Londres, 1 de Agosto [de 1877]
Londres, 1 de Agosto [de 1877]
Desde que os Russos estão do lado de lá dos Balcãs, no caminho que leva a Constantinopla, todo o interesse da última semana se tem resumido nesta interrogação: que vai fazer a Inglaterra? Londres ficou atônita segunda-feira passada, quando soube que o Governo ia mantas tropas para o Mediterrâneo. «E a guerra!«, exclamava-se por toda a parte. Não era a guerra ainda, mas era aviso ao leitor. O leitor, neste caso, é o czar. Com efeito, depois de muitas ordens e contra-ordens, que mostravam uma grande vacilação, três mil homens foram remetidos para Malta e Gibraltar, e instruções dadas a outros corpos para estarem preparados, inclusive o Corpo de Administração Militar, que só acompanha as divisões expedicionárias. Isto tinha uma feição singularmente guerreira. Soube-se logo que na Câmara dos Lordes e na Câmara dos Comuns o ministério seria interrogado sobre a significação destes preparativos – e havia uma curiosidade pungente em escutar a resposta de Lord Derby.
Lord Derby deu a única resposta que se podia dar – diplomática e reservada. Declarou que as tropas são simplesmente para reforçar as guarnições de Malta e de Gibraltar, que, nesta ocasião em que a região mediterrânea está num estado de perturbação, necessitavam ser fortemente completadas. Esta resposta naturalmente não significava nada – senão que a verdade não podia ser dita.
Realmente Gibraltar só pode ser atacada por terra, pela Espanha, e não consta que a Espanha tenha a mínima intenção de declarar a guerra à Inglaterra; enquanto a Malta, só pode ser atacada por mar – e não é portanto de nenhuma utilidade aumentar a força de terra; sobretudo se se considerar que, entre as tropas enviadas a Malta e a Gibraltar, vai o 17º de Lanceiros, e que realmente não se concebe para que possa servir em Malta ou em Gibraltar um forte regimento de cavalaria. Não está nos hábitos da guerra opor a navios couraçados os regimentos de lanceiros. Era evidente, portanto, que a expedição ia simplesmente a Gibraltar e a Malta para estar mais perto do seu verdadeiro destino; e este destino, ninguém o ignora, é Galípoli.
A pequena península onde está Galípoli, que domina a entrada dos Dardanelos, pode ser, em poucos dias, convertida num campo entrincheirado, inacessível por terra, inexpugnável por mar, onde a Inglaterra se poderia estabelecer – e, senhora daquela posição formidável, ditar as suas condições, se se tratasse de paz, ou preparar os seus movimentos, se se tratasse de guerra.
Isto, porém, não parece tão fácil. Com que carácter vai a Inglaterra estabelecer-se em Galípoli? Como aliada da Turquia? Mas então tem de o manifestar claramente, por algum ato público de aliança, e por este facto lança-se isolada em uma guerra contra a Rússia, sem estar de modo nenhum preparada militarmente para esta eventualidade temerária. Vai simplesmente a Galípoli como neutral? Mas consentirão os Turcos que uma nação neutral se estabeleça com armas e bagagens no seu território? Não é natural; os Turcos estão extremamente despeitados com a Inglaterra e com a sua atitude indiferente; sempre acreditaram que a
Inglaterra, declarada a guerra, os ajudaria e seguiria, sem hesitar, a sua política tradicional. Consideram-se logrados; e não é presumível que lhe permitissem um desembarque em Galípoli sem que a Inglaterra lhes prometesse uma aliança decidida: haveria, com efeito, alguma coisa de monstruoso, da parte da Inglaterra, em ocupas Galípoli pelos seus próprios interesses, sem se dignar ajudar o dono do território quando ele está em perigo. Os Turcos nunca consentiriam nesta humilhação; resistiriam e, como não duvidam de nada, fariam fogo sobre o primeiro navio inglês que se aproximasse de Galípoli, com tanta mais vontade quanto maior é o despeito que lhes causa a neutralidade inglesa. Portanto, a Inglaterra só pode ir a Galípoli – ou como aliada ou como inimiga do Turco. No primeiro caso, provoca uma guerra gratuita, sem estar preparada para tal; no segundo, tem de ajudar à destruição do Império Turco, renegando a sua política e combatendo os seus próprios interesses.
