Capítulo XI
A espionagem, sem intermissão, de Martinho Xavier gerou no animo da filha um secreto e mal disfarçado ódio. Bem queria ela sacudir o jugo; mas a mordaça, a carta fatal, estava em mão de seu pai: ela mesma a viu quando se lhe queixou amargamente de a privarem da companhia daquela amiga interventora na correspondência. O pai, sem proferir um monossílabo, mostrara-lhe a carta, e voltara as costas.
Planeou a sua emancipação Beatriz com um expediente assim natural que insuspeito. Revelou desejos ao marido de voltar a Palmeira, à suave quietação da sua casa. Nicolau abraçou alegremente a proposta, e exultou de ouvi-la motivar assim o intento:
— Agora, que tenho o meu filho, basta-me este prazer, e o teu amor às necessidades da minha alma. Já me fatigam tantos parabéns, tantas visitas, tantas etiquetas! Apeteço a solidão contigo e com ele. Mudei inteiramente, primo Nicolau. Os filhos parece que envelhecem a gente! E de mais eu quero que o nosso Martinho seja criado ao ar do campo, e não nestas estufas da cidade. Verás como eu agora me dou bem na aldeia! Quero ir contigo às quintas, e gozar a doce liberdade de uma aldeã. Estás contente da minha reforma?
— Se estou, filha!... — clamou o marido, apertando-a contra o coração — se estou contente, eu, que por amor de ti, e contra o meu gênio, tenho andado nestas balburdias de bailes e jantares! Eu também espero que o nosso filhinho te aformoseie os quadros aldeãos, que tão aborrecidos te pareceram. Um filho é uma estrela que nos alinda o céu da terra em que vivemos. Sempre esperei que desejasses voltar para Palmeira com esta criancinha. As mães experimentam um santo egoismo de sua felicidade, quando são mães pelo coração, que as há tão frívolas, minha querida prima, que apenas se dizem mães por terem sentido os sofrimentos da maternidade.
— O pior, atalhou ela, é que meu pai vai zangar-se com a nossa partida...
— Porquê? zangar-se!...
— Que queres? A amizade do meu pai é extremosa até à importunação! Eu não devia dizer isto; mas olha, primo, já me impacientam tantos cuidados comigo! Em solteira, deixava-me mais liberdade!...
— É que teu pai adora-te, Beatriz!
— Bem sei; mas os excessos de ternura incomodam. Tenho marido e filho para amar e presar: não posso atender às extremosas pieguices de meu pai. Agora há dele cuidar que eu vou enfastiar-me na aldeia, e começa aí com os seus discursos a demover-te de irmos.
— Seria escusado, que nós iremos, prima.
— Pois então, Nicoláosinho, se ele nos contrariar não o contradigas, para o pouparmos a maior mágoa. Vamos preparando a partida de nosso vagar, e evitemos questões.
— Pensa bem, Beatriz... Teu pai tem singularidades estranhas, que destoam do meu gênio...
— Muitas!...
— Este ódio entranhado, que ele tem ao primo Rafael, é absurdo!
— De certo.
— Sei que o pobre moço está em Faiões, e não voltou a nossa casa. Precisamente o rapaz foi magoado da rudeza com que teu pai o tratou à ceia, na última noite.
— Parece-me que sim.
— Já perguntei ao primo Martinho porque não tornaria Rafael a Chaves, desde que lá estamos. Respondeu-me que não valia a pena notar-se a falta dele. Quis convidal-o para o baile do batizado, e teu pai respondeu-me formalmente que não!
— Caprichos...
— Ruins caprichos! Eu transigi para obviar resentimentos; mas... Tu hás de consentir, filha, que eu te confesse uma culpa... sim?...
— Que é, primo?
— Não podendo justificar a antipatia de teu pai com Rafael, cheguei a conjecturar se ele desconfiaria de alguma infame intenção de teu primo...
— Infame intenção! a que respeito?
— A respeito de ti...
— Ora essa!... Tu enlouqueceste?
— Não, menina, confesso-me.
— Pois não te perdoo, Nicolau! — exclamou ela irada sobre posse, e escarlate por efeito da surpreendente suspeita.
