Capítulo XVIII O Esqueleto · Capítulo 19 de 29
Obra Menu

Capítulo XVIII

Ricardo de Almeida, quando Rafael entrou, dormitava anciado, bracejando, e resmoneando sons desligados. À cabeceira estava o escudeiro, homem de anos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e servo dos Almeidas desde a infância. O velho chorava e dizia a Rafael:

— Saberá vossa excelência que é a primeira vez que vejo assim meu amo turvado do juízo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!

— Isto não é desgraça, homem! — contestou Rafael Garção. — As bebedeiras são às vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?

— Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no purgatório; mas a de meu amo, ou eu me engano, ou cae direita no inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como ao seu santo parente fr. Gil de Santarém. Vossa excelência sabe a vida deste parente do senhor morgado?

— Hás de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja polvora, e alegra-te, que o fadário de teu amo está a quebrar-se.

— Deus o ouça, meu senhor! — disse o velho, e foi à cozinha filtrar alegremente o café.

Rafael estirou-se numa flácida otomana, e sentiu-se na mais feliz hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho. Coordenava as reminiscências de três quartos de hora, e convencia-se da real existência da sua fortuna após um arrojo que o coração não praticaria sem a escandecência dos vinhos. Erguia-se de impeto, e mirava-se num espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido põe o homem nestes ridículos arrôbos de si mesmo.

Chegou a bandeja do café. Rafael fez-se servir reclinado nos coxins, e disse:

— Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a história de S. Gil, meu maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me alguma coisa de Margarida.

Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um romperem-se-lhe as fibras da laringe:

— Margarida!?

— Que é lá? — acudiu Rafael. — Uma chávena de café, primo Ricardo!

O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se, reconheceu-se, no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:

— Que perdição!... que horror me faz a vida!...

O mordomo saiu entalado de suspiros. Rafael deu-lhe a chávena, e exortou-o a esperar a boa crise mais rápida que o regular.

— A matéria bruta de sensibilidade — explicava ele — há de gastar-se mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos homens.

Ricardo saltou oscilante do leito, e abriu as janelas do quarto, aspirando a tragos a viração da antemanhã.

— Estou melhor — disse ele. — Que soubeste de Margarida?

— Soube que Nicolau saiu de lá fixamente à uma hora.

— Onde estiveste?... aqui?

— Não: estive com a prima Beatriz.

— No hotel?

— Sim, no hotel.

— Como a fortuna te bafeja! — disse com tristeza Ricardo.

— A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso Virgílio: os fracos e os tolos, acrescento eu ao ilustre poeta. Tu, meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza...

— E tolice — concluiu Ricardo.

— Estava eu a procurar um termo com mais eufonia; mas tu o disseste. Os dois anos, immolados à francesa, poderás tel-os dourado de faceis e doidas alegrias, à mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quais a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que neste mundo há unicamente um estudo sério e digno de vigílias: é salvar a cabeça do coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os eleva, burrificam-se. Chegada a ocasião de se destramarem habilmente de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes aqueles que podem, como tu, dizer à desgraça: «Atrás, maldita, que eu tenho vinte e cinco anos! » De que bordo estás, Ricardo, que fazes?

— Retirar-me amanhã de Lisboa, ou matal-a.

— Sou de voto que te retires. Vai convalescer e volta ao mundo. Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua índole te não apegar à dôce vida que deixaste. Eu preciso desta casa, mobilada como está, com as carruagens e cavalos.

— Tudo aí te fica — disse Ricardo.

— Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha tia-avó, falecida há dois anos, conservára intactos os cofres de meu tio-avô, governador do Brasil. Fui seu herdeiro. Achei cento e cinquenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedais, com a certeza de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos de réis. Já sabes que se a tua mobília e trens podem valer dez mil cruzados, ou vinte, este dispêndio nem levemente altera os meus planos. Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o empréstimo destes objetos: incomodas-me.

— Como quiseres — conveiu Ricardo.

— Agora presumo que o Mesquita não sai tão cedo de Lisboa, a menos que Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança das minhas excursões. Sou, portanto, o dono disto, e tu és desde agora o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar o último pregão da tua miséria.

Repontava a estrela de alva. Rafael mandou atrelar os cavalos, e despediu-se, até à noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se à casa da rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se como as inocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, iluminado de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi espreitar à janela: viu Nicolau à beira da esposa: ele bem assombrado e risonho; ela esmaiada da cor e melancólica. Beatriz entreviu-o de um insuspeito lanço de vista. Corou até às orelhas; alindou-se, purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo espinho do crime sem remorso.

Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que há menos santas; mas também há mais quem incense as pecadoras. O inferno lucrou, e o céu creio eu que perdeu quase nada.

