Londres, 26 de Janeiro [de 1878] Crônicas de Londres · Capítulo 12 de 15
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Londres, 26 de Janeiro [de 1878]

Londres, 26 de Janeiro [de 1878]

Esta semana tem sido certamente fecunda em episódios históricos e que pela sua natureza fornecem belas antíteses retóricas: pompas funerárias em Itália, pompas nupciais em Espanha; o papa, que materialmente agoniza, o sultão, que agoniza politicamente; intrigas eclesiásticas e intrigas diplomáticas; isto com algumas guerrazinhas secundárias, aqui e além, na África e na América, alimenta com superfluidade a curiosidade europeia. Mas, ainda assim, é em Londres que se tem concentrado o interesse dramático do momento; temos vivido aqui numa excitação, um excitement capaz de arruinar a constituição mais robusta. Sobretudo nestes últimos três dias cada hora nos traz uma grande sensação; e cada notícia é um choque eléctrico. Ora é o Governo que vai pedir para armamentos sessenta milhões de libras! Ora é a frota inglesa que é mandada a Constantinopla! Ora são trinta mil homens expedidos para Galípoli! Depois é Lord Derby que pediu o demissão, por ser oposto à guerra! Em seguida, é a

Inglaterra que, prevendo a partilha do Império Turco, fez desembarcar cem mil homens no Egipto!... Toda a sorte de boatos fantasistas, de que aproveitam os jogadores de fundos e as administrações dos jornais. E tudo isto dá lugar a uma questão feroz, desde que um inglês encontra outro inglês; porque o país, dominado por impressões, e portanto indiferente aos raciocínios, está dividido em dois partidos: os que querem a guerra a todo o preço e os que a todo o preço querem a paz.

Uns parecem querer tomar como casus belli o simples facto de que o embaixador russo passeie nas ruas de Londres; os outros parecem quase dispostos a não se mexer nem mesmo que um exército invasor desembarcasse em Dover! O Governo, esse, pretende tomar um caminho médio: desejar a paz em princípio e esforçar-se por a conservar; mas fazer a guerra, se a Rússia, pelas suas exigências, ferir alguns dos grandes interesses britânicos. Isto parece, com efeito, o racional: é uma neutralidade condicional, que vela, armada.

Eu, por mim, desejaria bem que a Rússia ferisse, mas ferisse mortalmente, algum interesse inglês, para que a Inglaterra fosse obrigada a atirar um golpe ao Urso Branco. Um dos meus grandes ódios políticos é a Rússia, não o povo russo, que tem qualidades magníficas, mas o Governo russo, que não só exerce o despotismo em sua casa mas que o defende, o auxilia e o promove nas casas alheias. O czar Nicolau, como seu pai Alexandre, foi, enquanto vivo, o grande paladino do absolutismo na Europa; em toda a parte em que um movimento de liberdade se manifestava, ele corria a ajudar a sufocá-lo; todo o trono despótico e tirânico que uma revolução abalava, tinha-o ao seu lado como defensor oficial do despotismo.

O actual czar, apesar dos sentimentos humanitários que se lhe atribuem e de que as suas alocuções transbordam até à pieguice, herdou esta missão desgraçada; não teve ainda ocasião de tirar a espada em favor de uma tirania sacudida; mas tem apoiado com a sua influência, com os seus conselhos, com o seu dinheiro, todas as tentativas mais ou menos aventureiras que se têm feito contra o livre espírito da época: foi ele que mais embaraçou e contrariou o movimento liberal de 68 em Espanha, foi ele que deu o mais alto aplauso ao ministério Broglie, de ominosa memória; foi dele que D. Carlos, na sua criminosa guerra civil, recebeu as palavras mais animadoras; o seu desejo de colocar o conde de Chambord em França, D. Miguel em Portugal, restabelecer os Bourbons em Nápoles e restituir os ducados de Itália aos príncipes fanáticos e tiranetes. Isto, reunido à maneira como a Rússia é governada, tomam-no pouco simpático a todo o espírito liberal. É claro que não falo aqui do czar-homem, esse, dizem, é bondoso, compassivo, afável, sensível, um perfeito gentleman; falo do czarideia, da missão que ele encarna e da política que representa.

