Londres, 15 de Agosto de 1877 Crônicas de Londres · Capítulo 6 de 15
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Londres, 15 de Agosto de 1877

Londres, 15 de Agosto de 1877

Devo dar nesta correspondência, como fez a rainha no discurso de encerramento das câmaras, o lugar proeminente à preocupação do dia – a fome na Índia. Uma calamidade, a maior decerto por que tem passado a Índia desde que a Inglaterra a governa e que pode arrastar graves consequências políticas, ameaça o vasto território da presidência de Madras. Dezoito milhões de habitantes têm fome!

O ano passado as colheitas da Índia do Sul falharam, mas então os celeiros estavam bem providos, a população tinha economias, o gado de transporte abundava, o tesouro do Governo não se esvaziava e a catástrofe combateu-se com vantagem; depois, calculava-se que a colheita deste ano seria imensa, e a escassez de que se sofria seria compensada» pela abundância de que se ia gozar. Quando viesse a monção do sudoeste, a chuva cairia, a colheita seria rica, podia-se esperar!

Sucede, porém, que a monção falha, a chuva não vem, a colheita perde-se e a fome declarase. A grande fome é sucedida por uma fome maior, e diante da calamidade os celeiros achamse vazios, as economias da população exaustas, o tesouro do Governo gasto e a esperança perdida. E o que é mais: o ano de sofrimento, com uma alimentação escassa, enfraqueceu a população moralmente e fisicamente; a nova fome encontra os corpos alquebrados e as almas sucumbidas. Isto explica porque já têm morrido nas primeiras semanas de escassez quinhentas mil pessoas!

A presidência de Madras é um vasto território cheio de aldeias: o número dos proletários, dos que não têm nenhuma espécie de propriedade, sobe a cinco milhões: esta parte da população é a primeira, naturalmente, a sucumbir à necessidade. Os que possuem, isto é, os que têm uma pouca de terra ou gado, poderão durante algum tempo fazer face à escassez, sobretudo vendendo as suas jóias, que são na Índia o emprego natural das economias; mas, findo este recurso, morto todo o gado pela falta de pastos, tendo os preços duplicado – estes doze milhões de homens ficam no mesmo estado de miséria que os cinco milhões de proletários, e toda a população, ou tem de ser sustentada pelo Governo ou de morrer irremediavelmente. Mas pode o Governo realmente alimentar dezoito milhões de habitantes com cereal importado? E como há-de transportá-lo para o interior de um território largo como três ou quatro vezes Portugal»? Não há caminhos de ferro, quase todo o transporte é feito em carros de bois, mas, se os homens morrem por falta de pão, os bois estão morrendo rapidamente por falta de pastos. Os transportes escasseiam como o alimento. De sorte que, em certas partes mais retiradas do território, a população – dizem os jornais – tem «fatalmente de ser abandonada à fome». Isto é horrível.

As descrições que começam a chegar do aspecto do distrito fazem estremecer: a perder de vista, a terra seca, exausta, tem uma cor quase negra; não se descobre nenhuma verdura. A água dos poços, salobra e infecta, dá doenças terríveis aos que a bebem. Só se vê gente lívida, de uma magreza de esqueleto, com o tremor da febre, em andrajos. O colmo, que forma os tectos das casas, foi por toda a parte tirado para substituir a forragem do gado de todos os pontos. Milhares e milhares de pessoas vêm emigrando acossadas pela fome, implorando desesperadamente socorro dos empregados do Governo. E começa a aparecer uma doença própria da fome, que é a formação de pústulas na pele!

