Londres, 18 de Outubro de 1877
Londres, 18 de Outubro de 1877
Peço aos meus leitores (se tenho dois) ou ao meu leitor (se tenho um) que não atribuam o meu silêncio de algumas semanas a uma suspensão absoluta de acontecimentos em Inglaterra e no universo. Não. O mundo tem continuado a rolar com uma tolerável regularidade e os homens, sobre ele, a fornecerem assunto a localistas e a correspondentes.
Os motivos do meu recolhimento são todos particulares. Assim, por exemplo, só a França que matéria não tem dado, nestas últimas semanas, a uma pena de boa vontade! Manifestos de sensação, tiranias de Governo, eleições impressionadoras, ameaças de golpe de estado – tudo essa boa França, que não gosta de deixar o mundo sem objecto de conversação, tem prodigalizado com a sua fecundidade de país de gênio.
Aqui, em Londres, quem abrir um jornal inglês há-de pensar que no universo só existe a França: é dela que se fala, é sobre ela que se escreve; tudo o mais fica numa penumbra subalterna. As eleições de 14 de Outubro não foram para ninguém uma surpresa. A maioria republicana era certa. Podia-se supor, como sucedeu, que a pressão ministerial, tão miúda e tão pesada, tão vexatória e tão arbitrária, roubaria alguns votos aos república-nos; mas em definitivo, a França, que é centro-esquerda, daria uma maioria mais ou menos numerosa à república. Alguns jornais dizem que a esquerda, pelo facto de não trazer à câmara os históricos e famosos trezentos e sessenta e três, sofreu uma derrota moral: eu penso que a circunstância de conseguir trazer trezentos e vinte, pouco mais ou menos, dada uma tal tirania governamental, é uma vitória eloquente.
A administração em França exerce, além da força que lhe dá a sua organização poderosa e sagaz, uma irresistível atracção sobre um povo educado na centralização. Tudo treme quando ela franze o sobrolho, e ninguém deixa de ficar enlevado quando ela sorri; em tais circunstâncias, ter-lhe resistido, como lhe resistiu, mostra na França convicções bem serias e uma vontade bem definida.
Que resta ao marechal agora? Num país sensato, como a Inglaterra, a coisa seria simples: o ministério batido seria demitido e o partido triunfante chamado ao poder, ninguém se agitaria, e a complicada máquina do Estado continuaria a rolar docemente nos seus carris. Em França, não. O ministério vencido teima, pela voz dos seus jornais, em se considerar vencedor e ameaça com baionetadas todos os que não forem dessa opinião extravagante. Consultou-se a vontade do país, e quando ele respondeu por milhões de vozes anão! o ministério diz, com um sorriso: «Bem; como o país respondeu «sim!» nós cá ficamos, para obedecer ao país.» E se o país amanhã, vendo que o «não!» que ele dissera pela boca das suas pessoas não era escutado, se resolvesse repetir o «não» pela boca das suas espingardas, o ministério traria para a rua a artilharia, conti-nuando a afirmar com tranquilidade: «Como o país insiste em dizer que «sim», nós não podemos ceder! Nós não podemos!...»
A indignação contra o marechal, aqui, continua a exprimir-se violentamente. Uma pergunta às vezes faço eu a mim mesmo, pasmado: «Será possível que o Governo francês não leia os jornais ingleses? E, se os lê, não lhe faz impressão nenhuma ver a imprensa unânime de um grande país, da Inglaterra, condenando ao longo das suas primeiras páginas a ilegalidade da sua existência? Pode-se desprezar assim a opinião de uma nação tão inteligente, tão sensata, tão positiva, tão imparcial?»
O ministério, é verdade, embirra profundamente com os jornais ingleses, a ponto de lhes proibir a venda como peçonhenta, mas o facto de lhes proibir a propaganda não obsta a que lhe deva reconhecer a sensatez: e todos os dias os jornais mostram claramente aos Srs. de Broglie e de Fourton que eles estão simplesmente levando o seu país à guerra civil e à guerra estrangeira. Que eles não o acreditem quando o lêem nos jornais radicais de Paris, compreende-se, mas que o não escutem quando são os jornais estrangeiros conservadores que o gritam por todas as linhas, é de espantar! A não ser que, ciente e conscientemente, eles queiram a guerra estrangeira e a guerra civil; nesse caso, espera-os, é de recear, uma grilheta nova e de bom ferro nas galés amáveis de Toulon.