Seria portanto com ganidos de júbilo que os liberais veriam a Inglaterra dar-lhe um golpe valente; não como no tempo da Crimeira: então os aliados, atacando e tomando Sebastopol, não fizeram mais do que fazer cócegas no calcanhar do colosso e limar uma unha do imenso urso; não, o que se deseja é que o golpe seja ao coração, bem ao meio do coração.

O czar vencido era a Rússia libertada. O povo russo perdeu a docilidade de criança dependente: tem visto, tem olhado para fora da fronteira, sabe que há uma coisa que se chama liberdade, outra que se chama constituição, uma certa reunião de vontades e de razões que se chama parlamento, etc., etc. – e tem vontade de provar destes frutos excelentes que crescem nas terras alheias. Se o povo sofresse duas ou três derrotas providenciais, perdia todo o respeito, toda a ilusão sobre o seu czar, e ou o obrigava delicadamente a ir divertir-se para a Itália ou o forçava a não ser mais que a fórmula simbólica do Governo, de que ele, povo, será, pelos seus representantes e pelos seus jornais, o motor real. Por isso, é com mágoa, é com prantos, que vemos escapar esta ocasião única de ver a Inglaterra, campeã da liberdade, como diz a canção, desfazer a tiros o Governo do czar e o seu terrível maquinismo. Porque lançada a Inglaterra contra a Rússia, o resultado não era duvidoso. E é triste, é desolante, ver em lugar disto o czar ganhando batalhas, tomando cidades, arrecadando indemnizações de guerra, o czar alargando o seu território, o czar crescendo em força, o czar consolidando-se, o czar amado, o czar vitorioso!

Esta inimizade ao czar não implica, todavia, nenhuma simpatia pelo sultão. O Governo da Porta é tão detestável como o Governo do Palácio de Inverno. Talvez mais, mesmo. Decerto a situação dos cristãos na Bulgária e nas províncias turcas era lamentável; muitos correspondentes ingleses, pró-turcos, esforçam-se em provar que os cristãos eram felizes, pouco carregados de impostos, de nenhum modo violentados nas suas crenças, gozando uma liberdade considerável de trabalho e possuindo mesmo uma prosperidade relativa. Mas se isto é assim, porque eram os Russos recebidos por estas populações com o entusiasmo com que se recebe um salvador?

Quando o general Gurko passou os Balcãs, por cada camponês búlgaro que se reclamava para puxar, nas passagens das montanhas, as peças de artilharia, apareciam cem! E os que, por supérfluos, eram excluídos deste serviço muar, queriam ao menos, por dedicação, ir ao pé da carreta puxar por uma ponta da corda, tocar a peça libertadora com as suas próprias mãos, fazer qualquer serviço, mostrar a gratidão e o reconhecimento do homem salvo.

Quando os Russos entravam em Sófia, em Andrinopla, eram recebidos com fanatismo: os soldados desapareciam sob as flores arremessadas; os lojistas ofereciam os seus armazéns de graça. O russo era o Messias muito esperado. Ora é evidente que se eles (como querem dizer certos correspondentes) eram tão felizes sob a lei turca não teriam recebido com tanta paixão quem vinha destruir essa lei. E, pois, de crer que a prosperidade de que se fala não existiu nunca senão na prosa dos correspondentes, de envolta com alguma má gramática. Eu não conheço a Bulgária, nem observei nunca de perto espécime algum da administração turca; mas estive no Egipto e lembro-me da impressão geral que me ficou da condição dos felãs, pobres cultivadores da terra; o chino nas Antilhas, o negro nas colônias espanholas, gozam uma verdadeira felicidade, comparados com o miserável, o acabrunhado, o desgraçado felá. Quem observa como eles vivem, como os tratam, sente vagamente um insulto à natureza humana; não quero dizer que os cristãos da Bulgária estivessem nas mesmas condições abjectas; mas a similitude da administração egípcia e turca deve produzir uma igualdade de vexame. Portanto, honra e glória a quem os fosse libertar! A Rússia não era talvez o país mais autorizado para o fazer, ela que trata... como trata os pobres camponeses, antigos servos. Mas, enfim, foi a Rússia que se dedicou, que apareceu na Bulgária a sacudir a tirania otomana: bem!, hurra pela Rússia! Hurra pela Patagónia, se tivesse sido a Patagónia! Mas agora que o czar livrou os Búlgaros do sultão, venha alguém, mais civilizado ainda, a livrar os Russos do czar. Eis o verdadeiro ideal liberal.

