Canto VI Anchieta ou o Evangelho nas selvas · Capítulo 7 de 11
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Canto VI

Canto VI

CANTO VI

E rasgai os vossos corações, e não os vossos vestidos, e convertei-vos ao Senhor vosso Seus...

(JOEL II, 13).

I

O rúbido clarão do sol no ocaso

Doura da serrania as eminências

E as grimpas da floresta, e já formosa

Embora descorada, se equilibra

No Armamento a lua. Que sucesso

Lutuoso e sinistro a mente ocupa

E incita a diligência, a atividade

Dos pobres sertanejos? Que trabalhos

São esses que executam pressurosos.

Junto do eremitério, sobre as gandras

E lezírias vizinhas? Por ventura

Novos perigos e aflições aguardam?

Longe, porém nas humildes campinas

Avultam mudas, sobre o chão revolto

As cruzes sepulcrais, na terra fria

Estendem-se os perímetros incertos

De funerárias covas, sobre a relva,

Sobre os torcidos galhos dos arbustos

Negrejam pastas de coalhado sangue;

E além, junto do rio, o triste povo

Chora os filhos e irmãos sacrificados,

Enquanto reza o apóstolo dos ermos

As preces por finados. Vai-se a tarde,

O céu desmaia, as aves emudecem,

E os fiéis se reúnem lentamente

Junto do templo humilde do deserto.

II

Medonha fora a noite que passara!

Medonho fora o dia! Intensas turbas

De feros inimigos do Evangelho,

Rudes cabildas de remotas brenhas,

As veredas cercaram das planícies

Onde soem passar os malfadados

Para ouvirem as prédicas do sábio,

E uma luta travaram sanguinosa,

Desleal e covarde! Sobre o campo

Muitos ficaram, bravos combates;

Muitos também caíram, cujos pulsos

Não podiam vibrar ligeira flecha

Nem suster um carcás: débeis crianças

Que das míseras mais o doce nome

Balbuciavam tímidas ainda!

Velhos inermes, trêmulos enfermos,

Que os prudentes conselhos do profeta

As dores e os pesares mitigavam!

Depois d'este nefário morticínio

Se espalhavam, rugindo pelas matas,

Sequiosos de sangue, ébrios de raiva!

Cruenta provação! Fortes, embora,

Proibia a vingança a lei sagrada

Aos que da Cruz o lábaro seguiam,

Era a defesa o único partido

Que cumpria tomar: para a defesa

Preparavam-se, pois, infatigáveis

Se outras afrontas e agressões tentassem

As hordas dos demônios vagabundos.

O estoicismo do Mestre assombra as tribos!

Nenhum guerreiro contemplara a morte

Tão sereno, tão firme, e tão seguro

Como o homem da paz. Quem recuara

Quando dele partia o nobre exemplo?

Porém, reina o silêncio entre os conversos,

As fogueiras flamejam, derramando

Na espessura das silvas odorosas

Vacilantes clarões, — o missionário

Levanta a voz suave e assim se exprime:

— Deixemos repousar os lidadores,

Os heróis que morreram defendendo

A verdade e a fé: bravos cumpriram

O dever de Cristãos e de guerreiros.

Destemidos como eles, neste solo

Onde o sangue verteram, descansemos

Confiantes no Deus das almas puras.

Fiquem de parte as clavas formidáveis,

Os finos dardos, a cruel vingança,

O ódio que prepara ervadas flechas,

E olhos fitos na estreita fulgurante

Que outrora protegia os velhos magos,

Prossigamos de Cristo a santa história.

III

Ora, depois dos fatos mencionados

No último serão, fatos sublimes

Que eternos viverão no pensamento

Das gerações remidas no Batismo,

Perseguido o Senhor pelos tiranos

Retira-se a Betânia, aldeia humilde,

Onde Martha e Maria aflitas choram

Junto do pobre irmão, Lázaro, enfermo

Do mal terrível que tomou seu nome.

Sabendo que Jesus próximo estava,

Mandam logo avisar-lhe as infelizes:

— Teu amigo perece, vem salva-lo!

