Capítulo X O Esqueleto · Capítulo 11 de 29
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Capítulo X

À hora da ceia, faltou Rafael Garção.

Nicolau soube que ele estava no seu quarto, e pedia desculpa de não comparecer à mesa. Foi ele buscá-lo: encontrou-o emalando o fato.

— Isso é que é pressa de entroixar, primo Rafael! — disse o morgado, — deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos amanhã por tarde.

— Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita.

— Como assim? Venha contar-nos essa aventura à mesa, que está Beatriz à espera. Temos empresa! não pode deixar de ser...

Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia:

— Fui encontrá-lo a dobrar a roupa, e saberão que se despede à meia noite!

Beatriz encarou-o com afetuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a filha. Rafael não pôs olhos em nenhum.

O morgado prosseguiu em tom de galhofa:

— É negocio de damas! Alguma vítima saudosa que, do leito dos paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!

Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha à saída do primo, e arrependida de lhe ter aconselhado a ausência.

— Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que é séria e respeitável a mágoa do nosso Rafael! É a primeira vez que o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João de Marana e o amado de Clarisse comiam às horas, e o Biron ceiou optimamente no dia ou na noite em que uma das suas mártires se afogou no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, à meia noite, primo Garção?

— É verdade... — respondeu Rafael, affectando com violento artificio, o seu natural alegre.

— E quando volta a Chaves?

— Não sei, primo.

— Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permita-me falar-lhe com sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importância do passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o. Se o pundonor o não impele, fique. Distinga entre dever e dever. Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa desonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma errada consciência nos aconselha.

Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:

— Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita, não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde ele quiser!

— Pois eu decerto o deixo ir para onde ele quiser; mas o admoestal-o como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiência...

— Pois sim, de acordo — replicou o pai de Beatriz amaciando a voz, receoso de denunciar a causa da sua cólera — farto de admoestal-o estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio. Deixá-lo, deixá-lo, que o mundo há de ensinal-o. Quando chegar aos meus anos, ele chorará os que desbaratou na libertinagem.

Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Rafael despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o pai, à beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras banais, secas e tão contrafeitas, que por si mesmas, à custa de muita arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicolau seguiu-o ao quarto, ofereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma menina de Basto, não podendo ocultar dos pais o testemunho de sua desgraçada paixão, fugira de casa, e invocava o pai do filhito que lhe estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Rafael pela boca de Voltaire.

À meia noite saiu o pai do menino, que estremecia no seio da tão coitada de Basto, e Nicolau, em termos patéticos, foi contar a Beatriz a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas, que não fosse ela perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de tantos maridos espertos! Faz pena ver a despótica ingerencia que tem a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas necessário isto ao regimento da sociedade.

Saíram para Chaves no dia seguinte.

Beatriz ia triste, e recolhida. As carícias do esposo enfastiavam-na. O pai, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe à puridade umas frases amfibologicas de que ela ficava sentida, sem ousar pedir esclarecimentos.

As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas:

— Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um verdugo, e não um pai.

A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que o pai lhe surprehendesse o coração em algum descuidoso olhar ou gesto a Rafael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade eram nenhumas, e ela facilmente se defenderia das suspeitas calumniosas.

Era de ver que a retirada de Rafael havia de ser descontada na afeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma dar, pelo menos, ao marido um milésimo do amor que prodigalisa ao amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do marido lhe deixa. Isto também é triste, e atroz!

Nicolau atribuía as securas e enojos de sua mulher aos mistérios fenomênicos da geração. Também ele tinha acessos biliosos de impaciência, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas sofreava-se, afastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier, lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa, abstinha-se de interrogal-o, e dizia à filha:

— Tu não me atendeste; mas afinal será tarde, quando cairés em ti. Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a estima do pai, Beatriz?...

— Que quer isso dizer, meu pai? atalhou ela. Tantas ameaças, tantas ameaças! Que crimes tenho eu?

— As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste Beatriz! Muito juízo para remediar o mal feito... Se assim não for...

