Londres, 21 de Dezembro [de 1877] Crônicas de Londres · Capítulo 10 de 15
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Londres, 21 de Dezembro [de 1877]

Londres, 21 de Dezembro [de 1877]

Londres foi ontem à noite agitada pelo espantoso boato de que a Inglaterra tinha comprado o Egipto!!! Nos teatros, nas ruas, nos clubes, nos restaurantes, dizia-se com uma satisfação um pouco estonteada: – Comprámos o Egipto! Demos um ror de milhões pelo Egipto!

Eu soube a notícia por um amigo meu, que à uma hora da noite se precipitou na minha sala; esguedelhado, com o laço da gravata branca para as costas, soprando como um monstro dos mares, atirou-se para uma poltrona ao pé do fogão e exclamou com palavras ofegantes:

– Acabou-se! Está terminada a crise! Acabámos agora mesmo de comprar o Egipto!...

Eu levantei a cabeça do meu trabalho e, dominando uma comoção violenta, perguntei com tranquilidade:

– Por quanto?

– Centenas de milhões. Um negócio óptimo. A questão do Oriente está acabada: agora que espatifem à vontade o Império Turco. Nós temos o que precisávamos – o Egipto e o canal de Suez! Constantinopla não nos serve para nada! E sem derramar uma gota de sangue!

Derramando, sim, ondas de ouro! Mas pouh!... O ouro sobra. Além disso, o rendimento do

Egipto em três ou quatro anos dá quinze por cento do capital empregado! E que golpe para a Rússia! Com o dinheiro que recebe, a Turquia paga a sua dívida, ganha crédito, equipa exércitos, continua a guerra e faz repassar o Danúbio aos Russos – a pontapés! Grande homem Lord Beaconsfield! Hem!?

Confesso francamente que dormi mal. Comprar o Egipto! O quê! A grande e bela terra dos faraós, dos Ptolomeus, dos sultões, de As Mil e Uma Noites; o Egipto de Sesóstris, de Cleópatra, e de Harun Al-Raschid; a terra monumental e hierática, o país do Nilo, das Pirâmides e dos templos maravilhosos; o vale onde está Tebas de cem portas e o Cairo de cem mesquitas; o terreno fecundo e inesgotável que alimentou o Império Romano; este país prodigioso onde a história é mais maravilhosa que a legenda, o quê! Esta nação-avó, mais antiga que Jeová, comprada, vilmente comprada como um chapéu do Roxo, ou um quarteirão de pêras da tia Vicência! É possível isto? Um sujeito de suíças e de polainas, chegando a Constantinopla e, depois de um olhar de conhecedor e de uma tossezinha de decisão, dizer sossegadamente, apontando para o Egipto:

– Isto: quanto?

– Tanto.

– Bem. Embrulhe e mande a casa!

Hão-de concordar que é forte. Que conquistassem, vá, que lhe dessem a honra de o invadir, de o assolar, de o acorrentar, compreende-se: é da tradição: o Egipto tem passado a sua existência a ser invadido: quem o quer, dá-lhe ao menos a satisfação de lutar por ele; mas comprá-lo! Dar por ele – não sangue, mas notas do Banco de Inglaterra! Chamá-lo a si e entregar um recibo... E verdadeiramente uma ideia de merceeiro! Mas que tem a sua grandeza, concordemos: uma transacção desta ordem eleva a compra e venda à altura da epopeia: e um balcão sobre o qual se regateiam destes negócios é tão poético como o campo de batalha de Tróia.

Hoje, porém, averigua-se que o boato era prematuro: alguns ainda insistem que se comprou, sim – não o Egipto, mas a ilha de Creta: a verdade, porém, é que as decisões do Governo, se estão já expressas em facto são ainda secretas – e eu apenas conto este incidente para dar a medida da excitação que existe em Londres.

