Canto IX Anchieta ou o Evangelho nas selvas · Capítulo 10 de 11
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Canto IX

Canto IX

CANTO IX

I

Rubro como um baixel incendiado

No proceloso mar, como a cratera

De inflamado vulcão na raia escura

De longínquo horizonte, ou como o vulto

De condenada esfera que declina

Para jamais surgir, o rei dos astros

Esconde-se nos términos do ocaso.

Antes, porém, que a noite, a vária deusa,

Mãe das áureas visões e dos remorsos,

Protetora do crime e da inocência,

Estendida sobre a terra o plúmbeo manto,

Reúnem-se os fiéis no eremitério,

Onde os chama o dever e a caridade.

Fecha o sábio pastor a santa Bíblia

Que atento folheava, os tristes olhos

Volve ao caminho alpestre. Um viageiro

Assoma na espessura das devesas.

Jadir!... Era o guerreiro do deserto,

Que ao deserto saudoso regressava.

— Jadir, o que fizeste? O que procuras?

Porque deixaste teus irmãos, teus chefes,

Teu santo pavilhão? — É certo, padre,

Responde ao pio mestre o audaz mancebo,

Sim, deixei tudo, que o destino ingrato

A fonte envenenou de meu futuro!

Que nem força e valor, crenças e brios

Me restam neste mundo, homem piedoso,

Homem da mansidão, cujas doutrinas

Minha alma iluminaram, não me acuses!

Escuta-me por Deus! No espaço ardente,

No torvelinho horrendo dos combates,

Uma voz magoada, triste, enferma,

Chegou a meus ouvidos: — Corre, amigo,

Minha vida se extingue como o fumo

Das choças do sertão, quando perpassara

Os ventos da manhã! — Sócio da infância,

Companheiro das lidas da floresta,

Aos longes arraiais levou-me as queixas

Da desditosa irmã. Deixei as armas,

Os perigos, o posto, o acampamento;

Voei como um tufão, como um pampeiro

Das regiões do sul!... Inda respira,

Inda respira a rola no deserto?

Dize, dize, que mata-me a incerteza! —

E calou-se Jadir. O mestre ilustre

Não respondeu, porém; ergueu-se mudo,

Travou do braço do infeliz converso,

E afastou-se da ermida lentamente.

No remanso de um vale ameno e fresco,

Perto de clara fonte, onde as acácias

Inclinavam-se trêmulas, beijando

As águas gemedoras, avultava

Uma grosseira cruz; o missionário

Parou, levou ao seio as mãos unidas;

Depois, mostrando o chão da sepultura

Disse abaixando a voz: — Ali, meu filho!...

Naída dorme ali! — Singela musa,

Musa da solidão, anjo dos ermos,

Que descoram as áridas vigílias!

Não procures lembrar a mágoa extrema

Do mísero Jadir! Há sofrimentos

Como os segredos da famosa esfinge,

Cumpre deixá-los no mistério envoltos!...

No terreiro, porém, da pobre ermida

Já crepitam as vívidas fogueiras,

Dardejando as vermelhas labaredas

No véu da noite escura, impetuosas,

Como os feios dragões de mil cabeças

Das legendas antigas. Triste e muda

A multidão aguarda o amado mestre.

Ei-lo, por fim, que chega, acompanhado

Do guerreiro infeliz. Lhano responde

Às saudações benévolas do povo;

Senta-se, e alçando a voz, distinta e clara,

Continua a sagrada narrativa:

— Da ceia do Senhor, tracei, meus filhos,

O memorando quadro; então, mostrei-vos

O príncipe dos céus humilde e manso

Lavando os pés aos frágeis pecadores;

Depois, vimo-lo à mesa repartindo

O maná verdadeiro, o pão dos anjos,

Com seus fiéis amigos, e mais tarde

Nos silvados aspérrimos do Horto

A morte prelibar, sentir nos membros

A fria exsudação d'água e de sangue

Porejar copiosa; enfim, vendido

Por Judas o traidor, o sevo monstro,

Preso e manietado, entregue à sanha

Dos rancorosos padres e juízes,

Embusteiros legais, nobres verdugos,

Ilustres carniceiros, revestidos

De púrpura e de arminho. — Prossigamos:

O horizonte se obumbra... desce a noite,

A noite mesta e lúgubre da história...

Um orvalho sangrento alaga os campos...

Dá-me forças, Senhor, que tenho medo!

II

Jerusalém dormia. Entre os palácios,

As riquezas dos príncipes romanos,

As pontifícias galas, e a penúria,

A vil degradação da ínfima plebe;

Entre os vastos salões, as lautas mesas,

Os belos camarins, os fofos leitos,

E os tugúrios fumosos, negros, frios,

Os farrapos nojentos, as lareiras

Apagadas, vazias; — ressonava

A geração de escravos e mendigos,

Em cujas veias circulava ainda

O sangue dos austeros patriarcas!

Jerusalém dormia. A raça impura,

Que outrora livre e farta no deserto,

Chorava pelo duro cativeiro

Das regiões do Egito, e suspirosa

Lembrava-se das ôlhas abundantes,

E das amplas dispensas e cozinhas

Do grande Faraó, — a raça estulta,

Talvez feliz, em sonhos, se julgasse,

Por partilhar os restos e as migalhas

Que sobravam da orgia dos tiranos!

Jerusalém dormia. A voz pausada

E rouca das latinas sentinelas

Nas muralhas de escura fortaleza,

O pio das corujas agoureiras

Nos velhos bastiões, os longes ecos

Dos nefandos festins, de quando em quando

O silêncio da noite interrompiam.

Mas, nas habitações dos sacerdotes,

Nos paços dos pontífices vaidosos,

Estranho movimento anunciava

Importante sucesso. As portas francas,

Os pátios e saguões iluminados,

Guardas dobradas, confusão de servos,

Tudo, enfim, revelava que essa noite

Era não de prazeres e folguedos,

Mas de urgentes questões, graves negócios.

