Canto V
Canto V
CANTO V
Imprimirei a minha lei nas suas entranhas, e a escreverei nos seus corações...
E não ensinará daí em diante varão ao seu próximo, nem ao seu irmão, dizendo:
Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão desde o mais pequeno deles até ao maior, e perdoarei a sua maldade, e não me lembrarei mais de seu pecado.
(JEREMIAS XXXI, v. 33, 34).
I
Oh Natureza! Oh Glória do Universo!
Musa da criação! Mãe compassiva
Dos simples corações, das almas puras!
Quais são da vida as penas e desgostos
Que teu condão sublime não dissipe?...
Nessas colmeias sociais, sem conto,
Onde o frio egoísmo e a vil cobiça
Libam o grato mel, deixando as fezes
Aos deserdados filhos da fortuna,
Vi o pai de família angustiado,
Fugindo a esposa, a prole, em cujas faces
Plúmbeas nódoas lançara a fome horrenda,
Agitar-se raivoso, entre as mãos frias
Convulsivo apertar o brônzeo tubo
De fatal instrumento, e rir-se!... e rir-se!...
Vi à borda do abismo onde a pusera
O delírio, a loucura, pobre moça,
De escuro vaso em cristalina taça
Gota a gota entornar o negro sumo
De venenosa planta, e muda, e triste
Considerar a cor, sentir o aroma
Do liquido funesto!... Junto aos muros
De vasta fortaleza, onde medonhos
Cem canhões colossais desafiavam
As fúrias de inimigos sanguinários,
Vi o velho guerreiro retalhado
De nobres, gloriosas cicatrizes,
Sacudir a cabeça, duvidoso,
Tirar da cinta a reluzente espada,
Inda quente do fogo dos combates,
E dirigi-la ao peito!... Oh Natureza!
Musa da criação! Mãe compassiva
Dos simples corações, das almas puras!
Nessas horas de febre e desespero,
Quando os sábios dormiam, tu vieste
Em socorro dos tristes! Carinhosa
Sobre eles estendeste o vasto manto,
O manto protetor. Ao pai aflito
Mostraste a santa luz da Providência,
O lábaro divino, o céu, a terra,
E fontes de riqueza em toda a parte,
Em toda parte fontes de esperança!
À mulher desditosa os belos quadros,
Os lares da família, os quentes ninhos,
Onde pousam as rolas amorosas,
Cantando junto aos filhos inda implumes,
As doces emoções que santificam,
E tornam forte um coração materno!
Ao bravo postergado, sem amparo,
Sem galardão, nem glória, o vale umbroso,
O retiro das serras, e os desertos,
Onde, ao lado do pássaro e do inseto,
Da verbena e da faia, existe sempre
O pequeno lugar de uma choupana!...
Oh Natureza! Oh Guarda vigilante
Dos pobres, dos aflitos!... Quão risíveis
São da sociedade honras e galas,
E prêmios pueris! Que montam festas,
Que montam festas de vaidade e fumo,
Quando a esperança, o faro derradeiro
Que entre os parcéis da vida os seres guia
Perde-se em nevoeiros?... Tu, somente,
Nos alentas, fiel, inalterável!
Novas ideias a nossa alma inspiras!
Novos, santos prazeres nos procuras,
E nos ensinas mais feliz linguagem,
A linguagem de Deus e da verdade!...
II
— Sobre esse escuro e carcomido tronco,
Onde os velhos da tribo descansavam
Para os conselhos presidir d'outrora,
Senta-te, e enquanto diligente e sábia
Aos cuidados da casa a mãe acode,
Conta, Naída, o sonho pavoroso
De que alhures falaste. — Assim ordena
Da porta da cabana, onde nascera
A formosa conversa, o ilustre mestre.
Obedece à donzela e assim começa:
— Eram horas da noite adiantadas,
Eram horas pressagas, horas mortas;
Já pela vez segunda a voz soltara
O galo, a voz rouquenha e feiticeira.
Nem eu dormia, nem desperta estava:
Fundo terror tolhia-me os sentidos.
Intentava gritar, porém meus lábios
Recusavam mover-se, e minha língua,
Presa à garganta pelo nó da morte,
Parecia gelada em minha boca!...
Fiz um supremo esforço: levantei-me.
Então.... Calou-se a virgem do deserto,
E nas mãos escondeu o lindo rosto.
— Então? que viste? — lhe pergunta o mestre.
— Sobre mim debruçado... a fronte horrenda,
Qual horrendo rochedo escalavrado
Pelo fogo do céu... rubros os olhos;
A formidável mão pesada e fria,
Fria e pesada qual medonha pedra
Do leito funerário de um precito,
Sobre meu peito angustioso estava...,
Ele estava!... — Ele, quem? — O negro gênio
Da perdição eterna! O anjo rebelde!