Este excitement foi produzido pela convocação extraordinária do parlamento: os rumores mais fantásticos circularam logo, e os consolidados desceram três quartos por cento, o que, diga-se de passagem, custa aos possuidores de títulos a pequena soma de cinco milhões de libras esterlinas. A primeira ideia foi que o Governo ia declarar a guerra à Rússia e que reunia o parlamento para lhe pedir a aprovação constitucional desta aventura dramática: mas semelhante suposição era absurda: o Governo não pode senão expor às câmaras a gravidade da situação, apresentar a sua opinião, ver se o parlamento a aprova e perguntar-lhe se não seria conveniente colocar o exército e a armada à altura da crise. Em todo o caso as câmaras do comércio estão-se já apresentando ao Governo em favor de uma política pacífica e neutra, e nas principais cidades celebram-se meetings para lembrar a Lord Beaconsfield que o contribuinte inglês não tem a mínima intenção de pagar um xelim a mais para que o grão-turco continue a divertir-se nos langorosos ócios do serralho!

Eu julgo que o país faz bem e exprimiu com tempo e com firmeza o seu desejo de paz, porque, abandonando-se às suas próprias inspirações e aspirações, Lord Beaconsfield declararia a guerra amanhã: o seu ódio à Rússia e à raça eslava só é igualado pela sua paixão pela raça semítica e pelas nações arábicas: ama, além disso, na política, o elemento dramático e brilhante: tem o temperamento batalhador e militante que ele outrora atribuiu ao seu herói Tancredo: tem-se colocado como um antagonista histórico do czar, o que lisonjeia o seu orgulho de judeu e de plebeu: além disso, sendo um perfeito cortesão, desejaria dar à rainha Vitória o presente que mais a encantaria – uma guerra em favor da Turquia. Porque a pessoa que no reino é mais anti-russa, mais pró-turca, mais fanática da política tradicional, da aliança otomana, mais zelosa dos chamados interesses britânicos e mais pronta à guerra, é a rainha. E tem-no mostrado ultimamente de um modo tão saliente que causa alguma surpresa e muita tristeza aos que estão acostumados a vê-la observar, religiosamente, as regras mais exactas da abstenção constitucional. Em primeiro lugar a rainha publicou ultimamente um «panfleto contra a Rússia»: e eu me explico: o Sr. Theodore Martin está imprimindo uma biografia do príncipe Alberto, cujos elementos e documentos são fornecidos pela rainha: a rainha é, de facto, a colaboradora essencial deste trabalho: há páginas que estão tão profundamente impregnadas das suas opiniões, das suas simpatias, direi mesmo das suas afeições, que parece que o nome de Theodore Martin é apenas um pseudônimo literário sob o qual se oculta a rainha Vitória: ora justamente o terceiro tomo desta biografia acaba de ser publicado, e refere-se ao período da vida do príncipe no tempo da Guerra da Crimeia: as cartas do príncipe transcritas, os seus discursos, as suas opiniões, a reprodução das suas conversações, sobretudo a história da sua influência na política inglesa desse tempo, mostram que ele tinha a maior simpatia pela guerra contra a Rússia e que concorreu poderosamente para a sua realização: o volume inteiro é a apologia prolongada desta simpatia, e a rainha, por intermédio do Sr. Martin, revestindo-se das opiniões do seu marido, e fazendo, neste momento, a sua glorificação, dá claramente ao país a expressão das suas opiniões pessoais. Diz-se mesmo que, depois de um dos últimos conselhos de ministros, em que Lord Derby e Lord Salisbury tinham energicamente advogado uma política de abstenção, a rainha disse a Lord Beaconsfield, dando-lhe este terceiro volume da Vida do Príncipe Alberto:

– Peça aos seus colegas que desejam a paz que leiam este livro: têm muito que aprender aqui.

De facto o volume é um ataque terrível contra a Rússia, contra a falsidade tortuosa da sua política, a instabilidade desonesta das suas promessas e a intensidade das suas ambições.