Amava Cristo o cândido mancebo.

Sócio de infância, ingênuo companheiro

De seus belos serões da mocidade;

Se, Mestre, havia eleito outros discípulos

Para a grande missão, nos seios da alma

A lembrança de Lázaro guardava

Como um favo de mel, como um perfume,

Ou como um talismã que o viandante

Guarda zeloso em ásperos desertos.

Não se abalou contudo à triste, nova!

Dois dias descansou no mesmo sitio,

De alheios casos se ocupou tranquilo,

E por fim resolveu: — Bastante tempo

Nestes almos retiros divagamos,

Voltemos a Judeia. — Então surpreso

Ponderou Simão Pedro: — vede, Mestre,

Os judeus contra vós se declararam!

Que pretendeis fazer? — Não tem o dia

Doze horas, dizei? — Quem anda à noite,

Pela falta de luz não anda às cegas?

E quem anda de dia? Oh! Não se perde

Que o sol brilhante aclara-lhe o caminho! —

Mas depois destas místicas palavras,

Qual um fraco romeiro deslembrado,

A quem súbito açode o pensamento,

E a consciência do dever acorda

A memória infiel, diz em voz alta:

— Lázaro dorme!... — Se ele dorme, vive,

Se ele vive, não sofre! — atalha Pedro.

— Expressão pueril de um gênio simples!

Exclama o Salvador, nem sempre o sono

A vida revelou: — Lázaro é morto!

Quis a fé conhecer que vos anima,

Deixei que sucumbisse; agora vamos,

Vereis de perto a lúcida verdade. —

— Vamos, Tomé murmura, vamos todos,

E nós todos com ele morreremos! —

Ver para crer! — Estólido provérbio!

Depois seguindo o soberano Mestre

O caminho tomaram de Betânia.

IV

E chegaram enfim, tarde, bem tarde!

Já quatro vezes expelira o dia

Os lêmures da noite, e quatro vezes

A noite pavorosa desfraldara

O pavilhão de sombras pelo espaço!

Já quatro vezes sob o olhar de fogo,

Implacável olhar que tudo alcança

Do arbitro da luz, sobre si mesma

Hidra cativa, se volvera a terra,

Procurando romper o circo imenso

Das doze colossais brônzeas muralhas!

E Lázaro dormia e não sonhava

Em seu leito de pedra, hórrido leito,

Onde os vermes somente não repousam!...

Quando, deixando o corpo, a alma divina

Libra-se logo aos pés do Onipotente

Laureada de esplêndidas virtudes,

Brilhante de inocência, a morte é bela!

Na face da matéria inanimada

Ficam ainda plácidos vestígios

Daquela que passou. — É belo sempre

O cadáver do justo, embora triste,

Um-que-de inteligente, um-que-de nobre

Guarda estampado nas feições serenas,

Onde o artista e o sábio acham mistérios

Que a vida desconhece. O estatuário

Na brancura dos túmulos se inspira.

Mas, a dissolução tardia e lenta,

A agonia terrífica das formas,

A podridão das carnes, a mudança

De um corpo gracioso em feio monstro;

De monstro em massa informe, escuro acervo

De rotas fibras, líquidos impuros,

Enovelados pelos, frias bolhas,

E sobre tudo, oh Deus! e sobre tudo

Esse mundo de vermes asquerosos

Cevando-se de sânie e de imundice…

Miséria! A morte então desperta o nojo,

Molesta o coração, derrama o tédio,

Que aniquila a vontade e o pensamento

No espírito assombrado! Oh! por ventura,

Serás uma ilusão, serás um sonho,

Fluido impalpável, sopro fugitivo,

Alma, celeste luz!... Musa, silêncio!

Já quatro dias decorrido haviam

Que Lázaro cerrara os olhos baços,

Quando Jesus chegou. Cheia inda estava

A pobre habitação fechada e muda

De lembranças do morto: o frio leito

Inda guardava as formas de seu corpo,

Inda tingia as velhas coberturas

O sangue dos tumores lacerados.