III

Que sinistro clarão expele as sombras

Das ruas tortuosas, mal calçadas,

E alumia os grosseiros edifícios

Da cidade vetusta? Que luzeiros

Agitam-se nas trevas, numerosos,

Como as chamas fugazes que tremulam

Nos campos de batalha, às horas mortas,

Quando o gélido orvalho se pendura

Das tendas dos guerreiros? Que rumores,

Que vociferações ímpias e feras,

Turbam a quietação das ermas praças,

Derramando o pavor pelas moradas

Do miserando povo? — O que procuram

Esses vultos incertos, macilentos,

Armados de bastões e de alabardas?

Onde vão esses rudes quadrilheiros,

Cujas lanças delgadas e lustrosas

Relampejam nas trevas? — Bravo e forte,

Nos horrores do crime endurecido

Deve de ser o malfeitor que arrastam

Aos tribunais supremos. — Cautelosos,

Convém cercar o monstro, que não fuja,

Zeladores sublimes da justiça!...

Oh! divino Jesus! Manso cordeiro!

Gênio da caridade e da doçura!

Luminar da inocência!... És tu que passas

Qual um facinoroso das montanhas,

Acusado de atrozes morticínios!

És tu, que triste e pálido caminhas,

Como um feroz jaguar das cordilheiras,

Que os homens do sertão levam cativo

Ás aldeias remotas! — Salve, Cristo!

Teu reinado começa neste mundo!

IV

Emblema da ternura lutuosa,

Da beleza entre lágrimas, desmaia

No plúmbeo céu a lua decrescente.

Jerusalém acorda. Abrem-se as portas,

Pulam os curiosos faladores

Dos aquecidos leitos, gira o povo

E ajunta-se nas ruas e nas praças,

Onde sempre versátil, sempre vário,

Contos inventa, vaticínios forma,

E apesar do vigor com que assevera

Tão contrários juízos, enleado

Pergunta o que há de novo?... — Pobres turba

Que tomam por verdade a própria sombra!

Mas, um sudário de úmidos vapores

Cobre a cidade ilustre e desditosa,

Geme o vento nos grossos balaústres

Das erguidas soteias; vacilante,

Como infeliz marítimo que as ondas

Jogam sobre os agudos arrecifes

De tenebroso golfo, às horas mortas,

Depois das ânsias de fatal naufrágio,

Ao palácio de Anás, grande entre os padres,

E sogro do pontífice, arquejando

O Salvador chegou. Dúbio sorriso

Aos lábios assomou do hebreu tigrino:

Ele aguardava, impaciente, a presa,

E a presa sob as garras lhe caíra!

Tardava o sacrifício! — Que preceitos,

Pregas às multidões? — Quais teus princípios?

Quais as crenças que tens? — Nas sinagogas,

Nas praças e no templo, à luz do dia,

Minha voz elevei, lhe diz o Cristo,

Não me envolvi nas sombras do mistério,

Não procurei recintos escondidos,

Nem câmaras secretas, — interroga,

Se desejas saber, aos que me ouviram,

E terás a verdade de seus lábios. —

Nesse momento, a mão de um quadrilheiro,

A mão dura e calosa, e mais pesada

Que a pata do tapir, feriu cruenta

O rosto suavíssimo de Cristo,

Deixando impressa a nódoa purpurina

Da dor e da vergonha! — Inclina a fronte,

E respeita ao pontífice! — acrescenta

Dos vis senhores o mais vil cativo.

— Se mal fatiei, responde o augusto Mestre,

Se mal falei, convence-me do erro,

Mas, se disse a verdade, o que te move

A ultrajares-me assim? Porque me feres? —

Anás, porém, folgava intimamente,

Dirigiu-se a Jesus com gesto altivo,

E depois de mil pérfidas propostas,

Depois de mil questões insidiosas,

Enviou a Caifás o Herói divino,

Então coberto de baldões e injúrias,

Impelido e espancado como a fera

Que arrancam do covil os caçadores,

Aflito o seio, descorado o rosto.

Do palácio de Anás desceu o Mestre.

Longe, dois vultos, cautelosos, mudos,

Pelas espessas trevas se esgueiravam:

Um era Pedro, o galileu singelo,

O outro compassivo israelita,

Pobre e simples mancebo, iniciado

Da nova lei nas lúcidas doutrinas.

Viram-no os quadrilheiros e afanosos

Procuraram prendê-lo; mas, ligeiro,

Veloz como um veado perseguido,

O moço que trazia sobre o corpo

Miseráveis andrajos, esquivou-se,

E os deixando entre as garras dos protervos

Afastou-se a correr, nu, pelas ruas.

Pedro, porém, tardio e vagaroso,

Foi seguindo o Senhor, o povo, a guarda,

Até o paço de Caifás. Brilhantes

E nutridas fogueiras estalavam

Aclarando o espaçoso e belo pátio;

Grande cópia de fâmulos e servos,

Sobre largos taburnos se aqueciam,

Conversando ao redor do vivo lume.

Pedro se aproximou; naquele instante

Uma escrava da Núbia, esbelta e forte,

De bronzeado rosto e negros olhos,

Descia prazenteira a longa escada;

O velho pescador pediu-lhe humilde

Um lugar entre os outros; satisfeito,

Entrou e se assentou sobre uma pedra,

Retirado dos grupos suspeitosos.

V

No palácio do sumo sacerdote,

No formoso salão de alvas colunas,

Onde os graves negócios se decidem

Concernentes à lei, plácido e belo

Como o sereno, cândido luzeiro

Que precede a alvorada, entre os negrumes

Precursores fatais da tempestade,

Apareceu Jesus; firme e seguro,

Radiante de graça e de inocência,

Caminhou para o estrado, onde orgulhoso,

À sombra de um dossel de rubra seda,

Em dourada cadeira pontifícia,

Descansava Caifás. Fundo silêncio

Reinava no sacrílego auditório.

Caso intrincado, sério e não previsto

Apresentou-se então ao pensamento

Do príncipe cruel. Só competia

Ao governo de Roma e seus prepostos

Dar sentenças de morte: a lei expressa

Não deixava lugar a falso arbítrio.

Que julgar? Que fazer? Forjar um crime,

Revesti-lo de horrendas circunstâncias,

O imputar ao Senhor! — Cem testemunhas,

Malvadas umas, cobiçosas outras,

Em auxilio dos ímpios acudiram.

Mas, os pios varões, retos juízes,

Pontífices ilustres, que buscavam

O justo condenar, — brandos agora,

Por demais complacentes, despediam,

Depois de convencidos da calunia,

Profanadores vis, monstros perjuros,

Que zombavam de Deus e da justiça!