Nesta crise o governador do estado, o duque de Buckingham, presidiu a um grande meeting em Madras, onde se resolveu pedir auxílio à Inglaterra; a organização administrativa, que obriga cada estado da Índia a prover às suas próprias necessidades, não pode ser respeitada nesta desgraça. E necessário recorrer ao resto da Índia, à Inglaterra, a todo o vasto Império Britânico, e, se for necessário, estender a mão à caridade do mundo»

É justo dizer-se que a imprensa inglesa pede com grande energia que todos os recursos da Inglaterra sejam postos em acção para fornecimento rápido de alimento, ainda que se gastem milhões. Reclama-se que se encham de cereal os depósitos; que se estabeleçam caminhos de ferro de campanha, para levar socorro aos pontos mais remotos; que se formem serviços de transporte de carros puxados por homens; que se promova um vasto sistema de poços artesianos; que se levantem grandes acampamentos-asilos – onde os esfomeados recebam rações; que se inste fortemente com a caridade de todo o império – e, enfim, que se faça tudo o que pode dar o dinheiro! Se a calamidade se pode combater com libras esterlinas, diz-se que se empenhe a luta. Libras esterlinas não faltam!

E que me dizem à campanha do Danúbio? Positivamente, os Turcos são um povo de surpresas. Há dois meses, entusiastas da Rússia diziam-nos: «Vão ver, vão ver, o que é uma guerra rápida e uma lição tremenda! A Rússia vai mandar dois exércitos: um à Ásia, outro ao Danúbio; um conquista a Arménia, outra entra em Constantinopla; e o Império Otomano esfarela-se como um torrão seco!»

E os melhores amigos da Turquia calavam-se, receando bem que esta profecia atrevida se realizasse em quatro semanas...

Com efeito, uma invasão preparada, de há muito apregoada, ornada de proclamações e coberta de bênçãos, começa a mover-se e, como um rio que se bifurca, corre de um lado sobre a Ásia, do outro sobre o Danúbio. E a profecia começa sinistramente a realizar-se! Em quatro semanas o exército russo, com uma tranquilidade de parada e, por assim dizer, a divertir-se, quase que conquista a Arménia. E os entusiastas da Rússia a gritar logo: «Que lhes dizíamos nós? Lá devorámos a Arménia.»

As igrejas de Sampetersburgo ressoavam de te Deum, e o czar começava a fazer a lista dos funcionários que deviam ir administrar a nova conquista e levar às populações armênias as doçuras da tirania russa.

De repente, zás! Sem se saber como, de manhã para a noite, Muktar Paxá aparece – e os Russos vitoriosos, os Russos conquistadores, começam a recuar, a perder terreno, a abandonar posições, a levantar os cercos começados; a retirada transforma-se em debandada; Muktar Paxá, sempre, sem se saber muito bem como, vai-os levando, de derrota em derrota, até os sacudir, com o sabre sobre a ilharga, para lá da fronteira persa! E a Arménia estava livre!

Os entusiastas da Rússia mordiam um pouco o beiço; mas, com o seu aplomb ordinário, recomeçavam: «É verdade, é uma derrota. Mas também, a falar verdade, nós não queríamos a Arménia para nada. A campanha da Arménia era uma diversão. O verdadeiro fim, o objecto da guerra é Constantinopla. A verdadeira luta é aqui no Danúbio, na Bulgária. Vão ver. Vão ver como em duas semanas nós estamos em Constantinopla!»

E os apaixonados da Turquia, ainda os mais ingênuos, pensavam com terror que era bem possível que assim fosse. A Turquia estava tão pobre! O seu exército tão mal comandado! A sua administração tão corrupta! O seu armamento tão incompleto! A sua vitalidade tão debilitada!... Com efeito, a Rússia põe-se em movimento, e a nova profecia começa a ter uma realização maravilhosa. Em duas semanas os Russos atravessam o Danúbio, estabelecem-se na Bulgária, dirigem-se para os Balcãs, passam os Balcãs como numa mágica e começam a preparar a marcha triunfal sobre Constantinopla. «Que lhes dizíamos nós?», exclamam os russófilos. «Lá vão eles. Além de amanhã, o estandarte russo flutuará em Santa Sofia!»

