Londres, 30 de Maio de 1877
Londres, 30 de Maio de 1877
Um jornal satírico de Londres, o Fun, publicava há dias o seguinte anúncio:
DEZ LIBRAS DE RECOMPENSA!!
aos exércitos russo e turco, oferecidas pelos correspondentes dos jornais e repórteres, se os ditos exércitos se comprometerem ao seguinte: travar uma batalha digna de um telegrama.
A monotonia da guerra, com efeito, faz a infelicidade dos correspondentes: eu mesmo estive demorando uns dias esta carta na esperança que os Russos ou Turcos, na Ásia ou no Danúbio, me oferecessem caritativamente algum episódio comovente ou algum feito decisivo. Mas nada!
Os Russos continuam a remeter para o Danúbio uma corrente copiosa e infindável de regimentos: Mas, à parte alguns duelos matinais de artilharia entre as duas margens, a campanha europeia do Danúbio – é como um livro de que apenas se escreveu o título. As pessoas ávidas de emoções e que desejam ter os nervos numa sobre-excitação interessante estão descontentes: a guerra apresenta a sensaboria de uma parada; algumas, mais desconfiadas, receiam um logro e que os diplomatas comecem a tratar da paz antes de os generais terem travado a guerra.
Não se perde por esperar, porém, e eu penso que, antes de pouco, a Turquia oferecerá amplamente motivos de sensações. A situação dos Turcos, com efeito, apresenta-se precária. Na Ásia, no Danúbio, em Constantinopla, por todo o império, aparecem, como as primeiras nódoas num corpo que gangrena, os primeiros indícios da catástrofe.
Na Ásia Menor os Russos prosperam. A tomada de Ardahan compromete consideravelmente a situação dos Turcos. A guarnição de Ardahan era de oito mil homens e parece que a resistência foi débil e ligeiramente covarde. Os Russos, senhores de Ardahan, podem fazer marchar com segurança uma outra coluna de exército sobre Erzerum. Os Turcos aí não podem oferecer uma defesa valiosa; diz-se mesmo que já abandonaram Erzerum e formaram mais para oeste um campo entrincheirado; se assim é, tomada a fortaleza de Kars e ocupada Erzerum, a Arménia está nas mãos dos Russos, e a campanha da Ásia Menor findou. Alguns telegramas de Constantinopla dizem, é verdade, que os Turcos retomaram Ardahan; mas esta notícia foi mandada para Constantinopla por chefes turcos, que dizem tê-la recebido do kamaikan de Daghestan, que declara tê-la recebido do kamaikan de uma outra tribo, que afirma tê-la ouvido dizer a um circassiano! E aqui está o sistema de informações do Ministério da Guerra em Constantinopla! Parece de uma ópera cômica, com música de Offenbach! O movimento de insurreição no Cáucaso com que os Turcos tanto contavam, abortou miseravelmente: algumas tribos circassianas, com efeito, levantaram-se mas sem organização, sem táctica, e em número muito diminuto para embaraçarem seriamente os Russos; o movimento foi facilmente dominado; diz-se que os Russos fizeram nos primeiros dias uma repressão sanguinária e feroz das tribos rebeldes: para assustar as populações faziam passar os revoltosos feitos prisioneiros, através das aldeias, carregados de grilhões, espicaçados pelas lanças dos cossacos e conduzidos como animais ferozes.
A tomada de Sokum Kale pelos turcos, que eles tanto cantaram, é, no fim de tudo, um feito insignificante, inútil e, por assim dizer, platônico. Sokum é uma pequena aldeia marítima, com casebres de pau, deliciosa como situação pitoresca, entre as suas colinas e os seus bosques de laranjeiras, mas inteiramente destituída de qualquer importância estratégica. Nas províncias do Sul da Ásia Menor, as tribos beduínas, inimigas do Turco, começam a mostrar uma agitação inquietadora; têm aparecido em força junto de Jerusalém e em todo o vale do Jordão; os governadores locais pedem reforços para Constantinopla; uma insurreição beduína seria, neste momento; mais uma complicação infeliz, na lista terrível das complicações infelizes da Turquia.
