Londres, 1 de Setembro de 1877
Londres, 1 de Setembro de 1877
Há oito dias que dura a batalha de Chipka. Pela tenacidade heróica, é, creio, o maior duelo militar dos tempos modernos. Chipka é uma das passagens, uma das portas abertas naquela grande parede dos Balcãs, que defende a Turquia turca. Não é propriamente um desfiladeiro, como a Porta de Ferro, ou os outros passes; é um vale formado pela interrupção da cordilheira, de quase cem milhas de largura: não um vale plano, docemente cavado e por toda a parte praticável, mas um vale rugoso com colinas ásperas, precipícios, rochas e, a espaços, espessamente arborizado. Foi por ali que o general Gurko passou, há um mês, triunfantemente, na sua marcha para Constantinopla! Essa aventura, tão interessante pelo romanesco como ridícula pela estratégia, falhou; mas os Russos conservaram-se senhores da passagem, e tinham ali uma guarnição de três mil homens, Foi contra esta fraca força, bem entrincheirada todavia, que Suleiman Paxá arremessou todo o seu exército. Os Russos foram logo poderosamente reforçados, e desde então uma luta colérica, desesperada, heróica, redemoinha por todo o vale, sem que os Russos tenham sido desalojados, sem que os Turcos hajam enfraquecido por um momento a violência do ataque! Batem-se com fuzilaria, com artilharia, a baioneta, desde os primeiros clarões da madrugada; e, como as noites são de luar – o claro luar do Sul da Europa –, o duelo não cessa com a noite. Nos primeiros dois dias, as tropas não dormiram, nem cozinharam. Agora os regimentos revezam-se, e como os dois lados estão constantemente recebendo reforços, o combate sustenta-se numa fúria crescente.
Para quê semelhante luta, pergunta-se com espanto. Compreende-se, até certo ponto, porque os Russos defendem Chipka: conquistaram aquela posição, não se querem deixar expulsar sem resistência, é natural; abandoná-la sem luta a Suleiman Paxá era uma prova de desalento, que faria nas tropas russas, já desanimadas, a impressão repetida de uma nova derrota.
Além disso, Chipka domina toda a região de Grabova, onde vivem nas aldeias cristãs alguns milhares de búlgaros; estes interessantes eslavos, quando viram os Russos senhores de Chipka e se julgaram implicitamente vitoriosos, apressaram-se a destruir a população turca pelo processo sumário de queimar os homens em fogueiras, violar as mulheres até à morte e degolar corajosamente as crianças. Ora se os Russos se retiram de Chipka e os Turcos a ocupam, tornando-se senhores da região, é evidente que farão passar aos búlgaros um quarto de hora desagradável, o que, no fundo, é odiosamente justo. Portanto, os Russos, sustentando-se em Chipka, procuram salvar os búlgaros desta temerosa represália; se tanto é que esta consideração humanitária é bastante para explicar a resistência russa.
Mas, os amigos dos Russos explicam-na assim, e e lisonjeiro para a humanidade que essa seja a razão exacta.
Mas porque atacam os Turcos a passagem de Chipka? Que lhes importa que três mil homens ocupem sem utilidade e sem vantagem aquele vale? Se Suleiman Paxá se quer vir juntar do lado de cá dos Balcãs com Osmand Paxá, porque não atravessou por alguma das outras passagens que estão livres, em lugar de escolher justamente aquela que os Russos ocupam? E se não queria deixar atrás de si aquele núcleo de força inimiga, porque não fez cercar as posições russas em lugar de as atacar? Quatro ou cinco mil turcos em redor de Chipka, bem fortificados e ocupando as alturas, seriam bastantes para terem os Russos inúteis e fechados, como pássaros numa gaiola. Mas não; ataca Chipka e perde já perto de vinte mil home_______________________________ns naquela tentativa insensata. Pergunta-se geralmente: porquê?
Eu estou habilitado a dar a minha interpretação; não a garanto, mas foi-me revelada por pessoa que está muito informada da política miúda e das intrigas de Constantinopla. Suleiman Paxá atacou Chipka porque isso lhe foi ordenado pelo sultão. Esta batalha monstruosa, em que já morreram vinte mil turcos, não foi decidida num conselho de guerra, foi resolvida no serralho. Desde que o general Gurko ocupou há um mês Chipka, passando os Balcãs, entrando na Romélia e fazendo pisar assim às tropas russas o solo sagrado da Turquia turca, um terror pueril mas indominável apossou-se do sultão.
