Capítulo III
Reprovo a sua vinda aqui! disse Nicolau empregando o vous do despeito ou da cerimonia, que, neste dialogo em francês, era, de parte a parte, ódio.
— Já sei, respondeu Margarida. Reprova que eu viesse. Reprovada e maldita sou eu de toda a gente. Como todas as almas me fugiam, vim acoitar-me na sua. Agora vejo que estou sozinha no mundo. Se eu quiser amigas, hei de ir procural-as à última escaleira da degradação.
— Que desatino! — exclamou o morgado. — Faltaram-lhe meios com que viver honestamente?
— Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicolau de Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me doutrinando a honestidade! Que escárnio! O seu dinheiro não pode rehabilitar a mulher que a sua perversa índole abismou! O senhor faz mulheres perdidas, não refaz honestas!
— Pois bem!
— Pois bem o que?
— Faça o que quiser.
Margarida fitou-o arquejante de cólera, e levou com impetuoso frenesi as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que ele não ouviu:
— Covarde e infame!
Nicolau erguera-se, saíra à saleta contígua, aspirando haustos de ar, e baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A francesa atirára-se ao leito, afogada de soluços, e clamando:
— Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido!
Nicolau ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos enclavinhadas sobre o peito.
Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve dó. Lembrou-se do que fora aquela mulher em casa de seu marido. O contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as desonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciência o travor do cálix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se Nicolau da sua desonra dele! aquelas lágrimas a cairem-lhe no coração! e o terrível irremediável da desgraça de três vítimas, que ele fizera, contando-se pela mais atormentada das três!...
Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura:
— Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida!
A francesa levantou a face brilhante de lágrimas e escarlate febril. Fixou a vista imóvel num ponto da parede fronteira, e permaneceu silenciosa largo espaço.
O morgado, observando-a assim, fez um trejeito de impaciência. Era o fastio, a lutar com a comiseração, e a dominal-a.
A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-na os olhos de alma de Nicolau. Os da face ficaram postos em Margarida; mas somente viam nela o estorvo, a miséria repulsiva, as lágrimas acusadoras. Duas ideias se travaram a repelões no animo do morgado: romper violenta e definitivamente com a francesa ou enganal-a com blandicias e promessas. Venceu o mais vil dos expedientes.
O máximo sacrifício, que Nicolau podia fazer à sua paixão pela prima, era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom veemente do coração ingrato, mas arrependido; repetir as frases que seis anos se não repetiram aos ouvidos da francesa.
neste intuito, ajoelhando diante de Margarida, irrompeu numa lamuria destoada da acentuação da verdade, um declamar de actor péssimo, uma coisa que, na consciência propriamente do declamador, o devia de estar envilecendo!
Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em rosto, quanto ele o estava no seu íntimo senso.
Nicolau de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os dedos; era a convulsiva ânsia de esganar a mulher que o comprehendera e escarnecia.
— Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando áscuas dos olhos e beiços.
— É o riso da dignidade! respondeu a francesa, sem se desmentir na postura.
— A dignidade de madame Froment! redarguiu ele, espirando um frouxo de riso sarcástico.
— Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida. Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi desonrado por quem ele recebera em sua casa.
— Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquínio!
— Foi mais cínico, e vilão, e covarde, senhor Nicolau! As suas armas foram mais pérfidas.
— Mas Lucrécia não se matou!...
— Não! bramiu ela furiosa, não se mata, porque é necessário que o senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa. Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos espedaçar um ao outro! Eu aceito a vida com os horrores todos, que me esperam... aceito-a com a condição de o ver castigado.
Nicolau riu-se e saiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de suor para a nuca.
Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente:
— Venho responder ao seu riso.
— Deixe-me! bradou o morgado.
— Deixo, tornou ela. Está o senhor livre de mim; a Providência é que não o deixará... Ver-nos-hemos!
E saiu da saleta, desceu ao pátio da estalagem, e ordenou ao arrieiro, que tirasse o cavalo da estrebaria. Entretanto pagou as despesas da hospedagem, e sentou-se num banco de pedra, com os braços cruzados sobre o seio, e a face pendida sobre eles.
