Antes morrer de fome! Histórias da Nossa Terra · Capítulo 28 de 30
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Antes morrer de fome!

ANTES MOR.R.ER. DE FOME! Em um domingo de Julho passava uma tropa por uma estraua do sertão de Goyaz, quando os tropeiros ouviram gemidos que saíam de um rancho abandonado, coberto Je sapé. Olá! que é isso~ gritaram elles. Sou eu, que morro aqui coberto de feridas e ao desamparo. .. respondeu aJguem, com ,·oz apenas perceptível. Os tropcil·os estacaram, entraram no rancho, e vieam um l1omem que parecia morphetico, deitado sobre um couro secco ele boi, sem travesseiro, no mai~ repugnante e rniseraYel estado. Aterrados, com medo de apanharem tarnbem aquella terriYe] doença, trataram logo ele fugil'; mas não o pocleram fazer tfto depressa que não ouvissem a voz do orphflo Joaquim, menino ele lili IIISTOIUAS IH );O:;SA TERHA doze annos, que ia em sua companhia para Catalão. Joaquim dizia : Vüo indo; eu é que não deixo assim aquelle desgraçado. O que lhes pcr;o é que me deixem um pouco ele café, uma caneca· e assucar ._ .. Os tropeiros parar·am a distan~1ia e exclamaram estupefactos : Esl(ts doido! queres morrer tambem, aqui no meio d'este matto?! Aquella doença pega-se ... féras ~ N ào importa . .E se forem atacados ú noite pelas Paciencia 1 Vem-te embora, menino! Não vou. Vendo os tropeiros IJUe a resolução do rapaz era inabalavel, deram-lhe o que elle pedira e continuaram o seu caminho, resmungando: - « Sua alma, sua palma! " Ficando só com o doente, Joaquim tratou de auxiliai-o. Fez-lhe um colchão de largas e frescas folhas ele inhame, lavoulhe as fel'idas, impr·ovisou um travesseiro onde o desgrar:ado repousou a cabe,:a, matou-lhe a sêde, c accendeu fogo na estt'ada, onde prepat'OU café, que o enfermo tomou soft•egamente. O cot·açilo ele Joaquim enc.hia-se ele piedade por aquella miseria. O homem causava-lhe uma repugnancia lwt·ri\'el, r1ue elle vencia redobrando do solicitude. Quer que eu lhe mude a posição do corpo t Quer agua com assucat' ·1 O homem dizia r1ue sim ou qu0 não, e Jorrquim pt·ocumva salisfazel-o depressa. Dur;wte ns pt·iméiras noites, o menino ni10 adormeceu : além elo euiclnclo, tinha medo! A fi01·esta, que se extenclia muito ncgt'a de um e do Otílro lado da estrada, o barulho soturno elas aguas despenhanclosc dos montes pat'a os valles, o resonar oppresso elo doente, a yue a luz da fogueira clava um aspecto medonho, tudo aquillo fazia tremer o bon i ~simo Joaquim, que nem assim afrouxava ua sua caridade para aqucllo homem clesconheciclo, •tnasi podre, oxtendido na tet'ra como um velho . tmnco carunchoso! Durante o dia, Joaquim car:ava, I" como podia, uma ou outra lebre, ou aYe selvagem. Em pouco tempo, graças ao seus cuidados, o enfermo . parecia outro. As feridas come

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