Leio em muitos jornais e ouço muitos políticos dizerem que a ocupação de Galípoli é um ato de profunda política; que os Turcos serão fatalmente batidos e que a Bulgária e a Bósnia deverão ser arrancadas ao domínio turco; que, assim, os Turcos serão zero na Europa, e o território que lhes for deixado, cercado por todos os lados de inimigos, oferecendo poucas condições de defesa e enormes facilidades de ataque, será inteiramente impotente para formar uma barreira séria em torno de Constantinopla; que Constantinopla ficará assim à mercê da menor invasão e que, portanto, os Dardanelos, o mar da Mármara e o mar Negro não terão quem os defenda, porque o Turco na Europa não será mais que uma sombra! Portanto, dizem, logo que a Inglaterra esteja estabelecida em Galípoli ela fará as vezes do Turco, e guardará a passagem dos Dardanelos.
Tudo isto é muito engenhoso; mas, pergunto, para quem guardará ela os Dardanelos? Se não for para si somente, de que lhe serve guardá-los e defendê-los? E se for para si somente então declara a guerra ao mundo inteiro. Se a Inglaterra pode fazer passar os Dardanelos aos seus navios de guerra, é claro que os tratados que fecharam os estreitos estão despedaçados e que, portanto, todas as nações têm direito de os usar. Suponhamos que uma fragata alemã ou francesa se apresenta para passar os Dardanelos: que fará a Inglaterra? Fazer-lhe fogo? Então é a guerra contra a Europa e a América. Permitir a passagem? Mas então com que fins se estabelece como guarda dos estreitos? Se todo o mundo pode passar, é inútil que alguém os guarde. Isto parece-me lógico.
A expedição, portanto, a Galípoli parece-me cercada de tantas dificuldades e semente de tantas complicações que realmente não creio que o Governo a decida tão facilmente.
A remessa de tropas é apenas, a meu ver, um destes movimentos que às vezes faz um homem para mostrar que não dorme, que está alerta e que não será prudente meter-lhe a mão na algibeira. E a prova é que ontem o Governo, interpelado sobre se levantaria créditos suplementares para fazer face à expedição de tropas, declarou que não: que Malta e Gibraltar se achavam agora devidamente defendidas, e que, este ano, não se tornaria a falas em remessa de gente, nem havia ocasião de pedir, pelo Ministério da Guerra, fundos excepcionais. No entanto, com esta terrível questão do Oriente, a gente nunca está sossegada e, quando menos espera, no terreno mais seguro abre-se uma fenda, e de trás da parede mais inofensiva sai uma descarga.
O grande acontecimento da quinzena é a formidável insurreição operária que rebentou nos Estados Unidos. As companhias de caminhos de ferro de Baltimore e Ohio reduziram os salários dos empregados de dez por cento e aumentaram duas horas de trabalho por dia. Isto originou uma greve. As companhias recrutaram novo pessoal, mas os grevistas atacaram estes intrusos, espancaram a polícia que os defendia e, final-mente,. resistiram à Guarda Nacional. O movimento, então, espalhou-se como fogo em restolho: dez estados tomaram parte na resistência, a greve estendeu-se a cinquenta mil milhas de caminho de ferro, a população baixa tomou o partido dos grevistas e esteve-se em véspera de uma temerosa guerra civil. Houve verdadeiras batalhas entre os insurrectos e a tropa, e pode-se fazer uma ideia do desastre sabendo que só em Pittsburgh os prejuízos causados pela insurreição elevam-se a três mil e seiscentos contos!
Infelizmente as tropas dos Estados Unidos estão muito espalhadas, ocupadas sempre em escaramuças com os índios do interior; e como a maior parte dos caminhos de ferro estavam inúteis não foi possível enviá-las logo para os pontos ameaçados; por outro lado, a Guarda Nacional, composta da plebe, simpatizava por quase toda a parte com a insurreição, ou pelo menos não a atacou com energia. Felizmente, porém, os cidadãos, vendo o perigo, organizaram-se em comités, armaram-se, improvisaram-se em exército e conseguiram dominas a insurreição.