Mas a maior demonstração da rainha em favor da guerra, foi a sua recente visita a Lord Beaconsfield: não uma visita particular, mas oficial, em cerimônia, como rainha de Inglaterra e imperatriz das Índias. Semelhante honra é tão extraordinária, tão contrária aos hábitos da corte e aos costumes da rainha, que, ao saber tal, todo o reino ficou mudo de espanto. O imperador do Brasil, o imperador da Rússia, a imperatriz da Áustria, todos os príncipes herdeiros e todas as coroas europeias têm vindo a Inglaterra, e a rainha nunca lhes fez uma visita: é inútil dizer que nunca a fez a um lorde de Inglaterra nem a nenhum dos seus primeiros-ministros, nem mesmo a Lord Granville, por quem ela tem a maior simpatia pessoal. Portanto, a sua cerimoniosa jornada a Hughender Manor, propriedade e residência castelã de Lord Beaconsfield, deu origem às interpretações mais fantásticas e aos boatos mais insensatos; mas a verdade é (e todas as pessoas razoáveis o compreendem) que a rainha, fazendo uma tal honra ao ministro que mais advoga a guerra, quis manifestar que lhe dava todo o seu apoio e que estava com ele na mais perfeita comunidade de vistas e talvez de decisões. Mas que importa toda esta manobra de ministros e da rainha se a Inglaterra quer o contrário? E quando o forte John Bull exprimir resolutamente a sua vontade, os altos personagens do ministério e da corte têm de obedecer como os bois obedecem ao carreiro.

Da guerra não há senão notícias mais ou menos incertas: assim não creio que se deva dar muito crédito ao espantoso boato de que Suleiman Paxá apareceu inesperadamente em Constantinopla à testa de dez mil homens, para fazer uma revolução, derrubar o Governo, exonerar o sultão e criar uma ditadura militar sob o nome do ex-sultão Murad, destinada a continuar a guerra até à última extremidade. Suleiman Paxá, é certo, pertence ao partido fanático, é uma espécie de general softa, inimigo das reformas europeias, ciumento das velhas tradições otomanas, hostil ao estrangeiro e à sua influencia: mas, por isso mesmo, creio, bastante patriota para não querer complicar a guerra estrangeira com uma revolta interior, e pôr à testa do Governo homens de quem a Europa desconfia, neste momento em que o seu país mais precisa a benevolência e a confiança da Europa.

E o mais crível é que a ele fosse a Constantinopla organizar um exército que defenda o caminho para a capital no caso que Andrinopla fosse tomada ou torneada.

Tudo isto indica que a paz ainda vem longe: a Rússia, exaltada com as suas últimas vitórias, sentindo-se fortemente apoiada pela Alemanha e tendo todas as razões para se julgar apoiada pela Áustria, alarga as suas pretensões, e quase não oculta que planeia a desmembração do Império Otomano; a Turquia, pelo seu lado, exasperada pela humilhação das derrotas, tendo adquirido com as primeiras vitórias uma extrema confiança em si mesma, animada pela atitude activa da Inglaterra, pressentindo a proximidade de uma intervenção em seu favor, objecta, mais que nunca, a meter a espada na bainha: e os sofrimentos na Bulgária e na Ásia, agora que as inclemências se vêm juntar aos desastres da guerra, ameaçam protrair-se indefinidamente. E, para haver mais uma acha na fogueira, a Sérvia acaba de lançar o seu exército de aventura sobre a Turquia meio vencida. O procedimento do príncipe Milan e do Governo sérvio é aqui julgado (mesmo pelos inimigos da Turquia) com uma severidade em que há mais desprezo que indignação. Alguns jornais mesmo afectam não tocar no assunto, como muito vil para uma pena honesta. Com efeito, a Sérvia tem-se comportado pulhamente: batida pela Turquia, quase sem esforço, tratada de covarde pelo imperador da Rússia no célebre discurso de Moscovo, aceita com reconhecimento uma paz que as nações mendigaram para ela, e obriga-se por um tratado a conservar-se neutral, forem quais forem as ocorrências: a Rússia declara a guerra, e no primeiro momento parece levar de vencida os exércitos otomanos; a Sérvia logo, com a cobardia de quem é forte para com homem derrubado, tira metade da espada fora da bainha; mas as coisas mudam, e é a Turquia que sobre toda a linha ganha vitórias decisivas; imediatamente a Sérvia esconde a espada e dá parabéns cortesãos ao sultão. Os Turcos são de novo batidos na Arménia e no Danúbio, e eis a Sérvia a menear-se num repentino impulso guerreiro; Plevna cai, e a Sérvia une-se ao imperador, que a tratou publicamente de covarde, e contra todas as leis da honra e todos os deveres da coragem vai dar na Turquia o coice do asno! Não me espanto de que o Daily Telegraph trate o príncipe Milan de biltrezito!