Mas esta esperança devemo-la perder. Toda a esperança da guerra findou. Direi mesmo que, há dias, o procedimento do Governo inglês foi tal que se pode acreditar que ele tinha esquecido as suas declarações orgulhosas e que, fosse qual fosse a ofensa feita pela Rússia aos interesses ingleses, o leão britânico, caduco e pesado com a sua indigestão de ouro, não mexeria nem uma pata. Um jornal francês, mesmo, começou o seu artigo de fundo, dizendo: «A Inglaterra não existe! A Inglaterra desapareceu da superfície do orbe! Alvíssaras a quem achar a Inglaterra!» O Journal des Debats, dizia, com mais gravidade de estilo: «L'affaissement de Angleterre est complet.» Com efeito, o Governo convocara o parlamento para lhe pedir fundos dado o caso que alguma coisa sucedesse; pois bem, o armistício estava-se tratando, uma divisão russa marchava sobre Galípoli, outra sobre Constantinopla – e o Governo não pedia os fundos! A tomada de Constantinopla não era considerada grave! O que seria grave, então? Mas a opinião fez tanto barulho que o Governo acordou e, ainda meio a dormir, declarou que havia de pedir os fundos «além de amanhã». Graças a Deus!

Mas esses fundos não serão empregados, nem pedidos talvez, porque hoje conhecem-se as exigências da Rússia, e elas não contêm nada que ofenda os interesses ingleses. O urso teve medo do leão. Estende a pata de um modo suave e prudente. Eis o que, em resumo e tanto quanto se sabe, a Rússia pede:

Autonomia da România;

Autonomia da Sérvia;

Anexação da Bessarábia;

Cessão do porto de Batum;

Entrada das tropas em Constantinopla para aí embarcarem para Odessa.

Indemnização de um milliard de rublos, ou sejam, quatro milliards de francos, ou sejam, cento e cinquenta milhões de libras esterlinas, e para garantia, até inteiro pagamento, ocupação da Arménia.

Não há nestas condições (a questão dos Dardanelos é deixada para mais tarde) nada que ofenda os interesses ingleses. Há, é verdade, a entrada em Constantinopla: mas nesta exigência os Russos têm razão: em primeiro lugar, não é possível negar às tropas vitoriosas, que tanto sofreram e tão bem se bateram, esta marcha triunfal na capital inimiga, que é a grande recompensa militar e a consagração visível da glória: mas há outra razão; é que embarcar as tropas em Constantinopla e fazê-las ir para Odessa é a maneira mais fácil, mais barata, mais prática, quase a única possível de chamar o exército à Rússia. Imagine-se que despesa, que trabalho, que sofrimento, se as tropas tiverem, nesta estação, de tomar a atravessar os Balcãs, de repassar o Danúbio (o que é, em virtude do gelo, quase impraticável) e de voltar à Rússia por terra. Além disso, se os Prussianos entraram em Paris, capital da civilização, não há razão, nem política nem moral, por que os Russos não entrem em Constantinopla, simples cidade pitoresca.

A indemnização não creio que ofereça dificuldades. Eis, penso, o que se vai passar: a Rússia, como garantia, ocupa a Arménia: é claro que a Turquia, nem como pilhéria, pode pensar em pagar cento e cinquenta milhões de libras: portanto, os Russos estabelecem-se na Arménia; mas como esta ocupação, num dos caminhos possíveis para a Índia, é extremamente desagradável aos Ingleses, a Inglaterra empresta os milhões à Turquia para pagar à Rússia e recebe como garantia a suserania do Egipto. A Rússia embolsa, a Inglaterra estabelece-se no seu bem-amado canal de Suez e todo o mundo fica contente, excepto, já se sabe, o pobre Turco.

Eis o que eu penso provável; mas nesta questão do Oriente as complicações crescem como os tortulhos – conjecturar torna-se tão pretensioso como adivinhar.