Tem-se procurado investigar as causas que quase tornaram uma greve numa guerra civil, e tem-se dito geralmente que o motivo principal foi o ódio que existe na América contra as companhias de caminhos de ferro.
Com efeito, o seu enorme poder, a sua maneira despótica de servir o público, o excesso das suas tarifas, as vergonhosas especulações que elas fazem, a pouca atenção que dão à segurança dos passageiros, as fraudes que se cometem no transporte de mercadorias – tudo isto tem-lhes alienado as simpatias da nação.
Lembram-se, decerto, que a agitação grangista teve há anos por origem a organização de uma forte resistência contra a tirania das companhias; os preços excessivos por que elas transportavam todos os produtos agrícolas, sobretudo os grãos do interior da América para os portos do Atlântico, absorvendo o melhor do produto das lavouras, chegaram a causar uma tal oposição que se falou por esse tempo em revolução da parte da população agrícola do Oeste. Não é sem razão, pois, que se pensa que as simpatias que a população mostrou pela causa dos grevistas foram devidas a este sentimento de hostilidade.
Isto, porém, não basta para explicar uma tão formidável insurreição, uma insurreição que fez milhões e milhões de prejuízos, que dispunha de artilharia, que formou campos entrincheirados e que se preparava simplesmente para sustentar uma guerra civil. A explicação, enquanto a mim, é esta: a greve foi desenvolvida e transformada em revolta pelo imenso partido socialista ou comunista.
Este partido, na América, é muito diferente dos socialistas europeus: aqui o socialismo é um sistema social, político, moral, religioso. Na América o socialismo é uma hostilidade bruta e instintiva contra todo o que possui e que acumula; lá não há ideias, há apetites insatisfeitos. E o chamar realmente a esses grupos socialistas é um erro que cometem frequentemente os jornais europeus; na América dão-lhes um nome mais exato, chamam-lhes os roughs, isto é, a rudez, a canalha. Esta multidão violenta é, sobretudo, estrangeira; não se deve esquecer que a América é um refúgio, um asilo, o último recurso de tudo o que a Europa tem de gente aventureira, turbulenta, descontente, ávida e viciosa. A Irlanda, a França, a Alemanha mesmo, mandam o que têm de pior – a par, já se vê, de muito trabalhador honesto e útil. Esta multidão que vai procurar trabalho tem a mania de se acumular nas cidades; ser-lhe-ia fácil encontrar emprego altamente remunerado no interior, nos estados agrícolas tão faltos de braços; mas os seus hábitos, os seus vícios, a antipatia pela lavoura, prende-os às cidades. Aí, naturalmente, o trabalhador é menos necessitado, e portanto milhares desses emigrantes encontram-se na miséria, na ociosidade e na desesperação. Nova Iorque, Filadélfia, San Francisco, Baltimore, Chicago, transbordam desta canalha. Ora justamente sucede que, nestes últimos tempos, a crise prolongada dos negócios, na América, tem dado a esta população dias muito prolongados de miséria; e já há tempos se notava nela uma funda e crescente irritação. O sentimento que a domina é uma espécie de cólera bruta contra uma sociedade rica, onde eles são mendigos – e contra um mundo que goza, e no meio do qual eles sofrem.
