistra fortaleza,
Nas terras de Megido levantada.
Recebendo Jesus esta notícia,
Nas aldeias tranquilas, se demora,
Da pátria Galileia, repetindo
O evangelho de Deus ao povo humilde.
XI
A fama de seu nome, e das doutrinas
Santas e luminosas que professa,
Das sublimes ações, e da doçura
Do trato, das palavras, voa, passa
Além das cordilheiras, que circundam
A província natal. As gentes simples,
Em cujos corações crentes ainda,
Da velha Roma o hálito gelado
Não crestou a esperança, os lares deixam,
Correm a ouvir a voz consoladora
Do jovem sábio de Israel, o amigo
Dos que gemem e choram neste mundo.
XII
Nas horas melancólicas da tarde,
Quando se esconde o sol entre as montanhas,
E a luz crepuscular povoa os vales
De tristezas, de amores, de saudades,
Um dia vagueando pensativo
À verde margem de sereno lago,
Vê sobre a areia dois batéis vazios,
E a pouco espaço sobre escuras rochas,
Tisnados e grosseiros pescadores
Lavando as finas redes. Ao mais velho,
Da Galileia habitador antigo,
Dirige-se Jesus: — Simão, que fazes?
Puxa ao lago o teu barco e lança as redes,
Quero te ver pescar. — Mestre, responde
Tristemente Simão, a noite inteira
Eu ontem trabalhei, e hoje, debalde,
Nem um peixinho achei; porém, tu mandas,
Cumpre-me obedecer. Ajunta as redes,
Chama os sócios e desce, o lenho impele,
Toma o Senhor consigo e faz-se ao largo.
XIII
Sobre as águas serenas, lança, estende
O tecido sutil de finas malhas;
Depois, aos poucos, lentamente o tira,
Dos amigos robustos ajudado.
Mas o peso excessivo as linhas quebra,
Quebra as delgadas cordas; outros barcos
Do barco de Simão se acercam logo.
Assombrosa fortuna! À tona d'água
Reluzem, pulam, turbilhões de peixes
Os mais estranhos no tamanho e forma,
Os mais apreciados nos mercados;
Uns agitando as barbas filiformes,
Encrespando as escamas de mil cores,
Fazendo resvalar nas turvas ondas
O dorso boleado, úmido e pingue;
Outros dobrando o prolongado corpo
Batendo as águas, como a lisa folha
De larga e forte espada damascena,
Lançando à roda inúmeros respingos;
Abrindo outros as asas matizadas
De azuis lavores, de cetíneas manchas,
Procurando transpor o móbil circo,
De instante a instante mais estreito ainda.
Depois se ajuntam, se misturam, rolam,
Ondas vivas represas por encanto
Nos limites de mágico desenho
Feito por mão de fada caprichosa.
Os barcos atulhados mal flutuam,
Deixando apenas as delgadas bordas
Fora das águas buliçosas, prestes
A passarem sobre elas; entretanto,
À direita, à esquerda, à proa, à popa
Os cardumes aquáticos pululam.
XIV
— Retira-te de mim!... Simão exclama,
Retira-te de mim, Senhor, te digo!
Homem culpado sou, escuras nódoas
Minha vida enegrecem! — Não te assustes,
Responde-lhe Jesus, meigo e risonho,
Foste até hoje pescador de peixes,
Mas de homens pescador serás agora. —
Simão curva a cabeça e abaixa os olhos.
Chegando à praia as redes abandona,
Deixa o barco na areia, e acompanhado
De Thiago e de João, fieis amigos,
Em seguimento do Senhor caminham.
XV
Do sol do meio dia à luz dourada
Entram em pobre aldeia. O augusto Mestre
Em casa de Simão passara a noite.
Ao vê-lo o povo insonte se alvoroça,
Deixa as ocupações, à rua corre,
Saúda o Salvador. De vil tugúrio
Ao lado esquerdo de viela imunda,
Um hediondo vulto, esfarrapado,
Levanta-se gemendo, cai; de novo
Levanta-se, e caminha vacilante,
Fazendo recuar os curiosos,
Que a seu aspeto, horrorizados fogem.