Via já os Russos em Constantinopla, os seus palácios do Bósforo saqueados, o serralho disperso e vendido a retalho pelos mercados da Pérsia e da Arábia, ele mesmo talvez prisioneiro na Sibéria. Debalde o corpo diplomático e ministros o tranquilizavam: o seu terror crescia todos os dias, excitado pelo pavor das mulheres. Realmente é difícil que um sultão se conserve a sangue-frio, sentindo em roda de si os gemidos de angústia, os gritos de medo das suas três mil concubinas! Um coro lacrimoso de mulheres soluçantes amolece o temperamento mais resistente. Uma bela manhã o sultão declara que abandonava Constantinopla e que se ia refugiar na Ásia, em Brussa; esta resolução tinha-lhe sido inspirada por Mahmed Paxá, o seu favorito, um intrigante tortuoso e covarde, que domina pelas mulheres e que representa na política turca o verdadeiro elemento asiático – a intriga do serralho. Os ministros, o divan, ficaram aterrados com esta resolução fantástica, e iam empregar talvez meios extremos de coerção, quando a vitória de Plevna, a vitória de Lochta, a vitória do rio Lon, sobretudo a retirada do general Gurko, vieram dar um certo alento ao sultão: desfizeram-se as malas momentaneamente; mas o serralho conservou um terror oculto daqueles três mil ou quatro mil homens que tinham ficado em Chipka, que eram uma ameaça permanente, e com a mão do inimigo ainda estendida para Constantinopla.
À maneira que os dias decorriam e que aquela força se ia mantendo em Chipka, impassível e teimosa, a inquietação no serralho crescia. Chipka tomou-se um pesadelo: aqueles malditos regimentos estabelecidos às portas da Romélia e comendo tranquilamente o seu rancho traziam o palácio numa atroz irritação nervosa. Porque se não iam também? Que faziam ali com os seus olhos azuis de eslavos fitos em Constantinopla?
Por fim, o sultão e o serralho perdiam o sono, o apetite, o gozo tranquilo dos prazeres do amor. Aquilo não podia durar. E uma manhã o sultão escrevia diretamente a Suleiman: que fizesse todos os sacrifícios, abandonasse todos os planos, mas que lhe sacudisse aqueles russos de Chipka, para ele poder, enfim, dormir, comer e saborear os encantos do sentimento. E ai está porque já lá vão vinte mil turcos – para acalmar os nervos do sultão!
Esta batalha de Chipka deu lugar ao maior feito jornalístico de que há memória – o telegrama do correspondente do Daily News, o célebre jornal de Londres.
Este rapaz, porque tem apenas vinte e quatro anos, que se chama Forbes e que já era ilustre por correspondências admiráveis (telegrafadas), sobretudo a que descrevia a passagem do Danúbio e a que contava a batalha de Plevna, logo que soube que havia combate em Chipka e antevendo a importância da luta, partiu do quartel-general russo onde se achava e chegou, a marchas forçadas, a Chipka, no segundo dia de batalha: ali esteve três dias tomando notas e estudando a situação, ora a cavalo, ora nas trincheiras, sempre no meio do fogo, até que adquiriu a noção exacta da contenda; voltou sem descansar, rebentando cavalos, para o quartel-general russo; aí o czar interrogou-o, e foi ele o primeiro a dar detalhes da batalha ao Estado-Maior; e, imediatamente, por meios que ele não revela, mas que constituem toda uma campanha, conseguiu mandar ao Daily News um telegrama de seis colunas e meia (como esta página de Actualidade em letra miúda) descrevendo o combate, e os seus episódios, com um vigor, um colorido, um realismo, que fazem deste telegrama uma maravilha de informação e um primor de literatura. Que diferença dos magros e melancólicos telegramas que a Agência Havas fornece, por grosso, aos jornais de aí. Mas também nós não tiramos, como o Daily News, duzentos mil exemplares por dia!
