Capítulo XVI
Às onze horas do dia imediato, um criado do hotel apresentou a Nicolau de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram nomes de tomo na velha fidalguia destes reinos.
Desceu o morgado da Palmeira à sala. Um dos cavalheiros com a graça amável e afetuosa de quem vai convidar um amigo para um alegre festim, disse que ele e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao excelentíssimo Nicolau de Mesquita, cavalheiro que eles propoentes conheciam de nome, e de mui ilustre parentela em Lisboa, a sua resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de repelir uma afronta.
— Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excelências terão a bondade suma de nomear.
— Cartas escritas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro ofendido, madame Margarida Froment.
— A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu sustentava minha amante, estabelecida em residência minha no Porto, no dia 26 de outubro de 1839, às três horas da tarde; e às quatro horas, pouco mais ou menos, desse dia, e ano, o senhor Ricardo de Almeida senhoreou-se dela. Qual dos dois entendem vossas excelências que foi o afrontado?
— Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excelência.
— Instruidos vossas excelências, recebo as suas ordens, pedindo licença para observar-lhes que tenho em minha companhia minha mulher, e o local é inconveniente para o proseguimento destas negociações. Vossas excelências consentirão que os cavalheiros, chamados a representarem-me nesta indiscreta pendencia, se encontrem em logar designado por vossas excelências.
Reunidos os quatro agentes, dois nomeados por Nicolau, em casa de um deles, saiu D. Fulano a colher instrucções de Ricardo de Almeida, e voltou confirmando o declarado por Nicolau de Mesquita, com pequenas variantes, que não alteravam a substancia. Em consequência do que, lavrou-se ata com os seguintes considerandos:
«Os abaixo assignados, incumbidos de acordarem mutuamente na deliberação a tomar sobre um conflito de honra entre o senhor Ricardo de Almeida e Noronha Valladares Riba-fria de Aguiar Falcão Athaide, morgado do Pontido, e o senhor Nicolau de Mesquita Sotto-maior Sepúlveda Cão e Aboim da Nóbrega e Neiva, Morgado da Palmeira do Vidago;
«Considerando que a francesa Margarida, actualmente, e desde 1839, contubernal de Ricardo de Almeida, era considerada em domínio de Nicolau de Mesquita, ao tempo em que foi requestada pelo segundo dos citados cavalheiros possuidores;
«Considerando que Nicolau de Mesquita foi o primeiro ferido no seu coração, ou no seu amor próprio, termos equivalentes na questão subjeita;
«Considerando que o primeiro afrontado entendeu acertadamente que os pleitos de honra são objetos sacratíssimos em que as leviandades de uma mulher desdoirada não devem preponderar;
«Considerando que Margarida, ipso facto, se havia constituido matéria primi capientis[3], e desde logo coisa apropriável sem desaire de quem quer que fosse, nem titulo de propriedade valido;
«Considerando que Nicolau de Mesquita havia dado o exemplo de cordura e desprendimento quando lhe foi extorquido um domínio, que ele voltava a requestar, sem ofensa de Ricardo de Almeida, nem das leis consuetudinárias;
«Considerando que a única pessoa presumível de ofendida seria Margarida, ofensa que não se deu, por ela mesma afoitamente se gloriar de ser a pessoa a quem endereçava a carta, o corpo de delito na questão litigada;
«Considerando, finalmente, que a dignidade de dois cavalheiros não deve baixar a contender sobre matéria que nunca se pode provar honrosamente discutida;
«Os abaixo assignados resolveram que não há ofensa, nem leve desdouro, cuja desafronta nobilite as armas nas mãos dos cavalheiros, de quem receberam autoridade para esta ou outra deliberação. — Lisboa, e casa de D. João de Ornellas Temudo, 20 de junho de 1842. »
Seguem as assignaturas.
Ricardo de Almeida recebeu a copia desta coisa e gemeu surdamente angustiado pela humilhação, que aviltava a mulher dos seus sacrifícios. Ponderou na crueza e alarvaria de certas palavras escusaveis na formalidade da ata: os padrinhos ofenderam-se do reparo, saíram abespinhados, e consultaram os reinícolas em duelos sobre se deviam desafial-o.
Nicolau de Mesquita riu dos considerandos, como forma e como substancia; achou-os magníficos de ironias e patuscada; agradeceu infinitamente os serviços dos seus bons amigos; os quais, azoados com o riso equivoco do Mesquita, por um cabelo que o não desafiaram também.
Os cavalheiros signatários por parte de Ricardo, bem que lhe desculpassem a defesa de Margarida e o tratassem com deferência e amizade em publico, não voltaram mais a casa dele, onde jantavam e passavam de antes as noites com frequência. Motivaram este procedimento, alegando que se achavam mal com Margarida Froment nas salas de um amigo. Os sabedores deste acume de pundonor imitaram os praxistas da elegância e dos brios: ninguém volveu ao palacete de Andaluz.