As sandálias no chão, no canto as roupas,

O nodoso bordão, e os utensílios

Do trabalho usual no mesmo banco,

Onde os deixara a noite derradeira,

Tudo falava do infeliz mancebo!

V

Como o clarão de solitária estrela

Entre os feios bulcões da tempestade

Consola os transviados navegantes

Na vastidão dos mares ominosos,

O doce aspecto do divino Mestre

Reanimou as decaídas frontes

Das lacrimosas, pálidas mulheres.

— Ah! se aqui foras, dizem suspirando,

Não fenecera nosso irmão tão cedo,

Teu amigo, Senhor! Mas tudo podes,

O que a teu Pai pedires será feito! —

— Não vos entristeçais, — responde Cristo,

Ele há de ressurgir. — No fim dos tempos,

No dia horrendo do juízo eterno,

Meu Deus, eu bem o sei! — Maria exclama.

— Sou a ressurreição, a excelsa glória,

Prossegue o Salvador, — fonte da vida,

Quem ouve minha voz, sepulto, embora,

Triunfará da morte; o que respira,

E sente, e pensa, e crê, durma tranquilo,

Jamais perecerá! — Onde puseste

O frio corpo desse pobre amigo? —

— Vem, e verás, responde a ingênua Martha.

Depois chamando a irmã silenciosa

Guia o Senhor ao túmulo de Lázaro,

Negro jazigo entre rochedos fundos.

VI

Nas nuvens inflamadas do Ocidente

Mergulhava-se o sol, — quente era a terra,

E os píncaros dos montes escabrosos,

E as grimpas dos salgueiros e ciprestes,

Ao purpúreo clarão do céu do estio

Pareciam de sangue borrifados.

Um longínquo trovão, rouco, sinistro,

Tredo como o bramir das grandes onças

Nas amplas furnas de fragosas serras,

Soava nas extremas do horizonte.

Nem uma leve aragem pelos campos!

Nem o piar de um pássaro nas frondes

Dos bastos olivais! Nem o balido

De uma ovelha medrosa nos outeiros!...

Então Martha parou mostrando a gruta

Onde jazia o irmão: — Eis o sepulcro,

Senhor, de vosso amigo! — Ardente pranto

Corria-lhe dos olhos; — arredada,

Maria soluçava entre os arbustos.

Bem no fundo da lapa cavernosa,

Frio abrigo das aves agoureiras,

Avultava entre lúgubres rochedos

O túmulo de Lázaro. Na sombra,

Como um gênio cativo, murmurava

Oculto veio d'agua; sobre a lousa

Cruzava-se agitando as asas frouxas

Um turbilhão de estriges e morcegos,

Híbridos filhos dos trevosos antros,

De lado a lado esverdeadas penhas,

Broncos pedaços de granito escuro

Alongavam-se, rudes, como os dorsos

De feios crocodilos que guardassem

Furna de pavorosos malefícios.

VII

Porém, a vasta cúpula celeste,

Momentos antes abrasada forja,

De pesada caligem se cobria;

Rijas lufadas dos raivosos ventos

Sibilavam das bandas do Mar-Morto,

Despindo os arvoredos seculares,

Nuvens de areias erguendo pelo espaço.

Deteve-se Jesus, volveu os olhos

Para a grosseira pedra que encerrava

Quem tanto amara neste ingrato mundo;

Abaixou, suspirando, a fronte augusta,

Inclinou-se e chorou. — Surpreendidos,

Viram correr seus fátuos companheiros

No belo rosto as lágrimas divinas.

Pérolas do sacrário da amizade,

Que no reino dos céus, fúlgidas brilham

Na coroa imortal do pobre Lázaro!

Quem, anjo, ou santo, mereceu tal prêmio?

Vós, que passais alegres sobre a terra,

Diletos da fortuna, e inebriados

Pelos fumos do incenso da lisonja

Ou pelos brilhos de falazes glórias,

Não guardastes no cofre dos afetos,

Uma pálida rosa, um triste goivo,

Uma lembrança fugitiva ao menos

De tão feliz, tão puro sentimento;

Desconheceis, vaidosos, a doçura

E o valor dessas lágrimas sublimes!...