Roxos tumores, pútridas feridas
Cobrem-lhe os pés, as mãos, o peito e o rosto;
Esverdeado pus, aguado sangue,
Empastam-lhe os andrajos asquerosos;
Não mais conservam pálpebras e lábios
As formas primitivas, ora, apenas,
Esponjoso tecido de tubérculos.
Mostram, oh Deus!... os últimos — um riso
De escancarada chaga... As chagas riem!
Aos pés do Salvador chega esta cousa.
— Jesus de Nazaré! Se tu quiseres
Eu serei são!... Exclama roucamente.
Jesus guarda silêncio, encara o pobre:
A multidão se agita, treme, espera.
— Quero! — ordena o Senhor. Ergue-se o enfermo,
Seu rosto empalidece, depois cora;
Afogueiam-se os olhos, os tecidos
Alisam-se e de peitos se guarnecem;
Nova circulação traz vida nova
Ao sangue arterial; a mocidade,
A saúde, o vigor, o todo animam
Daquele triste ser, que sobre a terra,
Passava pelas fases tenebrosas
Da noite dos sepulcros! Tanto podem
A santa fé e a lúcida esperança!...
XVI
Mas, o que são lauréis, coroas, palmas,
Triunfos, glórias, ovações mundanas,
Flores que mata o hálito da inveja,
Vítreas, brilhantes concreções das grutas,
Que, ao rugir do trovão, estalam, partem-se,
Em mil pedaços caem! Que são elas
Aos olhos do Senhor?... Que pensamento
Anima o rei do pó, quando se esbofa
Em louvores prolixos, vãos discursos,
E tenta insano com palavras frouxas
Celebrar de seu Deus a Onipotência?...
Evitando os aplausos e os encômios
Das turbas sequiosas de prodígios,
Todo entregue à missão que o trouxe à terra,
Afasta-se Jesus, busca repouso
Na pobre habitação de amigos pobres.
Não o deixa, porém, o lhano povo,
Segue-o, entra açodado, a casa ocupa,
Traz seus enfermos, pede-lhe conselhos,
A verdade lhe pede, e a luz celeste
Que ilumina o caminho do futuro.
XVII
Ao portão impedido, chegam, param
Quatro moços robustos, conduzindo
No próprio leito, sócio de dez anos,
De dez anos de dores e amarguras,
Um infeliz, exangue paralítico.
Falam à multidão, instam, suplicam
Que os deixe, até Jesus, levar o enfermo.
Baldado empenho! A multidão é surda:
A multidão é cega ou... deslumbrada:
A multidão só tem um pensamento,
Uma ideia, — um desejo: — ver o Mestre!
O Mestre ouvir!... O mais, pouco lhe importa.
Não descoroçoados, senão crentes,
Guiados pela fé, mãe dos milagres,
Removem para um canto o desgraçado,
Os amigos fiéis. — Escadas buscam:
Contra a parede as firmam, cautelosos:
Alçam o pobre leito e o pobre amigo;
Ouvido escrutador às telhas unem,
Soerguem-nas; aos caibros desnuados
Cordas amarram, pelas cordas descem,
À sala baixa onde Jesus pratica,
No pobre leito o mísero doente.
Um grito de terror quebra o silêncio!
Olham ao teto os circunstantes, olham
As sombras vacilantes nas paredes,
Olham para Jesus, para a mofina
E lívida figura do entrevado,
Imóvel, envolvida em alvos panos,
Semelhante ao cadáver macilento
Que levam a enterrar. — Senhor, curai-me!
Tende pena de mim, Senhor! — murmura
Com voz entrecortada de suspiros.
— Homem, Jesus exclama, os teus pecados
Perdoados estão! — Ouvis? Cochicham
Os fariseus e escribas, vis hipócritas,
Que da lei zeladores se apregoam,
— Ele fala em perdão! Ele se atreve
A competir com Deus! — Blasfêmia horrenda!
