Londres, 10 de Janeiro [de 1878]
Londres, 10 de Janeiro [de 1878]
Onde estão os tempos saudosos, em que cada telegrama nos trazia uma vitória turca? Onde estão esses dias em que os correspondentes nos pintavam as cargas irresistíveis da infantaria otomana, atroando os céus com o grito de «Alá! Alá!» e pulverizando divisões russas? Onde estão os Vitoriosos e os ghazis? Onde estão as lágrimas do imperador da Rússia choradas nas noites da derrota? Onde estão as horas alegres em que um coração liberal se regozijava, pensando que o czar e o seu Governo autoritário, despótico, teocrático, semibárbaro, humilhado pelas derrotas na Bulgária, seria na Rússia feito em pedaços por uma revolução niilista? Ai, tudo nos passou! Hoje o que se nos diz cada dia é que mais uma fortaleza turca foi tomada, mais um regimento aprisionado, mais um passe dos Balcãs atravessado, mais uma enxada cavada na sepultura da Turquia. O czar não só não é destronado, mas é recebido em Sampetersburgo com um fanatismo tão alucinado que pessoas deixam-se atropelar para se poderem prostrar, beijar-lhes as botas, tocar com a ponta dos dedos na bainha da sua espada santa! E são os ministros do sultão que dizem ao novo parlamento em Constantinopla: «Estamos perdidos, rendamo-nos!»
É doloroso ver que esta guerra injusta tem como resultado fortificar, enfatuar, perpetuar um governo inimigo de toda a liberdade, defensor de todo o despotismo, cuja justiça se chama Sibéria, cuja administração se chama Polónia, que tempera a liberdade dos jornais pelo assassinato dos jornalistas, que liberta os servos para melhor os poder explorar pelos impostos, que condena um romancista ou um poeta a prisão perpétua se o seu poema ou a sua novela desagradam à polícia, que expulsa o estrangeiro suspeito de liberalismo como se enxota um cão, que tem como sistema de governo a delação e a espionagem, que chicoteia as mulheres cujos maridos não convêm, que exila os maridos cujas mulheres convêm e que civiliza as raças de civilização inferior – destruindo-as. Eu não tenho certamente nenhuma simpatia pelo sultão: uma tão rica porção de território europeu, como a Turquia, nas mãos de uma raça preguiçosa e asiaticamente passiva é certamente uma perda para a civilização, é uma esterilização de força produtiva; mas se o golpe ao Urso Branco, ao campeão da tirania, pudesse vir da Turquia, hurra pela Turquia!, hurra pelo china ou pelo mongol!, hurra por qualquer povo negro ou nu que pudesse libertar a Rússia, a Europa, a liberdade e o pensamento desta tenebrosa entidade, o Governo do czar!
Infelizmente não nos é dada essa doce consolação. E, todavia, é neste momento ou nunca que a Rússia corre um perigo. O armistício com a Turquia está assinado, parece. O czar deve agora apresentar, necessariamente, as suas condições de paz e revelar a extensão das pretensões: se elas forem tais que prejudiquem os interesses britânicos, o Governo de Lord Beaconsfield está ligado, pelas suas declarações e pela sua honra, a fazer a guerra. E este o momento crítico. A Inglaterra há meses que diz: «Esperemos, até ver o que a Rússia quer.» A Rússia tem nestas semanas últimas de dizer o que quer. E a Inglaterra de dizer o que faz.
É evidente que uma coisa é o Governo de Inglaterra e outra coisa é a Inglaterra: que a rainha e Lord Beaconsfield desejam a guerra, pelas suas inclinações pessoais, é certo; mas estes bons desejos dos elementos decorativos da constituição não bastam; é necessário que a grande massa, o contribuinte, o eleitor se queiram bater – e é neste elemento dominante que eu vejo uma antipatia muito decidida por qualquer acção militar. O Partido Conservador, em Inglaterra, vive num estado de irritabilidade acerca de política estrangeira; é, de natureza, bélico e fanfarrão: conserva o antigo ideal da canção: «Britânia governando as ondas e árbitra das nações.» Que em qualquer ponto da Europa haja um tiro, e os conservadores ingleses querem logo mandar lá a frota, a vasta frota! Foram eles que fizeram a Guerra da Crimeia: foram eles que gritaram que a Inglaterra devia intervir, pelo Sul, na guerra da América. Fora eles que declararam que a nação estava para sempre desonrada por não ter tirado a espada em favor da França. Se a nação os tivesse escutado, tê-la-iam lançado nas aventuras mais desastrosas.