— Vede quanto o prezava o grande Mestre! —

O povo murmurou. — Erguei a lousa!

Erguei a lousa que seus restos cobro! —

Ordena o Salvador aos circunstantes,

Numerosos então, — erguei eu mando! —

— Senhor!... já quatro dias decorreram

Depois que faleceu, fétido cheiro,

Cheiro de podridão exala o corpo,

Talvez coberto de asquerosos vermes!

Deixa que se consuma! — disse Marta.

— Não duvides, mulher, a fé sincera,

Abre do céu as portas luminosas!

Eia, vós outros, levantai a lousa! —

Com soberano gesto ordena o Mestre.

Num volver de olhos, a pesada pedra,

Rangendo sobre as bordas do sepulcro,

Descia ao chão da gruta funerária,

E a luz vermelha de fumoso archote

Que Maria acendera, muda, horrenda,

Como a garganta de tartáreo monstro,

Cheia de sangue e de polutas carnes,

Mostrou a tumba escancaradas faces!...

A eu eterno Pai volveu-se Cristo

Nesse instante solene: — Padre, Padre,

Por me haveres ouvido eu te dou graças! —

Depois, erguendo a mão sobre o sepulcro,

Essa mão invencível que aplacava

As convulsões do mar, do céu as iras,

Resoluto bradou: — Ergue-te, Lázaro! —

Abalaram-se os rígidos penedos

Com terrível fragor! O chão lodoso,

Talvez movido por secreta chama,

Tremendo se fendeu! Correu nos ares

Uma listra de fogo, e à luz sulfúrea

Que rápida aclarou a funda gruta,

Viu a gente mover-se o branco espectro

Do desgraçado moço de Betânia,

Firmar as mãos nas bordas da jazida,

Sacudir o sudário, abrir os olhos,

E entrar de novo na mansão dos vivos!...

Como negar a esplêndida verdade?

Rejeitar o prodígio? O povo humilde

Sentiu passar o hálito do Eterno

Por aqueles rochedos, prosternou-se

Aos pés do Deus que os mortos animava,

Bendisse a Cristo, a aurora do Evangelho.

VIII

Mas, a inveja roaz, o ódio cego,

Verdadeiros demônios, rebramaram

Nos corações dos fariseus protervos;

Todo o veneno da tartárea estância,

Verteu Satã nas veias dos escribas,

E no seio dos ímpios sacerdotes.

— Em que pensamos nós? Dizem raivosos,

Que deixamos em paz o Nazareno

Pregar doutrinas, operar milagres,

E seduzir a plebe inconsciente?

O que é feito de nossa autoridade?

Onde está nossa força? Por ventura,

Seguindo a multidão que nos despreza,

Iremos nós também beijar as plantas

Do filho do mesquinho carpinteiro?

Então falou Caifás, hebreu soberbo,

Pontífice arrogante, ergueu-se e disse:

— Nada entendeis. Obrais como insensatos.

Desconheceis as práticas dos sábios.

Não refletis que a salvação do povo

De sangrenta lição depende apenas?

Que é necessário que pereça um homem?

Que a nação abalada não sucumba?

Que o tempo pede sangue, e a lei decreta

Que neste caso se derrame sangue? —

Disse... e no pensamento de seus sócios

A morte do Senhor foi resolvida!

Tinha profetizado um dos algozes!

Cumpria que sofresse o grande Mestre!

Que esgotasse de um trago a taça negra

Dos terrestres martírios! Que gemesse

Ao peso imenso da maldade humana!

Que beijasse, ferido, as duras pedras

Daquele escuro chão, não pelo povo

Ingrato de Israel, mas pelo mundo,

Pelo porvir das gerações cativas!

Pelo triunfo eterno da verdade!...

Na região do infindo desespero

Satanás exultou. Ao feio riso,

Porém, daqueles lábios requeimados

Sucederam esgares pavorosos!

Nas hórridas cavernas ressoaram

Furibundos mugidos. — Oh! miséria!

