Capítulo XXIV
A interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providência que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.
Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providência que mais queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face do guzano, que se pascia em sua podridão.
Desde aquela hora, Nicolau, olhando-se no baço espelho da sua consciência, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se gozava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro anos, via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condenado nas últimas setenta horas do oratório.
«Eu posso ainda levantar-me deste abatimento! — dizia consigo ele. — Irei longe daqui, irei a França, a Itália, a toda a parte onde a riqueza inventa delicias, irei gozar, esquecer-me, viver! »
Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga, assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.
Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, à hora de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento aniquilador, que o forçava a desistir, exclamando:
— Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu inferno?
E então, comovia a lágrimas vê-lo chorar a ele com saudades do filho; mas nem a consolação amarga destes prantos lhe era concedida! Sobresaltava-o a dúvida de ser ele o pai daquela criança. Calculava épocas, via atentamente a data gravada na manilha de ouro, que encontrara na caixa da ama: agora, inferia daquela data provas concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da falível significância das letras gravadas, podendo elas meramente comemorar o dia em que fora dada a prenda. Execrava então o filho, enquanto a soledade e a insulação de toda a convivência, lho não mostrava como esteio único à vida.
Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira, encerrado, em pouquíssimo da casa, estranho ao governo dela, inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam. Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicolau de Mesquita: era o octogenário reitor, varão de preclaras virtudes, que adivinhara o essencial da angustia do fidalgo, que ele baptisara e beijara nos braços de sua mãe, quando assistiu às estrondosas festas do batizado. Quantos esforços fez o santo homem para o tirar à luz e às distracções do campo todos se malograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da torre de menagem meio arruinada.
Nicolau respondia:
— O meu tumulo está edificado há duzentos anos: não tenho outras obras que faça, padre reitor.
Ainda receoso de impaciental-o, o ancião teimava em falar-lhe de obras.
Um dia, três meses depois da morte de Beatriz, dizia o clérigo:
— Quando vi abrir-se o aqueduto da água que vai dar ao jardim, e andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excelência resolvera, como seus pais haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para beberem os cavalos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo depois que sua excelência a senhora D. Beatriz que Deus tem, faleceu, fechou-se o aqueduto.
— É que eu mandei suspender todas as obras — respondeu Nicolau — e o feitor mandou logo empedrar a boca da mina.
— E porque não há de vossa excelência entretêr as suas horas numa obra tão útil para a casa e para o povo?
— Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.
— O povo creio eu que importa a vossa excelência, meu bom fidalgo, porque pais e avós deste povo foram sempre como filhos dos ricos homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa excelência lhe desse para as suas necessidades a água que superabunda nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores secam as fontes, vai buscar, a grande custo e perda de tempo, a água à freguesia próxima. Aqui tem vossa excelência que está em sua mão, com pequenissimo dispêndio, socorrer este povo, que tão alegre ficou, assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excelência. Parece que tem praga de inveja aquela obra! Seu excelentíssimo avô abriu a mina, o paesinho de vossa excelência continuou-a, o senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por pouco encontrar-se com o aqueduto, que desce da serra, vejo eu os jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!
Nicolau ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como sempre, assim que a expressão do tédio assomava no rosto do morgado como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sozinho, padre reitor. »
deste dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a sepultura de Rafael Garção, e que o apodrecimento do cadáver não chegou a ser presentido pelo fétido das exhalações.