Tal como nos pintaste, sobre o monte
Tentando o Salvador! — Um ledo riso
Aos lábios assomou do missionário.
— Graças a Deus, Naída, estou tranquilo,
Algo mais sério acreditei que fosse!
Tiveste um pesadelo; mas, prossegue. —
— Oh, se eu então sonhava, sonho ainda!
Exclama a ingênua moça. — Mestre, ouvi-me.
Ossos, carnes, tremi!... Então ao longe,
Um grito ressoou, profundo, imenso,
Como a voz do trovão por sobre os mares!
— Maldito! — E as selvas todas se abalaram,
E das grutas, das serras, e dos campos,
E dos mais afastados horizontes:
— Maldito! — os ecos todos repetiram!
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— Vi depois um deserto, um mar de areias,
Sem animais, sem plantas, sem regatos,
Sem um indício que lembrasse a vida,
Porém milhares apontando a morte!...
Por toda parte amarelados ossos,
Carnes corruptas, putrefatos restos!
Restos de escravos, restos de senhores!
Restos de ovelhas, restos de panteras!
Restos de abutres, restos de serpentes!
E o tigre e a presa agonizando juntos,
O verdugo e a vítima esquecidos
Na mesma confusão, no mesmo cabos!...
Um céu de ferro em brasa, um sol do inferno,
Um espaço sem nuvens, sem neblinas,
Sem vendavais, sem raios!... sempre calmo!
Horrendamente calmo e luminoso!
E esta palavra escrita, em toda a parte
— Caim! — Cerrei por um momento os olhos,
Quando os abri de novo, era mudada
A face do deserto: — irado vento
As montanhas de areia arrebatava
Qual a brisa do estio as folhas secas.
De rubro incendiado em flavo baço,
Mais ominoso ainda, o céu tornou-se!
De instante a instante monstruosos galhos,
Arrancadas palmeiras, sibilavam
Como flechas sutis, atravessando
Nas asas dos tufões o torvo espaço!...
Daquela imensa confusão no meio
Eu vi passar um homem: seu semblante
Era grosseiro e negro como a rocha
Que branqueiam de escuma as frias vagas:
Seu corpo como o tronco do vinhático
Onde a chama brincou; sarça coberta
De pisado carvão a dura grenha.
Mãos e braços de sangue eram manchados!
De lado a lado olhava suspeitoso,
Parava aos sobressaltos, e tremia,
Não pela tempestade sacudido;
Porém... — Um brado assustador ergueu-se
Daquela horrível solidão de areias:
— Caim! — Como o jaguar atravessado
Pelo dardo certeiro urra, e volvendo
Nas órbitas os olhos chamejantes,
O cauteloso atirador procura,
Assim ele rugiu! — Um véu de sombras
Tudo cobriu. Depois, qual nos abismos
Traidores e funestos do Oceano,
Contém o respirar, calcula as forças
O audaz mergulhador, o destro búzio,
Assim ele ficou!... Do pobre leito
Tudo eu via e sentia! O mar de sombras
Também caiu então sobre minh'alma!
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Mas o bulcão passou. Do vento as iras
Acalmaram-se logo. O descampado,
Onde os montões de areia se moviam,
Tornou-se liso e plano como um lago
Em tarde de verão. O homem sinistro,
Se ali estivera, sepultado estava. —
E Naída calou-se. O missionário
Tinha a cabeça baixa e refletia,
— Está findo o teu sonho? — Oh! não ainda!
A virgem respondeu cobrando alento,
Ouvi mais um instante: — Ao longe, ao longe,
Além dos areais, vi levantar-se
Uma cadeia de alterosos montes
Cobertos de palmares graciosos.
Leves colunas de ondulante fumo
Erguiam-se do meio das folhagens;
Doces, ternas canções acompanhadas
De tangeres estranhos, ressoavam
Por aqueles sertões. Era distante,
Bem distante o lugar d'onde partiam,
Mas eu tudo escutava. Francos risos,
Brados alegres, compassados cantos,
Longo tempo minh'alma apavorada
Propícios distraíram. — Deus bendito!
Murmurei suspirando, — ali ao menos
Algum povo feliz habita e folga!
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Desgraçada ilusão! O homem sinistro
Nas montanhas surdiu, medonho, enorme,
Semelhante a um penedo alcantilado,
Que nas tardes de inverno as nuvens rasga
— Caim! — bradou a voz da imensidade!
— Caim! — Tudo findou-se, atro negrume
Rolou do céu, cobrindo as cordilheiras;
Escutei um rumor profundo e mesto,
Semelhante ao das águas das torrentes
Cavando o seio escuro dos abismos!...