Bradou, se retorcendo ébrio de raiva!

— Miséria!... — nas angustias do suplício

O Cristo morrerá. Porém que importa

Se perdoa, expirando, a seus verdugos!

Se lava com seu sangue os crimes todos

E os perversos arranca-me das garras!

Se desce a meus domínios triunfante

Trazendo a luz, talvez, e almo conforto

Onde jamais sorrira uma esperança!

Miséria! — E debatia-se convulso

No circo abrasador das próprias chamas.

IX

Jesus, porém, prevendo o fero intento.

Dos pérfidos ministros, retirou-se

Para as bandas de Efrém, pobre cidade

Isolada no meio dos desertos.

Não temia o furor dos inimigos,

Não fugia medroso, antes tranquilo

Esperava seu fim. — Próxima estava.

Da Páscoa a grande festa: os sacerdotes,

Escribas e doutores, agastados

Pela ausência da vítima inocente,

Encheram de espiões os arrabaldes,

E prometeram pingues recompensas

A quem seu novo asilo descobrisse.

Seis dias, entretanto, antes da Páscoa,

Volvendo Cristo aos ares de Betânia,

Entrou na casa de Simão — leproso,

Onde à noite ceou. Lázaro estava

Nesse tempo a seu lado, e a irmã querida,

Marta, os servia na modesta mesa.

Discorria o Senhor sobre o futuro,

Sobre o reino dos céus, a glória eterna,

A beleza inefável da virtude,

O brilho imaculado da inocência,

Quando, trazendo um vaso de alabastro

Cheio de essências finas, preciosas,

Chegou Maria, e palpitante ungiu-lhe

A fronte sacrossanta. — Desperdício!

Esbanjamento inútil! — grita Judas.

Não podias vender esses perfumes

Dos pobres em favor? Oh! certamente

São trezentos dinheiros que perdemos!

Era duro, mesquinho, interesseiro,

O taciturno hebreu; trazia a bolsa

Da humilde companhia; e mais prezava

Que a própria, inútil vida, esse pecúlio

Que de todos provinha, era de todos.

— Judas, porque censuras e molestas

Esta ingênua mulher! O Mestre exclama.

O que ela fez seu coração revela:

Mostrou-se boa e crente. Neste mundo

Sempre tereis os pobres e infelizes,

Quanto a mim... — leve sombra de tristeza

Nublou os olhos límpidos de Cristo,

Que prosseguiu depois baixando o rosto:

— Oh! ela ungiu meu corpo antes que desça

À fria sepultura, e vos afirmo:

Em todas as nações, em toda a parte

Onde se repetir este Evangelho,

Seu belo proceder será louvado! —

Como soía, se afastou da mesa,

Buscando um ermo sitio onde sozinho

Pudesse meditar. Era alta a noite...

X

Era alta noite, e os pobres campesinos,

E os mendigos da aldeia, se apinhavam

Da casa de Simão no estreito pátio.

Muitos doutores, fariseus, e escribas,

Vindos dos arredores, curiosos

Se acercaram de Lázaro, e aterrados

Murmuravam baixinho: — Ei-lo! seu rosto

Conserva ainda a lividez das tumbas!

Ei-lo, ressuscitou! — É seu fantasma, —

Diziam outros, apalpai-lhe as vestes,

Tocai o frio corpo, e tênue fumo,

Ou branca névoa de invernosa aurora

Se desfará depressa. — Mais afoito

Adianta-se e brada um velho escriba:

— Lázaro d'onde vens? D'onde saíste?

Pelo Deus que adoramos te conjuro,

Deixa o mistério que te envolve, fala! —

Houve, um momento de mortal silêncio,

Ninguém ousava se mover, o medo

Tolhia o respirar aos assistentes.

Então qual muda estátua a cujos membros

Por milagre do céu descesse a vida,

Voltou Lázaro o rosto descarnado,

Onde em cheio bateu a luz formosa

De azinhavrado, antigo candeeiro.

XI

— Porque me obrigas tu, velho insensato,

A revelar mistérios de além mundo?

