Londres, 4 de Julho de 1877
Londres, 4 de Julho de 1877
Ei-los enfim do outro lado do Danúbio! Depois de ter coqueteado, por espaço de dois meses, com os Turcos, o grão-duque Nicolau decidiu-se enfim, na noite de 26 de Julho, pelas onze horas, a fazer atravessar em botes uma divisão junto a Simnitza e a começar a sério a destruição do Império Otomano. A cena, ao que parece, pelas descrições do capitão-poeta que manda as suas impressões para o Times, teve uma grandeza sinistra: o lugar de embarque da divisão é coberto de arvoredos – e o silêncio grave dos movimentos de tropa, a decoração da noite muito escurecida de nuvens e alumiada por um luar lívido, a ansiedade da aventura, tudo concorreu para dar àquele movimento histórico um tom trágico.
O grão-duque passou o rio num barco com as tropas. Os Turcos fizeram sobre as jangadas um fogo fraco e preguiçoso, que tinha o ar melancólico de ser «por honra da firma». As baterias russas bem depressa fizeram calar aquele protesto indolente; os primeiros regimentos que desembarcaram repeliram os Turcos das colinas, ocuparam as melhores posições e procedeu-se logo à construção de uma ponte de barcos, por onde no dia seguinte, com a agradável tranquilidade de um passeio militar, atravessaram trinta mil russos! Quase ao mesmo tempo, noutro ponto do rio, em Petroceni, uma outra divisão russa passou para o território turco. Aí a resistência foi também Superficial e pró-forma, e agora os Russos têm um caminho Seguro para lançar, em terra otomana, uma invasão irresistível.
O que significa esta frouxa defesa dos Turcos? Foram surpreendidos? Calcularam mal o ponto provável da passagem e acumularam forças em ponto errado? Resolveram uma táctica de abstenção? Preferem encontrar os Russos no interior, nas suas colinas fortificadas? Não se sabe. Muitos querem dizer que os Turcos estão desmoralizados, que sentem a inutilidade da resistência e que procuram tirar o melhor partido possível da guerra, deixando-se suavemente corromper pelo dinheiro russo. Diz-se que alguns generais chegaram a esta conclusão que, sendo impossível salvar a pátria, é conveniente com tempo engordar a bolsa. Diz-se que larga soma de dinheiro moscovita tem sido remetida para os paxás que comandam na margem turca do Danúbio; que os oficiais superiores, sabendo isto, perdem o espírito de resistência e abandonam-se às doçuras da indisciplina; e que a totalidade do exército turco está positivamente a fingir que defende o império. Mas realmente o comportamento dos oficiais turcos na Ásia – que se estão batendo com bravura, com desespero e, coisa rara, com inteligência, contradiz profundamente esta interpretação; e eu penso que a táctica dos Turcos é retirarem-se para as fortalezas dos Balcãs, onde o grande espírito de defesa do soldado otomano pode ser aproveitado com vantagens fecundas.
Logo depois da passagem do Danúbio, o czar fez uma proclamação aos Búlgaros; este documento é regularmente »antipático. Fala nos «antepassados», nos séculos de sofrimento»; tem frases antiquadas sobre o «suor do trabalhador» e a «honra da esposa»: abunda em preceitos de amor cristão e é, na sua totalidade, tortuoso como uma mentira, sendo melífluo como um sermão! A opinião em Inglaterra irrita-se com este tom hipócrita do soldado que põe o capuz de missionário. Nada realmente é mais repugnante do que ver o lobo fazer tagatés ao cordeiro. «Reuni-vos sob a bandeira russa!», exclama o czar; o que quer dizer: «Vinde ser uma Polónia número dois, meus filhos!»
E eu imagino que este tom adocicado do salvador que chega com centenares de mil homens deve fazer passar um frio na espinha dorsal do salvado!