E esse rumor crescia e atordoava
Os vales, as rechãs e as serranias!
E daquelas montanhas encobertas
Precipitou-se um rio impetuoso,
Ganhou os areais, ganhou as praias,
Vingou as vagas do Oceano irado,
Chegou a nossas terras, inundou-as,
Chegou até aqui, até meu leito!
Ergui-me, olhei... o rio era de sangue!
— Caim — bradou a voz da imensidade!...
Senti nas faces o suor da morte,
Volvi ao céu os olhos ansiosos
Ele ali estava, o Filho de Maria,
Radiante, sublime! Ele ali estava!
De seu rosto divino, de seu corpo
Também caía sobre a terra o sangue,
Mas desse puro sangue rebentavam
Rosas e lírios, palmas e grinaldas,
Diamantes e rubins, e um povo imenso
Bradava jubiloso: — Liberdade!...
Está findo o meu sonho. — O missionário
Tinha a cabeça oculta entre os joelhos.
Pouco tempo depois ergueu-se. — Vamos,
Disse enxugando os olhos lacrimosos,
Nossos irmãos esperam-nos inquietos.
III
Rociada de orvalho, as plantas nuas,
Nuas as belas, cândidas espaduas,
Sobraçadas as vestes, desce a virgem
Dos climas tropicais, juncando a terra
De goivos e saudades. Salve, noite!
Salve, noite da América! Formosa,
Pura, em tua nudez, deixas o espaço
E vens-nos visitar; não guardam névoas,
Nem densas cerrações os teus encantos;
Se à fria Escandinávia, à fria Escócia
Baixas em longos mantos envolvida,
E triste, e muda, e tiritando passas,
A nosso ameno céu chegas risonha,
E nossas solidões buscas fagueira
Como a filha de um rei seus verdes hortos.
Salve, noite propícia! — Reunidos
Estão há muito os filhos do deserto,
E a voz aguardam do zeloso apóstolo.
É belo o céu, a terra sossegada,
Brando e odoroso o vento do deserto
Que nas folhagens úmidas farfalha,
E volteia travesso, e caprichoso,
Sobre o vermelho lume das fogueiras.
— O ministro de Deus senta-se e fala,
Continuando a história interrompida.
IV
— Além de muitos casos milagrosos,
Irmãos, contei-vos no serão passado,
Da transfiguração o alto prodígio,
A eleição dos apóstolos; e as santas
Instruções que lhes dera o amado Mestre
Fiel vos repeti. Ouvi-me, atentos.
O espírito de Deus nos ilumine,
E inspire minha voz: em vossas almas
Caiam minhas palavras, semelhantes
Às sementes fecundas do Evangelho.
— Firme, incansável no divino empenho,
Prossegue o Salvador; desde as vizinhas
Aldeias da Itureia, até os montes
Da Judeia escabrosa, agreste e seca;
Desde as praias do mar, ‘té as campinas
Centrais de Traconites, corre a fama
De seu grande poder e de seus feitos.
Entre soldados mil, nos fortes paços,
Herodes estremece. — É João Batista,
Que mandei degolar!... medroso exclama.
— É João Batista que deixou dos mortos
A sombria mansão, e volta ao mundo
Mais terrível ainda... — Oh, não! respondem
Os perjuros hebreus, que humildes beijam
Os degraus de seu trono — é um profeta
Igual aos d'outras eras! É, quem sabe...
É Elias, que desce das alturas
E traz consigo o raio da vingança! —
— Quê? — murmuram os mais, este mancebo
Não nasceu entre nós? Não conhecemos,
Porventura, seus pais e seus parentes?
Que letras aprendeu? Aonde? Quando?
Como se atreve a professar doutrinas?
Porém Jesus responde-lhes apenas:
— Entre seus comarcãos e conterrâneos,
Na casa de seus pais, nenhum profeta
É crido e bem aceito! — E imperturbável
Passa, e os ouvidos cerra a tais rumores.
V
Deixando os verdes prados e as campinas
Da Galileia superior, tristonho
Desce o Jordão, e em meio de seu curso
Perde em Genesaré, escuro lago,
O nome e a cor das águas celebradas,
Para depois seguir mais cheio e forte
Até o leito impuro do Mar Morto,
Em cujas ondas fétidas, sulfúreas,
Segundo a tradição, jazem os restos
De Sodoma e Gomorra. Às férteis bordas,
Da banda ocidental, entre a frescura
Dos bosques florescentes, lindas veigas,
Levantam-se choupanas de pastores,
Belos casais e aldeias aprazíveis,
Apriscos e currais, ledos retiros,
Onde saltam formosos cordeirinhos,
E a voz dos pegureiros se mistura
Às singelas cantigas das zagalas.
