O tesouro
O THESOUR.O A uns dois kilometros de Nitheroy existe ainda, num recanto de praia, a casa do Angelo, ~oldado invalido, e que alli viveu largo tempo com a neta, a sua .Margarida. Nesses dias de paz, sem receios de accender cobiças, costumava elle dizer, acariciando as cicatt·izes do rosto murcho : Neste mundo ninguem tem um thesouro egual ao meu ... Corno elle fosse pobre, julgavam que alludisse naquelles dizeres á neta, unica pessoa da familia que lhe restava. Realmente, Magarida era tão bôa e tão alegre que só o ouvir-lhe a voz, quando cantava, fazia bem ao coração I lliSTO~-tiA::; DA 1\0S~A TEltRA A casa era pequena, com um pomar á esquerda, a frente para a estrada e os fundos para o mar. Uma noite, dois malfeitores appmximaram-se cautelosamente ela residencia do soldado e quedaram-se á espreita, protegidos pela;; arvores. Por certo · ambicionavam o thesouro do Angelo. Pela janella· aberta viam todo o interior ela salinha pobre, onde alvejava a toalha feita e lavada pelas mãos laboriosas de Margarida. Angelo fumava o seu cachimbo; a moça ia e vinha, preparando o matte e a mesa. Quando acabou, o avô ordenou-lhe : Vem caut.ar os rrieus versos ... Margarida despendurou o violão, e, toda contente, veio sentar-se perto do avô, sem suspeitar que do meio da treva dois bandidos olhavam com avidez par·a a prateleira de um armario sem portas, onde se alinhavam vinte e um saquinhos de panno branco. Aquelles saccos estão cheios de ouro! pensavam entre si os ladrões. O TIIESOURO Entretanto, Margarida cantava : Á sombra das camaúbeims Nasci nas bandas do Norte, E o rigor elo clima ardente Tornou-me um caboclo forte. Casei-me por duas vezes ... Faça o mesmo quem poder : Primeiro com minha Terra Depois com minha mulher. Da primeira fui soldado E da segunda marido ; Não sei qual tenha das duas Com mais extremos querido. Soldado, bati-me sempre Por este Brasil inteiro; Não sei se é do Sul ou Norte Um coração brasileiro. De norte a sul combatendo, Porque a Patria OI'a só uma, Anelei por serras o campos E praias cheias ele espuma. De cada terra em. que estive, Das que este Brasil ericerra, E que defendi com sangue, Trouxe um punhado ele terra. Guard