Oh! cegueira da inveja! Oh mal sem cura!

Entretanto, dois sábios publicanos,

Dois consócios de Judas, o precito,

Dirigiram-se ao sumo sacerdote:

— Nós o ouvimos, Senhor, junto do templo

Deste modo fatiar: — Tenho poderes

Para arrasar o templo, se o quisesse,

E depois em três dias, mais seguro

Levanta-lo outra vez! — Nestas palavras,

Era a ressurreição que anunciava

O Redentor do mundo; era seu corpo

O templo que das sombras mortuárias

Feliz ressurgiria! — A feia intriga

Silvava à sombra da verdade santa!

— Então disse Caifás: — o que respondes?

Tu bem vês que te acusam. — Mas o Cristo

Sacudiu a cabeça tristemente,

Encarou, suspirando os delatores,

E conservou-se mudo. Urgia o tempo,

Convinha abreviar o atroz processo,

Achar um vão pretexto, um qualquer meio,

De consumar o infausto sacrifício.

Retirou-se Caifás. Desprotegido

Ficou Jesus, sozinho exposto à sanha

Do vulgacho grosseiro, e às zombarias

Dos depravados, ímpios quadrilheiros.

VI

O fulgido clarão da estrela d'Alva

Derrama-se no espaço, a rósea aurora

Pouco a pouco adelgaça o véu cinéreo

Que flutua nas portas do Oriente;

Áureos, fulvos listões, faixas purpúreas,

Brancas, argênteas franjas, atravessam

As regiões festivas, onde assoma

Cada dia mais forte em seus domínios

O rei das estações. No grande pátio

Da casa de Caifás, sempre tristonho,

Meditabundo sempre, Simão Pedro

Vela perto do fogo; os ociosos

Continuam as práticas estultas,

Os soldados estiram-se rosnando

Sobre as lajes do chão; mas, uma escrava

Que desce nesse instante ao peristilo,

Para, surpresa, atenta considera

O pobre pescador: — Bem o conheço,

Diz a vil criatura a seus parceiros,

É este um dos amigos, e o mais velho

Do mestre nazareno: — Oh! tal não digas!

Exclama o Galileu amedrontado,

Nunca lhe ouvi a voz, nem vi-lhe o rosto! —

Porém, Malco aí estava, o servo Malco,

A quem Pedro ferira. — Que! tu negas?

Pois não eras no Horto? Não te lembras

Que me cortaste a orelha? — açode o ímpio.

— Estranhas cousas, lhe responde Pedro,

Falsas proposições dizes, amigo;

Nada sei do que falas, nem do Mestre

Que os sacerdotes julgam! — Como treme

O pescador astuto! Companheiros,

Informa um dos criados, muitas vezes

Entrei no seu batei, estou bem certo;

Depois não mais o vi; por fim, nos campos,

E nas praças o achei unido aos sócios

Do filho de José. — Não é verdade!

Exclama Simão Pedro! — Então, prodígio!

A poucos passos, num sombrio canto

Dos aposentos térreos do palácio,

Bateu o galo fortemente as asas

E a voz soltou vibrante e prolongada.

Simão estremeceu, — volveu os olhos

Para as altas janelas, e entre as grades

Viu, ao frouxo clarão da triste aurora,

A figura serena e graciosa

De seu divino Mestre. A consciência,

Abalada e ferida fundamente,

Despertou as cansadas faculdades

Do singelo discípulo; os remorsos

Acerbos e pungentes, a vergonha

De uma fraqueza quase que perfídia,

A lembrança da culpa, o horror da pena,

Como agudos punhais dilaceraram

O coração do mísero: os soluços

Embargaram-lhe a voz, e quentes lágrimas,

Lágrimas puras de alma arrependida,

Orvalharam-lhe o rosto e as barbas brancas.

VII

Amanhecera. Os pérfidos doutores,

Os anciãos do povo, os sacerdotes,

Em conselho secreto reunidos,

Decidiram levar o santo Mestre

Ao Romano Pretório. Era Pilatos

Então governador, homem sem crenças,

Grande apenas no luxo e na vaidade.

No formoso vestíbulo, adornado,

De marmóreas pilastras, sobranceiro

Os recebeu o príncipe latino,

Que aos filhos de Abraão a Lei proíbe

Dos recintos pagãos entrar no grêmio.

— De que delito é réu este mancebo?

Quem de vós o acusa, e quais as provas-

Do crime cometido? — Assim pergunta

Pilatos aos pontífices nefários.

Então Caifás responde: — Defensores

Somos da Lei, — das tradições mosaicas,

Dos foros nacionais: se delinquente

Não fora o que trazemos ao Pretório,

Porque te buscaríamos? — Doloso,

Pregador de sacrílegas doutrinas,

Usurpador de títulos sagrados,

É este que tu vês! Mas o Romano

Sorriu-se e respondeu: — Pois bem, julgai-o

Pelo vosso direito e usos antigos.

— Não, atalhou Caifás, a lei condena

Os castigos de sangue! — Então Pilatos

Voltou-se para o Mestre Nazareno,

Inquiriu cauteloso os pormenores

De seu viver passado, a norma, essência,

Das sublimes lições, e o fundamento

Da feia acusação dos sacerdotes;

Satisfeito, por fim, ergueu-se e disse:

— Anciãos da Judeia, em vão procuro

Surpreender a culpa a mais ligeira

Neste infeliz mancebo; sou Romano,

Vossos velhos costumes desconheço:

Fazei o que entenderdes, entretanto,

Pensai antes de obrar: — tenho o direito,

Usando de um antigo privilégio,

De soltar neste dia um criminoso;

Ora, pois, atendei: — nos calabouços

Dos cárceres romanos, está preso

O cruel Barrabás, ousado monstro.

Cuja fama horroriza e assombra os campos,

E — aqui — tendes Jesus, o pobre mestre,

Filho de inofensivo carpinteiro.

A qual dos dois darei a liberdade?

— A Barrabás! a Barrabás! exclamam

Os doutores, pontífices e escribas.

— A Barrabás! responde o ingrato povo,

Acompanhando os bárbaros algozes!