Cafarnaum alveja entre as folhagens
Das balsas odorosas, Betsaida
Espelha-se nas águas sussurrantes
Que lambem-lhe as muralhas. Nesses sítios
Onde do mundo as ambições não chegam,
E a doçura do clima, a luz macia
De um céu sempre sereno alegra as almas,
Demora-se o Senhor por algum tempo.
Surdos boatos, agoureiras vozes,
Chegam a seus ouvidos. Os sequazes
Dos grandes de Israel o povo iludem
E açulam contra o filho de Maria.
Buscam para o matar por toda parte.
— É cedo ainda, — o Salvador murmura,
E descansa entre os seus calmo e tranquilo.
VI
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0 silêncio e a sombra a terra invadem.
Calam-se as aves. Descoradas, frias,
Sobre as hásteas inclinam-se as boninas.
Gemem as fontes nas escuras penhas,
E no meio dos ásperos fraguedos
Piam da noite os pássaros sinistros,
Livre das multidões impacientes,
E dos censores importunos livre,
Detém-se o Salvador do lago à borda:
Explica aos seus os íntimos intentos,
E os manda a Betsaida, ao lado oposto.
Quando juntos os vê, e o leve barco
Ao compasso dos remos, pouco e pouco
Faz-se ao largo, singrando as ondas mansas,
Busca o fastígio de escarpado monte,
E aí, sobre um penedo enegrecido,
Largo tempo sozinho ora e medita.
VII
Vai alta a noite. As pálidas estrelas,
Medrosas da manhã que se aproxima,
Apagam-se no azul do firmamento.
Tudo repousa... Não! Pelos caminhos
Ingratos do deserto, erram perdidos
Muitos pobres romeiros; muitos nautas
Vogam sem rumo na soidão dos mares!
Muitas frontes vigiam suarentas
Sobre a mesa do jogo, ou sobre os livros,
Sobre o leito de angústia, ou sobre o berço
Da infância inconsciente! O sono amigo,
O sono irmão da morte, a poucos seres
As doçuras concede do descanso!...
Descem do espaço os brancos nevoeiros,
E sobre o monte, o vale, a praia e o lago
Espalham lentamente os véus fugaces.
Esperando que a luz da madrugada
Clareie a terra e os seres reanime,
Os sócios do Senhor deixam os remos,
Ateiam fogo sobre um grande vaso
De argila recozida, e reclinados
Sobre as pranchas do barco flutuante,
Se aquecem conversando. Já, de longe,
Nos pátios dos casais das verdes margens
Soltam a voz os vigilantes galos,
Anunciando a aurora que não tarda;
Já o cansaço e o sono os olhos turvam
Dos singelos amigos, e adormentam
Os membros fatigados, quando um grito
De assombro e de terror os chama à vida.
Quem brada assim? Foi a ilusão de um sonho,
Ou imprevisto mal que ao peito humano
Esse grito arrancou!... — Ah! és tu, Pedro!
Pedro! Pedro! que tens? — perguntam todos.
Mas Pedro não responde, branco, imóvel,
Fixos os olhos, estendido o braço
Para o meio do lago: arqueja e treme.
Todas as vistas se dirigem logo
Para o ponto indicado, e todos soltam
Um pavoroso grito. — Quê! amigos,
Diz uma voz suave, porventura
Posso causar-vos medo? Ao frio susto
A surpresa sucede: — Mestre! Mestre!
Sois vós! — Eu sou, não receeis, quedai-vos.
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Qual em fino tapete ou verde relva,
Firme, de pé, o rosto resplandente,
Jesus caminha sobre a lisa face
Do lago adormecido. — Ao vê-lo calmo,
Meio vendado pelas brancas névoas,
Dir-se-ia que as águas cristalinas
Tinham-se congelado, ou braços d'anjos
Invisíveis sustinham sobre o abismo
Seu puríssimo corpo. As longas vestes
Na fria superfície enxutas roçam,
Nem um respingo molha-lhe as sandálias
Que fundos frisos sobre as águas deixam
A cada movimento; auras suaves
Agitam-lhe os cabelos mansamente
E nas dobras do manto alegres brincam;
Um meigo olhar, um cândido sorriso
Animam-lhe o semblante gracioso.
VIII
— Se uma ilusão não és — exclama Pedro,
Se não és um espectro vagabundo
Que nos vem assombrar, senão o Mestre
Que servimos e amamos, manda, ordena
Que forte como estás sobre estas águas
Eu mova-me também, também caminhe
E me acerque de ti! — Vem, pois, eu quero,
Responde o Salvador, mas não duvides! —
Pedro agarra-se à borda, inclina o corpo,
Galga as tábuas delgadas, cauteloso
Estende os pés, e achando firme pouso
Desembaraça as mãos, e ei-lo contente,
Surpreso caminhando sobre as ondas!...