— Loucos! Jesus responde, o que mais custa:
Dizer ao desditoso: os teus pecados
Perdoados estão, ou ordenar-lhe:
Levanta-te, caminha? — Agora, escuta,
Diz voltando-se ao mísero doente:
Ergue-te! Mando eu, — toma teu leito,
Vai para casa de teus pais, ouviste?...
— Oh! Cristo! Os povos todos te bendigam
Louvem as gerações teu santo nome
Por séculos e séculos! — exclama,
De um salto levantando-se, e caindo
Aos pés do Salvador, o pobre moço!
— Vai, — ordena Jesus. — Risonho, alegre,
Toma o mancebo a cama sobre os ombros,
E afasta-se levando a felicidade
A seus aflitos pais. Maravilhado
À roda de Jesus pondera o povo:
— Hoje vimos prodígios inauditos! —
XVIII
Deixando os fariseus e escribas mudos,
Mudos os assistentes, boquiabertos,
Afasta-se Jesus; na larga praça,
Bem junto do Telônio, ou grande mesa,
Onde estavam então os cobradores
Dos dinheiros reais e dos tributos,
Vê, ao passar, sentado um publicano;
Detém-se, encara-o, fita-lhe no rosto
Um desses fundos, divinais olhares
Que aos seios d'alma rápidos penetram,
E laceram os véus da consciência.
— Levanta-te, Levi, filho de Alfeu,
Que chamarei Mateus, e vem comigo. —
Mateus não titubeia e não vacila,
Ergue-se, deixa tudo, ao chão arroja
O próprio manto que trazia aos ombros,
Guia o senhor à casa onde reside,
Faz aprestar esplêndido banquete,
Chama os pobres à mesa, e alegres folgam
Por todo aquele dia. — Os vis escribas,
Os invejosos fariseus lhe dizem: —
— Que! censurais os vícios e defeitos
Do vulgacho grosseiro, vós o Mestre,
E comeis no festim do publicano,
Sentado entre rasteiros pecadores! —
O Senhor lhes responde: — Ouvi, malévolos:
Os que estão sãos, sabeis, não necessitam
Dos socorros do médico, aos enfermos
São eles destinados. Neste mundo
Não venho aos justos ensinar, mas, vede,
Chamar à penitencia os pecadores! —
E outras santas verdades repetindo
Os reduz ao silêncio, envergonhados.
XIX
O tênue lume que animava a essência
De diminuto número de crentes,
Estende-se, flameja, os seios ganha,
E abrasa os corações. Tudo o que sofre,
Tudo o que espera e crê, tudo o que almeja
Das sombras do presente alçar os olhos,
Perscrutar o futuro, se coloca
Ao lado do Senhor. Já por milhares
São orçados prosélitos e ouvintes.
Cada dia um milagre, um belo feito,
Firmam a sã doutrina, ao povo mostram
Que sobre o homem perecível brilha
A grandeza de um Deus, de um Deus a glória.
Ora, é um doutor da lei, distinto membro
Do senado judeu, que vem à noite,
Cauteloso, solícito, implorar-lhe
Dos sagrados preceitos a ciência:
É Nicodemos que rejeita o erro,
E as verdades abraça do Evangelho;
Ora, mesquinhos seres que a doença
Furta ao trabalho e tolhe os movimentos,
Que à voz do Mestre, jubilosos andam,
E seu divino Salvador bendizem;
Ora, desamparadas criaturas,
Em cujos corpos legiões do inferno
Se agitavam raivosas, que libertas
Do tenebroso jugo, hinos entoam,
Volvem ao céu agradecidos olhos,
E o nome de Jesus prostradas louvam.
A esperança e a fé, anjos celestes,
Abrem as asas, e a tristeza expelem,
Por toda a parte onde o Senhor caminha.
XX
Uma bela manhã, clara e serena,
Depois das santas orações, descansa
Sobre formoso céspede, e chamando
Seus fiéis companheiros, doze escolhe,
Que denomina — Apóstolos — São eles:
Simão, que apelidou Cefas ou Pedro,
De todos o mais velho; André, Tiago,
João e Bartolomeu; Tomé, Filipe,
Outro Tiago, outro Simão ainda,
Chamado o Zelador; Maheus, o antigo
Levi o publicano; depois Judas,
Parente de Tiago; e, finalmente,
Judas de Queriote, que mais tarde
Veio a vender seu benfeitor e Mestre.