O processo feito a Gambetta é aqui motivo de um espanto extremo. Há, todavia, na crítica dos jornais ingleses, conservadores e radicais, mais desdém que indignação; o facto é classificado com uma profusão de epítetos infamantes, que se podem resumir neste: disparate idiota.
Como! O Governo processa um homem político por um discurso da mais moderada oposição parlamentar, pronunciado numa reunião particular? Como! Tendo os jornais de França publicado por inteiro ou por extractos esse documento o Governo só processa a Repúblique Française? Como! Na véspera das eleições, quando a sua prudência devia procurar chamar todos os sufrágios, irrita e desespera o país por um ato tão inconstitucional, alienando de si as simpatias mais conservadoras? Como! Querendo aniquilar o radicalismo, dá-lhe as honras de uma perseguição injusta, o que é o mesmo que criar-lhe uma propaganda gratuita? Como! Sendo-lhe indispensável pôr na sombra a influência de Gambetta, procura dar-lhe a maior glória e torná-lo, pelo martírio, quase augusto? Como! Desejando abafar-lhe a voz, dá-lhe ocasião de fazer uma defesa que ecoará em toda a França e em toda a Europa? Mas estão idiotas! O doutrinarismo de M. de Broglie emparveceu-o e o bonapartismo de M. de Fourton ensandeceu-o. Aí está como falam os jornais ingleses.
Não creio porém que estejam na verdade. M. de Broglie e M. de Fourton são tudo menos tolos. Os tolos não são usualmente primeiros-ministros de França. M. de Broglie e M. de Fourton são simplesmente lógicos. Realmente o que pretendem eles? Impor à França um governo militar, ditatorial, despótico, reacionário e clerical, de que Mac Mahon seja o Deus e eles seus profetas.
Mas enquanto houver em França uma coisa que se chama a constituição é forçoso, por mais M. de Broglie que se seja, governar dentro da constituição; pode-se torná-la elástica, interpretá-la com todas as subtilezas maquiavélicas e todas as tortuosidades jesuíticas, alargar-lhe as costuras, torcê-la até quase a quebrar, fazer-lhe espremer as decisões mais absurdas, violá-la mesmo um pouco aqui e acolá, mas há uma coisa que se não pode fazer: é atirá-la para debaixo da mesa, para os papéis sujos!
E enquanto a constituição for a lei da França o Governo não pode ser uma ditadura. Mas como se há-de então suprimir esta constituição atravancadora e impertinente? Por um golpe de estado. E o motivo para um golpe de estado? Há muitos, mas o melhor – é a insurreição. E onde está a insurreição? Provoca-se. E por este declive lógico que o Governo decidiu processar Gambetta. O que se pretende é irritar os republicanos, até lhes fazer perder a cabeça e os levar às barricadas. Para isso, um processo como este de Gambetta, algumas violências mais, uma perseguição sistemática à imprensa, meia dúzia de atos bem inconstitucionais e, pensam os homens ilustres da direita, é impossível que Paris, Lião ou Marselha não saiam para a rua. E então, dada a insurreição, espantada a França, o Governo atira a constituição pelos ares, assume a ditadura para salvar a ordem e fez-se a escamoteação. É este, parece-me, o fim do Governo. Somente, para lograr um francês, não há como outro francês. E o francês tem sobretudo a paixão de lograr o Governo. Os republicanos sentem perfeitamente a que terreno o ministério os quer chamar, e com uma virtude maliciosa conservam-se teimosamente na ordem, embrulham-se na legalidade, abraçam-se sofregamente na constituição. E dá-se o espectáculo curioso de velhos conspiradores, insurrectos de profissão, defendendo com grande pompa e com ardor a ordem, e o ministério, composto de conservadores, fermentando tortuosamente a insurreição.
E se este sistema continuar, o ministério será logrado: pode perseguir, irritar e vexar; os republicanos sorrirão, cumprimentarão e volverão olhos devotos. resignados, para a estátua da lei; e quando chegarem as eleições mandarão, com bonomia, quatro-centos deputados republicanos! E o ministério, não tendo podido vencer pela insurreição e não podendo viver pela legalidade, tem de se dobrar ou de se safar! E aqui está o que é uma alta comédia política.