Disse, fitando amortecidos olhos

Sobre o ousado judeu. — Me interrogaste

Em nome do Senhor, cala-te e escuta:

Eu jazia prostrado e sem conforto

No leito da doença, e como a chama

Vacilante de um círio que se extingue

No silêncio da noite, pouco e pouco

Fugia-me da vida o frouxo lume.

No céu crepuscular, — no céu dos mortos, —

Eu via ao longe, turvas, indecisas,

Perderem-se do mundo as ribanceiras

Como ilusões brumosas do deserto...

Sumira-se o passado; instável gota

Pendida à borda de profundo abismo,

Quase a cair, librava-se o presente;

E além, no seio horrendo do infinito,

Avistava o futuro, horrenda porta

Coberta de decretos insondáveis,

Negra, e sempre fechada!... Áspero inverno

Vertera o gelo dos polares climas

Em minhas veias túmidas... As horas

No quadrante do tempo se apagavam...

Como o cedro gigante das montanhas

Range, estorce-se, estala, oscila e tomba,

Senti dentro em mim mesmo alguma cousa

Estalar e cair!... Alva sublime

Às trevas sucedeu do pensamento:

Achei-me leve, cândido, impalpável

Como o éter sutil que me cercava!

E dessas regiões da eternidade,

Vi num canto da terra, inerte, mudo,

0 que fora meu corpo: imundo andrajo

Esquecido num antro de misérias!...

Busquei debalde no meu novo estado

Contemplar as esferas fulgurantes

Que sentia rolar no imenso fluido

Das supernas alturas, e as palavras

Decifrar das esplêndidas cantatas

Que enlevavam minha alma suspirosa!

Só percebia os lúgubres soluços

Que subiam do abismo, as vozes débeis,

E as queixas magoadas que diziam:

— Quando virás nos consolar, oh Cristo!

— Quando verás quebrar os duros ferros,

Que nos vedam voar à pátria amada!...

Súbito um mar de pavorosas sombras

Ergueu-se rebramando, um sopro ardente

Pelas trevas correu... — Sobre meu corpo

De novo estava a lousa do sepulcro,

E a voz do Mestre me chamava ao mundo!...

Credes agora, ou duvidais ainda?

Contemplai-me, aqui estou! — Qual de vós outros

Ousará rejeitar este prodígio?...

E Lázaro calou-se. Os circunstantes

Conservavam-se mudos, assombrados.

Muitos hebreus então se converteram

À lei da Redenção, muitos escribas,

E rudes publicanos, jubilosos,

Viram cair a venda enganadora

Que lhes furtava a luz, e se curvaram

Ao sublime estandarte do Evangelho 1

Porém, negra loucura! os sacerdotes

Contumazes no erro e na mentira,

Concertaram, cruéis, tirar a vida

Àquele que o Senhor tinha salvado!

A tanto a inveja e o ódio se abalançam!

XII

Longe, porém, ralada de saudades

Chorava no retiro a Virgem santa,

Do Filho amado a prolongada ausência.

Anjo de amor no vale das tristezas,

Pelo augusto mistério ao céu ligada,

E à terra pela dor; símbolo eterno

De inefável pureza e alma piedade,

Grande na compaixão e na doçura

Como o Filho na glória e no martírio,

Via se apropinquarem no horizonte

As trevas do suplício! — Era alta noite,

Perto do antigo lar sozinha e aflita,

Volvia, suspirando, o pensamento

Às estações felizes do passado,

Revia os prados e as risonhas veigas

Cheias de flores, de frescura a sombra,

Onde Jesus brincava; os mansos lagos,

Onde nas tardes lúcidas do estio

Vogavam, contemplando o céu sereno,

As verdes ilhas, as formosas praias

Cobertas de choupanas de barqueiros,

Depois... descendo ao árido presente,

Vendo sumir-se a luz, toldar-se o espaço,

Erguer-se no porvir o vulto negro

Do mais cruel e áspero infortúnio,

Inclinava a cabeça ao morno seio

E rompia em soluços magoados.