— Perdoas, que eu, — tornou caricioso o marido — tanta justiça te fiz que nem levemente indaguei... para não dar direito a que alguém te supozesse um instante criminosa. Nem com esta prova de respeito às tuas virtudes me perdoas?
Beatriz deixou-se beijar e sorriu.
Nicolau continuou:
— Em prova da confiança que me mereces, assim que estivermos em Palmeira, convidarei Rafael.
— Não quero! atalhou Beatriz com veemência. Magoas-me cruelmente se o fizeres.
— Compreendo o teu pundonor, tornou Nicolau, soberbo do pundonor de sua esposa.
neste dia, disse o morgado ao sogro:
— Vamos passar algum tempo à aldeia.
— Fazeis bem, respondeu Martinho; Beatriz precisa de bons ares, que está com má cor.
— E, talvez, lá fiquemos, se ela quiser.
— É natural que não.
— Pois enganas-te primo: ela mesmo aventou a ideia da mudança.
— Sim. Ela?!
Martinho Xavier ficou pensativo largo espaço, e replicou:
— Foi súbita essa determinação de Beatriz?
— Disse-m'a hoje.
— Está bom...
— O filho operou uma tal mudança no espirito de Beatriz — tornou Nicolau.
— Deve ser isso... disse abstraidamente Martinho Xavier.
— Encheu-me de jubilo esta grave transformação aos dezoito anos.
— São raras estas transformações, tornou o outro meditativo.
— Vais conosco?
— Vou, respondeu Martinho energicamente. Vou sem dúvida.
— Estimamol-o deveras.
Relatou Nicolau a sua mulher a substancia deste dialogo, e a resolução no pai.
— Vai conosco? exclamou ela com irreflectido transporte. Forte perseguição?... É de mais?... Para que me casei eu? Ou bem sou filha, ou sou esposa!
— Podes ser ambas as coisas dignamente; acudiu o marido.
— Ora!... — redarguiu ela com arremeço; e, caindo em si, ajuntou abatendo a voz: Deixá-lo ir... que eu para Chaves não volto... Se meu pai não podia viver sem mim, para que me casou?... A minha scisma é esta. Sim! para que me casou?
— em isso tens razão, prima.
— Pois não tenho? Quer afagos e cuidados, que eu não posso repartir. Sou esposa e mãe; e além disso preciso olhar pela minha casa.
— Pois, meu amor, deixá-lo ir; trata-o com amizade de filha, e mostra-te feliz, que ele te deixará viver em tua casa.
Grande parte desta pratica foi comunicada a Martinho Xavier pela aia de Beatriz. O fidalgo aguardou ocasião de encontrá-la a sós, e disse-lhe:
— Sei que intenções te levam para Palmeira.
— Sabe... que intenções?!...
— Não admito interrogatório... Quero ser ouvido em silencio. Resolvi acompanhar-te para te defender do abismo. Mudei. Não vou. Escuso de ir. O abismo está aberto. Vais cair, desgraçada! E tão depressa cairés, irei mostrar-te lá com o dedo a teu marido: «Ela aí está despenhada. Quis salval-a, e não pude. Agora escarra-lha na cara, que tu não tens esposa, nem eu filha! »
— Meu pai! — exclamou ela aflita. — Meu pai, eu não sou criminosa!
— Vais sel-o.
— Juro-lhe que não!
— Mentes a ti própria. Rafael está recebendo cartas tuas; um dos teus criados entrega-te cartas do libertino, do carrasco da tua honra.
— É falso...
— Falso é o teu juramento, Beatriz! Não me desmintas, que eu justifico-me na presença de teu marido.
— Por quem é... por alma de minha mãe!... bradou ela soluçando.
— Tua mãe foi uma santa. Se está no céu e te vê a consciência, lá mesmo ao céu lhe mandaste um inferno, coração perdido! Ficas sabendo que eu vigio as tuas ações e as de Rafael. Escuso de seguir-te a Palmeira. Eu hei de saber pontualmente a hora a que te precipitas. Então me verás!...
Voltou o rosto às lágrimas da filha e saiu.