VIII

Não longe do Pretório, iluminada

Pelos flavos clarões do sol nascente,

Aparecia a casa de Pilatos,

Alva, risonha, erguida entre ciprestes,

Coberta de cimalhas caprichosas,

Frisos sutis, colunas de alabastro,

E arejadas soteias. Tão festiva

Dir-se-ia a visão de alto castelo

Pelos gênios da aurora edificado

Nas regiões longínquas do Oriente,

Onde termina o mar e o céu começa.

Os mansos passarinhos gorjeavam

À sombra dos vergéis, as auras frescas

Soerguiam as trêmulas cortinas

Do belo camarim, onde entre flores,

Mimosa flor também, sobre almofadas

Lânguida descansava a linda esposa

Do opulento pagão. Seus pensamentos

Tristes deviam ser, que os rubros lábios

Cerrava convulsando, e dentre os cílios

Negros, como a penugem luzidia

Das escuras abelhas da floresta,

Rebentavam as lágrimas sentidas.

Filha airosa da Itália sonhadora!

Rola saudosa das alegres veigas

Dos campos de Lavínia! Que pesares

Ferem-te o coração? Mas, de repente,

Um profundo gemido angustioso,

Os seios lhe agitou; a nobre dama

Levantou-se de um salto, branca e fria,

Como a estátua de mármore pousada

Em brônzeo pedestal junto da porta;

Correu para a janela, as trancas soltas,

O olhar afogueado. Então, ruidosa

Bramia a onda popular na praça,

Mil vozes discordantes repetiam:

— Desatai Barrabás! Deixai-o livre! —

Compreendeu a esposa de Pilatos

A sinistra questão. Chamou um pajem,

E mandou ao Pretório a toda a pressa.

— Vai, dize a teu Senhor, ampara o justo,

Que revelou-me um sonho pavoroso

A pureza divina de seus atos,

Das intenções celestes a inocência,

A gloriosa origem de seu gênio! —

O servo obedeceu. Nesse momento

Uma nuvem trevosa e carregada

Cobriu a luz do sol, — rijo nordeste

No ledo camarim entrou silvando,

Tremeu o pavimento, e as belas flores

Que pendiam das jarras primorosas

Caíram desfolhados no tapete...

IX

Era tarde!... Do ergástulo sombrio,

Onde os castigos corporais se cumprem,

Circundado de guardas e verdugos,

Jesus descia então a larga escada.

No centro da prisão, na sala negra,

Coberta de instrumentos de suplício,

Alastrada de algemas e correntes,

Rotos grilhões, ensanguentadas cordas,

Os algozes pararam. — Tu soluças?

Tu escondes o rosto, ingênua musa?

Oh! continua e chora! — Então, vergou-se

O corpo do Senhor ao férreo peso

Das garras dos brutais executores;

Caiu-lhe a pobre túnica, em pedaços,

Nos doloridos pés! Depois... os golpes

De amiudados, rábidos açoites,

Ecoaram nos fundos calabouços!

Era o primeiro quadro do martírio!...

Os bárbaros cansaram. Necessário

Era que ao sangue se ajuntasse o escárnio.

Assim fora predito. Então puseram

Sobre a cabeça do Divino Mestre

A coroa da glória e do infortúnio,

Um tecido de espinhos lacerantes!

Entre as mãos uma cana verdoenga

Colhida nos pauis, e sobre as chagas,

Sobre as vivas feridas, que as vergastas

E os látegos abriram, — miseráveis!

Sórdido manto de grosseira crina!

— Salve! Rei dos Judeus! — gritavam rindo!

E lançavam-lhe ao rosto o iracundo escarro

Do ódio e do desprezo, e lhe atiravam

Sobre a sangrenta fronte descabida

O Iodo da prisão e as imundices!

X

Outra vez no Pretório entrou cercado,

Depois de injúrias tantas e flagícios,

Lividamente belo, o Deus cativo.

— Inda sustentas, — perguntou Pilatos,

Que és o Rei dos Judeus? — Tu o disseste! —

Responde o Salvador, firme, e sereno.

Ora, o governador que recebera

O triste aviso da querida esposa,

Se esforçava em buscar propícios meios

De salvar o Senhor. Ao pensamento

Acudiu-lhe um arbítrio: era oriundo

Jesus da Galileia; essa província

Ao domínio de Herodes pertencia,

E pois mandou Jesus ao grande Herodes,

Que o ouvisse e que julgasse. — Curioso

O rei o recebeu, — extensas horas,

Atento o interrogou em seu palácio.

E ordenando, por fim, que lhe vestissem

Uma túnica branca, o despediu.

Nem mesmo Herodes o julgou culpado!

Então, o Salvador voltou de novo

Ao sinistro Pretório. O sol brilhava

Dourando os altos cerros do Oriente;

Pilatos reuniu logo os doutores,

Os anciãos do povo, os sacerdotes,

E estas palavras disse memoráveis:

— Vós acusais o Mestre Nazareno

De fazer sedições, turvar do povo

O íntimo sossego, a consciência,

E violar da Lei os sãos preceitos;

Ora, o interroguei de mil maneiras,

E não lhe achei o mínimo delito.

Inquiri testemunhas, que mentiram

De um modo vergonhoso. — Duvidando

Da clareza e valor de meus juízos,

À decisão de Herodes sujeitei-me,

E eis Herodes me envia o desgraçado,

Que declara inocente! — Conseguistes

Do feroz Barrabás o livramento:

O que farei de Cristo? — Crucifica-o!

Respondem prontamente os sacerdotes.

— Crucifica-o! — vozeia o povo ignaro,

Apinhado no pátio e nas calçadas.

Então Pôncio Pilatos levantou-se,

Pediu um vaso d'agua, e lento e mudo,

Pôs-se a lavar as mãos; depois, volvendo

Severo olhar aos padres que o cercavam:

— Sou inocente deste puro sangue

Que se vai derramar, não tenho parte

No martírio do justo; eu vo-lo entrego. —

Disse, e afastou-se triste do Pretório.

— Reverta sobre nós e nossos filhos

O sangue que a lei pede, e persistente

Procuraste poupar! — responde o povo.

A missão de Pilatos era finda.

XI

Musa Cristã! Desprende lacrimosa

Sobre o cotio de neve as tranças de ouro!