O temporal do inverno sacudia

As ramagens dos fúnebres salgueiros,

Dobrava os ervaçais, e nas gargantas

Profundas das montanhas do deserto

Desfaziam-se em trêmulos gemidos.

— Meu filho! — murmurou erguendo o rosto

A esposa de José, — meu pobre filho!

E as douradas madeixas soltas, livres

Nesse rápido gesto, se espalharam

Em profusos anéis no cotio ebúrneo.

XIII

Mas silêncio! Lá fora entre as rajadas

Indômitas do vento, tristes queixas

Se fizeram ouvir, depois no alpendre

Maviosas palavras ressoaram.

— Dá-nos abrigo, oh Virgem gloriosa,

Que saímos de longe e te buscamos! —

Maria estremeceu: era tão meiga,

Tão doce a débil voz que lhe falava,

E tão medonha a noite, o céu tão negro,

Tão funda a escuridão, que levantou-se,

Tomou o largo-manto e abriu a porta.

Indizível surpresa! Excelsa glória!

Três lúcidas irmãs, três mensageiras

Das regiões supremas, penetraram

No hospitaleiro asilo da virtude.

— Anjos de meu Senhor! Maria exclama

Cheia de confusão e de respeito,

Anjos de meu Senhor, sede bem vindos

Na mesquinha morada da humildade!

— Estrela do Israel, — Farol dos justos,

Rainha e Mãe das imortais falanges,

Diz a primeira das irmãs, — não temas!

Companheiras eternas de teu filho

Ouvimos-te chorar; e pressurosas

Voamos a teu lado. Ouve, Maria:

Eu sou a viva luz dos santuários,

A rosa imarcescível da pureza,

O gênio da verdade. Sábia e forte,

Dou vida às brenhas, escravizo as vagas,

Domino os vendavais, desprezo os raios,

Vitoriosa encaro a morte horrenda!

Sou a fonte da glória e do heroísmo!

Senhora, eu sou a Fé! Não me conheces? -

Calou-se a peregrina do infinito.

A segunda falou: — Quando a serpente

Turvou do Paraíso o ameno lago,

Onde o mais puro afeto se espelhava,

E do jardim das célicas delícias

Lançou da terra aos pântanos lodosos

A humanidade escrava, compassivo

Formou-me o Criador. — Na tempestade

Sou o íris, o núncio da bonança,

A estrela do pastor, a roxa aurora;

Sou nos vergéis a flor da primavera:

Na moléstia a saúde; a luz nas trevas:

Nas prisões o perdão: no passamento

A clemência de Deus, a eternidade!

Sou a Esperança, a êmula da vida!

Eis-me contigo, oh Virgem soberana! —

Calou-se a peregrina do infinito.

A terceira falou: — Passei a infância

Na tenda de Abrahão, o pai dos povos,

O amigo do Senhor; tornei-me grande

Ouvindo no deserto a voz do Eterno

Aconselhando o exímio patriarca.

Tenho o condão sublime dos prodígios.

Sou a pomba nas águas do dilúvio,

Sou a fonte de Agar nas soledades,

A coluna de fogo nos fraguedos

Das estrangeiras terras!... Virgem santa!

Anjo que tantas vezes hei seguido

No recinto da dor e da miséria,

Onde levas o pão, a luz e a calma!

Coração piedoso! Etéreo cofre,

Onde todas as lágrimas que rolam,

Em riquezas subidas se transformam!

Onde todo o soluço encontra um eco!

Onde todo o martírio encontra um prêmio!

Eu sou a confidente de teus sonhos!

Eu sou a Caridade! — Assim falando

Prostraram-se as celestes emissárias,

E adoraram do Empíreo a soberana.

Mas, palpitante o seio, os lábios mudos,

Cruzados sobre o peito os níveos braços,

Cismava extasiada a Mãe de Cristo.

Quando, porém, o enleio superando,

Levantou a cabeça, — os três arcanjos,

Para junto de Deus tinham voltado.