Mas, desgraça! Uma rábida lufada
De subitâneo vento silva e passa,
Atirando-lhe ao rosto a fria escuma
Das águas agitadas; a lagoa.
Até então serena e transparente,
Torna-se negra, encrespa-se, sacode
Como um brinco infantil a frágil barca!
Pedro para, estremece, enruga a fronte,
E tomado de horror, sente-se abrirem
Sob seus pés as vagas mugidoras,
E quase a perecer, grita: — Salvai-me!
Senhor! salvai-me! que me afogo! — e estende
Para Jesus os braços convulsivos.
— Criatura sem fé! — por que duvidas? —
Lhe diz o Salvador; vem, não te assustes. —
E trava-lhe da mão, põe-no a seu lado,
E de novo caminham sobre as águas
Até chegar à barca. — Oh! na verdade,
É o Filho de Deus!... exclamam todos
Que este milagre viram; e aterrados,
À voz do Salvador, erguem-se prontos,
Tomam dos remos, a lagoa fendem,
E sobre as ondas resvalando asinha
Pouco tempo depois à praia abeiram.
IX
A vinda de Jesus alegra o povo
E as gentes alvoroça. Pressurosos,
Correm a vê-lo aflitos e doentes
Que a fama de seu nome alenta e move.
Ninguém chora debalde, ninguém pede
Seu auxílio debalde, ninguém segue
Debalde os rastros de seus pés divinos,
Ninguém aos lares volta sem consolo!...
Ora, entre o povo humilde que se ajunta
Para ouvir as verdades do Evangelho
Ou implorar do Mestre os benefícios,
Os fariseus e saduceus avultam:
Sempre invejosos, refalsados sempre,
Tecendo enredos, invertendo os fatos,
Buscam nos modos, nas ações, nas faltas,
Na vida do Senhor e em seus princípios,
A sombra de uma ofensa à lei, aos usos,
Ou às ordens cruéis de seus tiranos.
— Mestre, fazei-nos ver algum milagre,
Dizem dolosamente, as turbas contam
Que heis operado inúmeros prodígios,
Nada porém sabemos; atendei-nos,
Pois creremos em vós. — Não há cegueira
Como a daqueles que rebeldes cerram
As pálpebras à luz, responde o Mestre.
Abri os olhos, contemplai o mundo
E milagres vereis por toda parte!
Quando se esconde o sol, e o firmamento
De rubra e viva cor brilha e fulgura,
Convosco murmurais: — calmo e sereno
Será o dia de amanhã, pois rubro
E formoso é o céu; mas, quando a aurora
Descorada aparece no Oriente
Entre nuvens vermelhas, porém tristes,
Dizeis convosco: — hoje haverá tormenta.
Quê! Sabeis ler no céu, mas neste mundo
Não decifrais dos tempos os mistérios!...
Oh! geração adúltera e perversa!
Um milagre pedis em altas vozes,
Mas só tereis de Jonas o milagre,
Que três dias passou no frio ventre
De monstro horrendo em tenebroso abismo,
E à luz voltou de novo! — Assim falando
Afasta-se o Senhor, deixando-os pasmos.
X
Dos amigos fiéis acompanhado,
Sequioso de paz e de sossego
Para as santas doutrinas explicar-lhes,
Busca Jesus os lúcidos retiros
De Cesareia de Filipe. O tempo
Corre veloz, e o prazo necessário
De seus dias na terra se restringe.
Uma tarde, ao sol posto, refletindo
Sobre a cegueira e perversão dos homens,
Volta-se aos companheiros e interroga:
— O que se diz de mim por essas vilas
E por essas cidades? O que pensa
E fala o pobre povo a meu respeito?
O que julgam aqueles que me cercam,
E pedem meu auxílio, e atentos ouvem
Da Nova Lei as máximas fecundas! —
— Dizem uns que és Elias, lhe respondem.
Outros que és o Batista, outros ainda
Que és Jeremias, mas ninguém duvida
Que tu sejas do Eterno um mensageiro.
— E tu, quem dizes que sou eu? — pergunta
A Pedro o Galileu — Tu és o Cristo,
O Filho de Deus vivo, — lhe responde
O velho pescador no mesmo instante.
— Oh! bem-aventurado és tu, pois creste,
Não no que o sangue revelou e a carne,
Senão meu Pai que está no céu, — exclama
Comovido Jesus; — e pois, te digo
Que tu és Pedro e que serás a pedra
Sobre a qual fundarei a minha Igreja,
E nunca poderão do inferno as portas
Prevalecer contra ela! — Ouve, não tremas.