Estamos em férias do Natal; é esta a época das festas de família, do plum-pudding e de uma praga de versos, de publicações, de baladas, de contos alegóricos, de cromos-litografias, celebrando o velho ano, o bom Christmas, o ano novo e as doçuras do lar! O Natal dá lugar a uma singular espécie de literatura, que é para as letras o que o plum-pudding é para a confeitaria – um produto pesado e indigesto que todo o mundo gosta de ver sobre a mesa, em que ninguém toca e que a gente grande estima pela alegria que dá às crianças. E sobretudo para as crianças que são escritas estas poesias piegas e estas histórias de fantasmas, desenhadas estas vistas convencionais da neve e estas figuras grotescas da caridade. Os jornais ou revistas, todas as publicações, põem de parte o bom senso, a ciência ou a arte e dedicam um número a estas criancices, que se chama o «número de Natal», e que, pela venda prodigiosa que tem, constitui um dos rendimentos das publicações inglesas. Os teatros fazem o mesmo: e todos, sem excepção, representam nesta época a pantomima, espécie de mágica desordenada, cheia de transformação, de bailados e de glórias, onde aparecem simultaneamente actores, palhaços, cães sábios, virtuosos ilustres, feras, dançarmos célebres, habitantes de países exóticos (lapônios ou patagônios), macacos, esquadrões de cavalaria e cascatas naturais! Estas representações duram três meses, e toda a família verdadeiramente inglesa e que respeita as tradições vai ver a pantomima pelo menos três vezes, com todas as crianças e todos os criados: é uma solenidade doméstica.

De resto o tempo tem estado esplêndido, em toda a Inglaterra; neve e sol: de noite a neve cai para dar a sua beleza especial aos campos e às cidades; de dia o sol vem para iluminar a neve e fazer o ar alegre. Já se patina, porque toda a água parada está gelada. Temos tido oito a dez graus abaixo de zero (centígrados).

Depois do Natal começa a emigração da gente rica para o Sul. O lugar favorito é a formosa ilha de Wight, onde há bosques de camélias e erra no ar de Inverno uma perpétua reminiscência da Primavera. A propósito da ilha de Wight, um amigo meu que de lá veio contame uma deliciosa anedota sobre o ilustre Tennyson, o maior poeta de Inglaterra e do seu tempo, talvez.

Tennyson vive na ilha de Wight, no seu delicioso retiro cheio de flores e de pássaros: está velho agora, e a sua qualidade característica, que foi sempre a modéstia, tem tomado sempre com os anos uma intensidade exagerada: não há nada que o sublime poeta de Locksley Hall, de Mand e dos Idílios de El-Rei deteste mais do que ver um curioso contemplá-lo. Tennyson é pessoalmente uma figura poética, e os seus longos cabelos brancos, em anéis, a sua comprida barba nevada e a extraordinária doçura dos seus olhos exercem um encanto e provocam um respeito enternecedor em quem pela primeira vez o encontra. E portanto, natural que a sua celebridade, o fanatismo que os Ingleses, e sobretudo as inglesas, têm por ele, a beleza da sua pessoa, o exponham a ser muitas vezes objecto da curiosidade e de uma admiração impertinente. O que faz, pois, Tennyson quando passeia nos deliciosos caminhos da ilha de Wight? Que imaginam que faz? Traz um grande lenço na mão e, apenas sente passos, atira-o para cima do chapéu e cobre cuidadosamente o rosto!

Um inglês é sempre excêntrico, mesmo quando é sublime.

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