Capítulo IV O Esqueleto · Capítulo 5 de 29
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Capítulo IV

Margarida, na volta de Vila Pouca, reparou no Castelo, e pensou no descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciência: «Amal-o-hia eu, se pudesse... O coração da mulher não se engana... Aquele moço amava-me ontem... »

Custa a crer o soliloquio!

Ainda não há meia hora que ela viu, enovelados em poeira, o cavaleiro e o cavalo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se preocupa do afeto inspirado a um estranho, que ontem vira! Que coração e juízo tem esta criatura! É um coração e juízo exóticos: coisas de França; que em Portugal — terra onde mais sinceramente e ajuizadamente se ama e morre de amor — nenhuma senhora, em caso semelhante, faria monólogos de aqueles.

Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas, contíguas ao Castelo apontava um óculo à estrada que descia de Vila Pouca, e monologava também: «É ela... e vem sozinha... »

O cavalo estava selado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se despedira. A francesa reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra. Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem pode ser não fosse, ainda que arrancasse o homem amado às presas da menina de Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmúrios no coração enoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma alegria que a vingava! Na infância do seu amor de donzela, nenhuma hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!

Ricardo apeou, atirou as rédeas à mão do lacaio, e adeantou-se ao encontro da francesa, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:

— É tarde para vossa excelência ir pernoitar a Vila Real. No espaço de três grandes léguas não encontra pousada. Venho oferecer-lhe a minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.

— Aceito muito agradecida — respondeu Margarida, estendendo o braço à mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na estrada, eu aceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo.

O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que levava ao Pontido.

Iam ambos concentrados: ela, no enlevo da consideração que recebia; ele, no seu amor. Devemos cuidar assim da francesa; porque não há contentamento comparável ao da mulher desestimada da sociedade, quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor aviltante. Parecia-lhe à dama que estava no tempo em que a respeitavam, e talvez a amavam os amigos da sua família, sem exclusão dos amigos de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente agastaria a esposa de Ernesto Froment.

Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o naturalmente de um sucesso, que prende com esta história. Fora o caso que ele, por veredas transversais, no dia anterior, chegara, primeiro que Margarida, a Vila Pouca. Alojára-se na única estalagem da terra, e no quarto imediato ao que devia ocupar a francesa. Ouvira-a falar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite, espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicolau. Ouvira o dialogo na alcova e na saleta. Até os soluços da francesa ouvira, quando o morgado, fora do quarto, expedia uns sons roucos da cólera que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pátio, Ricardo saíra pelo quintalejo da estalagem, e fora montar o cavalo, que tinha acautelado de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido, e subiu à crista das fragas com o óculo, tremendo que a reconciliação se fizesse entre Nicolau e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor à antiga, coevo talvez do Castelo senhorial do rico homem, não sei dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demônio, em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos. Quer anjo, quer demônio que lhe instilasse no peito o néctar ou a peçonha, o exato é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, de onde vinha, e para onde ia. Caso único no solar dos Almeidas.

Perguntava D. Simôa ao sobrinho, enquanto D. Sancha entretinha a hospeda suspeita:

— Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ela parar aqui lá desses mundos de Cristo?

— Sei que é um anjo: viria do céu! — respondeu Ricardo.

— Do céu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do inimigo.

— Ora minha tia... — volvia o moço afagando-a. — Receba sem escrúpulos a pobre senhora, que é tão galante como desgraçada.

— Então que tem ela, menino? — instava D. Simôa com malicia.

— A sua alma pura, minha tia, não pode comprehender o mal que fizeram a esta senhora. No entanto, eu responderei às perguntas de vossa excelência assim que ela sair ao seu destino.

— Mas... — redarguiu a velha — o mal que lhe fizeram hás de remedial-o tu?...

Esta interrogação abona a sagacidade de D. Simôa; a inocência não direi, com medo de errar. As Sanchas e Simôas dos solares provincianos, por via de regra, tinham tempo para tudo: tempo para Deus e tempo para os primos. Cada uma tinha o seu frade que a absolvia e lhe dava noticias de todas as devoções com indulgencia plenária. A balança de S. Miguel estava sempre no ouro fio com estas damas, que mortificavam Deus e o demônio ao mesmo tempo. A Deus, sofismavam as veleidades com as indulgencias do Espirito Santo; ao demônio faziam figas por sobre as espaduas anchas dos frades respectivos. Se as donas do Castelo de Aguiar tinham sido desta laia, não sei; asseveraram-me, porém, que elas foram enterradas de palmito e coroas de rosas brancas: isto diz muito em credito de aquelas senhoras. No tocante a cheiro de santidade, as opiniões na freguesia divergem.

Como quer que fosse, D. Simôa, em aquela noite, inventou uma enxaqueca, e recolheu-se à sua alcova. D. Sancha saiu da sala para ir ver a mana, e voltou à sala com outra cara. O certo é que a francesa achou-se sozinha à ceia com Ricardo, que estava odiando as velhas.