Desde o começo desta complicação do Oriente têm estado constantemente a levar a mão aos copos da espada, de testa franzida para a Rússia: e foram em parte estes atos de arreganho que provocaram a guerra; e se o Governo não tivesse recusado aceitar o memorando de Berlim, a Turquia não se teria mostrado tão resistente nas conferências de Constantinopla; se o Governo não tivesse mandado a esquadra à baia de Besika, a Turquia, que se julgou logo apoiada, não teria sido tão intratável. E agora, que a guerra está finda, põe outra vez a mão na espada a propósito das condições de paz. Resta saber se o país lhe não tirará a espada da mão. Até aqui parece muito resolvido a isso; pelo menos, a julgar pelas petições, protestos, meetings. representações, a maioria liberal da nação quer trabalhar e não guerrear; e firmemente declaram – que nenhuma condição de paz, «nenhuma exigência russa põe em perigo os interesses da Inglaterra, nem mesmo a posse de Constantinopla». E aqui está o argumento: os que querem a guerra dizem que se a Rússia for a Constantinopla, primeiro, põe em perigo a supremacia da marinha inglesa no Mediterrâneo; segundo, abala o prestígio inglês na Índia; terceiro, tornando-se uma forte potência, pode arrancar à Inglaterra o uso do canal de Suez e do seu caminho para a Índia. E, dizem os partidários da paz, nós respondemos a isto: primeiro, que a marinha inglesa é mais forte que todas as marinhas do mundo juntas, e que os Russos não têm nem dinheiro, nem os construtores para criar uma frota que tenha a décima quinta parte da força da nossa, nem num século; segundo, que os hindus não nos amam nem nos desamam pela maior ou menor proteção que nós damos aos seus correligionários maometanos na Europa; e a prova é que, meses depois de nós nos termos batido pelos maometanos da Europa, na Crimeia, os maometanos da Índia mostraram-nos a sua indelével gratidão, fazendo contra nós a mais formidável insurreição dos tempos modernos!; terceiro, que a Rússia, em Constantinopla, tornar-se-ia a mais fraca das potências ocidentais: cercada do ódio da Áustria, da rivalidade da Alemanha e da nossa contínua vigilância, a sua posição seria de um perigo permanente, obrigando-a a armamentos ruinosos, a um estado de incerteza fatal ao seu comércio. E bastaria uma frota nas alturas de Creta para a manter num estado de inacção impotente.
Há muita verdade nesta argumentação do partido da paz, e é esta a argumentação em que se baseiam as representações dos meetings. Mas são estes meetings a expressão exacta do pensamento do país?
Eu tive ocasião de assistir ao grande meeting de Newcastle. Ë verdade que era em favor da guerra. Mas não é das suas resoluções que eu quero contar, é da sua atitude. Havia todas as condições de seriedade: estavam três a quatro mil pessoas; era na sala monstro dos Paços do Concelho; falava o deputado Hammond, homem estimado. E aqui está o que se passou.