A greve veio, a propósito, oferecer-lhes um meio de desforra. Logo que viram que ela se espalhava, tomava proporções revolucionárias, disparava os primeiros tiros, a canalha juntouse-lhe com entusiasmo. Em Nova Iorque, em Chicago, em Pittsburgh, apareceram logo chefes agitadores que impeliram as massas descontentes à revolta. O que queriam eles? Nada. Destruir, vingar-se vagamente. E tanto isto é assim que em todos os pontos mais atacados a revolta teve um carácter bruto de violência ao acaso, destruíam, queimavam, abatiam sem discriminar, na excitação da cólera satisfeita, sem outro fim do que dar cabo de uma sociedade onde se achavam mal. Em Pittsburgh, por exemplo, a destruição foi estúpida e bestial: escangalhar, escangalhar! – era o programa. Certas barbaridades extraordinárias revelam a loucura de uma plebe insensata: em Pittsburgh, depois de aprisionar destacamentos de Guarda Nacional, fechavam-nos em casas e procuravam queimá-los vivos! Ao mesmo tempo, e por toda a parte, se saqueava e se assassinava! E o Governo teve que empregar contra esta insurreição da cólera uma repressão de tirano. Colocava-se artilharia nas ruas e varria-se a canalha! As correspondências que devem conter os terríveis detalhes da insurreição ainda não chegaram à Europa; mas receia-se que o desastre, a destruição de propriedades, a perda de vidas, serão maiores do que os telegramas indicam, e que esta fatal revolta seja mais terrível ainda por ser um sintoma e mostrar a existência de um elemento que pode causar aos Estados Unidos, tarde ou cedo, uma pavorosa crise social.
Nos últimos três dias tem-se aqui recebido, da Índia, noticias de um carácter aterrador. A fome ameaça, com uma intensidade crescente. Só em Madras e em Mysore, o Governo está dando rações mesquinhas (por não poder ser doutro modo) a um milhão e duzentos mil esfomeados! E a proporção da mortalidade cresce de um modo que, se isto dura por mais oito meses, a população do Sul da Índia sofrerá uma diminuição sem antecedentes na história.
A opinião, em Inglaterra, está-se preocupando muito com o aspecto da política francesa. O dia das eleições ainda não está fixado; mas as dificuldades crescem para o Governo, porque a famosa aliança dos conservadores falhou. Os legitimistas estão furiosos, porque veem que a política do Governo tende para uma vitória eleitoral dos bonapartistas; os bonapartistas gritam contra o marechal, por ele não permitir que, antes de 1880, se reclame abertamente o império; os orleanistas estão desinquietos com a influência dos bonapartistas – que poderia, no caso do triunfo do império, resultar num segundo desterro para os príncipes de Orleães – e queixam-se da parcialidade que o ministério mostra contra eles na escolha dos candidatos oficiais. Todos gritam, e no entanto os republicanos ganham em força, em união, em táctica e em influência. Daqui vêm os boatos recentes de novo golpe de estado. Mas em favor de quem? E aqui que eu vou surpreender os leitores da Actualidade... «em favor do filho de Mac Mahon!» E pelo menos o que se diz em Paris e o que se imprime em Londres! No entanto, a mim parece-me que «mac mahonismo por direito hereditário» e muito cômico para poder ser verosímil.
A Whitehall Review, o mais elegante jornal hebdomadário de Londres, um órgão de alta sociedade, publica no seu último número, num lugar proeminente, a declaração seguinte:
«Pede-se-nos para declarar que Sir Chames Tempest se valerá dos únicos meios que a Igreja Católica lhe fornece para se lavar da desonra que foi lançada sobre ele e a sua família, e que intentará uma separação judicial. Igualmente se nos pede para declarar que Sir Charles Tempest não foi a Paris em perseguição dos fugitivos, mas ficou tranquilamente na sua propriedade de Northamptonshire, sendo o último a saber do que se passava –tão pouco suspeitava o infeliz gentleman a existência do mal.»
E o jornal acrescenta, como por sua conta e risco: «A esposa infiel e o seu amante estão em Paris. Todas as simpatias estão com o infeliz Sir Charles.»
Este extraordinário parágrafo, que tão estranho parece aos nossos hábitos meridionais, é a conclusão de um facto que tem causado grande escândalo. É simples em si, como verão. A mulher de Sir Tempest fugiu (como tantas outras fogem hoje em dia) com um amante – ele mesmo casado com uma adorável senhora de vinte e dois anos, íntima amiga da princesa de Gales.