Dias depois, preparadas as bagagens, e posta a hora da partida, foi Nicolau avisar o sogro. Martinho Xavier estava de cama com febres, e diferiu a sua ida para mais tarde. Observou o morgado que ele, ao apertar-lhe a mão, chorava. Foi despedir-se da filha à cabeceira do leito; e, num instante que ficaram sozinhos, disse-lhe o pai:
— Se Deus me levasse agora deste mundo, furtava-me à formidável angustia que me preparas.
— Juro-lhe que não.
— Antes do terceiro juramento, perder-te-hás — murmurou Martinho Xavier.
Despediram-se.
Beatriz saiu no propósito de esmagar o coração debaixo do peso da honra. Estava aberta uma igreja, e ela entrou a pedir à Virgem que lhe desse forças, e orou longo tempo. Ergueu-se consolada e forte.
Escreveu a Rafael suplicando-lhe que lhe não escrevesse mais, que a deixasse morrer de saudades, mas sem o stigma de uma vilipendiosa desgraça. Prometeu-lhe amá-lo no céu; e pela vida de seu filho, jurou que se mataria antes de ultrajar seu marido.
Esta carta era uma rehabilitação.
Foi para Palmeira. Ia doente e amargurada. Parece isto contra-senso. Devia ir jubilosa de sua valentia. Não é assim. As mulheres, depois destes triunfos, caem desfalecidas. O que lhes dá forças a elas são as fragilidades.
Passados quinze dias, espantou-se ela do silencio de Rafael, e disse entre si: Não me tinha amor! Passado um mês, disse: Tenho-lhe ódio!
Martinho Xavier convalesceu rapidamente, assim que lhe deram uma alegre nova.
Foi a Palmeira, e, na presença da filha, falou assim a Nicolau:
— Não sabes a façanha de Rafael?
— Não sei nada. Aqui não tem vindo ninguém desses sítios.
— Pois ouve lá...
— É o caso da menina de Basto?
— Que menina de Basto?! Essa história não sei eu. O que eu sei é que chegou a Chaves um coronel de cavalaria, casado com uma senhora de fina educação, e vinte anos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, próxima a Faiões. Em menos de quinze dias, Rafael tomou conta da esposa do coronel, e foi para Espanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicolau, se o mundo diz a vigésima parte da verdade?
— Aquilo é um lastimável doido!... — observou o morgado com pena. — E ela parece-me mais doida ainda! Se ele bem soubesse que futuro o espera com as disciplinas da vingança!...
Beatriz ouvira a história, com imobilidade de estatua. À reflexão do marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no berço, correu para junto dele, chorou em ânsias abafadas nas roupas do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços.
— Mentirá meu pai para me desvanecer? pensava ela consigo, e, ao mesmo tempo, rezava à Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal.
Não mentira Martinho Xavier.
Rafael, assim que recebeu a última carta de Beatriz, chorou o tempo desbaratado numa esperança, além da qual se carregaram assentadoras borrascas. Doeu-se da força de alma com que ela o despedia, e tirou a injudiciosa ilação de que era mediocremente amado, porque as grandes paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos seus romances fazia menção honrosa de heróis que se deixassem morrer da peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e três anos, futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da inercia de seis meses, em que deixara anazarem-se as suas ardentes faculdades. Saltou para o selim do melhor cavalo, desfilou por montes e vales, visitou primas, que ele denominava o seu medalheiro de estudos numismáticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis meses; e, nesta andadura, foi dar à quinta de S. Lourenço, onde vivia um general reformado, com três sobrinhas.
Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem simpática, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama. O galanteio começou ali, sem advertência do general. Continuou nos quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava que o general se enganasse: revelou as suas dúvidas, e o bravo do Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um esquadrão de franceses. Em bom uso estava de certo a espada; virgem, talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa lhe ia arrebatada no arção da sela do mais possante murzelo de Rafael.
Aqui está a simples história, que, posta em escritura por mais aparada pena, faria chorar os leitores.
Muita gente ri-se disto. Outra levanta os olhos ao céu: contempla o imperturbável movimento dos astros, interroga o Criador, e diz:
— E então?
A Providência responde, depois que os interrogadores estão esquecidos da sua audácia sacrílega.