No Montenegro a guerra continua tão desastrosa para uns como para outros. Os Montenegrinos, apesar da sua coragem heróica,, de um espírito sublime de sacrifício, não podem nada contra a esmagadora superioridade do número. Os Turcos têm no Montenegro sessenta mil homens, isto é, metade de toda a população do Montenegro: o país, com efeito, tem pouco mais de cento e dezassete mil habitantes! Contra isto não se resiste. Por outro lado, os Turcos têm ali uma força empenhada em conquistar desfiladeiros nus e colinas selvagens, sem utilidade, que, bem utilizada na Ásia, poderia ter mudado as condições da guerra.
Na Ásia é incontestável que os Turcos têm tido vantagens; os Russos foram repelidos e perderam posições: as operações russas têm sido dirigidas com o vagar e a pacatez costumadas; isto deu tempo aos Turcos de se organizarem, de fomentarem insurreições entre as tribos desafectas aos Russos, de formarem legiões curdas e de melhorarem uma situação militar que parecia perdida. Atribui-se esta reação inteligente a um oficial (não se diz se estrangeiro, se turco) que ultimamente dirige a campanha da Rússia: Mukhtar Paxá conserva o comando, mas o tal misterioso oficial é quem dirige, organiza e decide: cobre-o o mais impenetrável incógnito; ninguém o avista, ninguém o conhece; é uma espécie de espírito inspirado; mas na verdade é que a sua presença tem sido para os Turcos um começo de felicidade e quase de desforra.
Isto não impede que em Constantinopla a inquietação seja grande. A posição do sultão é terrível; em primeiro lugar, o ex-sultão Murad está inteiramente restabelecido e ocupa-se de política, o que dá aos seus partidários uma esperança e um pretexto para se agitarem. Se o ex-sultão Murad, que foi deposto por doença, está bom, não há razão para que continue excluído do trono que legitimamente lhe pertencia. Daqui uma conspiração perpétua dos seus partidários. Por outro lado, o actual sultão tem apenas um apoio, um amigo – o grão-vizir Redif Paxá. Este apoio decerto é fone: Redif é tudo – e a polícia, é o dinheiro, é o sacerdócio, é a imprensa; tudo domina, tudo influi, de tudo dispõe. Mas os ódios que tem criado são enormes no palácio, mesmo todos os desastres da guerra lhe são atribuídos. Diz-se que há dias se passou na presença do sultão uma cena horrível. Redif Paxá, com uma impudência de intrigante, estava dizendo ao sultão – que tanto na Ásia como no Danúbio tudo ia às mil maravilhas; o irmão do sultão, Nureddin Effendi, que estava presente, ergueu-se como um tigre e gritou-lhe na cara:
– Mentes! Es um infame! E a tua presença aqui é uma vergonha.
Isto deu origem a uma cena medonha. O sultão foi então informado de tudo que ignorava e vivamente solicitado de demitir Redif.
De sorte que o pobre homem vê-se neste dilema pavoroso: se conserva Redif, a indignação cresce e à primeira notícia de derrota há uma revolução; se o demite, perde o seu único apoio, e os amigos do ex-sultão Murad, ex-doente, reclamarão logo a »sua reinstalação no trono.
Tudo isto traz o palácio no ar e Constantinopla num estado de desvario. Como sabem, um dos atos da ditadura de Redif foi a prorrogação do parlamento turco: as câmaras estavam-se tomando um formidável centro de oposição: houve tantos discursos francos e atrevidos na câmara, aprovaram-se tantas ordens do dia, condenando os desperdícios e as desorganizações, houve tantas propostas para julgar os empregados corruptos e os generais idiotas que a corte começou a ver na câmara um inimigo e o povo uma esperança.
Portanto a corte tratou de se desembaraçar das câmaras. Daqui novo descontentamento contra o sultão.
Estes detalhes são importantes, porque eles formam a curiosa história de uma decadência... e é interessante seguir a vida política e social de Constantinopla para estudar como acaba uma dinastia maometana.