À uma hora, saiu Nicolau, e entrou o criado de Rafael com um bilhete que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de poder verter-lhe no seio lágrimas que o sufocavam. Seguiram-se horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das três da tarde, Beatriz parecia desafogada das lágrimas impertinentes: surria, tregeitava, inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o marido beijando-a carinhoso. Rafael jantou, dormiu, sonhou fantasias deleitosas que eram, ainda assim, pálidos arremêdos das alegrias verdadeiras.

Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Faiões à casa de Andaluz. Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez novas exortações à coragem vacilante do primo, incitou-o a gozar-se de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas. Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois meses de distancia, havia de afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da desgraça.

Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu mordomo, e dali, fechando os olhos a todos os logares despertadores de memorias saudosas, passou à sua casa do Pontido.

As tias não saíram a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada abalou-as de modo, que desfaleceram abraçadas uma em outra. Ricardo beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo ali prometeram erguer um altar na capela da casa consagrada ao seu parente S. Gil.

Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fora ingrata. A Providência seria injusta, se prolongasse o suplicio do homem, que nenhumas dores causára com o seu desvario. Se dera escândalo, os escandalisados escarneciam-no e vingavam agora a moral publica. Foi por isso que o céu se abonançou. A solidão restituiu-lhe, a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na delapidação dos seus bens. Desempenhou os hipotecados, restaurando rendas bastantes a um decente passadio.

Padre Ambrósio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada do inferno. Havia ele sido chamado para Mirandela, onde tinha um irmão, chegado do Brasil, com centenares de contos. Foi visitar o irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe dera, em 1833, hospitalidade de parente, e disvelos de família muito sua. O brasileiro foi visitar o irmão, e levou consigo uma das três filhas. Ricardo de Almeida quis honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pátio, e a receber na portinhola da liteira a mão da brasileira. Depois, voltou às suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do Alvão, às fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas do inverno.

A brasileira via sorrir aquele mancebo pálido com a graça dos infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo daquela serena e afável melancolia. O egresso fez uma narrativa dos infortúnios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor da sobrinha.

Laura, a brasileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se dele sem poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava.

O irmão do padre Ambrósio saiu encantado da lhaneza e cordealidade com que fora acolhido por família tão ilustre. «Se eu fosse fidalgo, escrevia ele ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse belo moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha. Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna têm comprado a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o primeiro a rir deles, e serei o último a comprar nobreza, quando todos formos nobres, o que vem a suceder, se não houver diluvio por estes vinte anos. Não digas isto ao teu discípulo, que não vá ele afugentar à minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu, nem a nossa Laura quer que a sacrifique. »

Uma carta de Ricardo a Rafael, dois meses depois, desenvolve e remata o episodio, necessário ao contexto destas biografias. Dizia assim:

«É constante ainda o boato da tua residência em Paris. As damas de Chaves esperam as encomendas. Teus pais sofrem com a falta das tuas noticias. Apenas receberam a carta, que mandaste lançar à caixa em Paris. A Ângela de Santo Aleixo, para que ninguém possa duvidar de que tu vens casar com ela, casou antes de ontem com o morgado das Boticas.

«O tio Martinho Xavier já desconfiou da lealdade do teu passaporte para França. Desconfia também tu da espionagem dele em Lisboa.

«Eu não dou nada pela duração da tua felicidade. Já de cá te imaginei enfastiado. A mim dizias-me tu assombrado: «Dois anos a mesma mulher! » Eu digo-te sem assombro, porque te conheço: «Dois meses o mesmo anjo! »

«Agora, se queres, falar-te-hei de mim. Caso. A história da felicidade é uma palavra só. Não caso com prima nenhuma. É a filha de um homem que enriqueceu a trabalhar. Saiu de Mirandela com um chapéu braguez e uma véstia de cotim. Entrou em Mirandela com quatrocentos contos, e três filhas, e a jaqueta e o chapéu, que ainda mostra aos duvidosos da sua origem.

«Laura é brasileira, é galante, faz dezoito anos, escreveu-me com pouco esmero de gramática, e incluia as cartas abertas nas do pai. Agora está em nossa casa, e minhas tias amam-na. Eu estimo-a, e creio que virei a amal-a. Sei que se afligem os nossos parentes com este alcance. Se meu avô Duarte de Almeida não morresse mutilado de mãos e dentes, a opinião de nossos primos é que ele viria estrangular-me e morder-me. Estes primos compraram-me as quintas ao desbarato, e prometem revender-m'as pelo duplo. Pedirei a meu avô Duarte de Almeida que os sove a ponta-pés, visto que não pode dispôr das mãos, assim como tu dispões do teu irmão agradecido, Ricardo. »

Rafael Garção, lida esta carta, ponderou, e disse entre si: «Parece-me que Ricardo é mais feliz do que eu! »

E, com intervalo de um soliloquio mental, falou com o seu demônio, e disse-lhe: «É crível que eu esteja enfastiado de Beatriz?! »

— Pois não é?! — respondeu o demônio.

1/1
Menu

Fazer anotação