Londres, 10 de Dezembro [de 1877]
Londres, 10 de Dezembro [de 1877]
É impossível começar uma correspondência – é quase impossível começar uma carta particular – sem falar da França. A questão do Oriente está no último plano: apenas a gente se lembra que há algures um país assolado pela guerra, milhares de homens que morrem, guarnições esfomeadas, generais heróicos, cidades tomadas, um czar impossível e um sultão absurdo! O que lembra é a França. Quais são as notícias de França, hoje? – é a pergunta inglesa de antes de almoço.
É da França que se ocupam os literatos políticos nos seus artigos de fundo, os caricaturistas nos seus desenhos, os sacerdotes nos seus sermões e os autores de cançonetas nas suas rimas. Falemos, pois, da França. E em primeiro lugar façamos justiça ao marechal Mac Mahon. Este excelente homem não é culpado em coisa alguma do que se passa, do que se tem passado em França desde 16 de Maio: velho, um pouco reumático, entendendo alguma coisa de soldados e muito de jardinagem, ocupando-se imensamente das suas rosas e dos seus lilases e quase nada do seu país, um pouco apertado de dívidas e cheio de um humor condescendente e amável – o presidente da República não é um carácter, é um cabide.
Um grupo intrigante, fanático, egoísta, glutão de poder imoral, ridículo – se não fosse trágico –, serve-se dele como de um aparelho de pau onde dependura decisões e as suas frases.
Este grupo, que se compõe de padres astutos, de devotos elegantes, de doutrinários de salão, de alguns caducos aristocratas de outras eras e de ajudantes-de-campo crivados de dívidas, cheios de galões e abundantes de facécias, este grupo tem uma ambição decente: possuir a França – para seu uso, em primeiro lugar, e um pouco para uso do papa também. Possuir a França, dispor do seu exército, das suas finanças, de tantos empregos a dar, representá-la diante do mundo, fazer as honras da casa por ocasião da Exposição, ocupar os seus palácios, tratar de mano a mano imperadores e rainhas, entrar na história, ainda que seja com uma chave falsa – é realmente, devemos confessá-lo, muito agradável. E o marechal Mac Mahon, ou antes, o grupo que o inspira e que lhe puxa os cordéis – tem realmente toda a razão em querer guardar aposta.
Somente há uma certa entidade que se opõe a esta amável combinação e que se chama a França republicana: é quase nada: são apenas dez milhões de eleitores. Esta entidade tem a loucura de querer que a França não pertença a um grupo equívoco de batinas, e de saias, mas que se pertença a si mesma. Esta entidade é portanto considerada – no Palácio do Eliseu – como perfeitamente plebeia, impertinente, grosseira e perigosa para os interesses dos bispos e das duquesas.
Que se há-de fazer portanto a esta entidade? Esmagá-la. Como? Dar-lhe um nome feio, chamar-lhe radical, atribuir-lhe intenções criminosas e usar por isso todos os meios de a repelir – pelas eleições ao princípio, pelos tiros depois. Tentou-se primeiro a eleição: a intriga falhou: a entidade temida, a França republicana, voltou mais ameaçadora e mais forte. Que resta portanto? Tentar o tiro. E vamos ter tiros, verão.
Aqui ninguém dúvida que o marechal vai obter uma segunda dissolução; a câmara dos deputados é natural recusar-se a obedecer, e constitui-se em convenção: o marechal manda contra a câmara alguns regimentos: que fará então o povo? Que farão então os soldados?
Esta última questão é grave: qual será a atitude do exército? Terá a obediência passiva e estúpida dos primeiros tempos do império – ou mais educado, mais saido do seio do povo, tendo simpatias republicanas, recusar-se-á a tentar a destruição da república? Esta é a questão: todas as tentativas de compromisso são efêmeras: são episódios: o fundo da discussão é este – a França republicana quer que o marechal saia e o marechal não quer sair. Não quer sair porque se acha bem: a marechala quer fazer aos reis e aos príncipes as honras da Exposição: os padres que o cercam não querem que o triunfo da república inaugure uma política antipapal; o visconde de Harcourt, alma danada (ao que dizem) desta intriga, não quer perder os salões do Eliseu, onde triunfa e onde é leão; o duque de Broglie não quer abdicar da sua influência, oculta ou clara, no Governo da França: ninguém quer sair, todos se acham confortáveis no poder. E, como não podem coabitar com a república, hão-de fazer tudo para que a república saia. Para isso contam com uma espingarda: resta saber se a espingarda lhes rebentará nas mãos.