No quartel-general russo houve um incidente infeliz. O grão-duque Nicolau, comandante-chefe, recebeu o coronel Wellesley, adido militar inglês, attaché ao exército do Danúbio, com uma descortesia tão manifesta, que Lorde Derby imediata-mente pediu explicações. O czar então recebeu o coronel Wellesley e, pelo seu acolhimento cordial e distinto, apagou a impressão que fez na sociedade inglesa a grosseria do grão-duque. Diz-se a este respeito, à boca pequena, que o coronel Wellesley tem um defeito: não retém as suas pilhérias. Tem espírito e espalha-o. Em Sampetersburgo não se privava, em todos os salões, de fazer as mais malignas observações sobre a Rússia, os Russos e, especialmente, o estado-maior.
Na Rússia, por trás de cada parede está o ouvido da polícia. O imperador soube isto e encarregou o grão-duque de mostrar ao engraçado coronel que os seus ditos eram um pouco deslocados em território russo; ele mesmo, mais tarde, por um acolhimento gentil, dissipou a nuvem que aquela lição pudesse causar em Londres. O coronel fica assim avisado, e tudo serena.
Aqui crê-se geralmente que o Governo inglês pedirá brevemente à câmara um crédito suplementar de cinco milhões para o orçamento da guerra. Isto causa inquietação. Os amigos do Governo tratam de explicar este pedido como uma precaução prudente, semelhante à que se teve no tempo da guerra franco-prussiana.
A independência da Bélgica esteve então ameaçada, e Gladstone pediu à câmara um crédito de alguns milhões, para habilitar o Governo a ocupar Anvers se fosse necessário.
Hoje, diz-se, o canal de Suez pode ser ameaçado e é preciso estar habilitado para fazer uma ocupação imediata. Os inimigos do Governo, porém, afirmam que este crédito é uma visível preparação de intervenção, que tem por fim habilitar Disraeli a levar por diante os seus planos aventurosos de guerra e de conquista. Diz-se que o conselho de ministros em que ele fez este pedido foi tempestuoso; que parte dos seus colegas se opuseram energicamente, e que daqui resultaram graves desinteligências no ministério e um germe de crise próxima.
Uma historieta política que tem chique. Parece evidente que Burghers, presidente da República do Transval, tinha pelo príncipe de Bismarck um fanatismo extraordinário e que, num ímpeto de entusiasmo, escreveu ao príncipe oferendo-lhe, de mão a mão, a República do Transval. O príncipe, espantado, embaraçado com o presente, não querendo p república para nada, participou isto ao Governo inglês; à vista disto, o Governo inglês, vendo aos seus pés uma república sem dono, oferecida por um, recusada por outro, fez o que era natural – suprimiu o presidente Burghers e meteu no bolso a república.
Os dois grandes escândalos da quinzena foram provocados por dois livros: um de ordem religiosa e outro de ordem moral. Ambos eles são graves sintomas, e a excitação que os dois casos tem provocado na imprensa, nas revistas e na opinião prova que se vê nesses dois livros mais do que expressões individuais e isoladas de opiniões nocivas.
O que causou mais barulho foi o livro de ordem religiosa, o Priest in Absolution; este livro, que se deveria chamar «O Padre e a Confissão», é simplesmente uma exposição do velho sistema católico, a dominação do padre na família pela sua influência na mulher. Ensina-se nele como o padre se deve apossar do espírito fraco da esposa ou da filha, dominá-lo, reinar nele, e por ele estar senhor da fortuna, das opiniões, dos atos do homem. Podem imaginar o alarido que o descaramento desta doutrina, impressa em panfleto, causou na protestante Inglaterra.
Há anos que a mão do catolicismo romano, do catolicismo do Syllabus, se estende lentamente sobre a Inglaterra, para se apossar dela. Como um vírus venenoso que lenta e obscuramente se espalhe nas veias e nos tecidos de um corpo são – o espírito ultramontano penetra surdamente toda a Inglaterra.