Em Constantinopla, «está-se com a cabeça perdida»: o ministério, a câmara, o sultão, os softas, tudo está numa excitação aguda de desconfiança. O público não confia nem nos generais, nem no ministro da Guerra; diz-se que o ministério, que sabe os podres, não confia no exército, que nem está armado nem equipado, nem preparado, e que a passagem do Danúbio pelos Russos será o começo da catástrofe; o sultão vive num estado de excitação cerebral, tanto mais perigosa que as grandes doenças nervosas são hereditárias na família dos Osmanlis; e, quando soube da queda de Ardahan teve um ataque violento de raiva epiléptica; percorria as salas, dando gritos, rojava-se e dilacerava o fato. Os softas, isto é, a parte inteligente, activa, empreendedora da população, preparam-se, evidentemente; têm feito compras consideráveis de armas, especialmente revólveres; já têm organizado, como devem saber pelo telégrafo, manifestações e esboços de sedições. Isto obrigou o Governo a declarar Constantinopla em estado de sítio: o fim desta medida é sobretudo apreender as armas que os softas têm ultimamente adquirido; mas, num país muçulmano, este fim é difícil de atingir; as armas são guardadas ou nas mesquitas ou nos quartos das mulheres, e como estes dois lugares são para o muçulmano invioláveis a apreensão das armas é impossível. Ora é evidente que a hostilidade dos softas não é só dirigida contra os ministros, mas contra o próprio sultão – de facto contra a dinastia; e, portanto, é fácil de ver que perigo corre a família dos Osmanlis, e com ela o velho regime turco.
A Grécia não podia deixar, no meio de todas as amarguras por que passa a Turquia, de vir ajuntar a sua gota de fel. Em Atenas repetem-se as manifestações belicosas contra a Turquia, e é de crer que o novo Governo, formado de elementos favoráveis à guerra e sob a pressão de um forte sentimento nacional, se lance na contenda e aproveite o grande embaraço turco para ajustar certas contas históricas com a Porta. Assim, por todos os lados, a situação da Turquia se escurece; é este o momento que se escolheu para dar ao sultão um sobrenome dinástico sabem que nome se adoptou? O Vitorioso!
Os Russos, por seu lado, acumulam, no Danúbio uma invasão esmagadora: parece que o
plano é fazer passar o Danúbio, em vários pontos, a todo o exército, e ferir simultaneamente um golpe irresistível. A demora das operações não tem sido causada somente pelas chuvas embaraçosas e pelas inundações teimosas; tem tido a sua razão no desejo de se preparar com elementos tão completos e uma organização tão vigorosa que a campanha não seja depois senão uma série de fáceis vitórias. Estas vitórias, verdade seja, o público russo começa a impacientar-se por as não ver realizadas; e todo o estado-maior e a corte começam também a sentir a necessidade de as não protrair mais; e sabem porquê? Porque os médicos as julgam indispensáveis à saúde do imperador. Desde a sua volta a Sampetersburgo, o imperador Alexandre sofre de uma grande irritabilidade nervosa e de uma espécie de inquietação alucinada, que enche de susto toda a corte. Tem durante todo o dia uma impaciência febril por telegramas; exige que os mais insignificantes detalhes do que se passa no exército lhe sejam telegrafados de minuto a minuto, exprime desconfianças injustas e mostra-se sem razão descontente com a marcha da guerra. Os médicos julgam que só uma boa vitória russa poderá acalmar esta excitação, e não será de admirar que os Russos apressem os seus movimentos, porque (o que não tem nada de estranho num país em que o imperador é tudo, e o resto nada) os planos do estado-maior devem, de ora em diante, ter em vista as receitas dos médicos.
O que eu ainda não pude tirar a claro é qual é o verdadeiro sentimento do povo russo. Alguns correspondentes dizem que a Rússia considera esta guerra como santa, e arde no mais fanático entusiasmo; outros pintam o povo russo como extremamente descontente, indiferente à guerra, e pensando que, quando tudo está por reformar na Rússia, é insensato querer ir fora reformar a Turquia.
Pelo que tenho ouvido a alguns russos, não me parece que o entusiasmo público seja grande. As doações espontâneas para a guerra não significam nada: as que vêm das municipalidades são quase impostas à força pelo Governo, as que vêm dos particulares são um meio astucioso de obter mercês, condecorações e privilégios.