Arroja de teu seio as rosas brancas

E as lindas amarílis das campinas,

Que os amores colheram! Cinge a fronte

De folhas de cipreste e roxos goivos;

Deixa o leve brial, envolve o corpo

Em funerário crepe, e solitária

Debruça-te nas fragas do deserto!

Chora, e lembra as angústias assombrosas

Da morte do Senhor... Ah! se puderas,

Se puderas voar, transpor os mares,

Atravessar o Líbano e as montanhas

Rochosas de Ascalon; pousar no cimo

Do Calvário sagrado, e compungida

Beijar o duro solo, onde caíram

As lágrimas do Mestre!... Se puderas

Um raminho apanhar das tristes plantas,

Que o sangue fecundou do Deus aflito,

Do Deus agonizante!... Oh! toma a lira,

Canta como o pastor, que a natureza

Afina a voz singela! Como o nauta,

Que as saudades da pátria o estro acordam!

Como o servo que aspira a liberdade!

Como o formoso pássaro das selvas

Que não sabe porque, mas canta, e canta,

E canta até que a morte a voz lhe roube!

XII

A coorte formou-se aparatosa,

Meneando insolente os finos gládios,

À roda do Senhor; os quadrilheiros

Sacudiram as longas alabardas,

Risonhos, como bravos combatentes

Que próxima batalha incita e move;

A multidão mendaz, grosseira e falsa,

Apertava-se, ria-se ou praguejava

Como em circo de feras! — Negra e rota

Era de Cristo a túnica mesquinha.

— Não deste modo um grande rei se traja!

Disse um cabo da guarda motejando;

— Venha depressa um manto precioso! —

O manto apareceu; o vil soldado

Lançou sobre Jesus as mãos profanas,

E a túnica rasgou-lhe. Então surpresos

Recuaram os bárbaros: os ombros,

Os braços do Senhor estavam roxos,

Entumecidos, ásperos, cobertos

De coagulado sangue e grossas bolhas!

— Cobre-te, — diz o esquálido soldado

Nas costas lhe estendendo o rubro manto,

— Sábio Rei dos Judeus, — estás medonho!

XIII

Porém, ao lado oposto do Pretório,

No baixo alpendre de uma casa escura,

Lavra trigueiro e feio Israelita

Um pesado madeiro. Nos degraus

De antiga e larga escada, enegrecida

Pelas chuvas do inverno, se debruçam

Duas formosas, pálidas crianças.

— Basta de trabalhar! — diz a mais moça,

— Vem descansar, meu pai. — É cedo ainda, —

Responde o carpinteiro, — agora mesmo

Devo entregar aos anciãos do povo

Esta pesada cruz, e eles não tardam:

— Pois isto é uma cruz? — pergunta a medo

A mais crescida das gentis meninas,

— Que vão fazer da cruz? — Não sabes, louca?

Murmura o torvo hebreu com dúbio riso,

— Na cruz pregam-se os maus, os criminosos,

Os que afrontam a lei. — Assim falando,

Limpa tranquilo o pó do horrendo lenho,

Já bem seguro e forte. — Oh! Deus Eterno!

Exclama a pobre filha, — e por ventura

Vai alguém padecer? — Pois não conheces

O Mestre Nazareno? — O Cristo! O Cristo!

Gritam os lindos anjos do operário.

E Jesus, repelido pelos homens,

Teve as sagradas lágrimas da infância,

A oblação da inocência. — Bem me lembro,

Diz a primeira irmã, sobre a montanha,

Onde ao sol posto descansava sempre,

Um dia me pousou sobre os joelhos,

Deu-me um beijo no rosto. Nesse dia

Ele falou ao povo, me apontando:

— Deixai vir, deixai vir as criancinhas! —

E vai morrer o Cristo! — Então de perto

Um confuso rumor, tropel confuso,

Passos precipitados, altos gritos,

Ameaças cruéis, feias injúrias,

Se fizeram ouvir ao mesmo tempo;

Depois, em uma voz ligou-se tudo:

— A cruz! A cruz! — a multidão bradava.

— Pronta está, respondeu o carpinteiro.

O Salvador chegava acompanhado

Da populaça infrene. — Grão Profeta,

Belo Rei dos Judeus, — preclaro Mestre,

Brada o chefe cruel dos quadrilheiros,

— O teu cetro ali está, somos teus servos,

Toma aos ombros a cruz e nos dirige! —

— Ao Calvário! ao Calvário! ruge o povo.

Então, a turba iníqua e depravada,

Vomitando doestos e impropérios,

Pousou, raivosa, nas espáduas santas,

O madeiro fatal. O grande mártir

Sentiu a luz fugir-lhe, e um suor frio

Correr da fronte lívida e sangrenta,

Vacilou um instante: assim nos ermos

Dobra-se e geme o delicado arbusto,

Quando de árvore antiga um velho galho

Verga e lhe oprime os ramos florescentes;

Assim nas solidões se inclina o cervo,

Quando de funda gruta a pedra solta

Rola, e o dorso lhe curva macerado.

— Ao Calvário! vozeia a rude plebe.

— Ao Calvário! — repete a infame guarda,

E o caminho seguiram do Calvário.

Quando, porém, molesto e vagaroso

Deixava Cristo as portas da cidade,

Judas entrava no Pretório. — Padres!

Anciãos, sacerdotes, que votastes

Minha alma ao fogo eterno da Geena!

Pequei, vendendo o sangue do inocente. —

Disse, elevando a voz áspera e rouca.

— Eis aqui o dinheiro da perfídia,

O preço da traição! Queima-me os dedos

Estas fatais moedas! — Chegas tarde, —

Respondem-lhe os sevos carniceiros,

— Bem devias saber o que fizeste.

Judas não replicou: sobre os ladrilhos

As moedas lançou, que retinindo

Aos pés caíram dos perversos padres.

Pouco tempo depois, no monte, ao longe,

Dos grossos galhos de isolado roble,

Pendia o corpo do judeu maldito,

Horrendo o rosto, esbugalhados olhos,

Saída a língua remordida e negra

Da pavorosa boca! — Erro nefasto!

Expiação do crime pelo crime!

Reparação do mal no desespero!