Em todas as igrejas, em todos os ritos, se sente esta lenta absorção. A evolução começa lentamente sempre pela decoração das igrejas e pela cerimônia do culto: a antiga nudez severa dos templos protestantes considera-se excessivamente fria e tendente a arrefecer o zelo e a assiduidade; por isso, pensa-se que as flores, a música, os cantos, as armações, deveriam ser introduzidas como um meio de atracção e como um acréscimo de adoração: os padres, então, imaginam que o roupão branco, que é a vestimenta protestante, é de uma simplicidade muito secular e principiam a cobrir-se de vestimentas complicadas e simbólicas do culto romano. Imediatamente as cerimônias simples e severas do protestantismo começam a ser sobrecarregadas com o aparatoso cerimonial da celebração católica; depois vem-se exigir aos fiéis uma atitude diferente: as genuflexões, as pancadas no peito e o rosário tornamse obrigatórios; daí vêm certas celebrações em comum muito semelhantes às novenas, aos meses de Maria. Logo exige-se a confissão secreta, a penitência; formam-se sociedades de adorações, e pouco a pouco, por este processo, cada templo protestante se vai convertendo numa igreja católica. Debalde a Igreja oficial protesta, condena, grita.
A conversão vai-se fazendo lentamente mas seguramente. As mulheres, sobretudo, são a grande alma do movimento: a inglesa é sensível, exaltada, voluptuosa, e bem depressa encontra na nova cerimônia à romana um encanto, uma ternura, uma poesia, que não lhe dão a seca prédica protestante, numa casa nua e alumiada a gás. Por isso, tantas mulheres se convertem. Além disso, na alta sociedade, ser católico começa a ser elegante.
As grandes famílias aristocráticas de Inglaterra, Norfolk, Ripon, Bute, são católicas e, para serem recebidos nos seus círculos íntimos, os ambiciosos da sociedade não têm dúvida em se converter. Mas este movimento, ao menos até aqui, tem sido tímido, oculto, e acanhado: o Priest in Absolution é a sua primeira exposição pública; é uma espécie de grito místico lançado pela seita: «Comecemos pelas mulheres e a sociedade é nossa!» Toda a Inglaterra protestante e sensata tremeu de furor: a opinião geral é que para os jesuítas não se deve empregar o argumento, mas a força. O Punch, como crítica do livro, apresenta a forte figura simbólica de John Bull agarrando o jesuíta pelas orelhas, arrastando-o para longe para o sovar à vontade! Os jornais têm visos de cólera. Tem havido interpelações ao Governo sobre a publicação do livro – e todo este barulho tem lançado uma grande luz sobre a sociedade católica que o publicou e que se chama Sociedade da Santa Cruz.
Eu estou habilitado a dizer-lhes quais são os estatutos desta sociedade, pois que li __fragmentos, e verão por eles qual é o espírito dela e o seu objecto. A sociedade foi formada há doze anos e compõe-se de bispos, vigários, diáconos e todos os que se preparam para as ordens santas. Pela regra dos estatutos, cada membro é obrigado a confessar-se todas as vezes que julgue a consciência sobrecarregada; fazer um retiro todos os anos; benzer tudo o que comer; nunca se levantar mais tarde que as sete e meia da manhã; nunca comer com prazer, mas só com necessidade; vestir com pobreza; não ir a teatros nem bailes, nem concertos, nem outros lugares de escândalo; nem falar mal de ninguém, a não ser quando isto for um dever (!); evitar as conversações frívolas e a sociedade das mulheres; nunca encarar com o rosto ou com o corpo das mulheres (!)..., etc., etc.
Veem por estas recomendações o espírito geral da sociedade, e o que ela queria fazer da Inglaterra, se a sua influência penetrasse o povo; e é realmente inaudito que uma seita queira converter o país mais sensato, mais liberal, mais moderno, mais activo – numa espécie de Espanha devota e lúgubre do tempo de Fernando VII! Diz-se que diante da condenação geral que a opinião deu ao livro, a Sociedade da Santa Cruz o vai retirar da circulação e de certo modo renegá-lo. Isto não desculpa o espírito da sociedade e aumenta-lhe o descrédito porque lhe revela a hipocrisia.
