Capítulo XXVI O Esqueleto · Capítulo 27 de 29
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Capítulo XXVI

numa casa de Vila Real de Traz-os-Montes, em março de 1849, um sujeito lia à sua família a seguinte correspondência de Chaves publicada no jornal portuense O Nacional, daquele mês e ano:

Sr. redator.

«Remetto ao seu jornal a singela narrativa de um estranho sucesso, que veio esclarecer os mistérios de uma tragedia de família, sobre a qual há quatro anos a opinião publica tem aventurado opiniões, aliás infamantes, algumas das quais desgraçadamente se verificam hoje.

«Em agosto de 1844, o morgado de Faiões, Rafael Garção Cogominho, rapaz de costumes não louvaveis, mas igual a muitos que o mundo respeita, lisonjeia e admira, desapareceu da casa de seus pais, e nunca mais voltou.

«Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de pessoas que figuram ou figuraram neste drama; porém, sacrificando à verdade, e desejando que na minha narrativa ninguém veja um romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa, mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicolau de Mesquita, morria, segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre traumática, consecutiva a ferimentos na face.

«No dia seguinte, os criados de Rafael Garção procuraram seu amo na quinta de Palmeira, para onde ele viéra de noite e furtivamente. Os criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a intenção que os levava ali, e foram despedidos.

«A voz publica francamente disse que o morgado de Faiões morrera às mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem dele; e que a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto, sucumbira depois dos flagícios bem claramente denunciados nas contusões da face.

«A ausência do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadáver de Rafael Garção nenhuns indícios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o cadáver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provável e quase evidenciado é que ambos estavam mortos.

«Passados sete ou oito meses, o morgado da Palmeira foi para Londres, em demanda do filho, que o avô, nobilíssimo cavalheiro de Chaves, lhe arrebatára. Decorridos dois anos, voltou para Portugal Nicolau de Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que faleceu em Londres.

«No principio do corrente ano, quando a memoria da obscura tragedia estava delida no impersistente espirito do publico, quis a Providência que o morgado da Palmeira, com a sua própria mão, fosse apontar o infalível testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a frase da Escritura, que Deus enlouquece aqueles que quer perder!

«Os operários, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um aqueduto, que estivera aberto quatro anos antes, e se fechara dois dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos distantes da abertura da mina um esqueleto.

«Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto articulassem a ossada, principiavam a esfacelar-se, e muitos se desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida à volta do radio e cúbito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente, perfeitamente conservado no marfim, encastoada em ouro, com o rosto de esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciais enlaçadas de Rafael Garção e Beatriz de Sousa.

«Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicolau de Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar o sucedido ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o aqueduto, e oficiou à autoridade. O aviso chegou simultaneamente ao morgado, que partiu para Palmeira.

«A autoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicolau de Mesquita penetrasse no aqueduto com uma lampada, visto que sem o exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade com as ordens do morgado.

«O regedor, que seguiu Nicolau de Mesquita, observou com grande assombro, um ato de extraordinária ferocidade; e foi que o morgado depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um gesto de raiva frenética: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço das costelas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés, com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina.

«As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para continuação de averiguações.

«Sr. redator, como se vê, o indicio de um assassínio está manifesto a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e opulento, está no libérrimo gozo dos seus direitos civis. Se fosse um pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e Caifaz, e Pilatos.

«Alguém saiu já em defesa de Nicolau de Mesquita, alegando que ele, se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueduto. Esta razão tem uma face aceitável, e outra incumbe à justiça mostral-a. Em quanto a mim e à maioria dos pareceres, o matador de Rafael Garção, cujos olhos são indubitavelmente aqueles, foi Nicolau de Mesquita, vigésimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago.

«Conte com a noticia circumstanciada deste processo, e com a verdade incorruptivel, do seu constante leitor,

«EPAMINONDAS TEBANO. »

— O que aí está é tudo mentira! exclamou uma voz de entre as pessoas, que escutavam a leitura da correspondência.

Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada da casa, Maria Joana, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada repetia:

— Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira não matou o senhor Rafael.

— Como sabes tu isso?! perguntou o patrão.

— Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem criou o menino de que aí se fala na gazeta. Assisti ao último arranco do senhor Rafael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu amo pagava inocente.

— Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça, voltou o patrão.

A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do assassinado amante dela.

No dia seguinte, partiu para Chaves, com recomendações do cavalheiro de Vila Real, e foi levada à presença da autoridade, diante de quem e de testemunhas, expôs o modo como Rafael Garção fora encontrado, e a suposição de que ele fora morto por uns homens que dispararam as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos homens. Maria Joana indicou dois criados de Palmeira para dizerem quem eram eles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando juntos. Os criados ainda o eram de Nicolau de Mesquita. Foram citados a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes dos quatro valentões da sanguinária romaria. Os indicados depuzeram conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas declinaram de sobre a cabeça de Nicolau de Mesquita.

O cavalheiro de Vila Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda correspondência do Epaminondas, antipoda involuntario do Epaminondas de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas, com grande mágoa de as haver estampado no primeiro afôgo da sua indignação. A indignação dos correspondentes da província é coisa de grão pavor quase sempre!

A correspondência rematava assim:

«Os ossos de Rafael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos de Chaves para Faiões, e depostos no jazigo de seus avós. O pai de Rafael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde apenas recebe à força quem lhe ministra o sustento de tão horrível viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho único repousam na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa dele. A criada Maria Joana salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete: não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não ouso decidir-me) não consente esta mulher diante dos seus olhos. Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se criou aos peitos dela.

«Finalmente, senhor redator, em vista do desenlace desta infanda história, devemos olhar ao céu, e baixar os olhos confundidos, diante da misteriosa justiça da divina providência! Rafael Garção morreu. Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no prazo de vinte e quatro horas. Nicolau de Mesquita geme há quatro anos sob o peso de uma cruz de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes. Em suma, ninguém se transvie do caminho da virtude, que o do crime está ladeado de infernais abismos.

«EPAMINONDAS. »

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