Margarida sem presumir de aguda, entendeu tudo e condoeu-se do mal abafado sofrimento de Ricardo.

— Não se aflija por amor de mim — disse ela. Eu aceito o menos preço de suas tias, sem azedume. Com que títulos se apresenta à estima de duas senhoras desconhecidas uma mulher que viaja sozinha!?... Muito sentida vou, se as delicadas atenções do cavalheiro o fizeram cair no desagrado de suas tias!...

— Eu sou independente, minha senhora — respondeu Ricardo. — Minhas tias, nesta casa, têm um pequeno patrimonio, e o direito de se retirarem com ele. A minha emancipação começa de hoje.

— Por Deus! — atalhou Margarida, simulando pesar. — Não dê desgostos às pobres senhoras! Olhe que elas não fizeram mais do que fariam quaisquer outras. Eu conheço um pouco a vida de província em França, e creio que em Portugal é idêntico o modo de sentir. Recebem-se sempre desconfiadamente as forasteiras, que se não recomendam logo com apelidos heráldicos, nem denunciam pela libré de seus criados procedência ilustre. Ambos pecamos por leviandade, mr. Ricardo de Almeida: vossa excelência errou em convidar a mulher que não pode explicar honestamente a sua vida, e eu pequei em aceitar o convite, como se a consciência de maior dignidade me habilitasse a relacionar-me com duas damas da alta nobreza e, a meu ver, das primeiras virtudes.

A essencial feição da índole de Margarida Froment era a ironia; mas, a compostura de rosto com que desfechava os remoques, não lha deixava entre-ver facilmente. Ricardo, pelos menos, recebeu como ingenua a frase laudatória das virtudes de suas tias; e, sorrindo com um trejeito especial de beiços, deu vislumbres de incerteza enquanto à primazia das mesmas virtudes.

O fidalgo ergueu-se de golpe, e tangeu uma campainha.

Entrou à sala um escudeiro.

— A criada de sala? — perguntou Ricardo.

— Está no quarto das fidalgas.

— Que venha aqui.

Entrou a criada.

— Conduza esta senhora ao seu aposento — disse Ricardo — e conserve-se no quarto próximo, esperando as ordens que a sr. ᵃ D. Margarida lhe der.

— Mas as fidalgas... — balbuciou a aia.

— Ordenei! — atalhou o moço — e, voltando-se a Margarida, disse: — Quando vossa excelência quiser recolher-se...

— Irei já; mas dispenso os serviços da sua criada — observou a francesa.

Ao romper da manhã, Margarida estava preparada, como se recolhêra à alcova. Parecia ter chorado, e velado o restante da noite. À mesma hora, Ricardo mandava preparar os cavalos, e enfardar a sua bagagem. Quando sentiu movimento no quarto da francesa, esperou-a na ante-câmara e disse-lhe:

— Resolvi ir ver o Porto. Se vossa excelência me consente, irei em sua companhia.

— Que mais posso eu desejar? — disse Margarida — Mas... eu vim trazer a desordem a esta casa... Que pesar, meu Deus!

— Veio apenas trazer uma noite de amargura a um homem que a présa deveras, minha senhora. De resto, eu vejo melhor o mundo depois que vossa excelência aqui entrou.

As velhas tinham sido avisadas dos preparativos do sobrinho. Ergueram-se espavoridas e tresnoitadas a procurarem Ricardo.

Pediram-lhe contas da sua inesperada resolução, e ele respondeu-lhes com uma mesura de cabeça, e passou. D. Sancha exclamou, e D. Simôa quis ir à sala dos retratos acusar a degeneração do neto. Os retratos teriam medo, se as vissem com os josésinhos cor de cidra enfiados pelas mangas, e as estrigas do cabelo estupentudas. daí a pouco, ouviram a estropeada dos cavalos no pátio, e o rugido do alteroso portão rodando nos gonzos. Foram à janela e viram a francesa de par com o sobrinho, e uma carga de baús no seguimento da escandalosa cavalgada. Desmaiaram-se reciprocamente nos braços uma da outra, e assim estiveram até horas de almoço, depois do qual mandaram chamar os parentes circumfusos nas próximas seis léguas.

Lembrou D. Sancha que o primo Nicolau de Mesquita, como homem que tinha visto muito mundo, seria o mais hábil para convencer Ricardo a fugir dos braços da aventureira francesa, com quem se fora por essas terras fora. Foi chamado o capelão para notar e escrever a carta e assignal-a em nome das senhoras que não sabiam escrever. O egresso franciscano fez uma exposição pavorosa do escândalo, citando, com referencia à francesa, todo o mal que Santo Agostinho e S. João Chrisostomo haviam dito das mulheres.