O outro livro, Frutos da Filosofia, de que se tem vendido, diz-se, milhões de exemplares, é uma exposição semimédica e semiobscena dos meios de impedir a gravidez! Com um impudor estupendo, este folheto que a Inglaterra inteira está neste momento devorando começa por dizer que nada mais desagradável do que ter filhos; em primeiro lugar, que é um terrível encargo individual, em segundo lugar, porque o aumento da população, em desproporção com os meios de subsistência em Inglaterra, pode trazer a ruína do país. E daí segue-se, num estilo bem trabalhado e técnico, uma série de receitas medonhas para esterilizar a mulher, ou pior ainda... A gravidade do facto – é que este livro vende-se aos milhões de exemplares e que a avidez do público mostra que ele está convencido da sua utilidade e deseja aprender os seus processos. Os autores, ou antes os reprodutores, porque o livro é quase todo composto por um especialista americano, foram condenados; mas o escândalo e a publicidade do processo tiveram apenas como resultado dar ao livro uma fama insensata e enriquecer os editores, e espalhá-lo de tal modo que é raro encontrar um sujeito que não o tenha no bolso da sobrecasaca, como um manual cômodo e à mão de desmoralização e de deboche.
Passemos à sociedade. O leão do dia em Londres é o general Grant, ex-presidente dos Estados Unidos. Festas, bailes, recepções, solenidades, tudo o que se pode fazer para celebrar um herói lhe tem sido prodigalizado, com uma abundância forçada, ia quase a dizer afectada. O ministro dos Estados Unidos deu-lhe um grande jantar, a que assistiu o príncipe de Gales. A feição característica deste jantar foi que, sendo dado pelo ministro americano, na legação americana, a um presidente americano, havia tudo, excepto americanos! Diz-se que a razão é que o ministro não encontrara em toda a colônia americana que habita Londres ninguém à altura de se sentar à mesa com o príncipe de Gales! Isto tem causado em Londres uma doce hilaridade. O que mais impressiona, parece, no general Grant é a sua taciturnidade. E quase impossível arrancar-lhe uma palavra. Tem atravessado as festas, os bailes, os jantares, com os lábios cerrados como um trapista. No jantar que lhe deu o duque de Wellington esteve, até à sobremesa, imóvel e mudo: e de repente, dirigindo-se ao duque, perguntou-lhe no meio de um silêncio solene:
– Qual foi o maior número de soldados que seu pai comandou, duque?
O duque disse que, aproximadamente, duzentos mil homens.
– E eu meio milhão – respondeu Grant.
E desde então, há quinze dias, não tornou a falar.
Madame Grant tem divertido a sociedade inglesa com alguns equívocos que se tornarão históricos. Há dias dizia no salão do príncipe de Gales:
– Tive ontem o prazer de conhecer um dos grandes homens de Inglaterra, ao que me dizem, o senhor Blackstone.
Todo o mundo arregalou os olhos. Blackstone! Quem seria?
Descobriu-se, depois de grandes averiguações, que Blackstone era simplesmente – Gladstone!
Um cancã de sociedade: diz-se que o príncipe de Gales estivera há dias para morrer. Depois da corrida de Ascot, tinha ido visitar um amigo a Temple House, um esplêndido parque, ao pé de Ascot.
Tinha estado a fumar um cigarro, conversando à sombra de um cedro do Líbano – e acabava de se levantar quando, com um estalo formidável, o cedro partiu e desabou!
Um minuto mais cedo e o príncipe de Gales estava com os seus antepassados. Será agoiro?
O imperador do Brasil continua a ser favorito, como aqui se diz, da sociedade de Londres. A sua atividade sobretudo é admirada: a pé desde as seis da manhã, não há instituição, museu, galeria, biblioteca, palácio, hospital, curiosidade, homem ilustre, que não visite, que não estude.