Depois, notando que se ajunta o povo,
Que ansioso o rodeia, se levanta,
E pronuncia o lúcido discurso,
— Que sermão da montanha hoje dizemos.
XXI
— Afortunados sois, pobres de espírito,
Pois o reino dos céus é vossa herança;
Afortunados sois, brandos e mansos,
Que sem disputa possuís a terra;
Afortunado sois, vós que chorando
Atravessais a estrada da existência,
Porque tereis das mágoas lenitivo;
Afortunados vós que tendes fome
E sede de justiça, sereis fartos;
Afortunados sois, oh! compassivos,
Pois achareis também misericórdia;
Afortunados vós que neste mundo
Tendes os corações limpos e puros,
Pois verão o Senhor os vossos olhos;
Afortunados sois, seres pacíficos,
Filhos de Deus vos chamarão os homens;
Afortunados vós que sem queixumes,
Por amor da justiça e da verdade,
Sofreis perseguições, pois vos pertence
O reino do Senhor: afortunados
Vós que gemeis ao peso das injúrias,
Das calúnias cruéis por meu respeito,
Afortunados sois, pois largo prêmio,
Recebeis além na eterna pátria!
Voltando-se depois a seus discípulos:
— Vós sois o sol da terra e a luz dos povos.
Como um farol suspenso nas alturas
Aclare vossa luz a humanidade;
Vejam os homens vossas santas obras
E glorifiquem vosso Padre excelso!...
Quem, de mim se aproxima, e atento escuta
As palavras que brotam de meus lábios;
Quem, depois de as ouvir, seguro as guarda,
E as põe por obra no lidar da vida,
É igual ao varão prudente e sábio,
Que nas cavas de rígido penedo
Prende da casa os alicerces fortes:
Quando os tufões correrem pelo espaço,
Quando as caudais torrentes se arrojarem
Bravejando no dorso das montanhas,
Não terá que temer! — Triste daquele,
Triste daquele, que os ouvidos cerra
Às profundas verdades que professo!
Qual insensato, em terra levadiça,
Terá posto da casa os fundamentos:
Quando as torrentes rábidas passarem
Pelas chuvas do inverno intumescidas,
Vorazes lamberão a areia solta,
E o vaidoso edifício irá com ela! —
Depois destes santíssimos conceitos,
Cala-se o Salvador, abre caminho
Por entre a multidão que amiga o cerca,
E, seguido dos seus, desce do monte.
O sol do meio-dia abrasa os campos.
XXII
Já de Cafarnaum ao longe avista
As verdes eminências matizadas
De florentes arbustos, quando chega
Ofegante ancião a seu encontro.
— Creio em vosso poder, Senhor, lhe fala,
Por isso corro a vos buscar, ouvi-me:
Um bom centurião suspira aflito
De moribundo servo à cabeceira;
Sabe quanto valeis... se vós quiserdes...
E embaraçado cala-se. — Não temas,
Responde-lhe o Senhor, — que bem obraste,
Mostra-me a habitação de teu amigo,
Irei ver o doente. E segue o velho.
Mas, o centurião apenas sabe
Que Jesus se aproxima, envia logo
Por alguns companheiros, que o rodeiam,
Esta humilde mensagem: — Não sou digno,
Senhor, de entrares em meu pobre asilo;
Manda, e meu servo ficará curado.
— Oh! na verdade, o Salvador exclama,
Ao povo se voltando, longe estava
De supor tanta fé por estas terras!
Ide, ordena aos atentos mensageiros,
São achareis de vosso amigo o servo...
Glória ao Filho de Deus! No mesmo instante,
No sombrio aposento, onde inda há pouco,
Sob as garras da morte convulsava,
Ergue-se alegre sobre o morno leito,
Lançando ao chão as grossas coberturas,
O servo redivivo! Um tal prodígio
Liga o centurião à nova crença.
