Capítulo XIV O Esqueleto · Capítulo 15 de 29
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Capítulo XIV

Apareceu em Chaves Rafael Garção despedindo-se de viagem para França. Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso de não poder abraçá-lo. Notou no seu remember dezenas de encomendas das senhoras flavienses, novidades de Paris, que elas haviam de estreiar nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato corrente era que o morgado de Faiões ia comprar a Paris o presente de noivado, e encravar os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios modernos.

Saiu Rafael por Espanha, e entrou em Portugal pela Extremadura. Chegou a Lisboa, e informou-se da residência de Ricardo de Almeida. Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No hotel de Itália, na rua de S. Francisco, onde Rafael se alojara recatadamente hospedava-se um diplomata francês, conhecido da sua compatriota.

Ao outro dia, o morgado de Faiões escreveu a Ricardo de Almeida, marginando a carta com a recomendação de reserva. Chamava ao hotel de Itália o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se o romance dos primos esta novela!

— Que fazes em Lisboa? — perguntou o fidalgo de Aguiar.

— Vim aqui para esconder-me.

— Vens fugido?

— Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e o marido com ela.

— Casada!... Agouro-te desgraça!... — atalhou gravemente Ricardo.

— Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens vivido, velhaco?

— Larga resposta me pedes, e mais tarde ta darei. Vamos ao ponto. É conhecida a mulher?

— É a prima Beatriz Vahia.

— A mulher de Nicolau!... Então o homem está a contas com a Providência mais cedo do que eu esperava!...

— A Providência não entra em isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos eu e ela?

— Parecia que sim...

— O tio Martinho casou-a...

— Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz.

— Olha se podes ouvir-me sem grande dispêndio das formulas do raciocínio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi dois anos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica. Será moda em Lisboa falar-se de mulheres em silogismo? Quando eu vinha por aqui passar há cinco anos, não havia logica para esta casta de gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz?

— Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é coisa notória a chegada do morgado de Palmeira!

— Ora não faças a terra maior do que ela é; — replicou Rafael. — Eu cheguei ontem à noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia onde morava madame Margarida Froment.

— É que as francesas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os morgados de Traz-os-Montes.

— De acordo; mas achas difícil saber-se onde está o Mesquita?

Se não se hospedasse em casa de parentes, é fácil pela relação policial das hospedarias.

— Cuida-me disso, e falemos agora de ti. És feliz, rapaz?

— Sou.

— Dois anos! uma mulher dois anos!... Tu achaste a coisa que os poetas andam a sonhar há seis mil anos! Dois anos de felicidade com a mesmissima e idêntica criatura!... Que segredos tem ela? Beleza ofuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma coisa, homem!... Parece-me que te vejo no Castelo de Aguiar a fazer a corte por um óculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!

— Ainda não; mas fiz coisa pior: desbaratei o melhor da minha casa.

— Já sei: isso consta há muito por lá... As tias Almeidas e o capelão choram por toda a parte os teus desperdícios. Então estás pobre? queres dinheiro?

— Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e soirée às terças feiras.

— Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a francesa, que tu amas! Deveras amas? fala a verdade.

— Amo, porque me não merece confiança nenhuma.

— Esse porque é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo desprezar as mulheres pela razão porque tu as amas!... Isso não é amor, dou-te a minha palavra de homem que leu Biron, Balzac, Henri Beile, e todos os praxistas ad hoc.

— Então que é?

— É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande dóse de tolice. Perdoarás: falemos rudemente como lá nas nossas montanhas. Ela atraiçoou-te?

— Não...

— Que tu saibas...

— Sei que não; mas tem um ideal.

— A boas horas! Cuidei que estas criaturas não consumiam disso, e andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a mais, a despeza do ideal!

— Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida!

— Eu!?... tu é que ma puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ela te não merecia confiança.

— Mas posso ser injusto.

— Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas desmarcadamente, eim!

— Suspeito que ela, se Nicolau de Mesquita a requestasse, me deixaria.

— Logo... (cá vem a logica, se permites uma excepção) logo: a mulher não tem vergonha.

— É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado desta senhora...

— Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da Foz com ela para Lisboa.

— E ele ainda a ama?

— naquele dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delírio e da irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa.

— E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.

— Depois, esqueceu-a, e fez-se amantíssimo da mulher. Foi uma desgraça para nós ambos a reconsideração.