XIV

Jesus, porém, curvado ao peso enorme

Do tremendo madeiro, imenso peso,

Que era o peso das culpas e delitos

Das gerações perversas que passaram,

Que era o peso do mundo, tardo e lento

Trilhava a longa estrada do Calvário.

As lágrimas corriam copiosas

Pelas faces dos pobres; tantas vezes

Lhes tinha Cristo aliviado as mágoas,

E saciado a fome! Tantas horas

De fundas aflições, de dores cruas,

Como o gênio da paz e da esperança,

Ele havia levado a luz e a calma,

O júbilo e o sossego a seus tugúrios!

Como os amava o Mestre! As criancinhas

Gritavam, soluçando, dos alpendres

Das casas do caminho. — Oh! Santo amigo!

Que sangue é este que te molha o rosto?

Onde essa gente bárbara te arrasta?

Descalças as mulheres, desgrenhadas,

O seio descoberto, os olhos rubros

Do contínuo carpir, atordoavam

Os ares de gemidos. Compassivo

Lhes disse o Redentor com voz pausada:

— Oh! de Jerusalém pálidas filhas!

Não pranteies por mim, que aos paços volvo

De meu divino Pai, mas por vós mesmas

E vossa descendência! Um tempo infausto

Virá em que dirão da terra os povos:

— Venturosa a mulher, cujas entranhas

Fere a esterilidade. Venturosa

Aquela, a cujos peitos infecundos

Ninguém se alimentou! Nesse momento,

Jesus atravessava um passo estreito

Perto de fundo algar, parou sem forças,

Deu um grito de dor, tentou suster-se,

Porém caiu exausto; agudo espinho

Um dos pés doloridos lacrava.

— Levanta-te! bradou soez verdugo,

E brandindo uma vara que trazia

Rijamente o feriu. O Santo Mestre

Três vezes se moveu no estreito espaço,

E três vezes cedendo à dor pungente

Voltou ao duro chão, trêmulo e frio.

— Quem lhe quer dar a mão? — Pergunta o chefe

Da guarda desumana, — o fardo é grande,

O Calvário está longe. — Adiantou-se

Da multidão silente um homem forte,

De espáduas largas, vigoroso colo,

E tisnadas feições; era seu nome

Simão o Cireneu, — calado e sério

Ergueu Cristo pelos frouxos braços,

Pôs-lhe a cruz sobre os ombros contundidos,

E ajudou-o a subir a pétrea senda.

Então dos verdes campos do Ocidente,

Por extensa vereda tortuosa,

Chegavam dois humildes caminheiros;

Vinha na frente um camponês robusto

De franco e nobre aspecto; e não distante,

Poucos passos atrás, mulher singela,

Esbelta, porém triste e descorada

Como saudosa e pálida princesa,

Que pisa aflita as regiões do exílio.

Perto da negra estrada do Calvário

Pararam suspirando. — Estava escrito!

Nesse tempo outra vez caíra o Mártir

Debaixo do madeiro, e a fera guarda

Dizia-lhe cruentos impropérios.

A formosa mulher ergueu os olhos,

Fitou o Salvador, e um grito agudo,

Sinistro como o grito da demência,

Escapou de seus lábios contraídos:

— Meu Filho! — Os duros corações tigrinos

Se abalaram dos Ímpios carniceiros,

Jesus se levantou. Seu belo rosto

Sublime se fizera no martírio.

Pela primeira vez a Virgem Santa

Viu cruzarem-se os fogos do Infinito,

Os supremos clarões da Eternidade

Nas pupilas do justo preeleito!

Os pobres, consternados, exclamaram:

— Esmagai-nos, montanhas escarpadas!

Outeiros pedregosos, escondei-nos!

Quando sucede assim ao lenho verde,

Que destino terá o lenho seco?

XV

Sólio de santo horror, de santa glória!

Pira da Redenção! Altar do mundo!

Calvário soberano! — Quão medonha

Então a luz do sol dourava as balsas

De teu cimo deserto! Quão tardios

Ramalhavam os ventos na espessura

De teus velhos sarçais! — Quão maviosos

Pelas sombras dos álamos carpiam

Os pássaros amigos do silêncio!...

Chegara enfim o séquito de algozes

E a vítima celeste ao termo infausto

Da jornada ominosa. O grande Mestre

Prostrou-se sobre a relva amarelenta,

Nas mãos entorpecidas ocultando

O rosto afogueado, e os tristes olhos

Arrasados de lágrimas ardentes.

Os anjos imortais estremeceram

Junto do trono eterno, e as frontes puras

Inclinaram chorosos. As estrelas

Afrontaram no céu a luz do dia,

O sol abrasador, no espaço imenso,

Um momento parou... e esse momento

Era um evo de dores assombrosas!

— Pobre Rei dos Judeus! — disse um soldado

Contemplando o Senhor com ímpio gesto.

— Vamos te dar um vinho generoso,

Um suave elixir, grato aos sentidos,

Propício ao coração. — Assim dizendo,

Apresenta a Jesus um brônzeo vaso

Cheio de denso líquido, composto

De esverdeado fel, grumosa mirra,

E turvo, acerbo vinho. — Toma e bebe,

Faze ao mundo o teu brinde derradeiro!

Jesus tomou a taça, o justo emblema

Das provações amargas da existência,

Ergueu-a tristemente aos roxos lábios,

E sentindo o licor viscoso e acre,

Longe arrojou-a sobre as duras pedras.

— Companheiros, à obra! — Altivo ordena

O torvo chefe da tartárea turma...

Pulam movidos de secreto fogo

Os levitas da morte, — Cristo assaltam,

Cospem-lhe ao rosto, rasgam-lhe os vestidos,

Arrastam-no sem dó pelos espinhos,

E o deitam sobre a cruz. Torcem cruentos

Do mártir suspiroso os frágeis braços,

E os pés dilacerados; prendem, cerram,

Fazendo entumecer do colo as veias,

A cabeça divina ao vil madeiro!...

Tenebroso painel! Quadro do inferno!

Cena de execração! — Nas férreas garras

Dos escravos da inveja e da mentira,

Volteia horrendo o rápido martelo

Com sinistro fragor, e afunda os cravos

Nos pés e mãos do Filho de Deus Vivo!...