XXIII
Outros tristes, porém, outros enfermos,
Os enfermos do espírito, ansiosos,
A presença do Mestre além imploram.
Ei-lo de novo percorrendo as choças,
Os casais, e as aldeias, ensinando
A palavra de Deus ao povo rude,
Consolando os aflitos e oprimidos,
Derramando a benéfica esperança
Nos corações de todos que o procuram;
Ei-lo, trazendo escravo de seu gesto,
Um séquito que os reis jamais tiveram,
As portas de Naim transpondo agora.
XXIV
Torvo é o céu, a terra inda mais torva.
Negros bulcões não rolam pelo espaço
Nem raivoso tufão açoita as plantas,
E nuvens de poeira aos ares ergue:
Mas um lençol de baço nevoeiro
Furta aos campos molhados de saraiva
As carícias do sol meridiano.
Nem uma alegre rapariga brinca
Enquanto a fonte chora e enche a bilha,
Poucos, raros passantes atravessam
As praças solitárias. Frio, agudo,
Sibila o vento nos pesados tetos.
A tristeza do céu as almas ganha....
Oh! dai-me um céu azul, um sol de maio.
Vergéis floridos, passarinhos ledos,
E deixai-me sofrer! Almo consolo
Meu seio encontrará; não opulento,
Cheio de atividade e de esperanças,
Me lanceis sobre o gélido regaço
Da natureza muda, entorpecida!
XXV
Ao dobrar de uma quelha, infausto quadro
A vista magoou dos peregrinos.
Era uma procissão de moços pobres
Que levavam silentes, lacrimosos,
Ao derradeiro asilo um corpo amigo.
Em descoberto esquife, macilento,
Pálpebras roxas, deprimidas faces,
O mancebo dormia o sono imenso
Que não tem despertar sobre este mundo...
Ela tinha calcado muito e muito
Seu sinete real naquela fronte,
A tenebrosa filha do pecado!
XXVI
Único amparo de infeliz viúva,
Luz de seus olhos, sonho de su'alma,
Fio dourado que prendia à vida
O batel de seus dias desditosos,
Ele ali estava!... Lívida, sem prantos,
Aceso o olhar, os lábios ressequidos,
Desprendendo da trêmula garganta,
De quando em quando, um soluçar convulso,
Seguia a pobre mãe os frios restos
Do que mais estimava sobre a terra!
Aquela dor profética, sinistra,
Chegou até Jesus! A vista imensa
Do Filho de Maria, vence o tempo,
E vai cair no cimo do Calvário!...
Ai! se não fora um Deus, talvez chorasse!
Sai do meio dos seus, abre passagem,
Faz parar o funéreo saimento,
Volta-se à triste mãe, que ao vê-lo, treme:
— Oh! não te aflijas, que teu filho dorme! —
Diz com voz maviosa e compassiva,
E depois acenando ao frio corpo:
— Levanta-te, mancebo, eu mando! — exclama,
Senta-se o moço, encara os assistentes,
Lança por terra os lúgubres adornos,
E saltando do esquife, alegre e forte,
Aos pés do Salvador se prostra humilde!
XXVII
A fama desfez caso portentoso
Corre toda a Judeia, o ilustre nome
Do inspirado profeta nazareno
Passa de boca em boca, desde as salas
Do rico israelita e do romano,
Até o vil tugúrio do mendigo.
Entretanto, inflamado em santo zelo,
Do cárcere medonho onde definha,
O indomável Batista, envia ocultos
Dois emissários a Jesus: — Acaso,
Dizem eles, és tu quem vir devera,
Ou por — Ele — esperar nos cumpre ainda? —
Mas o Senhor ao povo se dirige,
Dá vista aos cegos, faz andar os coxos,
Falar os mudos, escutar os surdos,
Moverem-se os antigos entrevados,
E depois se voltando aos emissários:
— Ide, lhes diz, contai o que hoje vistes,
Contai que os cegos veem, os coxos andam,
Os surdos ouvem, os leprosos saram,
Ressuscitam os mortos, e a pobreza
As palavras escuta do Evangelho.