Nicolau de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de Beatriz, que saía apressado do pátio. Sobresaltou-se, cuidando que era espionado, e surpreendido em flagrante de mentira e perfídia. Passou por diante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o criado, que não viu. Voltou ao pátio, já quando a francesa cavalgava. Quedou-se a contemplal-a estupidamente, num indescriptível espasmo de brutificação. Margarida passou rente com ele, estalejando o chicote na anca da cavalgadura. Tinha ele saido da vila, quando Nicolau tirou fora o cavalo, e picou à rédea solta no seguimento de Margarida. Não saberia dizer ele que intento o impulsava. Chegou de par com ela, colheu as bridas de impeto, e perguntou:
— Onde vais, desgraçada?
— À sorte! respondeu a francesa.
— Pára e reflexiona, Margarida!...
A francesa parou, sorriu sardonicamente e disse:
— Bem! Aqui estou. Que quer de mim?
A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade ainda naquele animo aflito. Era verdadeira aflição a dele! A pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já insidiosamente podia ele dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia algum expediente compassivo. Se ela chorasse, ganharia temporariamente uns exteriores de estima, o supremo sacrifício praticável pelo homem, que faz obedecer à delicadeza o fastio; sacrifício de que vivem resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente.
Não deu tempo às reflexões dele nem às nossas a repetida pergunta da francesa:
— Que quer de mim?
— Que domine esse feroz orgulho, que a perde!
— Bela resposta, senhor Nicolau! replicou Margarida, sacudindo as rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu então; perde-se agora porque é orgulhosa até à ferocidade... é isso? que escárnio, senhor Mesquita!...
Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, nestes lances, usam uma logica irrespondivel. Nicolau tinha a língua preza — consintam a figura — por dois dedos da sua prima Beatriz. Expressão compadecida não vingava nenhuma com que aplacasse o irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a comiseração, aí estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na língua o termo brando, a claridade mesmo da mentira.
A francesa, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da Palmeira, disse com energia e sem lágrimas:
— Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o deixei apertar-me cinco anos a corda na garganta, sem soltar um gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de ver ao meu lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da Vitória. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor dele; escondida às pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os respeitos sociais. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas, senhor Nicolau. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é que eu me dou por afrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem por dignidade própria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que repelia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe, e o senhor, aturdido pela dor da orfandade, não pôde dispôr da cabeça para me dar parte do seu luto...
— Não admito remoques sobre objetos tão sérios! interrompeu iracundo o morgado.
— O senhor não pode considerar-se um objeto serio! acudiu de pronto a francesa. Ridícula é a sua aleivosia, senhor Nicolau! Ridículo, se não quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias às minhas cartas! Ridículo, é esse falso pundonor com que vem em defesa da honestidade dos seus lares! Ridículo é o seu amor dos quarenta anos à Cândida sobrinha de Chaves que...
Nicolau cresceu sobre os estribos, levou a mão direita à testa escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo do amor dos quarenta anos. Tortura mais lacerante nem a inquisição poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como Margarida! Teve-lhe medo ela quando o viu assim roxo e vulcânico a chamejar pelos olhos, inteiriçado sobre o selim, pavoroso, e ainda ridículo, no rigor da palavra, e no entender da francesa.
O desfecho deste relanço devia ser também irrisório. Nicolau de Mesquita recaiu de golpe sobre o selim, retorceu de violento empuxão o pescoço do cavalo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu numa corrida desapoderada por aquela rechan do Vale de Aguiar fora, e tão cosido às crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa, arrebatado pelo corcel criado na vertiginosa fantasia de Biron.
E Margarida Froment ria-se, enquanto o pasmado arrieiro exclamava:
— O cavalo endoideceu! Vai-se esbarrar com dez milheiros de diabos!
A francesa sorriu ainda, e disse serenamente:
— Vamos para o Porto.
Nicolau havia transmontado o horizonte, fechado por uma gandra. Nem uma só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demônio zombeteiro, cascalhando as palavras: Ridículo é o seu amor dos quarenta anos...