* * * * *

Rafael Garção estava na sua casa de Faiões. Quisera distanciar-se de Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não pudera. Estava ali preso pela corrente de um grande amor a sua prima. Era o primeiro, o único, porque não amara outra, desde que nos lábios dela, ainda solteira, depozera, como num altar, as primícias do seu coração. Sem os estorvos, pode ser que outra mulher o roubasse às froixas glorias de uma fácil proesa; mas depois do aviltante castigo do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria ele superar as dificuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto a um tempo galardão ao amor, e galardão à vingança. Eram os vinte e dois anos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, à lei da natureza bruta. Não sei também se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o D. João Tenório. Era tudo, incluindo nesta mistura o ele ser homem, feito à similhança e imagem de... Fora com a blasfêmia!

Empenhou-se Rafael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rápida saída de Palmeira, o degredo que se ele impozéra na triste soledade de Faiões. Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta.

Então somente compreendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pai, e o gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se à mão do marido passasse a carta de Rafael.

Nicolau ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro. Os ganhos eram os exteriores afetuosos com que a mulher o indemnisava dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondência epistolar entre Beatriz e o primo.

A ilustre alcôfa desta correspondência andava espiada por Martinho Xavier, à conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal parasita de Rafael. desta espionagem, confiada à aia de Beatriz, velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinária avisada para não voltar a casa de Nicolau de Mesquita, sob pena de ser publicada como negociadora de amores adúlteros. O aviso foi dado face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo montezinho.

O que ele não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz continuou a receber cartas do primo; e Nicolau a experimentar as carícias de sua senhora. Ó Azaïs!...

Decorreram uns seis meses de vigilância assídua do fidalgo. Rondava as portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Faiões para lhe segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a fiscalisar o grangeio das quintas.

Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pai. Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa. Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A comissão de parentes, encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castelo de Aguiar. Com muito sacrifício foram de liteira as velhinhas, amolgadas por grandes desgostos. Nicolau, quando as viu, teve arrepios de espinha dorsal. Interrogou a comissão, a qual respondeu que os Almeidas do Vale de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as famílias. Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz acerca de Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a dama, assim que esteve a sós com elas e o capelão adjunto, lhes desse azo à expansão das lastimas.

Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de três anos.

Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da escravidão do demônio, desfigurado na francesa, e vinha a ser o patrocínio de um santo, parente da família, que tinha sido grande pecador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida santamente: o qual santo era S. Gil de Santarém.

Que S. Gil de Santarém era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não há dúvida nenhuma, e vai demonstrar-se para confusão dos praguentos.

Estamos em tempo do senhor rei D. Afonso Henriques, que santa gloria haja.

Depois da milagrosa Vitória de Ourique, os barões da comitiva do rei conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus sabe como. O bravo rico-homem de Galiza, Fernão Martins de Almeida, despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas do Vale de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se com a filha de D. Paio Mendo Gil, senhor das terras de Cavalaria, termo da cidade de Viseu junto à vila de Vouzella. Preferiu o castelão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a cargo de irmãos. deste consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou em 1184 com Rui Pais de Valladares, do conselho de el-rei D. Sancho I, seu mordomo-mor, e alcaide-mor do Castelo de Coimbra. Estes são os bem-aventurados pais de Gil Rodrigues, conhecido e venerado do leitor pio por S. Gil de Santarém, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto português.

Nada menos que este santo, inquestionável parente das senhoras Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguíneo dos braços satânicos da francesa. No entanto, alguns meses haviam passado, depois do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energúmeno voltasse, cumprido o seu fadário. Sem embargo, elas esperavam, e razão era que esperassem. Alguém faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro, antigo pactuário do demônio: que estes milagres, nos tempos correntes, bastam a fazel-os algumas letras a vencer na mão de um usurário. A onzena tem convertido mais perdulários do que a vida mirifica de S. Gil.

O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado metade dos seus haveres, e perto iria naquele desperdício. Sustentava em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida a cada requestador que lhe varava ao coração o stilete do ciume. Os galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante desconfiado, e de são juízo para entender que o fácil para ele não seria extremamente difícil para o restante da humanidade.

Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas o não menor castigo das mulheres na condição da francesa é inspirarem suspeitas aviltadoras àqueles mesmos que as estremecem, e authorisarem o galanteio de quem quer que meramente as deseja.

Seja como for, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lágrimas como punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar Beatriz que também chorava com as velhas.

Uma paixão explora veios de lágrimas desconhecidos. Chorava, porque amava, a mal-sorteada senhora!

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