As novidades daqui são escassas. Chove. O Inverno instalou-se, e vem este ano de um humor terrível: os duches que nos atira para cima, as lançadas de nordeste agudo com que nos trespassa, as rajadas com que nos sacode, não têm conta. Ouço-o todas as noites rugir e chorar, e não compreendo o que fizeram a este rabugento velho. Por ora ainda não nos cobriu de neve: é uma galanteria que guarda provavelmente para o Natal; os meteorologistas seus amigos, a quem ele faz confidências, dizem-nos que não há a esperar dele, este ano, nem demência, nem desleixo. Vem activo e mau. O que nos espera!
De resto o grande acontecimento é o Caso Ponge. Não sei se sabem aí deste episódio judicial. A história é simples. Um sujeito, Louis Stanton, casou por dinheiro com uma mulher e vivia por amor com outra. Para não se ver embaraçado nos seus sentimentos colocou a esposa em casa do seu irmão e foi habitar com a amante para o campo. Passado tempo, a esposa começou a definhar, a adoecer – e quando ela morreu num estado de anemia e de magreza medonhas, os médicos chamados a examinar (em vista das suspeitas nascentes) declararam que a pobre senhora fora sistematicamente morta à fome! Ergueu-se um grito de horror em toda a Inglaterra. Louis Stanton, a sua amante (uma rapariga de dezanove anos), o irmão de Louis e a cunhada foram presos, julgados e condenados à morte.
Aqui está, em resumo, o prólogo.
As audiências causaram a excitação de um drama, comovente: os depoimentos das testemunhas, as respostas dos réus, os discursos e réplicas dos advogados, as frases sempre notáveis do ilustre juiz Hawkins, eram devorados por todo o país com a sofreguidão de uma novela de sensação! O tribunal estava apinhado de celebridades, mesmo de ladies famosas, cujos lacaios traziam em cestos lanche e champanhe para sustentar as forças da dama delicada, nas fadigas daquelas longas audiências.
Desenhistas hábeis, postados em todos os cantos, esboçavam a atitude dos réus, os gestos de aflição, as convulsões da pobre amante (Alice Rhodes) – e estes desenhos eram vendidos nas ruas e encaixilhados em salões. Enfim, um verdadeiro processo de prazer.
A última audiência, de que pude surpreender, através da multidão, alguns episódios, foi trágica. Nunca ouvi nada tão poderoso como o discurso do juiz aos jurados, fazendo o sumário do processo. De pé, falou durante sete horas, com uma eloquência sombria e elevada que destilava a morte. Pareceu-me ter mais a paixão de um acusador do que a veracidade de um juiz. Mas como arte, era maravilhoso.
Quando o júri voltou com o veredicto, provando o crime, houve um momento de terrível impressão. O juiz ergueu-se, colocou sobre a cabeça um gorro negro e todo o mundo se pôs de pé, num silêncio ansioso.
Então leu, com voz lenta, a sentença de morte.
Os dois réus estavam como hirtos; mas as duas senhoras estavam sustentadas nos braços de dois comissários de polícia.
Quando o juiz Hawkins findou a leitura, ergueu o braço e disse:
– Que Deus tenha misericórdia das vossas almas.
Toda a audiência respondeu com a mesma voz lamentosa:
– Amen!