— Porquê?

— Porque estavas livre da francesa tu, e eu amaria desassombradamente a prima Beatriz.

— Virá ele a Lisboa com intenções?

— Não sei, mas parece-me que ninguém vem conquistar, ou reconquistar uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava as relíquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus créditos para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu gênio. A tua propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher porção de sentimento, que na vida honesta, e à sombra das suas árvores gigantes, te daria mananciais de prazeres. Se eu tivesse a tua alma, bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis meses a trabalhar na refundição da minha índole, e fiquei mais aleijado. Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as à natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar dois anos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração puro de uma esposa!

— Sinceramente te digo que já pensei em isso.

— Ah? tu já pensaste em isso? Então não amas a Margarida.

— Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção, retorquio sorrindo Ricardo.

— Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavalo que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde a est'outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que outra pode dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em flagrante absurdo! Isto só o faz quem não pode fazer exame da arte de raciocinar. Parabéns, primo! Dás-me esperanças de te ver sair desta inglória estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio. Sai disto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma coisa importante. Estás nos vinte e seis anos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas? Nunca pensaste em isto?

— Já.

— E que vês no teu futuro, quando hipotecares a última geira?

— Vejo um par de excelentes pistolas.

— Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t'a. Aqui é que eu queria o egresso que te ensinou o catecismo. O que eu posso dizer-te, desprendido de toda a pretenção filosófica, é que tu és um asno piramidal, se continuas assim; e não haverá piramides que perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido. Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e vás saber onde mora a prima Beatriz.

— Pois sim, e falaremos depois — disse Ricardo de Almeida, e saiu com animo agitado pelo impulso das frases ora graves, ora picarescas, do morgado de Faiões.

Poucas horas depois, voltou o castelão de Aguiar noticiando que Nicolau de Mesquita se hospedára num hotel francês da rua dos Romulares.

— Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os triunfos! exclamou Rafael.

— Que tencionas fazer agora?

— Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francês necessariamente está defronte de alguma casa.

— Sem questão; mas se a casa tem inquilinos?

— O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.

— Estás a mangar!...

— Ninguém manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no quinto, ou quarto andar do prédio mora um empregado publico, que vai rebater duas cédulas para pagar um semestre da casa, que alugou por cinquenta mil réis. O meu criado oferece-lhe quarenta soberanos, e diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas! » Antes das doze, o empregado publico saí com seis cadeiras e duas panelas, e eu entro com esta ponderosa alfaia de um coração em chamas. Impugna lá se podes!

— E depois?

— Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janelas, e eu tenho olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que mágicos, que peregrinos olhos tem! Deixo as omissões à tua discrição. E agora vai-te embora que eu vou dar credenciais ao criado. À noite vou a tua casa.

O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do sinal.

Fechou-se Rafael numa sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz passar a noite com o primo Almeida.

Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e disse-lhe pouco depois:

— Ricardo passou com vossa excelência algumas horas do dia...

— Não há dúvida, minha senhora.

— Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia no animo de seu primo.

— Porque, madame? Sinistra influencia!...

— Certamente, que ele entrou em casa com uma linguagem nova.

Rafael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será mais inepto do que eu presumo? »

E, replicando a Margarida, disse:

— Bem vê, minha senhora, que a minha idade não authorisa a dirigir o espirito de ninguém, particularmente de uma pessoa, que vossa excelência domina com absoluto império.

— Agradecida! tornou ela com irônico sorriso.

— Eu não previa tão áspero acolhimento desta dama! disse Rafael ao primo. Que significa este desastre?

— Imaginação desta senhora! respondeu Ricardo.

— Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a francesa.

Rafael lembrou-se do verso de Molière, que já ocorreu ao leitor e sorriu-se para dentro.

Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o mármore da jardineira.

Rafael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando com uma camélia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse ao hospede com requebro maviosissimo de voz:

— Vossa excelência veio a Lisboa buscar seu primo?

— Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh'o, se ele estivesse longe de vossa excelência.

— O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh'a, porque as mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se vista de palavras usadas nos salões.

— Oh! minha senhora! acudiu Rafael, balbuciando.

Entrou um escudeiro anunciando uns sujeitos da primeira plana genealógica.

Margarida pôde ainda acrescentar a meia voz, enquanto Ricardo saiu ao encontro dos cavalheiros:

— Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.

— Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Faiões.

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