Os negócios da Turquia vão mal. Os generais a que o sultão concedera o título sonoro de Vitoriosos – começam regularmente a ser vencidos. Muktar Paxá, na Ásia, viu o seu exército destruído; e Osman Paxá, na Europa, teve de entregar Plevna, render-se sem condições, depois de uma luta heróica em que ele foi gravemente ferido. Faltam detalhes deste desastre, mas as suas consequências são terríveis: os Russos podem agora arremessar contra Suleiman, ou contra Mehemet-Ali, o grosso dos exércitos que cercavam Plevna. E aqueles generais acham-se diante dos números superiores de tropas exaltadas pela vitória, com boas comunicações asseguradas, e tendo ganho, numa campanha de cinco ou seis meses, uma experiência militar onde os erros se tornam mais raros. Plevna fez, no entanto, uma defesa admirável: parece que (ao contrário do que diziam os jornais amigos da Turquia, afirmando que as provisões abundavam dentro da cidade) o exército de Osman Paxá morria de fome: o primeiro grito dos soldados rendidos foi pedir pão! Compreende-se que Osman Paxá quisesse fazer uma surtida desesperada: e colhido pela frente e pela retaguarda, sucumbisse numa luta desigual. Quase cem mil homens cercavam Plevna: os reforços aglomerados ultimamente elevavam este número a cento e cinquenta mil. Osman Paxá não devia ter mais do que trinta e cinco a quarenta mil soldados, que as privações, a fome, o desalento, tornavam de pouco uso perante forças bem providas. Agora o caminho para Andrinopla está aberto, ou, pelo menos, os exércitos turcos em campanha não são bastante fortes para se oporem ao grosso do exército russo, logo que ele tenha esse objectivo. Andrinopla pode oferecer uma resistência prolongada: mas os Russos não se demorariam nas operações difíceis de um cerco de Inverno, nem quereriam renovar os assaltos mortíferos que dizimaram as suas forças nas primeiras tentativas contra Plevna: e, portanto, o mais natural é que deixem diante de Andrinopla uma força de observação, que torneiem a cidade e se dirijam a Constantinopla. E aí é que começa uma nova fase da guerra: ou campanha diplomática, ou conflito geral, ou então, a paz! É agora que se vai ver quais são as verdadeiras intenções da Rússia. Se fez a guerra com um fim puramente cristão e libertador, está já, pelas vitórias ganhas, no direito de propor a paz, impondo à Turquia condições que garantam a felicidade das populações eslavas: se porém a virem avançar para Constantinopla, então ela descobre a garra conquistadora, e resta saber o que dirão a Inglaterra e a Áustria.
O acontecimento mais notável da última quinzena, em Londres, foi o casamento do duque de Norfolk, o primeiro fidalgo de Inglaterra, conde-marechal do reino, chefe do partido católico. Toda a alta aristocracia papista assistiu à cerimônia, que foi celebrada na capela dos padres do Oratório, em Brompton, com um esplendor romano. A noiva é Lady Flora Hastings, filha da condessa de London, novamente convertida ao catolicismo; os presentes que recebeu são de uma prodigalidade e de um luxo incomparáveis: entre a profusão de jóias, colares de diamantes, colecções de rubis sem igual, adereços de safiras que levaram anos a colecionar, montes de pérolas inigualáveis, apareceram dois presentes notáveis: um é uma relíquia de um santo, 5. Tomás de Aquino, creio eu; outro é um colar de diamantes e rubis que pertencia a Maria Stuart, e que entrará por herança nas jóias da Casa de Norfolk. A rainha que, nestes casamentos aristocráticos, faz, segundo a antiga tradição, um presente à noiva, desta vez absteve-se. Daqui, grande escândalo. Ordinariamente o presente da rainha é um rico xaile de caxemira: e são tantos os que distribui que parece que em Windsor ou no Palácio de S. James deve haver armazéns subterrâneos atulhados daquele vistoso artigo. Os jornais alegres perguntam todos, com grandes facécias, porque é que no casamento do primeiro nobre de Inglaterra, de um parente de reis, que na corte tem lugar antes dos príncipes, sua majestade não deu ao menos o xaile. Que dê o xaile! Que não se fique com o xaile! – grita a imprensa satírica. Porque é um erro continental supor que a rainha de Inglaterra é cercada de uma tal veneração que a pilhéria não se atreva a transpor as portas do paço. Não: a rainha, como outra qualquer mortal, é (quando isso é justo) criticada, epigramatizada e caricaturada; e nesta ocasião a ocorrência do xaile tem sido objecto da muito grossa jovialidade saxônia.