Não creio que a imprensa portuguesa se tenha ocupado muito de um assunto que profundamente interessa ao país e a que a imprensa inglesa desde ontem dá uma certa atenção. Refiro-me à morte de Pio IX e ao direito que tem Portugal de opor o seu veto à nomeação de novo papa. Este direito, que pertence igualmente à França, Espanha e Áustria, está nas vésperas de ser oportunamente reclamado, porque sua santidade tem bem próxima a hora de subir para o seio de Aquele que há trinta anos, com fortunas diversas, ele representa oficialmente na Terra. A esta hora há no Vaticano uma destas intrigas subtis e maravilhosas, perante as quais os enredos diplomáticos ou os antigos imbróglios das comédias espanholas são coisas simples e elementares.

Os cardeais têm, na sua dupla qualidade de italianos e de padres, o gênio refinado da intriga astuta: e neste caso de sucessão papal são italianos contra italianos e padres contra padres. Os cardeais estrangeiros, ou ausentes nas suas dioceses, ou afastados da frequentação íntima dos quartos de sua santidade, são apenas como o coro de certas óperas antiquadas, que na cena final, dos dois lados do palco, se pronunciam uns por este, outros por aquele pretendente à mão da princesa. O grande enredo é entre os italianos: aí tudo o que a finura tem de mais aguçado, tudo o que a duplicidade tem de mais tortuoso, os disfarces mais rebuçados, as escavações mais subterrâneas, as influenciazinhas mais distantes, as caluniazinhas picantes, a preciosa posse de segredos, as captações melífluas, tudo serve, tudo se emprega para fazer um papa.

É bizantino e maquiavélico. A primeira coisa a conseguir para um cardeal pretendente é a recomendação do papa. Sua santidade, se conservar o espírito claro na hora suprema, decerto por uma palavra, um olhar, um aperto de mão, uma alusão, há-de mostrar a sua preferência: isto é esperado, é certo: e uma tal escolha da boca do papa, num tal momento, terá para muitos a força de uma ordem divina.

A outra coisa a obter é mais moderna e toda eleitoral: são votos. E aqui que os fios da intriga se emaranham.

Enfim a última condição é que não haja oposição ou veto. É neste ponto que Portugal tem hoje, em Roma e no Vaticano, mais importância que as grandes potências unidas. O conclave sabe e todos são acordes que a França, a Espanha, a Áustria, todas com razões diversas, não exercerão o seu direito. Mas Portugal pretende exercê-lo ou, pelo menos, assim o crêem os cardeais. Daqui uma comoção muito nervosa, em suas eminências. Nos princípios deste mês o senhor conde de Tomar, nosso embaixador em Roma, foi recebido pelo papa, e este simples facto causou, posso afirmá-lo, no mundo eclesiástico de Roma, tanta sensação como a morte de Vítor Manuel.

Porque o que se receia entre os cardeais não é que Portugal interfira por interesses propriamente seus, mas que se encarregue de representar os interesses das potências que não têm direito de veto. Estas duas potências são a Alemanha e a Itália: os seus interesses seriam um papa liberal; Portugal é essencialmente liberal e, além disso, unido às duas cortes pela Casa de Sabóia e pela Casa de Coburgo; portanto, concluem os cardeais, é bem possível que Portugal vá, pela sua oposição, fazer valer no conclave os interesses das duas nações inimigas do Vaticano.

O direito de veto não é exercido pelo embaixador, mas por um cardeal, que se encarrega de apresentar no conclave o protesto, em nome da nação que o lança: diz-se em Roma que há já um cardeal que tem na algibeira da sua batina o veto de Portugal – na ausência do único cardeal português, que é o patriarca de Lisboa. Daqui uma intriga desesperada, ávida de saber quem o cardeal portador.

Os dois cardeais que têm mais probabilidades de se sentar no trono de 5. Pedro são o cardeal Billio e o cardeal Monaco de la Valleta. Têm ambos cinquenta anos, a mais alta jerarquia eclesiástica, uma ambição extrema, uma astúcia penetrante. Monaco de la Valleta ajudou à composição do Syllabus, mas exprime opiniões liberais quando vê que, numa circunstância dada, isso pode trazer-lhe um apoio forte na realização da sua esperança. Isto pinta o fino prelado. Billio tem seguido sempre a mesma táctica: e ambos eles procuram ansiosamente averiguar qual é o cardeal portador do veto de

Portugal, que pode no momento último separá-los da desejada tiara. Portugal tem pois, neste momento, uma voz, numa grave questão europeia, em que poucos a têm. E os que não podem falar têm os mais altos interesses na solução desta questão.