Do eterno Reino te darei as chaves,
E tudo o que ligares sobre a terra
Será no céu ligado, e tudo aquilo
Que sobre a terra desligado houveres,
Desligado será no céu. — Por ora
Cumpre sobre o que ouvis guardar silêncio:
Os dias do martírio se aproximam,
Vai rebentar o temporal da ira
Sobre o Filho do Homem! Perseguido,
Preso, julgado, condenado à morte,
Aos verdugos entregue, o extremo alento
Soltará nas angústias do suplício!
Mas, ao terceiro dia triunfante,
Quebrando a dura lousa do sepulcro,
Ressurgirá dos mortos. Necessário
É que a vontade eterna se execute,
XI
Depois destas proféticas palavras,
Caminha o Salvador, anunciando,
Pelas casas dos pobres e infelizes,
O reino do Senhor, e a Lei divina.
— Eis o homem de Deus, — eis o profeta,
Os fariseus murmuram, eis o santo!
Censura os vícios, repreende os grandes,
E se aquece ao fogão dos publicanos,
Dos pecadores se recosta à mesa!
Jesus deixa-os falar, depois responde:
— Quem possui cem ovelhas, mas um dia
Sabendo que uma corre desgarrada
Nas grandes solidões, não deixa as outras
E voa a procurá-la? E quando a encontra
Não põe-na aos ombros, e não volta alegre,
E não folga, dizendo a seus vizinhos:
Julguei perdida minha pobre ovelha,
Perlustrei o deserto, pressuroso,
E topei-a por fim, ei-la em meus braços!...
Oh! maiores serão do céu as festas
Por um só pecador arrependido
Que volte à santa grei, do que por justos
Noventa e nove que ditosos vivem!
— Ouvi-me ainda, o Salvador prossegue:
Tinha dois filhos um varão preclaro,
O mais jovem dos dois, gênio versátil,
Louca imaginação, enfeitiçada
Pelas glórias do mundo e seus deleites,
Chega-se ao nobre pai e assim lhe fala:
— Dá-me a parte dos bens que me compete.
Moço e robusto, rico de esperanças,
Quero trilhar da vida os mil caminhos,
Sondar todos os mares da fortuna —
Tristonho e pesaroso o pai os chama
E com eles reparte os seus haveres.
O mais velho tranquilo permanece
No bendito solar de seus maiores:
O mais novo, porém, ave inconstante,
Bate as asas, volteia, o ninho deixa
E voa pelo mundo. Os anos passam,
Passam da mocidade os vagos sonhos,
E o mancebo infeliz de erro em erro,
De vício em vício tropeçando rola,
E cai no lodaçal medonho e fundo
Da mais feia miséria! Os sócios torpes,
Os parceiros de orgias e banquetes,
Vendo estancada a fonte dos prazeres,
Voltam-lhe as costas, cautelosos fogem,
Evitam encontrá-lo, arreceando
Pedidos importunos. A tristeza,
A nudez e a fome o pobre cercam!...
Cansado de esperar melhor destino,
Suplica a proteção de rico herdeiro
Que a distante casal o manda, e entrega
De imundos porcos o cuidado e a guarda.
Ora, pesando as cousas, refletindo
Sobre o mísero estado em que se achava,
Exclama suspirando o desgraçado;
— Quantos criados, quantos jornaleiros
Na casa de meu pai vivem à farta,
E aqui pereço à míngua! Irei, contrito
Prosternar-me a seus pés; direi chorando:
Oh! meu pai! Oh! meu pai! Pequei, bem vejo,
Contra Deus, contra ti! Já não mereço
De filho o doce nome... não me afastes
De teus olhos, senhor, muito hei sofrido.
Dá-me um pobre lugar entre os teus servos
Ou entre os jornaleiros dá-me emprego!...
Firme neste propósito, caminha,
Caminha resoluto e o pai procura,
— Quê!... Tu voltas a mim? Oh sê bem-vindo! —
Diz o nobre ancião, e alegre corre,
Estreita o filho nos amigos braços,
Beija-lhe a fronte e lágrimas derrama
De júbilo e prazer! — Vinde, meus servos!
Vinde depressa! — Ordena alvoroçado,
— Tirai-lhe estes andrajos e vesti-lhe
Os mais belos vestidos que encontrardes!
Lavai-lhe os pés molestos, e calçai-lhe
Macios borzeguins, ponde em seu dedo
Um precioso anel enriquecido
Do mais fino lavor!... Ide, vós outros,
Escolhei dentre o gado, o mais formoso,
O mais nédio novilho que retoiça
Por esses vastos campos, e matai-o,
Trazei-o sem demora! O dia de hoje
Será dia de folga e regozijo:
Era morto meu filho, e ei-lo que volta
Redivivo a meus braços. Longas noites,
Longas noites chorei, crendo-o perdido,
E Deus mo restitui! Vamos, folguemos!