Sampetersburgo recomeçava os seus te Deum, o czar reescrevia as suas listas de funcionários, a Europa estremecia. Pensava-se em intervir. Positivamente, santo Deus!, o fim da Turquia chegou!... A Áustria, assustada com o novo vizinho que se instala, começa a mobilizar: a Inglaterra manda três mil homens para Malta e fala em ocupar Galípoli: a Grécia agita-se, como um abutre que esvoaça sobre um ferido que vai morrer, e o sultão faz à pressa as suas malas, para passar para a Ásia, de volta aos lugares originários da sua raça – com o Alcorão, o serralho, o estandarte do Profeta e o seu cozinheiro francês!

De repente, sem se saber como também, os Russos sofrem o desastre medonho de Plevna; no dia seguinte, são batidos em Lotcha; no outro dia, em Osman Bazar. Osman Paxá acossaos contra o Danúbio; o general Gurko, que passava os Balcãs, é derrotado; o exército que ocupava a Bulgária tem de evacuar aos pedaços; cercos importantes são levantados, campos formidáveis desfeitos. E o que se tinha passado na Arménia repetiu-se no Danúbio! A invasão que falhou na Ásia, falhou na Europa! Sampetersburgo engole os seus te Deum, o czar rasga as listas, a Áustria respira e desmobiliza, o sultão desfaz as malas – e os Turcos, espantados, olhando em roda de si, acham-se vitoriosos na Ásia e na Europa!

A que se deve esta prodigiosa aventura? A muitas causas, creio eu. Mas a primeira, a principal, a causa-mãe, é que os Russos desprezaram os Turcos de mais: não lhes supunham – nem coragem, nem estratégia, nem armamento, nem dinheiro, nem atividade, nem dedicação. Entenderam que um punhado de russos podia ir e comer províncias como bagos de uvas. Portanto mandavam forças incompletas, dividiam-nas, dispersavam-nas, iam para diante, à tonta, com uma bravura de guerrilha e uma imprudência de estudantes quando de repente se encontraram diante de exércitos mais numerosos, com generais mais hábeis, planos mais definidos; o resultado é a derrota!

Acresce a isto que no exército russo tudo é mau, excepto o soldado e a arma. Os generais são estúpidos, a administração é corrupta. Quando o soldado se bate, é sacrificado pela inépcia dos chefes, quando se não bate, é esfomeado pela fraude do comissariado. O que se conta dos planos dos grão-duques que comandam é tão atroz como o que se diz dos administradores que fornecem. O desastre de Plevna é um erro idiota do grão-duque: mandar milhares de soldados atacar posições elevadas, entrincheiradas, ocupadas por artilharia e por um número superior de gente – é o mesmo que condenar soldados à morte em conselho de guerra. Por outro lado, deixá-los um e dois dias sem ração, sem água, ou com mantimentos podres e água insalubre, sem tendas e sem provisões – e o mesmo que espalhar voluntariamente num exército os germes de uma epidemia. Em qualquer dos casos, é crime!

O que perdeu a Rússia, nesta campanha de quatro meses, foi o excesso impaciente de ambição: quiseram fazer ao mesmo tempo muitas coisas brilhantes: atravessar o Danúbio, cercar Rustchuk, invadir a Bulgária, passar os Balcãs, investir Sistova. Para todas estas empresas tiveram que dividir o exército, fracioná-lo, enfraquecê-lo. Em lugar de conservar na mão um grosso cacete sólido, desfizeram-no numas poucas de frágeis bandines.

Os Turcos, bons estratégicos, reuniram fortes massas e foram quebrando e destruindo uma a uma estas forças dispersas. Os Russos, reconhecendo agora o seu erro, concentram-se no Danúbio e preparam-se para uma acção mais concreta. Mas e tarde: o Inverno adianta-se, e esta campanha de Verão, com os sacrifícios que custou, os milhões que absorveu, as vidas que destruiu – está perdida: é como uma bola de sabão quebrada, que produz nada, nada, nada!