A terra se deprime, o lenho estala,

Rúbidas gotas de fervente sangue

Borbulham das feridas hediondas,

E deslizam em fios purpurinos

Molhando a cruz e a relva da montanha.

Depois, ímpios verdugos, sobre a fronte

Do augusto condenado afixam rindo

Como um sarcasmo atroz este letreiro:

— Jesus de Nazaré Rei dos Judeus. —

Concluídos os lúgubres trabalhos

Erguem a cruz sagrada, e sobre um fosso

Hasteiam-na, de pedras rodeada.

— Se és filho de Deus, vem ter conosco,

Desce de teu madeiro e então creremos

Nas escuras doutrinas que pregaste. —

Assim falam, zombando e escarnecendo,

Feros soldados, fariseus impuros,

Míseros servos dos tiranos padres.

Não bastava o suplício acompanhado

De humilhações cruéis, o torvo gênio

Dos doutores da lei, dos sacerdotes,

Queria a execração além do sangue,

Tinha sede de opróbrio. Alguns momentos

Depois do pavoroso sacrifício,

Mais duas cruzes negras avultavam

Aos lados do Senhor, e dois perversos,

Dois audazes ladrões daquelas terras,

Nelas se retorciam convulsando.

Sublime lei do exemplo! Os magistrados

Não queriam perder tão grato ensejo

De servir a justiça e a humanidade!

— Se és o Filho de Deus, porque padeces?

Perguntou a Jesus um dos bandidos,

— Salva-te, pois, e salva-nos, se podes!

— Nem nas provas cruentas do suplício

Respeitas o Senhor! — açode o outro.

De nossas grandes culpas recebemos

A justa punição; porém, o Cristo

Que falta cometeu? Depois, fitando

Tristemente o Senhor, disse piedoso:

— Oh! lembra-te de mim, quando subires

Ao teu celeste e glorioso Reino!

E Jesus respondeu-lhe: — Não te aflijas,

Afirmo-te, entre as sombras do martírio

Que hoje entrarás também no Paraíso!

XVI

Reclinados, porém, no chão relvoso

Divertiam-se os bárbaros soldados

Entoando canções abomináveis,

E sobre a velha túnica de Cristo

Jogando incertos dados. O mistério

Divino se cumpria. Já três vezes

A sede abrasadora, que acompanha

O suplício da cruz, amargas queixas

Arrancara ao Senhor; mas, os verdugos

Atando à longa vara grossa esponja,

Embebida de fel e de vinagre,

Aos lábios incendidos lhe aplicavam.

Era atroz o martírio. A hora sexta,

Uma celeste luz brilhou nos olhos

Do Redentor do mundo, últimos raios

Do sol na linha extrema do Ocidente;

Convulsivo tremor correu-lhe as fibras,

Uma nuvem pesada e lutulenta

Estendeu-se no céu. À hora nona,

Lançou Cristo um brado angustioso:

— Meu Deus! meu Deus! porque me abandonaste?

Inclinou a cabeça ao frio peito,

Cerrou as roxas pálpebras cansadas,

Deixou de respirar. O santo corpo

Da negra cruz pendia macilento

No sombrio Calvário, — a alma divina

Entrava triunfante e gloriosa

De seu eterno Pai no excelso Império.

XVII

A morte horrenda e trágica de Cristo,

Do Deus, Filho de Deus, assombra o mundo,

Cobre de luto o Firmamento e os mares,

Abala o próprio inferno! O Véu do templo

Rasga-se de alto a baixo, como a névoa

Que o relâmpago etéreo despedaça;

Tinge-se o céu de negro, o sol medroso

Lança um último raio sobre os montes

E mergulha-se frio e descorado

No oceano de trevas, que dominam

A vastidão do espaço. A terra treme,

E solta das entranhas requeimadas

Denso vapor e rubras labaredas.

Secam os rios, partem-se os rochedos,

Abrem-se as sepulturas dos profetas,

E as jazidas dos santos que ressurgem,

E erram chorando pelas ermas praças!...

À tarde um rico e nobre israelita,

José de Arimateia, estrênuo guarda

Da novíssima Lei, sobe ao Calvário,

Manda descer por ordem de Pilatos

O triste corpo do divino Mestre,

Leva-o piedoso à casa onde reside,

Banha-lhe as chagas negras, embalsama-o

Com preciosas, grátulas essências;

Depois o envolve em faixas de alvo linho,

E o deposita com sagrado zelo

No túmulo dos seus, grande jazida

No seio escuro de profunda gruta;

Resguarda a entrada com pesada lousa

E aos lares volta satisfeito e calmo.

Entretanto, a formosa Madalena,

Maria, a meiga esposa de Cleofas,

E outras pias mulheres, largo tempo

Ficaram pranteando, junto às rochas,

Onde jazia o Mestre que adoravam;

Depois se retiraram, e os juízes

Tiranos de Israel, e os sacerdotes,

Temendo que os discípulos de Cristo

Lhe furtassem o corpo às horas mortas,

E dissessem depois que ressurgira,

Perto da feia e lúgubre caverna

Uma guarda puseram vigilante.

XVIII

Três dias e três noites pavorosas

Sobre a lousa do túmulo passaram;

Três dias e três noites de mistério

Os segredos cobriram de além mundo.

A vida e a morte combatiam surdas

No silêncio e nas trevas do sepulcro.

Mas, ao último dia, quando os astros

Desmaiavam na cúpula sidérea,

E os primeiros clarões tíbios e frouxos

De uma sinistra aurora adelgaçavam

As nuvens pardacentas do Oriente,

Um estampido horríssono e medonho

Reboou nas abóbadas sombrias

Da funerária gruta; um vivo fogo,

Um jorro imenso de brilhantes luzes,

Bateu na lisa face do rochedo.

Os quadrilheiros, hirtos, assombrados,

Lívidos de terror, no chão caíram,

De viscoso suor molhando a relva;

Agitaram-se os pássaros das brenhas

E tentavam fugir batendo as asas,

Tíbias e sem vigor! Dois belos anjos,

Radiantes de graças inefáveis,

Desceram das esplendidas alturas,

Afastaram a pedra do sepulcro,

E Cristo apareceu! O grande Cristo!

O Cristo soberano e glorioso,

Filho de Deus e Salvador do mundo!