Durante um quarto de hora Hammond falou, entre aplausos dos conservadores e assobios dos radicais. Mas, nas palmas ou nos apupos, havia como uma indiferença distraída. As suas imagens mais preparadas, os adjectivos mais sonoros, não conseguiam encadear a atenção; e eu notei que parte da sua vasta audiência se voltava repetidamente para o fundo da sala, onde se eleva uma galeria em anfiteatro, naquela noite tão escura de uma multidão espessa. Era evidente que na galeria alguma coisa produzia aquele frêmito de curiosidade. Eu mesmo esqueci o orador que bracejava na plataforma falando da honra da Inglaterra, e apliquei-me a descobrir o caso interessante da galeria. Até que achei. Era um homem, um velho, que estava num dos bancos da frente, imóvel, com uma larga face barbada e risonha. E verifiquei que o que produzia impressão era uma coisa que ele tinha na cabeça; evidentemente o público, como eu, desejava saber o que era, porque, estando a galeria mal alumiada, não era possível, à distância, apreciar-se: não era um chapéu redondo, nem um chapéu de bicos, nem um barrete, nem um capuz, nem um turbante, nem um capacete: o que era então? As risadas convulsivas das pessoas que na galeria o cercavam picavam mais a minha curiosidade e a de três mil pessoas que estavam em baixo, na sala. Pouco a pouco, por um movimento comunicativo, toda a gente se voltara para a galeria, estendendo o pescoço, aguçando o olhar, erguendo-se em bicos de pés; e o deputado Hammond não tinha diante de si, para receber os argumentos políticos, senão nucas e costas. O velho, decerto compreendendo que era o centro daquela curiosidade lisonjeira, ergueu-se com solenidade. Gritaram-lhe logo que viesse para os degraus de baixo! A reclamação era engenhosa; mal ele descesse, a luz de um dos lustres alumiar-lhe-ia a cabeça e poderíamos enfim saber que estranho objecto Lhe cercava as cãs. O velho condescendeu e, apenas entrou no foco de luz, uma gargalhada estridente, ecoante, trovejante, fez oscilar os muros. Tinham visto o que ele tinha na cabeça, o velho! Era uma coroa de louros! Porquê? Era um bardo? Era o Tasso? Era o nosso Camões? Quem o coroara? Que batalha ganhara? Que epopeia compusera? Era um deus marinho?
Enfim descobrimos o motivo: o respeitável ancião estava profundamente bêbado! E, vendo-se acolhido por uma aclamação tão jovial, não hesitou e falou! Falou dez minutos: salvas de palmas virgulavam-lhe cada oração; que triunfo, por Júpiter! O deputado Hammond, na plataforma, lívido, mascando uma bela imagem que começara a desenrolar, cruzava os braços com um desespero trágico: o seu olhar dizia claramente: «Povo vil, nação imunda!» Mas o povo delirava; e eu, aplicando o ouvido, pude vagamente perceber que o velho aconselhava os seus concidadãos a que fossem, em massa, à taverna dos Braços de El-Rei, onde o gim era especialmente bom e as raparigas que o serviam singularmente rechonchudas; aconselhava-o com exaltação, com a fé de um missionário; e, coroado de louro sorria, o bom velho!
Hammond não se conteve, invocou a polícia. Mas então o verás! O público, num frenesi, assobiou a polícia. O quê? Levar, expulsar um homem que tinha verdades tão proveitosas a revelar aos seus compatriotas? Não! E o velho debatia-se entre dois polícias, surpreendido, mostrando as suas cãs, a sua inocência e a sua coroa de louros. A polícia não o expulsou, mas fê-lo sentar. O deputado recomeçou. Mas ai! Quem o escutava? Todos os olhos, todos os corações, são para o bom velho que, sentado no mais alto degrau da galeria, como na glória de um trono, ostentava a sua face honesta e pacífica, com um bom sorriso jovial, coroado de louros, profundamente bêbado.
O meeting dispersou, sem se tomar nenhuma resolução: e creio que a maioria foi aos Braços de El-Rei verificar a qualidade do gim e as formas das serventes.
A Inglaterra é uma grande nação. Longe de mim apresentar este meeting como o tipo clássico dos meetings ingleses. Não. Conto apenas o que me parece ser um caso divertido.
Chega-me neste momento uma triste notícia. Vítor Manuel morreu: ainda ontem o seu antigo ministro, velho amigo e camarada de armas, o cavalheiresco general de La Marmora era enterrado – já hoje desaparece ele, o rei galantuomo, uma das personalidades mais interessantes da política moderna. Perde-se assim um grande patriota; porque o traço eficiente do seu carácter foi este: amar a sua pátria; não a sua pequena pátria, a Sabóia, mas a sua grande pátria, a Itália.
A sua biografia é ao mesmo tempo a crônica da Itália unida. No fim da batalha de Novara, Vítor Manuel, então moço, que se batera heroicamente, retirava-se do campo desastroso –quando de repente, estacando o cavalo e brandindo a espada para o lado onde se acendiam os fogos do acampamento austríaco, exclamou:
– Per Dio! L'Itália se farà!