De quem é a culpa? Do regime russo, incontestavelmente do absolutismo. Num país em que nada depende do mérito e tudo depende da posição do nascimento, o resultado é este: em lugar de dar o comando a um estratégico, dá-se a um grão-duque idiota, porque é grão-duque; em lugar de confiar a administração a uma inteligência, confia-se a um príncipe, porque é príncipe. O grão-duque é batido sempre e o príncipe desorganiza tudo. É lógico. E todos os correspondentes ingleses, os mais hábeis, os mais experientes de coisas militares, são acordes em dizer que, se a administração militar continua nas mesmas mãos inábeis e se os planos da campanha continuam a ser feitos pelos grão-duques, a Rússia pode sofrer a desfeita histórica de ser posta fora dos domínios turcos, à coronhada!

Em Sampetersburgo começa-se a murmurar com muito despeito da direcção da campanha. E é bem possível que um desastre militar fosse a origem de uma transformação social. O Russo é já bastante instruído para saber perfeitamente que vive sob um regime odioso. As conspirações repetidas que, de tempos a tempos, vêm abortar nas mãos da Polícia são as explosões impacientes e extemporâneas de um forte sentimento, que trabalha surdamente a massa da nação. Esta guerra actual foi considerada sem entusiasmo: viam-se muito bem os sacrifícios que ela custava, sem se ter uma grande fé nas vantagens que ela traria.

Mas, depois de começada, naturalmente, o grande orgulho nacional exaltou-se e interessouse. Se a Rússia agora se visse derrotada pelo Turco, isto é, pelo seu inimigo de raça e de religião, pelo desprezado Turco, atribuiria logo a derrota aos erros do Governo e aos vícios do regime, e uma grande revolução seria provável.

Não é de espantar que o mesmo exército concorresse para essa revolução. O exército conhece as suas altas qualidades e está descontente pela má direcção que o leva aos desastres» Além disso, para a multidão de oficiais, moços, entusiastas, instruídos, apaixonados de ideias modernas, esta campanha é um complemento de educação liberal.

Em primeiro lugar, acostumam-se a ver de perto os vícios da administração. As falsificações dos comissariados, a vergonhosa qualidade das rações, a insuficiência dos socorros sanitários, a desorganização das ambulâncias, das pagadorias, de tudo; os hospitais apinhados, a imbecilidade visível dos generais – não são condições favoráveis para aumentar o respeito pelo regime autocrático. Além disso, o país em que operam é um ninho de republicanos, de socialistas, de descontentes. Belgrado, Bucareste, etc.», fervilham de espíritos revolucionários: o contacto com esse mundo, com a multidão de correspondentes, de jornalistas, a leitura mais assídua dos periódicos, etc., são outras tantas ocasiões de fazer no espírito dessa mocidade militar um lento trabalho de oposição ao regime que os governa tão mal! E esta classe enérgica voltaria à Rússia cheia de esperanças de emancipações e de ideias de democracia.

Talvez as pessoas que me lêem creiam que isto são hipóteses fantasmagóricas. Pois bem, que me expliquem então este facto, que vários correspondentes ingleses testemunham. Há semanas dava-se num teatro de Bucareste uma representação a que assistiu grande número de oficiais. Uma actriz francesa tinha que dizer uma canção num dos atos da peça: no momento em que a orquestra preludiava e ela ia gorjear o seu couplet, uma voz gritou:

– A Marselhesa. A Marselhesa!

E imediatamente, numerosos oficiais russos, fardados, esqueceram-se, gritando com frenesi:

– A Marselhesa, A Marselhesa!

Ora justamente, A Marselhesa é proibida em Bucareste. Grande embaraço nos bastidores. A mocidade militar berrava, uivava, gania:

– A Marselhesa, A Marselhesa!

Alguns bancos começavam a perder os pés e as travessas. O chefe da orquestra, assustado, fez um sinal: A Marselhesa rompeu, a actriz segue cantando com grande vigor e os oficiais, delirantes, fazem uma ovação à cantora–e à cantiga!