Eis a minha resposta, ide tranquilos. —
XXVIII
E partiram de João os mensageiros.
Um fariseu do Mestre se aproxima:
— Quero, Senhor, pedir-vos uma graça;
Mandei pôr mais um prato à minha mesa,
Encher de vinho velho um novo cântaro,
Venho buscar-vos; ceareis comigo,
E repouso achareis em minha casa;
Trazei vossos discípulos convosco;
Não me negueis o que vos peço, vinde. —
Jesus encara o fariseu e o segue.
XXIX
Ora, naqueles tempos ominosos,
Quando a raça perjura, abandonando
O templo de seu Deus, o altar da pátria,
Desvairada e febril tripudiava
Nas orgias fatais dos vencedores;
Naqueles tempos de vileza e opróbrio,
Vivia uma mulher, jovem, fastosa,
Esplêndida de audácia e formosura.
A nobreza de então, gemia escrava
Debruçada a seus pés; os magistrados
O fiel da balança quebrariam
Por um sorriso apenas! Muitos ricos
Adormeceram ébrios de volúpia
Nas fofas almofadas de seu leito;
Mas... despertaram pobres. Desgraçada!
Era como o arvoredo ameno e fresco,
Que enfeitiça o cansado viajante,
E o convida a dormir, mas cuja sombra
Derrama a febre, o desespero e a morte!...
Tinha visto Jesus e o tinha ouvido,
A glória de seu nome a deslumbrara.
Sabia onde Ele estava... Horrenda, escura
Tentação de Satã! Tartáreo sonho!...
Talvez!... falou consigo; e pressurosa,
Das mais finas roupagens se reveste,
Adorna-se de joias e de flores;
De aromas esquisitos se perfuma;
— Solta os cabelos negros e profusos —
Sobre as níveas espáduas descobertas,
E tomando uma límpida redoma
De precioso bálsamo pejada,
Ganha ansiosa a rua e se dirige
Do fariseu à casa, a largos passos.
XXX
Era findo o banquete. Junto à mesa,
Sobre toalha alvíssima, pousando,
Meio inclinado o corpo, o esquerdo braço,
Praticava Jesus. Mudos, atentos,
Das taças, inda cheias, esquecidos,
Esquecidos que os rádios encostavam
Sobre as frias relíquias do banquete,
Os convivas ouviam. Era tarde,
Era fundo o silêncio, a hora solene.
As palavras de Cristo penetravam
Como as revelações de um outro mundo
Nas consciências todas. Nesse instante
De sagrado terror, na grande sala,
Cheia inda há pouco de arruído e vozes,
Se apercebera o farfalhar medroso
Das asas de noturna borboleta.
XXXI
Pé ante pé, ousada e comovida;
Corado o rosto, os olhos cintilantes;
A linda, rósea mão, quente, convulsa,
A medo os brandos seios comprimindo;
Bela como a visão de um elamita,
Que à noite dorme junto às almenaras,
E, sonhando, presente o airoso vulto
De uma ditosa filha de Oromásis
Girando ao derredor: surde, detém-se
No limiar da porta a pecadora.
Rápido olhar pelo recinto volve:
Espreita... convidados, mesa, alfaias.
Finalmente Jesus. Caso estupendo!
Uma luz divinal lhe fere os olhos!
Frio suor poreja-lhe no rosto,
Onde se estende a lividez da morte!...
Oh! nesse instante de inspirada angústia,
Toda sua existência, e seu passado
Esquecidos, ressurtem!... A cabana
De seus honestos pais, os áureos sonhos
Da descuidosa e santa meninice,
O céu azul, as balsas florescentes
Os serões da família, e... sobretudo,
Ai!... a inocência da primeira idade!
Crenças divinas que alimentam anjos!...
Tudo isto apareceu! de novo... ao longe,
À luz de um céu puríssimo, crivado
De milhares de estrelas refulgentes!...
Depois, volvendo os olhos a si mesma,
Examinando as nódoas indeléveis
Que de su'alma o espelho embaciavam,
Viu do colar as pérolas mudadas
Em lágrimas de fogo, e as ametistas,
Os graúdos rubis dos braceletes,
Em quentes gotas de fervente sangue!...