XIV

Calou-se o narrador. Vários romeiros,

Habitantes das serras do Ocidente,

Neste instante chegavam. Seus vestidos

Eram rotos, e húmidos de sangue,

Húmidos pés e mãos, e as faces frias

Lívidas de terror. — Deus vos proteja,

Sacerdote da paz! — disse o mais velho

Saudando o missionário, — a Providencia

Nossos passos guiou... — Estais feridos?

Estais feridos? — interroga o sábio,

Que mal vos sucedeu? Donde viestes?

Que sangue é esse que vos mancha as roupas?

— O sol dourava nossos pátrios cerros,

O romeiro falou, quando partimos

Para vir adorar a Virgem Santa

Nesta tranquila ermida, e ouvir, humildes,

Ministro do Senhor, vossas doutrinas.

Era intenso o calor. Ao meio dia

Procuramos abrigo à fresca sombra

De risonho palmar, onde queixoso

Murmurava um arroio entre alvas pedras.

Éramos mais de vinte, homens robustos,

Mulheres e crianças. Reclinados

Sobre a relva macia, um dos amigos

Relatava os sucessos lastimosos

Destes últimos dias, e nós outros

Que no conflito insólito perdemos

Tantos fiéis e bravos companheiros,

Ouvíamos tristonhos. — De repente

Uma chuva de setas aceradas

Caiu a nossos pés. Um grito horrível,

Um grito só, perdeu-se pelos ares,

De verdugos e vítimas: por terra

Feridos mortalmente, estrebuchavam

Nossos pobres irmãos! Os assassinos

Surdiam como insetos da espessura!...

Eram eles, Senhor! Eram os mesmos

Que encheram de aflição vosso retiro!

Conseguimos fugir nós que aqui somos,

Os únicos talvez!... Porém ao longe,

Bem no meio de aspérrimos rochedos,

Ouvimos uma voz sentida e triste

Repetindo as endechas funerárias

Que os homens do Senhor cantam prostrados,

Nos arraiais da morte. — Comovidos

Nos dirigimos às sinistras penhas...

Padre!... um servo de Deus, um sacerdote,

Um missionário como vós, expira

Sem orações, sem luz e sem consolo

Na solidão de inóspitos fraguedos! —

O romeiro calou-se. Resoluto,

Firme, como um guerreiro de outras eras,

O pastor do deserto ergueu-se e disse:

— Quem dentre vós, soldados do Evangelho,

Meus passos guiará? — Mestre, partamos,

O romeiro responde. — Vamos todos!

Corramos ao lugar do sacrifício! —

Bradaram cem mancebos valerosos.

Um momento depois marchavam lestes

Ao longo das campinas orvalhadas.

XV

Nublada e triste aparecia a aurora

No chuvoso Oriente, ásperas brisas

Silvavam nos sarçais e nos outeiros

Estéreis do sertão, quando chegaram

Ao teatro da lúgubre tragédia.

— É ali, — disse o filho das montanhas,

Mostrando um monte de tisnadas pedras

Coroadas de cardos verdoengos,

— É ali! — Foi bastante esta palavra,

Bastante o gesto que a seguia, — o sábio

E mancebos valentes escalaram,

Num volver de olhos, o Calvário alpestre.

Crostas calcárias desligadas, soltas,

Rolaram das escarpas dos rochedos,

Os ecos acordando; um feio abutre,

Possante e gigantesco, abriu as asas,

E elevou-se, grasnando pelos ares;

O horizonte aclarou-se, e um raio frouxo

Da fria madrugada, um flavo raio,

Um escárnio da luz, bateu medroso

No fastígio das penhas escabrosas.

O mártir ali estava, — calmo e belo,

Como um jovem pastor adormecido

Sobre a relva do campo, entregue aos sonhos

De inocentes amores; em seus lábios

Inda restava a sombra de um sorriso,

Porém, da morte as roxas violetas

As pálpebras cerradas lhe tingiam:

Uma flecha veloz o derrubara...

A fria destra sobre um livro aberto

Marcava o santo ofício dos finados!...

Expirara adorando o Ser Supremo!

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