Este período é notável:

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«Aqui tendes, caro sobrinho, o desdouro que a vontade do Senhor nos reservava à nossa velhice. Uma forasteira, vinda de França, por instigação de Satanás, rouba-nos a menina dos olhos, o nosso Ricardo, que tão humilde nos tinha sido até agora, e tão bem comportado, que não consta em todas estas freguezias que ele botasse a perder filha de caseiro. Supõe a gente que ele arranjou esta tentação lá por Vila Real, onde esteve quatro dias. Mas clama justiça do céu vir ele com ela para esta casa, onde não há memoria de entrar mulher desconhecida! Chama-se ela Margarida, e pelo donaire e modos bem se vê que é mulher afeita a correr mundo. Nunca vimos criatura com tanto palavriado! Aqui ninguém nos pode valer como o nosso parente Nicolau. Lembrae-vos que sois do mesmo sangue do nosso Ricardo; pois que vossa bisavó era irmã do bisavô do nosso sobrinho. Ele dizia que vós sois um homem de grande entendimento e sabedoria, porque tendes experiência do mundo. Se estimais esta família, que também é a vossa, fazei-nos o favor de ir a Vila Real, ou onde ele estiver com a tal aventureira, e despersuadi-o do pecado e da loucura. Lembrae-lhe a honra da sua linhagem, e trazei-o para sua casa antes que a francesa lhe derranque a alma, etc. »

Este é o período em que Sancha e Simôa choraram torrencialmente, e o egresso também.

Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicolau de Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procurá-lo em casa de Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo que ele estava amolentando os aspérrimos ciumes de Beatriz, informada do encontro em Vila Pouca, pelo espião que mandara. Nicolau tinha inventado não sabemos que romances à conta da mulher, que o criado de Beatriz affirmára ser linda como as estrelas e mocetona de uma vez, modo seu de exprimir a máxima perfectibilidade da beleza mulheril. A prima repelia desabridamente as humílimas explicações, que reviam absurdeza, e deficiência de estudo prévio. Chegou, porém, a carta, com a indicação de onde vinha.

— Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicolau.

Leu, e no decurso das duas primeiras páginas fradescas, resadas em voz alta, interrompeu-se exclamando:

— Que vem a ser isto?!

Relanceou os olhos sobre a terceira página, e viu as palavras francesa Margarida. Mudou de cor, e leu daí em diante mentalmente. Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com liberdade de noiva, e indelicadeza de menina que não ganhou no colégio prêmios de civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicolau furtou-se à curiosidade e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com arrebatamento, e foi dizer ao pai:

— Já não quero casar com o tio Nicolau. (Já era tio!)

— Porque, menina?!

— Porque sim... É um infiel!

— Ora, criança!... Saibamos isso por miúdos.

Beatriz contou o encontro com uma mulher em Vila Pouca, e o recebimento da carta, que ele escondêra, depois de ter lido uma porção dela a dizer mal das mulheres.

Martinho Xavier riu-se dos amuos da menina, e foi entender-se com o primo.

Nicolau, depois de se ficar pasmado uns três minutos no período que transladamos, quis dispor as suas ideias, em ordem a conjecturar o abstruso enlace de Margarida com Ricardo de Almeida, duas pessoas que nunca se tinham visto. Este reparo denota que Nicolau não conseguira coordenar as suas ideias. Pois as duas pessoas não se haviam de ter visto, ao menos quando uma era roubada pela outra?

Respondia ele a esta pergunta do siso-comum, quando Martinho Xavier entrou, dizendo:

— Que vem a ser isto, primo Mesquita? A Beatriz está zangada. Que lhe fizeste? que mulher é essa com quem estiveste em Vila Pouca? E essa carta, em que se diz mal das mulheres que vem a ser? A pequena foi dizer-me que não quer casar contigo!

Nicolau refletiu, e achou um miraculoso expediente de justificação. Deu a carta a ler ao primo dizendo:

— Eu duvidei contar a tua filha uma história de honestidade muito equivoca. Aí verás que me chamam as tias Almeidas para reduzir o sobrinho a deixar uma mulher que o perde. Esta mulher é a mesma que veio a Vila Pouca para captar a minha estima, e mover-me a induzir meu primo Ricardo a casar com ela. Aqui tens, primo Xavier, como eu me vejo enredado numa teia, que me faz malquisto de tua filha. Se queres, explica-lhe tu o que é isto. Eu não sei fazel-o sem cuidar que ultrajo o seu pudor.

Martinho expediu uma sincera gargalhada, e exclamou:

— Dá-me a carta, que eu vou pacificar a pobre menina.

daí a pouco, Beatriz entrou muito agraciada à presença de Nicolau, e disse, toda afagos:

— O primo perdoa-me, pois não perdoa?

— E, por amor do seu ciume, cada vez a adoro mais, Beatriz! — respondeu o morgado ternamente.

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