Em todas as sociedades de que é feito membro tem sempre uma palavra interessante a dizer, uma comunicação curiosa a fazer. Com tudo isto, uma simplicidade quase plebeia. A sua comitiva, porém, que ele traz nesta roda-viva há um ano, começa a perder a cabeça, de fadiga e de estonteamento: no dia em que suas majestades tomavam o trem de Paris para Londres, a alguém da comitiva ia esquecendo na plataforma da estação uma pequena mala contendo jóias no valor de cento e vinte mil libras! Felizmente, segundos antes da partida do trem, a imperatriz deu pela falta, e as jóias continuam a adornar as toilettes de sua majestade.
Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo; tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e olhos para ele como para uma Providência sempre presente. Pois bem: em Inglaterra, país de iniciativa individual, de alta independência pessoal, o público considera o parlamento como uma espécie de pai benévolo que tudo deve fazer, tudo remediar, tudo compor. As petições feitas por indivíduos ao parlamento sobre negócios particulares – contam-se por milhares e milhares em cada sessão.
Estas petições são metidas em grandes sacos e remetidas para as fábricas de papel, onde vão ser matéria-prima para petições futuras; mas algumas, por mais curiosas, são conhecidas e fazem a felicidade dos jornais satíricos. Assim tem causado hilaridade a petição muito séria e muito grave de uma família de rendeiros que reclama ao parlamento contra o seguinte escândalo: um empregado da polícia, seu vizinho, fez uma armadilha no quintal e matou-lhe dois gatos! A família pede à câmara dos deputados que a indemnize, processe a polícia e lhe substitua os gatos!
Há agora um costume, nas inculcadeiras de criadas em Londres, de que se fala muito e que me parece suficientemente impudente. As inculcadeiras têm álbuns com as fotografias das criadas, para que o patrão, ou a patroa, possa ver se a cara lhe convém, antes de saber se lhes convêm os serviços.
Até aqui muito bem. Uma cara simpática a servir à mesa do almoço, com uma fresca touca branca, é certamente preferível ao carão macilento de uma matrona azedada. Mas – coisa suspeita! – a maior parte destas fotografias têm os braços nus e o colo decotado!!! Que lhes parece? E para que é necessário, antes de tomar uma criada, saber se ela tem os braços redondos e o seio bonito?
Sobretudo – quando este álbum é destinado a ser examinado não só pelos patrões (e então ainda se compreende) mas pelas patroas! A Inglaterra, positivamente, vai à vela!
Na Escócia, os jornais vêm cheios de detalhes sobre o caso de Miss Grant. Miss Grant era há anos filha de um pobre caseiro, numa aldeia da Escócia, que por morte de um tio, de quem ninguém já se lembrava e que vivia na Índia, se achou, uma bela manhã de Abril, senhora de uma fortuna prodigiosa: além das propriedades riquíssimas, só em dinheiro recebeu esta gentil lavradeira a bagatela romanesca de trezentas mil libras!
Era bonita e esperta. Começou a viver com grande luxo, fez um palácio para os pais, e era feliz – quando aparece em cena uma linda rapariga, chamada Miss Temple. Desde esse dia, Miss Grant começa a mostrar-se excêntrica: em primeiro lugar, consegue que Miss Temple deixe pai, mãe, rompa com todas as suas relações e venha viver com ela; em seguida, as duas gentis criaturas fazem um contrato público pelo qual se Comprometem a nunca casar e a viverem sempre juntas: finalmente, Miss Grant faz um testamento pelo qual, no caso de morrer primeiro, deixaria a Miss Temple um milhão de libras se a mesma Miss Temple nunca a deixasse e se comprometesse a repelir toda a corte e casamento. O romance seguia encantadoramente quando, o ano passado, Miss Temple, muito ingrata, muito desprendida, casou. Miss Grant não destruiu o testamento, mas caiu numa melancolia mórbida e, há meses, morreu de paixão.
Um obscuro cirurgião de uma aldeia da Escócia herdou, ab intestado, aquela colossal fortuna. Mas agora a família Temple quer que o testamento se considere válido, faz processo e esperam-se revelações extraordinárias, que farão escândalo em toda a Inglaterra.