A guerra foi declarada por três motivos: primeiro, para satisfazer as classes militares (tão preponderantes na Rússia), por uma campanha de conquista; segundo, para evitar a bancarrota e salvar as dificuldades financeiras por estes empréstimos feitos em nome da guerra santa; terceiro, porque o Governo turco concedeu uma constituição.
A constituição turca, na verdade, fez uma grande impressão em toda a Rússia: humilhou-a. O Turco, o bárbaro, o infiel tinha uma constituição – essa alta expressão da civilização política – enquanto o Russo, o santo russo, vivia ainda sob o bel-prazer imperial. Toda a nação sentia isto amargamente; por se ter atrevido a dizê-lo, muito encapotadamente, o Golos foi suspenso por dois meses. Um certo estremecimento de independência e liberalismo percorreu todo o império – e o Governo sentiu bem que para distrair a atenção do interior era necessário fazer a guerra. E, com efeito, foi depois da constituição turca que a política russa se mostrou mais teimosa e, sob as suas aparências, mais ávida de conflito.
Não creio, porém, que propriamente na massa do povo russo houvesse um desejo pela guerra: a sua simpatia pelo irmão eslavo, se existe, é muito limitada, ou pelo menos o proletário russo sabe perfeitamente que o eslavo, sob o domínio turco, é mais feliz que ele sob o domínio do czar, e não se julga portanto obrigado a dar-lhe uma grande comiseração.
A burguesia, mais educada e sem grande ardor religioso, não vê na guerra senão uma oneração suplementar de impostos e de despesas. As conquistas e os aumentos territoriais são-lhe indiferentes: como é um zero no Estado, não lhe importa o engrandecimento do Estado.
Julgo, portanto, que se exagera grandemente o entusiasmo russo pela guerra santa. Não falo, naturalmente, no exército; e, todavia, no exército mesmo tem havido aparências de insubordinação: um regimento circassiano foi de repente mandado recolher à Rússia, por mostrar tendências rebeldes. Os regimentos circassianos estavam, diz-se, sob a persuasão de que se iam bater contra os húngaros, não contra os maometanos; quando, porém, viram realmente qual era o inimigo estavam mais dispostos a unir-se a ele que a combatê-lo. Outros atos desagradáveis têm sido praticados no exército russo: assim o comissário-geral dos Fornecimentos acaba de ser fuzilado sem processo. Este funcionário estimável introduziu na farinha tal quantidade de cal – que realmente não era possível deixar de lhe meter algumas balas no peito. Uma certa quantidade de cal na farinha, como uma certa quantidade de paucampeche no vinho – são procedimentos razoáveis, que dão honra, grandes proveitos e ordinariamente uma condecoração. Mas uma tal porção de cal que torna a farinha mais própria para pintar paredes que para fazer pão é realmente abusivo, e o Conselho de Guerra foi apenas justo dando àquele funcionário uma disponibilidade... na eternidade.
Continua-se aqui comentando com grande azedume o golpe de estado de Mac Mahon. Aquele ato importuno, violento, grosseiro na sua forma, tem provocado a reprovação da Europa inteira. É necessário realmente que os juízes sejam bem estreitos, a paixão partidária bem feroz, o bom senso bem pervertido – para que, em plena paz, em plena prosperidade, no meio do mais sábio trabalho de reorganização, se lance gratuitamente uma nação, ainda convalescente, nas agitações da incerteza e nos perigos da revolução.
A imprensa inglesa tem sido cruel para o marechal: debaixo das formas solenes do artigo de fundo inglês, conservadores e liberais dão claramente a entender que o marechal provou não ter nenhuma inteligência e ter muito pouca dignidade. O Economist, há dias, dizia que. «falando verdade o marechal não era inteiramente estúpido»... E esta é a concessão mais lisonjeira que lhe tem sido feita. O marechal, por aquele ato, de que tomou perante a França a responsabilidade exclusiva, preparou a sua queda. De facto, que ele obtenha do Senado a dissolução da câmara, ou que a câmara se dissolva por iniciativa da maioria – em definitivo, quem tem de dizer a última palavras é o país.