No dia seguinte um jornal, o Daily Telegraph creio eu, insinuou que lhe parecia bem pouco comprovado o crime, e bem severa a sentença. Outro jornal retomou o assunto, repetindo a mesma opinião; e depois outro, outro e outro. Imediatamente a opinião agita-se: os jornais começam a publicar cartas, que, numa argumentação cerrada e sagaz, provavam a falta de provas do homicídio; depois advogados escreveram, censurando a marcha do processo, cheio de nulidades; logo sacerdotes, membros do parlamento, mulheres, mães de família, de todas as partes de Inglaterra, cada um do seu ponto de vista, com os seus argumentos especiais, censuraram a condenação: e enfim, coisa grave, os médicos começaram a declarar que os sintomas apresentados no exame do cadáver não eram de morte por fome, mas de tubérculos no cérebro.
Imediatamente, instala-se em Canon Street Hotel uma comissão de pessoas importantes para obter da rainha a comutação da pena: fazem-se meetings, abrem-se petições à assinatura pública, e toda a Inglaterra, profundamente revolvida por esta agitação, pede o perdão para os réus! Em vista disto, o Governo perdoa!
Ao princípio foi um clamor de triunfo. Mas depois vem a reflexão. Que tinha feito a Inglaterra? Tinha destruído a sentença de um tribunal, com uma agitação popular. Mas então a lei, os códigos, a justiça, os magistrados, as fórmulas, tudo é inútil, só quem decide em último recurso é a imprensa e o público. Todo o mundo estava um pouco embaraçado com a vitória. E então francamente cada um começou a considerar que se tinha ido longe no movimento apaixonado da sensibilidade.
A rainha tinha-se talvez apressado de mais a perdoar. A administração da justiça passara, por um golpe de estado popular, das mãos da magistratura para as mãos do público; a instituição do júri é inútil; os processos ociosos; os crimes seriam condenados ou absolvidos segundo o bom ou mau humor da opinião.
Se basta fazer meetings para perdoar um réu, nada impede hoje uma absolvição permanente para o crime. E aqui têm este grande país que, depois de ter feito comutar uma pena por sentimentalismo, desejaria aqui vê-la aplicada por legalidade. Singular situação, não é verdade? E exclusivamente inglesa! Enquanto a mim penso que os réus não eram absolutamente culpados: houve negligência em tratar a pobre senhora, mas não houve intenção de a matar; por outro lado, parece-me que o exemplo é mau e que abala toda a constituição da Inglaterra esta obediência do Governo às impressões da multidão. Em todo o caso, aí dirão consigo, «antes tremelique a constituição que se enforquem quatro inocentes!»
E do Oriente? Depois de uma suspensão de hostilidades, imposta pela neve e pela chuva, os Turcos foram horrivelmente batidos na Ásia. Muktar Paxá perdeu dezenas de canhões, milhares de prisioneiros e fugiu para Kars derrotado. E um desastre, mas facilmente reparável. Em virtude da estação, os Russos não se podem aproveitar da sua vitória: vem tarde, se Muktar Paxá fugiu e não se lhe pode opor, lá está o Inverno para substituir o general vencido e pôr barreiras de gelo e de torrentes onde faltam as barreiras de homens. Kars, que Muktar Paxá protegia, fica em todo o caso protegida pelo mesmo, e não é nesta campanha que os Russos poderão ocupar aquela fortaleza, chave da Arménia.
De resto, no Danúbio, silêncio, expectativa, frio e doenças, nos exércitos ociosos.
Novidades literárias ou teatrais, zero. A Inglaterra intelectual ou dorme ou trabalha em silêncio. A costumada produção de novelas, sim, essa continua regular como a fabricação do pão, para manter vibrantes os nervos das misses e das ladies.
Notícias comerciais tristes: uma estagnação total dos negócios: uma pausa terrível na estrutura industrial.
Este Inverno vem carrancudo: que nos reserva ele? Por toda a parte inquietações, apreensões, necessidades...
Fez excelente efeito aqui a maneira inteligente e delicada por que Stanley, ao fim da sua épica viagem através de África, foi recebido pelos Portugueses. Tudo se passou com excelente gosto. Não era natural realmente que o recebessem à paulada; mas era de recear, com a indiferença nacional, que ele passasse despercebido ou que o incomodassem, pedindo-lhe o passaporte. Felizmente, a recepção foi digna e honrosa para nós. Ainda há portugueses em Portugal!