Portugal pode entrar e falar no conclave. A Alemanha, a Itália, a Inglaterra, não podem. É fácil de ver a nossa importância neste momento, em que temos o privilégio de entrar quando as grandes potências têm de ficar à porta.

De todos os fenômenos naturais, o som era decerto aquele que, até aqui, a ciência e os inventores tinham perturbado menos. Pelo menos, em comparação da eletricidade e da luz – obrigadas a fazer o mais reles do serviço –, o som gozava uma tranquilidade relativa. Neste século uma tal paz não podia durar. O Dr. Bell foi o primeiro a inquietá-lo, com a invenção do telefone. E agora temos um outro fantasista, que apenas pretende isso – guardar o som de conserva. O aparelho (há necessariamente um aparelho) recebe, por exemplo, o discurso do orador, guarda-o e daí a meses, ou anos, pode reproduzi-lo com a voz do orador e as suas menores inflexões, desde os ímpetos da retórica até à tosse ou espirros casuais. Deve-se fazer proximamente em Londres uma grande experiência. A primeira aplicação em que se vai empregar, ao que parece, é nas disposições da última vontade. Em lugar de fazer o testamento por escrito, o moribundo fala o seu testamento, o aparelho recolhe as palavras e, dado o caso de uma contestação judiciária, o aparelho vem ao tribunal e reproduz a mesma voz do moribundo cortada dos mesmos gemidos. A descrição do aparelho é complicada, mas, tanto quanto pude perceber, consiste nisto, por alto: um tímpano, de uma sensibilidade quase sobrenatural, à medida que vibra com os sons recebidos vai imprimindo numa tira de massa um certo número de sinais côncavos; essa tira, voltada do avesso e solidificada, apresenta as saliências correspondentes às pressões que recebeu do outro lado; essas saliências, operando sobre um complicadíssimo aparelho pelo sistema dos cilindros de realejo, reproduzem com uma excitação milagrosa os sons recebidos pelo tímpano.

Nada mais simples...

As criadas inglesas, julgando sem dúvida que as soldadas actuais eram perfeitamente indignas de seres inteligentes, formaram uma espécie de associação para se criarem benefícios suplementares; e estes consistem em apanhar cartas comprome-tedoras às amas e venderem-lhas por preços respeitáveis. O caso infeliz de uma senhora muito sensível que se viu obrigada a pagar por um bilhete de três linhas vinte e cinco contos de réis revelou a existência desta quadrilha amável.

Os negócios de cartas têm-se reproduzido com uma tal abundância que os jornais pedem a intervenção do parlamento e a criação de leis severas. Mas a melancolia do caso, quem jamais o diria?, é que as criadas tinham por associados, imaginem quem... Não, não podem imaginar! Tinham por associados os próprios amantes das amas. Sujeitos elegantes, de formas robustas e fisionomia simpática (tudo o que reclamam os compêndios de retórica em Portugal para se ser um bom orador), tinham por profissão impressionar senhoras de temperamento sentimental, provocar uma correspondência picante e deixar, por descuido, cair um bilhete diabólico nas mãos subtis de uma criada de quarto: esta reclama da senhora o preço do bilhete (havia uma tarifa: simples platonismo, quinhentas libras; rendez-vous, mil libras; alusões ao facto consumado, preços variáveis e em proporção com a fortuna da frágil esposa) e, obtida a soma, partilha-a com o sedutor. É simples e prático. As senhoras sensíveis andam aterradas; será impossível, de ora em diante, o começar uma intriga poética antes de se ter a certeza que o cavalheiro não pertence a esta terrível sociedade, ou que, pelo menos, os seus preços são razoáveis. Não há fortuna que baste – se as senhoras têm de pagar por vinte e cinco contos cada bilhete inflamado. A ternura torna-se uma coisa tão cara, sobretudo a ternura ilegítima, que apenas as esposas dos mais poderosos banqueiros da Europa estão habilitadas a poder amar. E o que é mais curioso é que aos que pedem leis severas contra esta inteligente especulação sentimental respondem os homens práticos que diminuir o perigo do escândalo é aumentar implicitamente o pecado – e que esta terrível associação, sendo da mais alta moralidade indirecta, em lugar de ser perseguida deve ser favorecida. Pobres senhoras sensíveis!

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