No outro dia o teatro foi fechado a pedido do grão-duque Nicolau!

As câmaras encerraram-se sem ter feito nada de glorioso: e, a respeito de câmaras e de constitucionalismo, deixem-me contar-lhes o caso da eleição de Lord Burghley, que é um exemplo curioso do valor que tem em Inglaterra a representação parlamentar. E mais uma ilusão a perder sobre esta pobre Inglaterra!

O circulo de Northamptonshire fica vago pela morte do ministro da Marinha, Mr. Ward Hunt. No círculo, um dos grandes personagens é o marquês de Exeter – o qual, nesta circunstância, tratou de fazer nomear, segundo a tradição das velhas famílias inglesas, seu filho primogênito, Lord Burghley. Os influentes do circulo (os influentes conservadores, naturalmente) aplaudiram a escolha: não trataram de saber se Lord Burghley tinha aptidões, prática ou conhecimento qualquer das coisas públicas; era um lorde, filho de um pai conservador, rico, deveria possuir um dia grandes propriedades no circulo, podia votar – era o que bastava! Quer, porém, a etiqueta eleitoral que o candidato faça um discurso de profissão de fé aos seus eleitores nas vésperas de eleição. Sucede tambén que Lord Burghley é um rapaz de vinte e oito anos, foi militar e até agora a sua ocupação tem sido valsar, folgar, caçar e cumprir os deveres gentis de um janota de Londres.

Podia-se, pois, recear que o seu discurso aos eleitores não tivesse nem uma grande altura política, nem um grande valor oratório: mas, realmente, não se supunha que o mancebo pudesse juntar numa oração de um quarto de hora tantas coisas singulares. Começou este moço por dizer – «que realmente não entendia nada, mas absolutamente nada, a respeito de política! Que os seus princípios não importavam também, porque os que lhe queriam bem votariam por ele, sem fazer caso dos princípios!» Depois deste exórdio, o candidato deu a sua opinião a respeito da questão do Oriente, e exprimiu-se assim: «Enquanto à questão do Oriente e se a Inglaterra deve fazer guerra, parece-me que a maior parte dos que me escutam têm amigos no exército e não gostariam de saber que esses amigos tinham tido os narizes rachados, ou as orelhas cortadas; por mim», exclamou, «se há uma coisa a que eu ponha objecção é a que me esborrachem o nariz ou que me cortem as orelhas»» Que lhes parece»? Mas aí vai o melhor: Um eleitor então fez-lhe várias perguntas a respeito das suas ideias sobre a administração local: o nobre lorde fitou-o e respondeu atônito: «Administração local»? É a primeira vez que ouço falar em semelhante coisa!» Gargalhada estridente. O mancebo enfurece-se e grita «que não tem obrigação de saber nada a respeito dessa trapalhada, porque foi tomado de surpresa nesta eleição e só teve um dia para decorar alguma coisa!» – Basta! Basta! – gritaram alguns.

– Também me parece que basta, porque realmente estou farto da maçada! – exclamou o elegante lorde»

No dia seguinte, os influentes do círculo publicaram a seguinte extraordinária declaração, de que dou um resumo:

«Que sentiam muito ter aconselhado Lord Burghley a fazer um discurso, porque, tendo sua senhoria tido muito pouco tempo para se preparar para discussões políticas, não pudera responder decentemente às perguntas que lhe tinham sido dirigidas pelos principais eleitores. Mas que afirmavam que sua senhoria daria um excelente deputado!».

Isto parece fantástico.