E corramos um véu sobre o passado!...
Ao descair da tarde, o irmão mais velho
Voltando do trabalho, os brindes ouve,
Ouve os cantos alegres, vê festivas
A casa e as dependências. — Porventura
Sonho, ou desperto estou? — surpreso exclama,
E para, chama um servo, a causa indaga
Dessas doces canções, desses folguedos.
— Pois não sabeis? Correi, lhe diz o servo,
É vindo vosso irmão que longe andava,
E vosso pai festeja-lhe a chegada. —
Ouvindo esta notícia, abaixa o moço
A cabeça e suspira; tristemente
Volta sobre seus passos. Entretanto,
O pai desce a buscá-lo, e roga, e pede
Que o acompanhe à mesa do banquete.
Ele, porém, responde: — há tantos anos,
Que zeloso e fiel vos sirvo e ajudo,
Nunca me destes um cabrito, ao menos,
Que eu pudesse ofertar a meus amigos!...
Mas depois de uma vida vergonhosa,
Nodoado de vícios, miserável,
Vem meu irmão e o recebeis contente;
Matais, para o brindar, o mais nutrido,
O mais belo novilho destes campos!...
Que prêmio pois mereço, eu que trabalho,
E nunca me afastei do bom caminho?
Mas o pai lhe responde: — Em minha casa
Sempre viveste, e satisfeito vives,
Tudo o que tenho é teu, e nossos servos
Entre nós ambos distinção não fazem;
O que mandas, eu mando; o que desejas,
Desejo que se cumpra. O que te falta,
Que também não me falte? O que te sobra,
Que também não me sobre? Dize, filho!
Mas teu irmão por morto eu reputava!
O Senhor o guardou e no-lo envia;
Folguemos, pois, nossa alegria é justa.
XII
Continua Jesus propondo ainda
Mais algumas parábolas singelas
Que resumem a lúcida doutrina,
Simples, mas palpitantes de verdade.
Os contrários vencidos emudecem.
Ora, entre o povo imenso que se ajunta
Ao redor do Senhor, trazem os pobres,
Os graciosos, inocentes filhos,
Para que vejam seu divino rosto,
Para que aprendam seus preceitos santos,
Para que toquem seus vestidos. — Basta
Se quereis ser felizes, bons e sábios,
Que lhe beijeis do manto a escura fímbria, —
Dizem as mais às lindas criaturas.
XIII
Qual formoso rebanho derramado
Em denso matagal, procura unir-se,
E surde aqui, ali, entre as folhagens,
E de novo se perde, assim loirejam
De quando em quando entre as cerradas turbas,
As airosas cabeças, incansáveis,
Daquela grei de anjinhos curiosos.
— Que vem aqui fazer parvos infantes
Senão interromper a voz do Mestre,
Ou estorvar o povo? Por ventura
Em brincos pueris nos entretemos?
Dizem do Salvador os companheiros
Afastando as crianças. — Não! exclama
Vivamente Jesus, deixai que venham,
Que se acerquem de mim as criancinhas!
Não lhes embaraceis jamais os passos,
Pois o reino dos anjos lhes pertence!
Então um rico hebreu se aproximando
Pergunta-lhe solícito: — Bom Mestre,
O que devo fazer sobre este mundo
Para alcançar a salvação e a glória?
— Só Deus é bom, e sábio, e justo e grande!
Responde-lhe Jesus; — porque me louvas,
E me chamas de bom? Dize-me, acaso
Desconheces os santos mandamentos:
Não mates, nem cometas adultério,
Não calunies teu irmão, nem furtes,
Preza e honra teus pais, e sobre tudo
Ama teu Deus, teu Criador venera?
— Senhor, desde a mais tenra mocidade,
Prosegue o rico hebreu, tenho guardado
Estes sacros preceitos. — Oh, não basta!
Continua Jesus, falta-te ainda
Para seres melhor alguma cousa.
Vende quanto possuis, dá seu produto
Aos pobres, teus irmãos; deixa teus lares;
Lança mão de um bordão e me acompanha. —
Isto escutando, o hebreu torna-se triste,
Que era senhor de cabedais imensos.
— Quanto é custoso! o Salvador pondera,
Quanto é difícil conquistar-se a posse
Das delicias do céu, quando a riqueza
Fascina a vista e o coração cativa!
Mais ampla entrada um dromedário achara
De fina agulha pelo estreito fundo,
Que no reino dos céus um homem rico!...
— Quem poderá salvar-se, então? perguntam,
Alguns dos circunstantes. — Pobres cegos
Exclama o Salvador, pensais acaso
Que para o Deus Eterno haja impossíveis?...