O que fez escândalo foi pertencer a fugitiva a uma das mais respeitáveis famílias católicas de Inglaterra e passar por ser uma das mulheres mais sérias da aristocracia inglesa. O facto em si, digo, é banal, e não merece uma linha de comentário: a grande sensação provém de que alguns jornais, por esta ocasião, lembraram-se de fazer uma espécie de revista retrospectiva da moralidade inglesa durante os últimos dez anos e chegaram à conclusão, muito exacta, que neste último período a imoralidade, sobretudo na sociedade mais rica, tem tomado tais proporções que Paris, Madrid, Viena, Nápoles, as cidades clássicas do adultério e do escândalo, ficam humildemente na sombra perante a colossal corrupção de Londres. Que tudo quanto o vício tem inventado de mais mórbido e de mais excêntrico floresce em Londres era sabido; mas supunha-se (os estrangeiros supunham, ao menos) que a sociedade cultivada tinha no mais alto grau as qualidades de honestidade, de fidelidade, de pudor, de probidade doméstica, que foram sempre um dos grandes orgulhos ingleses. Pois bem, pelo que dizem os mais bem informados, os últimos dez anos têm trazido uma transformação dissolvente da honestidade inglesa. Os adultérios, as fugas, os raptos, as seduções, os divórcios, os crimes de família, acumulam-se de ano para ano, dando à alta sociedade inglesa o aspecto sucessivamente decomponente de um fruto que apodrece. Enquanto a mim, sempre o pensei: mas não esperava vê-lo impresso e com cores tão carregadas nas mais sérias revistas e pelos moralistas mais estimados.
Basta observar um pouco as maneiras da inglesa moderna para se ver que ela poderá ser tudo – uma hábil cavaleira, uma excelente caçadora, um forte cocheiro, uma adorável amante, uma excelente atiradora à pistola, um óptimo companheiro de viagem, um atrevido parceiro para uma partida de bacará –, tudo, menos uma esposa e uma mãe. A maneira como se vestem, o atrevimento dos olhares, o hábito das conversações picantes, o vício do namoro, o gosto pelas bebidas fortes, a paixão pelos exercícios masculinos, a avidez de independência, o desdém público – tudo revela, a quem as conhece, uma tendência irresistível para o amor livre. A isto junte-se o temperamento ardente, uma imaginação excitada, uma natureza voluntária – e compreender-se-á a situação. A única coisa que retém ainda é o medo da opinião, do escândalo, da impressão; no dia em que este salutar receio diminuir, ou por cair em descrédito ou por o impulso da paixão ser mais forte – a Inglaterra voltará aos tempos mais devassos da sua história, e repetir-se-á a época fatal dos Stuarts.
Contra esta corrupção a corte procura reagir por uma áspera severidade: assim é sabido que, quando se apresentou à rainha o programa do último concerto real em Windsor, ela mesma, por seu punho, riscou o nome de Madame Adelina Patti, declarando que nunca admitiria no paço uma mulher que conhecidamente tinha um amante; o que não impede que as aventuras amorosas de Madame Patti lhe tenham dado em Londres uma espécie de auréola heróica – a ponto que a sua simples aparição em cena é saudada por aclamações que parecem dirigir-se menos à cantora ilustre que à heroína célebre de um drama conjugal.
Sinto não ter novidades literárias ou dramáticas a dar-lhes. As últimas semanas têm sido estéreis: o abuso das controvérsias políticas parece ter diminuído a produção artística – e as forças intelectuais, que em tempos calmos se empregam no romance ou no poema, voltam-se neste período de excitação pública para o artigo de jornal ou para o capítulo de revista.
A grande novidade em Londres é a chegada de um hóspede ilustre – o Sr. Pongo. Quem é o Sr. Pongo? É uma personagem em que todo o mundo fala, por quem as mulheres andam entusiasmadas, cuja fotografia se vende a cada canto e cujas acções mais insignificantes são registadas em tipo graúdo pelos jornais mais sérios.
O Sr. Pongo não é um príncipe, nem um general, nem um escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista – é simplesmente um macaco! Mas que macaco! É um gorilha: o primeiro, o único que tem vindo à Europa!