Os amigos do candidato liberal estavam radiosos; era impossível que depois daquele discurso, em que Lord Burghley se declarou, ingenuamente, idiota, sua senhoria tivesse um voto, não contando com o seu! Não se podia realmente supor que um dos círculos mais ricos, mais importantes, mais progressivos da Inglaterra, que até aí fora representado pela alta capacidade de Mr. Ward Hunt, o ministro da Marinha, mandasse ao parlamento um sujeito – que «nunca ouviu falar de semelhante coisa», referindo-se à administração local. Pois bem: dada a votação, verificou-se que Lord Burghley era deputado por uma maioria de mil e quinhentos votos! Os jornais dizem, com razão, que isto faz desesperar de tudo. Porque enfim que razão tiveram para preferir aquele estúrdio imbecil ao seu opositor, um homem instruído, digno, com uma educação política e uma prática administrativa? A razão decrépita, obsoleta, feudal – de que Lord

Burghley é um lorde, filho de lorde, da antiga família Cecil, milionário, proprietário... e foram levados pelo prejuízo tradicional, que lhes fez admirar, venerar, servir e preferir a tudo aquela família ilustre que reina no condado e que lhes faz a honra de lhes aceitar uma renda enorme em troco da licença que lhes outorga de lavrarem a terra e de lhe mandarem as melhores frutas ao castelo!... Que o lorde seja estúpido, infame, devasso, que importa»? É o lorde. Como tal, é ele que deve administrar, ser deputado, general e almirante.». E quando se lhe fala em administração local, nada mais natural que ele encolha os ombros e declare que nunca ouviu falar em semelhante coisa!... Também não tem obrigação».

É o lorde!

Um processo instaurado contra três agentes de policia, implicados numa grande fraude financeira e acusados de terem feito escapar um certo número de falsários notáveis, tem chamado as atenções críticas para a organização da polícia inglesa. E reconhece-se com melancolia que, neste ponto, a Inglaterra está muito abaixo, como sistema e como pessoal, das nações continentais.

Os agentes da policia (detectives) são decerto suficientes, como estratégia e como finura para capturar o ladrão vulgar, bronco e assustado, que abre com chave falsa uma porta traseira ou vasculha as algibeiras de um sujeito distraído: mas desde que se trata de um criminoso astuto, com meios, vastas relações, inventivo e expedito, o detective actual é invariavelmente logrado. Isto provém de que são escolhidos sem educação. A policia é uma ciência que devia ter a sua aprendizagem, os seus compêndios, a sua prática. Mas aqui tudo o que se exige num detective é que ele conheça bem Londres e que tenha uma certa coragem; ora os grandes ladrões conhecem Londres ainda melhor e são, por profissão, mais destemidos! O perigo dálhes a invenção, a ideia, a faísca; e enquanto o detective vai farejando e seguindo antiquados e rotineiros meios de caça (que os criminosos sabem de cor e que evitam a rir) o pássaro desaparece. Em França, na Áustria, na Itália, a polícia é composta de homens que recebem na prefeitura uma educação demorada, que trabalham ao principio sob a direcção de chefes hábeis e que se vão assim iniciando lentamente nas tácticas, nas regras, nos segredos, nas invenções recentes da profissão: ganham deste modo um tacto, um hábito de expediente rápido, um faro, um espírito de intriga e de enredo, uma percepção repentina, um talento inventivo, que os tornam temíveis.

Enquanto ao polícia ordinário, o policeman, que vigia a rua, pode dizer-se que em Inglaterra, pouco a pouco, um sistema errado tem-nos tornado inúteis para tudo que não seja policiar o movimento das ruas, dar indicações a quem não conhece a cidade e acompanhar os bêbados mais sonolentos. Não se lhes peça mais nada. Isto provém de que ultimamente todos os comissários e chefes de policia são antigos oficiais do exército; e o seu primeiro cuidado é, por consequência, com o hábito do regimento, dar à força policial. à sua disposição, um aspecto militar» Escolhem os homens não pela sua aptidão, mas pela sua estatura. Contanto que sejam enormes, barbados, de movimentos secos, direitos como um poste e agranadeirados, não se lhes reclama mais nada» Fardam-nos, ensinam-lhes a marchar com tesura e entregamlhes a proteção da cidade. Isto explica porque se vê a cada esquina de Londres um policeman colossal, hercúleo, imóvel, rolando em roda olhares severos, e na esquina oposta, risonho, um pickpocket – é que se procurou um tambor-mor e não um hábil.