Então sobre as espáduas da perdida
Rebentaram de novo as asas de anjo!
Em soluços desata, dolorosos,
Lança-se compungida aos pés de Cristo,
De lágrimas e bálsamos os cobre,
E os envolvendo nas madeixas negras,
Os enxuga, prostrada, arrependida.
XXXII
— Oh! não!... murmura o fariseu consigo,
Este mancebo zomba de nós outros!
Se ele fosse profeta, bem soubera
Quanto é rasteira e vil a criatura
Que pranteia a seus pés! — Jesus o encara,
E diz estas palavras: — Ouve, amigo:
Tinha um bom mercador dois devedores;
Um quinhentos dinheiros lhe pedira,
Outro apenas cinquenta; pobres ambos
Nunca puderam lhe pagar tais somas,
Ele, porém, as remitiu sem queixas:
Qual dos dois lhe devera ser mais grato?
— Oh! certamente, o fariseu responde,
O que maior quantia recebera! —
— Julgaste bem, o Salvador prossegue,
Estou sob teu teto, não me deste
Para lavar os pés um pouco d'água,
E nem me deste o ósculo fraterno,
E nem minha cabeça perfumaste
De bálsamos suaves; entretanto,
Ela banhou-me os pés com tristes lágrimas,
Ela os cobriu de beijos incessantes,
E os ungiu de perfumes preciosos!...
Por isso agora digo: os seus pecados
Remitidos estão, amou, e muito! —
E voltando-se à humilde pecadora,
Lhe diz: — Mulher, levanta-te, não chores,
Pois a fé te salvou! — Assim falando
Ergue-se e sai da sala do banquete.
XXXIII
Pura, como na infância, abençoada
Pelo Santo entre os santos, Madalena,
Que este era o nome da infeliz perdida,
Foge de seus amantes opulentos,
Entrega aos pobres, joias e riquezas,
Que Satã deparara, e mais formosa,
Descoberta a cabeça, os pés descalços,
Acompanha o Senhor por toda a parte.
XXXIV
Põe-se o sol; dos outeiros e dos vales,
Soltam as avezitas inocentes
Maviosos reclamos: — Vinde, vinde,
Vinde alegres cantores da floresta,
Dizem com seu falar melodioso,
A noite desce e as virações fagueiras
Perfumam nossos ninhos delicados
Dos mais gratos odores do deserto;
Da estrela do pastor a luz suave
O ermo encantará, quando saudosas
Pelo clarão d'aurora suspirarmos! —
Nas bordas dos regatos cristalinos
Abrem-se docemente os grandes lírios
E murmuram baixinho: — que mimoso,
Que peregrino, lisonjeiro silfo,
Passa junto de nós, nos beija e foge?
Ai! se voar pudéssemos, felizes
Iríamos brincar nas moles sedas
Onde repousa o beija-flor agora...
Mais longe um pouco, as borboletas negras,
Boêmias vagabundas, pairam, giram,
Descendo ao frio chão de espaço a espaço.
Medrosas cochichando: — estamos perto
Do lugar do festim? A loira fada,
Cuja varinha nossas danças rege,
Terá dado começo ao grande baile?
Descansemos aqui, sobre estas flores
Estendamos as asas de veludo,
Banhemo-nos de orvalho e de ambrosia!
Além, de manso lago à superfície,
Na corola dos mornos nenufares,
Ajuntam-se ligeiros vagalumes,
De azulado clarão iluminando.
As pétalas macias: — como é belo
Nosso palácio mágico! — murmuram.
— E qual o cavaleiro armado de aço.
Das finas hástias dos compridos juncos,
Mira o rijo besouro luzidio
O castelo brilhante. — Curiosa,
Como a criança que o perigo afronta.
Fascinada debruça-se a lagarta
Da larga folha onde enroscada vive.
Mais longe ainda, nos sarçais oculto,
Bardo da solidão, tristonho canta
O lamentoso grilo; e além, travessos.