E toda a sua vida foi passada a fazer a Itália. Foi este o seu pensamento central; a ele sacrificou tudo; inclinações pessoais, repugnâncias de educação, devoções secretas, até orgulhos de família; decerto lhe custou a ele, educado por padres e amigo de Pio IX, católico fervente no fundo, causar tanta amargura ao chefe da Igreja; decerto lhe doeu a ele, de uma raça tão altiva, ceder à França a Sabóia, berço da sua raça; decerto lhe foi amargo o dia em que teve de dar sua filha Clotilde ao príncipe Napoleão, ateu, de uma família de aventureiros, quase velho, de costumes tão livres. Mas a Itália exigia um sacrifício. Decerto havia nele muita ambição. A família de Sabóia é orgulhosa, e ele não seria homem se lhe não fizesse bater o coração a ideia de reinar na Itália unida, e de deixar o trono, que foi de césares e de papas, à sua raça; mas se esse orgulho concorreu para fazer uma grande nação livre, que esse orgulho seja bendito!
Pessoalmente era o tipo do fidalgo: nobre, fiel à sua palavra, bravo, de hábitos sóbrios; caçar o chamois, comer a pulenta, viver nos montes, bastava-lhe; nos jantares oficiais conversava sem tocar nos pratos, com as mãos apoiadas aos copos da espada; era um conversador fino, vivo, rápido, sobretudo quando falava no seu querido dialecto piemontês. Em campanha gostava de dormir ao relento, embrulhado numa capa. Amava o cavalo como um cavaleiro andante. Depois da batalha de Novara, quando o despótico general Radeztky veio combinar à sua tenda as condições do armistício, Vítor Manuel não quis tratar sem que lhe fosse restituído o seu cavalo favorito, que fora perdido na confusão da retirada. Este traço tem um ar de legenda heróica, que encanta. Eram estes rasgos que o faziam amado.
Fala-se, com um certo ar repreensivo, dos seus muitos amores; para mim torna-se simplesmente mais simpático; ele não era um filósofo, nem um abade, nem um místico: a sua adoração da beleza faz parte do seu carácter de herói. A fidelidade a uma só é sentimento belo, mas pertence aos tempos líricos do rei Artur e da Távola Redonda. Sir Galahad, que tinha um lírio no escudo, dizia, percorrendo o mundo à busca do Santo Graal: «Eu sou forte, porque sou virgem.» E uma santa palavra; mas Sir Galahad, a não ser em verso e interpretado por Tennyson, faz ligeiramente sorrir. E neste ponto, o rei galantuomo seguia as tradições de seus avós da Renascença, e não as dos cavaleiros do rei Artur.
Foi uma pleurisia que o matou. Os príncipes de Sabóia vivem pouco. Em crianças são débeis; depois, subitamente, tomam um desenvolvimento robusto e declinam depressa. Até ao momento extremo conservou o espírito lúcido. Minutos antes de expirar, chamou o príncipe Humberto, apertou-lhe a mão, deu-lhe um olhar de amor e disse serenamente: «Addio!» O príncipe saiu chorando desesperadamente, e o rei morria. Tinha comungado. Dois vigários do Vaticano tinham vindo, com a bênção do papa, levantar a excomunhão. Pio IX, ao saber que a agonia do rei se aproximava, disse, muito agitado:
– Se não fossem estas pernas, que não querem, eu mesmo levaria os sacramentos ao rei!
É singular que Vítor Manuel, que vira passar como um sonho toda a velha Itália, tudo o que se lhe opôs e que o combateu – príncipes despóticos, grão-duques intriguistas, Bourbons fanáticos, o grande Mazzini, carbonários e conspiradores, camisas-vermelhas e garibaldinos – só não sobreviveu ao seu grande adversário: o papa. Esse aí fica, como uma personificação da velha Itália sacerdotal e autoritária. E é esse que, depois de tantas lutas e de tantas injúrias, o ajuda a bem morrer.
Assim vão desaparecendo os grandes italianos da unificação: Cavour, Ratazzi, Mazzini e Vítor Manuel. Garibaldi resta, mas tão velho que está mais na história que na vida.
E o velho papa fica, intratável, indomável, perturbando o mundo mesmo do seu leito de morte, vendo os seus inimigos morrerem um a um, e tendo a consolação de ver alguns virem, na hora final, pedir-lhe humildemente a sua bênção. Por isso os católicos aqui estão radiosos. Mas que importa? Os homens passam, são a parte decorativa das ideias; e se é Vítor Manuel que morre e o papa que sobrevive, é todavia o ultramontanismo que expira e a democracia que fica.