Este ilustre hóspede, que esteve primeiro em Berlim, que deu lugar a troca de notas diplomáticas entre o Governo inglês e o alemão a respeito da sua posse, chegou a Londres, onde é objecto de um fanatismo insensato. O Sr. Pongo (é assim que é geralmente conhecido) tem quatro anos de idade, ainda não entrou no período de dentição, já tem três pés e três quartos de altura e os seus músculos são de uma extrema força e agilidade. Comia ordinariamente farináceos e frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um pedaço de bife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Começaram a dar-lhe carne e água; come tudo o que come um gentleman: o seu almoço é como o de qualquer de nos – ovos e costeletas ou beefsteak.
Ao princípio só bebia água, mas veio-se à conclusão que poderia beber tudo – desde Bordéus até Moet et Chandon; a sua bebida favorita, porém, é a cerveja. Depois dos repastos dão-lhe um charuto, que ele fuma, deitando o fumo pelo nariz. A sua fisionomia e tão inteligente, tão viva, que, sem falar, compreende-se tudo o que ele quer dizer, pela vivacidade brilhante do olhar e pelo movimento dos beiços.
Apesar de não se exprimir, parece compreender certas expressões humanas: assim, quando ouve uma boa gargalhada, exalta-se, aplaude com as mãos, ri e parece cheio de júbilo. Mas o que há nele de mais humano é o instinto, próprio de crianças, de levar tudo à boca: assim, se lhe dão um lápis, antes de tratas de escrevinhar, leva o lápis à boca – como um babi.
O gorilha é, como sabem, o animal do qual o homem provém diretamente, segundo as teorias modernas. Até aqui nunca fora possível caçar um vivo – e explica-se o interesse fanático que excita em Londres a presença deste nosso venerável antepassado.
Milhares de pessoas afluem a admirar esta espécie de homem primitivo, que há alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superfície da Terra e era então o rei da Criação! Quem sabe se daqui a alguns mil anos, quando a raça humana, tal qual é hoje, tiver quase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um sábio então não encontrará, nos desertos ou nos bosques, um último homem e não virá expô-lo, em triunfo, nalguma Londres dessa época? E os seres mais perfeitos de então virão contemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como nós contemplamos hoje o nosso antepassado, o gorilha!
Segundo os especialistas, o que há de mais extraordinário neste gorilha é que não tem pelo, o que prova, creio, que a sua raça é justamente a imediata antes do homem...
Realmente, a não ser a sua cor escura, nada o distingue de um homem feio, com uma barba por baixo do queixo. O Sr. Pongo, naturalmente, não está preso: vive num pequeno parque (no Aquário de Westminster) que lhe foi destinado.
A multidão não parece importuná-lo: de resto, todas as medidas estão tomadas para que o não molestem. O sentimento geral, quando a gente o vê, é de pasmo e de melancolia. A sua face, a sua figura, os seus gestos, a maneira de se sentar, de passear encostado à bengala, são tão humanos – ia quase a dizer, tão modernos – que sentimos uma espécie de veneração por aquele avô da raça humana e um certo desdém por nós mesmos, que há alguns mil anos éramos apenas aquilo!.
O que mais o importuna, a meu entender, são as mulheres. As inglesas, que positivamente são doidas, estão apaixonadas, em massa, pelo gorilha. Um jornal, hoje, contava que ontem foi necessário arrancá-lo dos braços de uma senhora, que o devorava de beijos e não o queria largar, declarando que era encantador. O gorilha, que é ainda infante e não chegou à idade do Sentimento, parece apreciar mediocremente estes excessos de ternura. Noutro dia, encheu de bofetadas uma miss que lhe estava a «fazer olho». E esta lição de moralidade e de conveniência, dada por um macaco a uma senhora, aumentou singularmente o meu respeito pelo simpático Pongo.
O único receio do povo de Londres é que ele morra.
Receia-se o Inverno, mas, até agora, dorme bem, almoça o seu beefsteak, janta sopa, roastbeef e sobremesa, fuma três ou quatro charutos por dia, palita os dentes, dorme a sesta – e faz tudo o que faz qualquer inglês, excepto ter uma opinião sobre a questão do Oriente, o que é, penso eu, uma qualidade a seu favor!