Quem disse a Margarida que Nicolau amava a sobrinha de Chaves? Os romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortesia devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos justos, com que a crítica amoravelmente nos dá o seu beliscão.
A francesa, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Vila Real. Ao arraiar da manhã, cavalgou, e fora da vila, numa esplanada de monte, chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um pincel de 1811 contava à posteridade o caso triste do espingardeamento de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o pai do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto sucesso contou-lh'o, em frente do painel, um mancebo, que desde a hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavalo. Não ousaria ele intrometer-se a dar explicações, se a francesa, por gesto convidativo, o não animasse a sair-se daquele espasmo mudo, que as mulheres formosas incutem nos provincianos, gente, pelo comum, contemplativa até ao êxtase.
Concluída a história do painel, o moço alinhou o cavalo com o de Margarida, quanto a estrada o permitia, e foi dizendo quem era e para onde jornadeava. Modestamente omitiu na noticia da sua pessoa que era um fidalgo do Vale de Aguiar, senhor do solar e Castelo daquele nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado alferes da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdera os dentes e as mãos na batalha de Toró, em 1476. Falou, porém, no seu Castelo, que a francesa traduziu château, «casa-campestre», coisa de nenhuma importância archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a língua francesa, o que vinha a ser uma falta para dar do seu Castelo solarengo uma cabal ideia.
Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicolau de Mesquita.
— É meu próximo parente; respondeu Ricardo de Almeida, e de pronto conjecturou acertadamente quem era a sua companheira de jornada, por ter ouvido dizer que o do Vidago tinha vivido no Porto com uma estrangeira.
— Tem-no visto? perguntou ela.
— Visitei-o quando lhe morreu a mãe...
— Pois a mãe de Nicolau morreu?! acudiu Margarida com alvoroço.
— Há três semanas.
Margarida mordeu o lábio inferior.
— Vossa excelência conhece meu primo? perguntou Ricardo por delicadeza.
— Alguma coisa, respondeu ela abstrahidamente, e disse logo com vivacidade:
— Ele está em Vidago?
— Quando eu sai de minha casa, há quatro dias, tive noticia de que ele estava em Chaves.
— Chaves é longe?
— Nove léguas, minha senhora.
— Que faz ele em Chaves?
— Namora uma sobrinha, com quem provavelmente vai casar.
Margarida fitou nos olhos o interlocutor, e disse:
— O senhor sabe quem sou, e graceja comigo.
— Desconfio que vossa excelência é uma senhora que veio da emigração acompanhando Nicolau de Mesquita; porém, de nenhum modo ousaria gracejar com uma senhora, que me parece infeliz na sua sorte.
Margarida, por espaço de uma légua, não proferiu palavra. Ricardo tinha menos espirito que o necessário para divertil-a da sua introversão.
Assomaram ao alto da serra do Mézio, de onde se avistava a magnifica chan do Vale de Aguiar, e o Castelo dos Almeidas, negrejando sobre um morro de rochas na quebrada das montanhas do Alvão.
— O meu Castelo é além, disse Ricardo apontando.
— É uma fortaleza feudal? perguntou Margarida.
O fidalgo deu a data da fundação do Castelo, e contou a façanha de Duarte de Almeida, modelada pela inventiva com que ela anda cantada em verso no Romanceiro Português do senhor Ignácio Pizarro de Moraes Sarmento. A francesa parecia escutal-o.
A meio do Vale, Ricardo perguntou à dama se queria ser acompanhada.
— Separa-se aqui?
— A minha estrada é esta da esquerda.
— Pois adeus, cavalheiro!
— Se vossa excelência, por distracção, quiser alguma vez honrar aquele Castelo...
— Muito agradecida... As mulheres, fadadas com o meu infortúnio, nunca podem distrahir os olhos do ponto negro da sua desgraça. Adeus.
Margarida, lá ao longe, olhou terceira vez ao longo do caminho, que deixara, e viu imóvel o fidalgo castelão no local onde se despediram.
— Não envelheci ainda! disse ela entre si.
Foi-lhe imensa consolação este desabafo da vaidade!