Depois disto, o Senhor chama de parte
Os doze companheiros, longo tempo
Sobre a missão divina os aconselha,
E abandonam de novo aqueles sítios.
XIV
As formosas parábolas, ungidas
Da mais suave e doce poesia,
Os singelos painéis, onde a verdade,
Simples como a expressão da natureza,
Os mais rudes espíritos cativa,
A linguagem concisa, porém bela
Do divino pastor, melhor ensinam
Do que das Sinagogas orgulhosas
As extensas lições, e os vãos discursos.
— Ouvi, diz o Senhor ao povo amigo
Que por todas as partes o acompanha:
Havia um homem poderoso e grande,
Grande no vício e grande na opulência.
Vestia-se de purpura e de seda,
De brilhantes e pérolas se ornava.
Em seu vasto palácio, dia e noite,
Rodeado de torpes lisonjeiros
Folgava descuidoso. Em seus banquetes
Fortunas despendia, e mais felizes
Que muitos filhos de Abraão, viviam
Seus mastins e lebréus, cheios e fartos
De manjares custosos e esquisitos.
Também havia um sórdido mendigo
Que Lázaro chamava-se, e coberto
De pústulas e chagas, suspirava
Faminto e esfarrapado sobre as lajes
Da porta do palácio do opulento;
De dia enxames de nojentas moscas
O descanso vedavam-lhe, de noite
Vinham lamber-lhe as úlceras doridas
Os vagabundos cães das vizinhanças...
Ora o pobre morreu, e do infinito
As falanges angélicas desceram
E o levaram nos braços. O opulento
Morreu, morreu também, mas dos infernos
As legiões de Satanás surgiram
E arrastaram-no às chamas. Dos abismos
Ergueu olhos febris, e viu, tranquilo
No seio de Abraão, Lázaro o pobre.
— Abraão! Abraão! Grita ansioso,
Dize ao ditoso Lázaro que molhe
A ponta de seu dedo em água pura
E me refresque a língua incendiada:
O fogo eterno abrasa-me as entranhas!...
Abraão lhe responde: — Sobre a terra
Viveste na abundância, e o pobre Lázaro
Só conheceu desgraças e martírios!
Goza por isso agora, e tu padeces.
— Abraão!... Abraão! brada o precito.
— Uma ponte infinita nos separa,
Diz o santo Abrahão, nós não podemos
Passar, e dar-te a mão. A eternidade
Assentou-se entre nós. Assim quiseste! —
Calou-se o Salvador, a passos lentos
Caminha, dos apóstolos seguido,
E vai a Jericó, velha cidade,
Cujos pesados bastiões, outrora
Caíram com estrondo, ao som da tuba
Do Arcanjo vingador, nos belos tempos
Quando inda Jeová sagrava as hostes
E depunha nas mãos de seus guerreiros
O gládio flamejante da vitória.
Chega Jesus, e o povo se atropela,
Ajunta-se e o rodeia. A uns incita
A vã curiosidade; a outros guiam
A esperança e a fé. Um publicano
A quem chamam Zaqueu, homem de posses,
Mas de estatura pequenina e frágil,
Não podendo de perto olhar o Cristo,
Qual travessa criança aos galhos sobe
De um alto sicômoro, e dentre as folhas
Espreita cuidadoso... num relance
O Salvador o vê. — Zaqueu, lhe fala,
Desce e vem ter comigo, muito importa
Que na tua morada hoje eu pernoite. —
Apressasse Zaqueu, desce, e contente
Guia o Senhor à casa hospitaleira.
Novas murmurações, novas censuras
Partem dos fariseus e dos escribas,
Vendo Jesus seguir um publicano
E albergar-se debaixo de seu teto.
Zaqueu diz ao chegar: — Quero, metade
Dar, Senhor, de meus bens aos infelizes,
E quatro vezes mais darei, se acaso
Meu próximo lesei em seus negócios.
— Hoje, exclama Jesus, em teu asilo
Entrou a salvação! Sobre teus lares
Do Eterno Padre as bênçãos se espalharam!
O seio de Abraão pulsou de júbilo,
Pois o Filho do Homem veio ao mundo
Buscar o que nas sombras vacilava,
E salvar o que havia perecido!
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XX
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A luz acorda o mundo. A natureza
De seu berço levanta-se formosa
E saúda o Senhor. Sobre as montanhas,
Nas grimpas do arvoredo, e sobre as ondas,
O glorioso príncipe dos astros
Feliz esparze as dádivas primeiras.
Perdem-se ao longe nas viçosas matas,
Nos altos dos outeiros e nos vales
As turmas dos conversos. Triste, mudo,
O apóstolo das selvas se levanta
Do escuro tronco onde passara a noite,
E se recolhe à sossegada ermida.