Capítulo XXIII O Esqueleto · Capítulo 24 de 29
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Capítulo XXIII

Saiu a criada à boca da mina, no desvariado intento de chamar quem levasse dali a fidalga.

Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, nestes desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se afeiçoara, como usam afeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não obstante, em conflito de tanta angustia, a sua ideia, quando se viu no escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem. nesta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões numa toada medonha.

Avizinhou-se às apalpadelas, e tirou por ela de sobre o cadáver; mas os braços de Beatriz estavam empedernidos às ilhargas do morto. Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços. Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem importar-se da crueldade e desamor do ato. Foi ao seu quarto, embolçou os valores que tinha; e, tirante esta última prova de bom senso, no mais parecia doida a correr por aquela estrada fora sem destino.

Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da letargia, e sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar abraçada no cadáver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o corpo glacial de um morto, e ela esfregava as pálpebras, e arrefecia as mãos na testa.

— Que horror de sonho!... — exclamava sufocada — e, apalpando as costas de Rafael, continuava a dizer em sua alma: — Parece que o sinto debaixo das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...

Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que foi o suplicio indescriptível do completo despertar. Ergueu-se de salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadáver com frenética ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a cabeça como hirta; apertou-a convulsamente à face dela; correu-lhe a mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu, levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se viu sozinha, e não soube compreender que profundezas de abismo eram aquelas; e que circo de chamas havia de abranger-lhe o espirito; e que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida, a torturada por tormentos, não sabidos de nome neste mundo, caiu, a poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um raio.

Às três horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram aquela mulher, envolta num manto branco, ferretado de sangue.

Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa. Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.

No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira de Oura a chamar Nicolau de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens a procurarem não sabiam eles quem; viam a fidalga ensanguentada, e julgaram-na ferida. As criadas examinaram-na, e apenas lhe viram o rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o rosto sobre a pedra.

O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ela se apalpou.

Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de sossego. Rasgou as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou de gritar, e interrogava os espavoridos circunstantes, perguntando quem matara Rafael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam. Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicolau de Mesquita atirava-se do leito fora, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em paroxismos.

A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.

Nem um monossílabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...

Morrera.

Ao anoitecer, chegou Nicolau de Mesquita. Já desde o alto da serra eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das irmandades de todas as freguezias próximas.

Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-câmara, amortalhada, com Martinho Xavier à cabeceira do esquife.

— Que é isto! — exclamou ele — expliquem-me esta horrenda desgraça!...

Martinho Xavier não respondeu. Nicolau instou pela resposta com gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados.

Saiu às salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a história da morte de sua mulher.

— Ninguém sabe responder — disse uma voz.

Acercaram-no os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados depozeram lealmente o que tinham visto, e acrescentaram que a ama do menino desaparecera.

— Vão buscá-la! vão prendel-a! — rebramiu Nicolau.

Martinho Xavier acompanhou o cadáver da filha até ao jazigo da capela, depois de ter assistido aos responsórios. Saiu da capela; e, sem entrar a despedir-se do pai do seu neto, tomou a criancinha nos braços, e acelerou o trote do cavalo, caminho de Chaves.

Nicolau de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o levava ao colo, à saída da capela.

Saltou furioso de entre os cavalheiros que o rodeavam, e quis ir na pista do sogro. Retiveram-no, lembrando-lhe que ainda estava quente o cadáver de Beatriz.

No outro dia, por noite, chegaram à vista de Palmeira os criados de Rafael Garção com o cavalo, na forma das ordens de seu amo. Esperaram-no a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam parados naquele sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.

Nicolau de Mesquita ordenou que os trouxessem à sua presença. Atterrados pelo aparato, contaram tudo. O morgado supoz, um momento, que Rafael Garção fora o motor da morte de sua mulher ou com suas próprias mãos a estrangulára, e fugira para Espanha. O boato correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os pais de Rafael, surpreendidos por esta nova, saíram caminho de Palmeira. Ricardo de Almeida apareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu o seu amigo com a eloquência da verdade e da angustia, na presença de numeroso publico, exclamando:

— O assassino de um, ou de ambos foi Nicolau de Mesquita!

Enganavam-se todos.

Os pais de Rafael Garção escutavam as diferentes vozes com um espasmo e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo; procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois meses. Apagada a esperança de tornar a vê-lo, foi procurá-lo em outros mundos. O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o jazigo em que lha fecharam, e dali saiu idiota para a escuridade de uma câmara, onde agonisou dez anos.

Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Rafael tinha sido assassinado por ordem de Nicolau, não podia sofrer que a voz publica infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Rafael com sua prima, e as intenções com que ele saíra de casa dele para Palmeira. O velho achou razoável a suposição do morgado do Pontido; mas a sua angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria ele vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!... Pediu ele a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse a lembrança da horrível tragedia na sua onda de sangue.

Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mês os processos começados estagnaram-se, à míngua de indícios. Martinho Xavier, instado para restituir o neto, desapareceu com ele, e com boa parte dos seus cabedais. O menino tinha quatro anos, em aquela época. Seu avô dizia que o queria roubar às reminiscências do opróbrio e da morte de sua mãe. Refugiára-se com o seu tesouro em Londres.

Nicolau de Mesquita foi para a Ribeira de Oura buscar as consolações de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral desta mulher figurou-se-lhe um demônio, que o escarnecia na sua ignomínia, a ignomínia de ser desonrado, como supunha dos boatos propalados pelo Almeida, no intuito de o condemnar a ele como homicida de Rafael e Beatriz.

Era uma figuração meramente este reparo no escárnio de Margarida. A francesa ajeitou as feições à mágoa do seu amigo: interiormente é que ela se deleitava atrozmente, vendo-se no juízo do mundo e de Nicolau tão desonrada como a mulher purissima, por amor de quem fora abandonada à generosidade do primeiro homem que quis acoital-a da vergonha de pedir ela um amante em troca de um jantar e de um vestido.

Os exteriores da francesa eram, pois, uma quimera do morgado de Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A publicidade da sua ignomínia, aggravada com a hipótese de ter sido ele o assassino, afora o perdimento do filho, ao qual a Providência lhe suscitára no coração um amor incendiário, estas angustias, centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida deste homem um espetáculo aborrecido às raras pessoas que o tratavam, e, mais que a todas, a Margarida Froment.

Assim que ela proferia uma palavra de banal consolação, Nicolau enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos consumados, com a desonra de muitos homens.

Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das válvulas do seu fel — o fel que o desprezo da sociedade emborca violentamente na consciência das mulheres despreziveis — e rebatia-lhe as injúrias com aviltamentos.

A repetição destes conflictos disparou na ameaça de rompimento por parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:

— Pois vai-te, mulher fatal! vai! que a tua expiação ainda não começou! Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui nesta agonia, que tu vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas, quando devias laval-as com lágrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que Beatriz fosse vítima da seducção! Tu, que interiormente exultas com o meu opróbrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois vai-te, vai, maldita, e deixa-me morrer!

Margarida preparava os seus baús, para ausentar-se; e Nicolau lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:

— Não me deixes nesta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não tenho ninguém! ninguém! até o filho me roubaram!...

A francesa condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos braços com fictícia ternura, e desprezava-o tanto quanto ele mais se envilecia.

As maviosidades momentâneas de Nicolau pareciam ridículas carícias de velho idiota: os exasperos, interpolados com as carícias, afeiavam-no horrivelmente.

Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum acesso de fúria sanguinária.

Induziu-o a sair da quinta da Ribeira de Oura para Lisboa. Nicolau recebeu jovialmente o alvitre; mas daí a nada, rompia em exclamações contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade à sua desonra.

— Está mentecapto! — dizia entre si a francesa. — O diabo que o ature!...

Nicolau de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois meses, abrir as janelas e arejar o palacete que nunca mais se abrira. Meditava em transferir para ali a francesa, desejo que ela manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de Vidago eram magníficos.

Deteve-se a revolver as cômodas e baús de Beatriz, onde não encontrou papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda estavam fechadas no quarto, porque ninguém dava noticia da paragem que ela tinha.

Nicolau fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas, e uma medalha de ouro com o retrato de Rafael Garção, e uma manilha com cabelo idêntica àquela com que o amante de Beatriz morrera.

O morgado leu as cartas, sem excepção daquela em que Rafael aludia galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Câmaras em Bemfica.

Nicolau sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadáver de Beatriz ao jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas fontes. Desistiu da lamentável inépcia, e fugiu como de si mesmo para a Ribeira de Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.

Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:

«Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A mulher fatal não quer fazer mais vítimas. Adeus.

«MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».

Nicolau, corridos três minutos de estupefacção, exclamou:

— Pois há Deus que castigue assim!?

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