XIX

O sol dourava os píncaros das serras

Quando as tristes mulheres lacrimosas,

Do Redentor ao túmulo voltaram.

Vendo, porém, caída a negra pedra

Correu aflita a pobre Madalena

A buscar Simão Pedro e seus amigos.

— Levaram do sepulcro o santo Mestre! —

Lhes disse magoada. O velho apóstolo

Dirigiu-se, e mais outro companheiro,

Ao jazigo de Cristo, entraram mudos,

Cheios de devoção e de respeito;

No chão viram as faixas e o sudário,

O sudário, porém, dobrado e limpo,

Longe da sepultura, e a sepultura

Descoberta e vazia! — Amedrontados

Fugiram do jazigo a passos largos.

Fora, entretanto, sobre um velho tronco,

Soluçava a formosa Madalena.

— Porque choras, mulher? — então, da sombra

Perguntou-lhe uma voz melodiosa.

A bela arrependida levantou-se,

Volveu os olhos para a gruta escura,

E divisou dois anjos colocados,

Um do fúnebre leito à cabeceira,

Aos pés o outro, fulgurantes ambos,

Ambos cingidos de lauréis divinos.

— Levaram meu Senhor! — a pobre exclama,

E não sei onde está! — Busca-o mais longe,

Responde um dos sublimes veladores.

Madalena voltou o branco rosto,

E viu de pé na entrada dos rochedos

Tranquilo o Salvador! — Divino Mestre! —

Murmurou jubilosa. — Não me toques.

Procura teus irmãos, procura-os todos,

Dize-lhes que retiro-me do mundo

Para o seio do Padre Onipotente,

Que é meu Senhor e teu! — Jesus ordena.

A pálida mulher se ergueu de um salto,

E rápida correu, levando a nova

Do celeste prodígio aos desgraçados.

À tarde, estando todos reunidos,

Distante da cidade, em pobre albergue,

Ferrolhadas as portas, que medrosos

Dos judeus sanguinários se escondiam,

Ouviram de repente um leve estalo

E o Redentor apareceu, dizendo:

— A paz seja convosco! — Apresentou-lhes

O seio lacerado, as mãos rasgadas,

Depois, volvendo aos céus o pensamento

Repetiu, bafejando-lhes as frontes:

— Recebei o Espírito Divino!

Assim como enviou-me o Padre Eterno,

Assim também ao mundo vos envio! —

Prostraram-se os humildes companheiros,

Quando, porém, se ergueram, no recinto

Não mais estava Cristo! Como um sopro,

Como um floco de névoa matutina,

Rápido e imponderável se afastara!

Tomé estava ausente, e quando os outros

Narraram-lhe o milagre, — duvidoso

Disse, encolhendo os ombros: — Necessário

Fora que eu visse as chagas, que tocasse

Dos cravos os sinais nas mãos feridas

E que apalpasse o peito lacerado.

Então pudera crer. — Passados eram

Oito dias, talvez. De novo, o Mestre

Apareceu entre eles; nesse tempo

Presente estava o companheiro incrédulo.

— Tomé, disse Jesus, — eis-me contigo,

Toma entre as tuas minhas mãos, repara

Em minha fronte lívida e sangrenta,

Põe o dedo em meu seio! Inda duvidas

Que eu tenha ressurgido e seja Cristo? —

— Meu Senhor e meu Deus! — Tomé murmura,

Beijando os pés do Mestre redivivo,

— Meu Senhor e meu Deus! Não me condenes!

— Porque tu viste, acreditaste logo,

E o testemunho de teus olhos frágeis

Antepuseste à glória de meu nome!

Mais felizes, Tomé, os que não viram,

E apesar de não ver, seguros creram. —

Disse, e leve sumiu-se como a sombra

Que a luz da aurora expele dos fraguedos.

Mais uma vez nas margens aprazíveis

Do lago azul dos ermos, onde outrora

Soía meditar nas belas tardes

De calmoso verão, mostrou-se Cristo

A seus, então, sagrados sucessores;

Entre eles repousou, ceou contente,

Sentado sobre a areia, ouvindo as queixas

Das águas buliçosas, e os sussurros

Das virações errantes nas folhagens

Dos frondosos, antigos arvoredos.

Foi, porém, esta vez a derradeira,

Sua missão na terra estava finda.

XX

Entre esplêndidas nuvens purpurinas

Mergulhava-se o sol, e os frescos vales

Abriam seus tesouros de perfumes,

Aos bafejos das auras suspirosas

Que desciam dos montes do Ocidente.

Sobre um risonho outeiro reunidos,

Escutavam os homens do Evangelho

As predições supremas; as sentenças,

E as derradeiras instruções do Mestre.

A sossegada aldeia de Betânia

Se estendia a seus pés, pobre, singela,

Como um plácido ninho de andorinhas

No meio de um vergel. — Pobres amigos!

O Redentor falou, — em vossas almas

Eu plantei as sementes da Verdade.

Não as deixeis morrer, tenham embora

Em vez de orvalho — lágrimas de sangue!

Deus vos dará valor. Eu parto e deixo

Em vossas mãos a sorte do Universo!

Buscai os tristes, procurai os pobres,

E o bálsamo divino da esperança

Nas feridas vertei dos desgraçados.

Voai à zona tórrida e às planícies,

Onde perpétuos gelos se aglomeram;

Ensinai aos mortais as leis do Eterno,

A pureza celeste dos costumes,

O perdão das mais ásperas ofensas!

E em nome do Senhor pregai ao mundo

As mais belas das lúcidas virtudes:

A Esperança, a Fé, e a Caridade! —

Falava o Salvador, seu santo rosto

Fulgurante tornava-se, seus olhos

De inefáveis clarões se iluminavam,

E a túnica mesquinha e desbotada

Da brancura da neve se cobria!

Os amigos prostraram-se embebidos

Em êxtase divino, — o grande Mestre

Sobre eles estendeu as mãos brilhantes,

Volveu aos céus o rosto glorioso,

E deixando de manso a terra e os homens,

Ergueu-se, ergueu-se pelos vastos ares,

Até librar-se no sidéreo espaço

Como longínqua estrela rutilante!...

Por fim perdeu-se além, na imensidade,

Onde não chega o pensamento humano!

Aqui termina a História do Calvário.

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