Os comissários têm orgulho nestas colecções de corpanzis, fazem manobras a desfilar a dois de fundo, e no entanto o cidadão é roubado e assassinado com um doce sossego de facínora. É que estes gigantes são ordinariamente estúpidos, como todos os gigantes. Naquela imensa massa de músculos e osso, há lá no alto, num canto, um bocadinho de miolos, bastante para que ele saiba distinguir o nome das ruas. De resto, força de braço, sério! Se se trata de levantas um bêbado, bem! Agarram nele, como numa pele, metem-no debaixo do braço e vão a marche-marche; mas se se trata de descobrir um crime, boas noites! O gigante, a quem se pede um esforço do intelecto, arregala os olhos e baba-se!

O herdeiro presuntivo do herdeiro presuntivo, isto é, o filho mais velho do príncipe de Gales, está perigosamente doente há semanas, com uma febre tifóide. Recentemente uma recaída tem-no colocado em perigo. O que me espanta é a indiferença gelada que o público inglês, sempre tão sôfrego de fazer espalhafato com o seu amor à dinastia, tem mostrado por esta infeliz criança. Nem uma linha oratória nos jornais, nem uma expressão dedicada de simpatia, nada! Apenas, nas notícias da corte, as quatro palavras secas que o declaram mal. Não me espanta menos ler logo, mais abaixo, nessas notícias, as caçadas, os jantares, as corridas de que o príncipe de Gales é o centro glorioso: enfim, a realeza tem certas escravidões de etiqueta, que não deixa tempo aos deveres da paternidade, ou às inquietações do sentimento. Mas porque é que, na ocasião em que o príncipe está pior, a princesa de Gales, sua mãe, uma senhora de tão altas virtudes, um carácter tão nobre, tão dedicado, vai para o Teatro do Criterion ouvir as pilhérias de uma farsa picante – os Dominós Cor-de-Rosa. Decerto não é por sua vontade; a princesa de Gales tem as qualidades antigas da mãe de família romana: o seu desejo seria criar seus filhos e fiar o linho. Mas porque vai então ao Criterion? Ingleses, a quem tenho feito esta pergunta, encolhem misteriosamente os ombros e murmuram: «A etiqueta!»

Nenhuma novidade literária, a não ser o livro de Gallenga, o correspondente do Times em Constantinopla, sobre alguns dos episódios mais característicos da questão do Oriente. Este livro, que é a reprodução da sua correspondência, tem um lado curioso: mostra o poder, em Inglaterra, de um correspondente de jornal. Gallenga convenceu-se em Constantinopla que o embaixador inglês, Sir G. Elliot, não representava com vanta-gem os interesses britânicos na Turquia. Apenas formou esta ideia, dirigiu-se à embaixada e intimou o embaixador para mudar rapidamente uma política que ele, correspondente do Times, julgava nociva.

O embaixador não o mandou expulsar pelo mordomo, porque isso seria insultar o Times, o que equivale a ofender a City, o que significa injuriar a Inglaterra, mas contentou-se em resmungar monossílabos com os olhos fitos obstinadamente no fogão, que, sendo Verão, estava apagado. Gallenga, como ele diz, escandalizou-se com aquela falta de atenção às suas observações e com aquele costume ridículo de olhar para um fogão apagado. Deixou a embaixada, veio para o seu hotel e começou aquela série de correspondências, que revolveram profundamente a opinião e obrigaram o Governo a demitir o embaixador! Gallenga, agora, no seu livro, conta esta curiosa campanha, todo enlevado num doce júbilo!

Feliz Gallenga!