A verdade é que a rainha ofendeu todo o partido católico; diz-se que a razão da sua abstenção foi o ser Lady Flora uma nova convertida e o detestar a rainha as novas convertidas. Admite as antigas famílias católicas, mas as conversões recentes são-lhe particularmente antipáticas.
Uma condessa muito ilustre e ainda mais bonita, casada com um católico, mostrava tendência ultimamente de «passar para Roma», como aqui se diz. A rainha, na última recepção, chamoua e disse-lhe simplesmente:
– Não há nada pior para uma senhora que abandonar a religião de seus pais.
Foi o bastante: a pobre condessa perdeu toda a veleidade de beijar a chinela do papa; ficou-se no protestantismo por ordem superior. Acho este caso delicioso. Uma devota – morrendo do desejo de ouvir uma boa missa cantada ou de seguir o mês de
Maria – é obrigada a contentar-se com a seca leitura da Bíblia para não desagradarás reais pessoas.
A propósito da religião, ouço dizer, mas não o garanto, que o príncipe Leopoldo, o filho mais novo da rainha, se vai fazer padre. Este moço, de uma natureza e de um temperamento diferente dos irmãos, letrado, um pouco poeta, místico e extremamente doente – daria talvez, nos tempos passados, um daqueles príncipes que edificavam um mosteiro e, na falta de um reino temporal, ali ficavam governando um pequeno povo de monges, escreviam um tratado sobre um meio de expurgar o Demónio e obtinham, pela sua parentela real, uma canonização em Roma.
As façanhas da força muscular repetem-se sob as formas mais inesperadas; depois dos sujeitos que nadam vinte léguas em doze horas; depois dos indivíduos que caminham em volta de um circo quinhentas milhas em três dias, temos agora um novo herói: o homem que valsa seis horas consecutivas. Este maganão é débil, esguio, alourado, frisado, com uns olhinhos vivos, ademanes nervosos e uma voz de grilo. Das seis da tarde à meia-noite, valsa, valsa, valsa, sem respirar mais alto, sem suar, sem se lhe desmanchar o frisado, cansando vinte, trinta, quarenta pares e bebendo, sempre a valsar, caldos pelo bico de um bule. É sublime e odioso. Na primeira hora, o espectáculo é trivial e pouco elegante porque o homem valsa pior que qualquer dançarino; na segunda hora, o facto começa a surpreender; na terceira hora, principia-se a achar extraordinário e não se veem pelos cantos da sala, senão mulheres extenuadas que o maganão esfalfou, valsando, valsando; na quarta hora, o caso torna-se fenomenal, a cabeça anda à roda; na quinta hora, começa-se a ter ódio àquela personagem, que, com um sorriso ameno, gira, torneia, perpassa, delira, sempre à roda, sempre à roda; na sexta hora, a gente começa a ter vontade de matar o mariola: felizmente há policias; mas a impressão é terrível, e vem-se para a rua meio louco, sentindo as casas, os candeeiros, as carruagens, valsar, valsar com um sorriso doce e cabelos frisados. E um espectáculo medonho!
Agora uma notícia triste: o nosso amigo Pongo morreu, o ilustre gorilha. Foram chamados os médicos mais ilustres, mas os seus dias estavam contados pelas Parcas que se ocupam dos macacos.
Pensou-se ao princípio que o clima, a nostalgia, ou talvez o tédio o teriam morto; mas os anatomistas, que o abriram para o estudarem, mostraram que o mal que o destruiu tinha uma causa bem mais natural num macaco: dentro do estômago do ilustre Pongo acharam-se pregos, um pequeno canivete, rolhas, uma luneta, uma luva, um cabo de guarda-sol e outras curiosidades. Este avô da raça humana não tinha da escolha dos seus alimentos nem mais discernimento nem mais dignidade que um qualquer reles macaco de meia moeda o casal. Grande desilusão!