O conflito hoje é entre o marechal e o mundo conservador, devoto e aristocrático que ele representa – e a república. A França tem de decidir. Ora se a França, nas últimas eleições, decidiu pela república, porque não há-de agora decidir pela república igualmente? Se alguma mudança houve, foi para maior consolidação do espírito republicano: a república mostrou-se moderada, trabalhadora, iniciadora; sob o seu regi-me a França recuperou-se, pagou, reorganizou-se; o país acostumou-se a ela; o homem do campo, que sempre lhe foi hostil, élhe agora dedicado, vendo a forte riqueza que ela estava criando à França; as classes burguesas aderiram-se a ela, e a França fez-se uma alma republicana. E claro portanto que, sejam quais forem as pressões ministeriais, as eleições novas decidirão pela república contra o marechal. Isto é, mandarão à câmara uma maioria republicana e radical. Dará um xeque ao marechal. E só resta a Mac Mahon demitir-se ou dar um golpe de estado, destruindo a constituição e a república. Um golpe de estado em favor de quem? Em seu favor? Mac Mahon não é da massa de que se fazem os reis e os imperadores. Em favor do conde de Chambord? Mas ele mesmo disse – que no dia em que o conde de Chambord viesse com a sua bandeira branca os chassepots se disparariam por si mesmo. Em favor do filho de Napoleão? Mas podia o marechal contar com o exército para um golpe de estado bonapartista? Não.
Depois da guerra, se parte do exército é ainda, por um resto de hábito e de tradição, bonapartista, a maior parte, a melhor, a mais instruída, a mais moça, é republicana, e tentar uma restauração imperial seria inaugurar a guerra civil. Que lhe restará então senão retirar-se? E a maioria radical da nova câmara poderá então escolher Gambetta.
O marechal, julgando arrancar a França aos radicais, está simplesmente preparando o meio de lha entregar legalmente. En attendant, o primeiro resultado deste ato extraordinário é excitar a desconfiança de todos os governos europeus: cada um vê no novo ministério de Broglie um perigo clerical: a Espanha vê o apoio dado às tentativas carlistas; a Itália vê a organização de uma cruzada a favor do papa; a Alemanha vê a possibilidade de uma guerra de desforra num interesse dinástico. Aversão dentro, desconfiança fora – aí está o que inspira o ministério da reação.
Bons auspícios para começar um governo!
Graves notícias industriais do Norte da Inglaterra. No condado de Northumberland, quinze mil mineiros de carvão declararam-se em greve. Os patrões, em presença da depressão comercial e da estagnação geral das indústrias, vendo que com os salários actuais não poderiam continuar a exploração das minas sem perda, propuseram uma redução de dez por cento no salário dos homens. A proposta foi recusada e – o que é pior e contra a tradição e o costume estabelecido – recusaram-se a sujeitar a disputa ao tribunal de arbitragem. Isto é novo e mostra da parte dos operários um sentimento de hostilidade e de azedume que se não esperava. A greve portanto declarou-se no dia 28. Quinze mil homens em greve representa neste distrito cinquenta mil pessoas sem pão. Os últimos anos têm sido maus, e decerto não têm permitido aos operários fazer economias para esta contingência; por outro lado, os cofres das Uniões estão empobrecidos; os mineiros dos outros distritos carvoeiros, escasso auxílio podem mandar aos seus companheiros de Northumberland; e, se esta greve se demorar, portanto os sofrimentos serão terríveis. Todas as indústrias param com esta resolução fatal: de facto todas dependem do carvão, e esgotada que seja a reserva têm de cessar, de modo que a greve de uma classe produz a falta de trabalho a todas as outras, e são alguns centos de mil pessoas que vão ficar na necessidade e na desconsolação.
Não há novidades literárias – a não ser a usual publicação de novelas. A novela tomou-se em Inglaterra um gênero de comércio – como o chá ou como o tabaco. Lê-se uma novela como se fuma, ou como se bebe uma chávena de chá; centenares de sujeitos, e sobretudo de senhoras, empregam-se na confecção deste produto. O assunto é sempre o mesmo: os embaraços que dois namorados novos, religiosos, patriotas e moralistas encontram na sua união – e por fim resultado feliz pelo casamento ou fatal pela morte. Esta acção passa-se ordinariamente em Inglaterra no primeiro volume, em
Veneza ou em Florença ou em Paris no segundo, e o terceiro é originariamente dedicado à pintura da vida do campo. O estilo é ordinariamente de um tom corredio e monótono como um fio de água morna que sai de uma torneira. Há sempre nestes trabalhos uma grande pretensão à observação e um abuso considerável de frases francesas. Publica-se disto às dúzias por semana.