Outro dia entrei por acaso no primeiro tribunal de Londres onde o lord chief justice, o primeiro magistrado da Inglaterra, estava resumindo um caso de tentativa de assassinato. O réu, um homem grosso, de barba amarelada, foi condenado a trabalhos públicos por toda a vida; depois de ler a sentença, o lord chief justice parou um momento, fitou o réu e, com aquele largo e pomposo gesto que todo Londres conhece, exclamou:

– Aí está! Vivereis em servidão penal! Não tivestes a inteligência de prever as consequências que vos traria a vossa conduta, e é deplorável que não tivésseis a coragem de deixar este mundo antes do que incorrer nesta pena infamante!

Se isto não é descompor um réu por ele se não ter suicidado, então não sei o que é. Fiquei atônito. Meditem bem nisto: censurar o réu, asperamente, por ele não ter tomado arsênico, ou se não ter enforcado com a gravata! Não, realmente é das coisas mais singulares de que podem rezar os anais da magistratura europeia!

Notícias do amigo Pongo.

Está óptimo. Como parecia aborrecer-se bastante, os sábios, que o vigiam zelosamente, resolveram cercá-lo de alguma sociedade. Vieram dos jardins zoológicos três chimpanzés para lhe fazerem – ia quase a dizer, a partida de whist –, para lhe fazerem companhia ao jantar e falarem das queridas florestas de África. Um dos chimpanzés é engraçado como um clown e estroina como um lorde: desde a sua chegada, a casa do amigo Pongo ressoa de gritos, vacila com os pulos, vibra de toda a ágil, espirituosa, ladina inquietação do faceto chimpanzé. Pongo aprecia esta vivacidade, e tem por ele uma estima reflectida e protectora: faz em geral, aos seus três hóspedes, as honras da casa com benevolência, mas as delicadezas mais especiais são para esse chimpanzé: se lhe dão charutos, oferece-lhe sempre o maior; há dias deram-lhe um chapéu e o excelente Pongo foi logo enterrá-lo na cômica cabeça do seu amigo, recuando um pouco, depois de saborear a pilhéria daquela toilette humana. Quando bebe, passa-lhe logo em seguida o copo, gravemente, com um sorriso. Agora uma coisa extraordinária: Mr. Pongo detesta Darwin!

Darwin é, como sabem (é quase ridículo lembrá-lo), o grande filósofo e naturalista que primeiro estabeleceu a teoria da descendência do homem, e declarou-o nascido diretamente do macaco. Parecia natural que Pongo, vendo pela primeira vez o sábio ilustre que lhe deu uma tão alta posição na criação, fazendo-o pai do gênero humano, lhe daria ao menos um shakehands cordial. Pois não senhor! Detesta-o. Com uma ingratidão africana, apenas o avista, franze a testa, arreganha os dentes, fita-o, volta-lhe as costas. E todavia se há uma bela e doce fisionomia, é a de Darwin com a sua longa barba branca! A amizade de Pongo é pelo ilustre professor Tyndall: quando o vê, atira-se- lhe aos braços e, com uma ideia infame da limpeza do grande sábio, começa a catá-lo com frenesi! E o que Tyndall ri! Comoveu-me, há dias, ver Darwin, e Tyndall, e Fawcett, e outros sábios famosos, honra e esplendor da humanidade, virem fazer a sua visita de amizade a este venerável avô da raça humana! Mas francamente, a atitude do gorilha para com Darwin chocou-me. Estimo-o talvez menos. E a única explicação é esta: Pongo conhece que Darwin o declarou pai do homem: e Pongo, que já tem viajado bastante, que esteve em Berlim, que conhece a população toda de Londres, que tem feito observações prolongadas sobre o homem, está furioso com Darwin e com a sua teoria. «O quê!», pensa ele; «isto, este ser de chapéu alto e luneta no olho, que paga um xelim para me vir ver, é que é o meu descendente? E a isto que Darwin chama um gorilha aperfeiçoado? Mas esse sábio não tem então escrúpulo em lançar uma nódoa infamante na respeitável classe dos gorilhas? Esse sábio é um mau homem!» E volta-lhe as costas. A razão é clara: ele não o considera um observador profundo, acha-o um reles caluniador!

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