Esta estação é para tudo, em Inglaterra, um tempo de férias. A gente rica, que é a que faz tudo em Inglaterra, não faz nada neste mês senão caçar, viajar no continente, banhar-se no mar salgado, ou bordejar nos iates.
Não há política, não se escreve, não se inventa, não se intriga. O bem e o mal estão em férias. Londres está absolutamente deserta, isto é, dos seus quatro milhões de habitantes, apenas lhe restam três milhões novecentos e cinquenta mil. Mas justamente os cinquenta mil que faltam é que são Londres; são os políticos, os estadistas, os romancistas, os pintores, os filósofos, os inventores, os elegantes, os cantores, as cocotes e os lordes. O que resta é a vil e escura multidão, que redemoinha na City labutando e traficando. Não conta. Os palácios estão fechados, o parlamento cerrado, as óperas mudas, as galerias desertas, os ateliers abandonados, os clubes solitários, as escolas em férias, a imprensa ociosa, os parques lúgubres, a vida dispersa. Não tenho por isso nenhum livro a criticar, nenhum escândalo a contar, nenhuma obra de arte a celebrar. Nada, nada, nada!
É nesta ociosidade e nesta melancólica escassez que às vezes me entretenho a seguir o novo divertimento que tem por nome os casos difíceis. Este exercício do intelecto, que é feito por meio dos jornais, não os grandes jornais políticos e literários mas os pequenos jornais de escândalo, de mexerico, de pilhéria, ou de curiosidade, este divertimento, digo, consiste no seguinte: o jornal propõe aos seus leitores a solução de um caso difícil da vida e na semana seguinte publica a resposta obtida. É muito interessante ler estas opiniões, que formam positivamente um guia social nas dificuldades humanas. Assim, por exemplo, há dias um destes, o Vanity, propunha o seguinte caso:
Miss A. recebe no mesmo dia duas propostas de casamento: uma de João, que ela ama e que é pobre, outra de Paulo, que ela não ama e que é muito rico, bastante agradável e simpático, e por quem ela tem uma estima completa. Que deve fazer Miss A.?
Vamos lá, qual é a opinião dos leitores da Actualidade? Hem?
Querem saber a opinião em Inglaterra?
O jornal fez a pergunta a semana passada, sábado. Pois bem: imediatamente, de todos os pontos de Inglaterra, das vilas e das cidades, de nobres e de plebeus, pelo telégrafo e pelo correio, vieram centenares, milhares, dezenas de milhares de respostas! E todas a mesma. Qual? Esta:
«Que case com Paulo e que se arranje depois com João!»
O Diabo, no inferno, deu uivos de prazer com esta decisão tão unânime.
Outro jornal apresentava há dias um caso difícil, que eu proponho igualmente aos leitores da Actualidade, pedindo que enviem ao jornal as suas respostas e suplicando à redacção que as publique integralmente.
É um caso interessante, que nos pode acontecer a todos, e de uma solução difícil. Eu modifico-o um pouco, porque tal como aparece no jornal inglês não seria bem compreendido em Portugal. Ei-lo:
A. convida para jantar na sua casa de rapaz solteiro o amigo João e o amigo Pedro, para as seis horas. As seis horas menos um quarto o amigo João chega e conta a A. que nessa manhã teve uma questão seriíssima com o amigo Pedro, que a honra não lhes permite uma reconciliação e que, se se encontrarem, é para se dilacerarem. Neste momento dão seis horas e entra o amigo Pedro. Que deve fazer o infeliz A.?
P. S. – Um amigo meu que se interessa vivamente pelos casos difíceis corre, neste momento, todo alvoroçado, a comunicar-me uma resposta, uma nova solução dada ao caso de Miss A.
É tão profunda, tão profundamente moderna, que a transcrevo integralmente:
«Se Miss A. ama João, que é pobre, e é amada por Paulo, que é rico (reparem bem!) – case com João e entenda-se depois com Paulo!»
Esta resposta, que vem num jornal muito elegante de Londres, é das coisas mais hábeis que tenho lido nos meus tenros anos! Sobretudo se se reparar na observação que a acompanha, e que reza assim:
«Porque aconselhar Miss A. a que case com Paulo e que se arranje com João é completamente pueril.» Pueril, é sublime!