Os jornais ordinariamente só dão notícia de alguma – que por certas qualidades revela um talento nascente – ou das que são tão extraordinariamente más que a sua exposição interessa como o estudo de um fenômeno curioso. Li uma deste gênero, publicada a semana passada: chama-se Gabriel e Eu. E uma autobiografia. «Gabriel» é um padre e «Eu» é a sua mulher Inês. É ela que conta a sua existência de namorada e de esposa – e tão singular é a acumulação de pieguice, de incongruências, de insensatezes, de sensaborias – que os três volumes tornam-se realmente uma leitura extraordinariamente interessante como estudo de um curioso caso de imbecilidade humana.
Os teatros não dão nada de notável.. Uma companhia francesa representa na Gayty o Ami Fritz, a célebre comédia de Erkmann-Chatrian, que fez antes da sua aparição um escândalo tão feio e teve depois um êxito tão pronunciado. É uma espécie de idílio alsaciano em que se comem imensos jantares, se bebem tonéis de cerveja – e um gordo e glutão bom rapaz ama a casa com uma doce rapariga. Mais nada. Tudo isto entre jardim e pomar, com quadros pitorescos dos costumes alsacianos e representado com aquela fina arte que é o segredo e a glória do Théâtre Français.
É uma peça boa para Paris para descansar os paladares abrasados: depois de peças ardentes de Dumas & Cª, depois de todos os picantes e todos os salgados da opérette – aquele bom amigo Fritz, cheio de bondade, de apetite e de sentimento, repousa e refresca. Mas em Londres – os paladares não estão esquentados, e não necessitam esta calma frescura; pelo contrário: o muito leite que têm bebido faz-lhes desejar alguma coisa que raspe. Por isso o Ami Fritz tem tido apenas um sucesso agradável, enquanto que os Dominós Cor-de-Rosa, que se dão no Criterion, têm um sucesso monstruoso. É picante. E o inglês está-se tornando ávido de picante.
A season continua, como dizem aqui, dull – isto é, faz bocejar. Uma das causas desta monotonia é sem dúvida a ausência e dispersão da família real.
A corte é o centro da season: sem ela o high-life de Londres está como uma vela a que falta o vento.
A princesa de Gales está em Atenas: o príncipe de Edimburgo no Egipto, o duque de Connaught na Irlanda e a rainha na Escócia. A sua partida para a Escócia foi mesmo origem de um artigo do Spectator que me ia matando de espanto. A imprensa inglesa não fala da família real senão de joelhos: imagine-se, pois, o horror, a estranheza, a boca-aberta que me causou o Spectator, dizendo, com uma frieza extraordinária e amarga – que a partida da rainha, para o fundo da Escócia, no momento de uma tão grande crise na Europa era uma alta inconveniência; que o seu primeiro-ministro, cheio de gota e de confiança na sua soberana, era obrigado a fazer todas as semanas uma longa jornada de caminho de ferro para ouvir uma palavra escassa dos reais lábios; e, continuando num tom de fria ironia à inglesa, terminava por dizer que desgraçadamente as pessoas reais julgavam que o que lhes convinha a elas convinha à nação; mas que a verdade era que nada desabitua da realeza como a ausência do rei – e que saber viver sem ver o aspecto do trono é o primeiro passo para a educação republicana! Apanha!
O Spectator, como sabem, é um dos primeiros jornais da Inglaterra.
É esta monotonia da season que obriga os rapazes a inventarem alguma coisa de original e de pitoresco. Dois lordes, menores de vinte e cinco anos, descobriram o seguinte: vestirem-se de padres – e irem, por todas as tabernas do Strand, beber, gritar e dar o espectáculo curioso de dois jovens eclesiásticos ébrios. Esta maneira nova de desacreditar o clero não tinha ainda lembrado aos radicais.
Honra seja aos dois jovens lordes, que inventaram tão delicadamente esta nova táctica revolucionária!