Pulam à flor do lago transparente
Os cardumes de pávidos peixinhos,
Ansiosos de ver nos céus tranquilos
As primeiras estrelas radiarem!...
Oh! nessas horas de poesia infinda,
Quem se despir da frívola ciência
Das vaidosas escolas das cidades,
E, filho amante, repousar a fronte
No regaço feliz da natureza,
Um mundo encontrará nunca sonhado!...
XXXV
Já, porém, muitas luas percorreram
Os páramos azuis do firmamento,
E mais bela estação à terra volta,
Trazendo aos seres a abundância e a vida,
Depois da cura do mesquinho servo
Do bom centurião, da gloriosa
Ressurreição do filho da viúva,
E do caso da bela pecadora,
A humilde Madalena. Acompanhado
Dos amigos fiéis, Jesus se arreda
Dos sítios conhecidos, se dirige
Ao de Genesaré extenso lago,
E tomando uma barca, aos remadores
Ordena que os transportem sem tardança
Do lado oposto às ribas verdejantes.
Soltam a branca vela, e o lenho airoso.
Qual engraçado cisne, as ondas singra.
Cantam os pescadores, e os discípulos
Ajuntam-se e conversam descuidosos;
Passa Jesus, à popa, e em fina esteira,
Estende os frouxos membros, e adormece.
XXXVI
Mas, pouco e pouco, as nuvens nacaradas
Que no céu do Ocidente refulgiam,
Conglobam-se rugindo, e se transformam
Em grossos rolos de funéreo crepe.
Frias lufadas de raivoso vento
Correm dobrando as árvores dos montes,
Erguendo turbilhões de folhas secas
Do chão revolto e negro. Aves sinistras
Voam, soltando pios lamentosos,
Em busca de um abrigo. O escuro lago
Encrespa-se, braveja, as ondas cerra,
Joga de um lado e d'outro o pobre lenho.
Sem leme, sem governo, a vela rota,
Alagado o franzino cavername!
E a noite estende lúgubre, medonha.
Sobre a face do abismo as amplas asas,
Retalhadas de rábidos coriscos!
— Nossos esforços são inúteis! — bradam
Tristemente os barqueiros, e se agarram
Às tábuas vacilantes, esperando
A sentença da sorte. Porém, calmo,
Como o que dorme sobre um leito firme,
Ressona o Salvador deitado à popa!
— Levantai-vos, Senhor, que nos perdemos! —
Gritam seus aterrados companheiros.
Abre os olhos Jesus, boceja, e senta-se
Sobre a molhada esteira, olhar austero
Lança aos medrosos, trêmulos amigos.
— Onde está vossa fé? — clama, e estendendo
Para o nublado céu a destra santa:
— Serenai! eu ordeno! — exclama. Os ventos
Param na vastidão do torvo espaço,
Curvam-se as ondas bravas, irritadas,
E quais humildes cães à voz severa
De severo senhor, o dorso abaixam,
E lambem mansamente a escura barca;
Os negrumes dissipam-se, e as estrelas
Aparecem formosas, rutilantes,
Do céu azul nos páramos sublimes!
— Oh!... Quem é este que entre nós sentou-se
Como se nosso igual acaso fora? —
Dizem os remadores assombrados;
— Manda aos ventos e os ventos obedecem;
Impõe silêncio às ondas, e vencidas
Abaixam-se gemendo; fala às nuvens,
Estende ao temporal a mão terrível,
E os bulcões se esvaecem, e os coriscos
Apagam-se no céu, e o céu fulgura
Recamado de esplêndidos luzeiros?
Quem é este que assim dispõe de tudo? —
Mudos, depois, e de pavor tomados,
Ligeiros remam, aproando a barca
Dos gerasenos às ridentes praias.
XXXVII
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A luz do dia, o gorjear das aves,
As aragens ligeiras, interrompem
O piedoso serão. Ergue-se o mestre,
Avisa a multidão. Prostram-se todos,
E tecem ao Senhor ações de graças;
Despedem-se do santo missionário,
E penetrados da mais viva crença,
Voltam a seus labores costumados.