Queixou-se Ricardo ao primo Rafael dos briosos devassos; e o de Faiões invectivou contra os considerandos, lamentando não poder sair a publico e desafiar, um a um, ou todos quatro de pancada, os signatários da indecorosa ata. E daqui passou a lastimar Margarida Froment, com uns termos tão compungidos, que propriamente Ricardo se espantava do reviramento.
A mudança era racional. Rafael era mais meditativo que o comum dos homens das suas manhas e costumes. Cogitara ele que se a francesa, embora estranha ao seu amor à prima, se reconciliasse com Nicolau, facilmente lhe diria que Rafael Garção lhe fora apresentado por Almeida. Assaltado por tal medo, cuidou em dominar egoistamente o fraco espirito de Ricardo, persuadindo-o a sair com ela de Lisboa para o Porto, ou para o estrangeiro, em ordem a que Nicolau de Mesquita não lograsse a vingança desde muito planeada.
O morgado do Pontido, obtemperado muito à vaidade, e já pouquíssimo ao amor, conveio em retirar-se à sua casa da Foz no Porto, e diferir oportunamente a desligar-se de Margarida, cujo descredito o enojava. Deplorável orgulho de homem, que julga purificar com a sua estimação a mulher empéstada no conceito dos outros!
Propoz ele à francesa a saída para o Porto.
— Não vou — respondeu ela firme e rápida. — O desprezo dos teus amigos não me afugenta de Lisboa; o mais que pode é afugentar-me de tua casa.
— Desprezo os meus amigos — replicou Ricardo. Vamos... porque...
— Porque vamos? — acudiu Margarida às suspensivas reticencias.
— Porque desconfio da tua lealdade.
— Aqui?... Porque hás de ter mais confiança lá?...
— Confessas, pois...
— Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que ele falasse: foi teu primo que te ensinou a eloquência do tédio. Morri desde logo para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta luz do céu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das pecadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam que impunemente podiam oferecer aos teus olhos um líbelo injurioso que tu deixaste mal guardado para que eu me pudesse ver naquele espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até ao esterquilínio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher descripta neste papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua. É impraticável a nossa convivência. Reciprocamente nos desprezamos, Ricardo.
— Queres, portanto, dizer...
— Que nos desliguemos.
— Por que voltas aos amores antigos?
— Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que há dois anos e meio as não dei a Nicolau de Mesquita.
— O que me espanta é que vivesses dois anos comigo!...
— Por que te espanta?
— Precisamente ninguém te inquietou... disse ele afiando o sarcasmo com o riso.
— Espera!
Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira.
— Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguém inquietava. Aí reconhecerás a letra dos teus principais amigos. Aí estão cartas dos signatários da ata do duelo, que se não fez porque Margarida é coisa apropriável, sem titulo de propriedade valida. Vai agora perguntar a cada um dos teus amigos se possui carta da Margarida. São grandes fidalgos, e alguns — especialmente os que não te pediam dinheiro — são ricos e pródigos. Vai perguntar-lhes se a mulher, a matéria que nunca se pode provar honrosamente discutida, baixou até eles, quando lhe rastejavam os pés, aceitando o desprezo, com a mesma abjecção com que traiam o amigo. Vai...
— Basta! — Exclamou Ricardo, engrifando os dedos nos punhados de cartas, que atirou ao pavimento. — Basta, Margarida, que eu estou expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino!
— Por minha causa não o serás, Ricardo. Atende-me bem: estas coisas são providenciais. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei quem me leva nem onde vou. Há oito dias que eu desprezava Nicolau de Mesquita...
— E hoje?... — atalhou com ânsias Ricardo.
— Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um contra o outro, como dois ébrios que se despedaçam a rir...
— Pois tu vais para Nicolau?!
— Não sei para onde vou.
— Sabes que ele é casado...
— Sei: que me importa a mim saber o que ele é? Casada era eu, e feliz, e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!...
— Que perdição a tua, que estrela, santo Deus! Exclamou em lágrimas Ricardo.
— Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!... — soluçou Margarida.
— Oh! mas não vás que eu amo-te!
— Não mintas... Deus quer que daqui a uma hora me desprezes. Tu amaste-me sem saber porque: hoje odeias-me, sem poder justificar o teu ódio. A carta de Nicolau? Não pode ser! Que viste nesta carta? Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dor. Não me abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta a mão vingadora de teu marido! » O restante da carta que era? lágrimas, suplicas, reminiscências do tempo em que me vira presada da sociedade, e pura como ele já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de semelhante carta? Oh! se eles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com lágrimas o apelido de seu esposo!
— Não vês que choro e que te amo, Margarida! — clamava de mãos postas Ricardo, inclinado aos joelhos dela.
— Dignidade, meu amigo! disse ela, erguendo-o. — Dou-te este nome com a sinceridade e honestidade de uma santa. Aceita-o que não podes ser mais nada para mim.
E saiu da presença de Ricardo. Ele seguiu-a a brados dilacerantes, e ela acolheu-o nos braços, murmurando:
— Ouve-me, meu amigo. Eu pensei ontem em suicidar-me. Se hoje não visse o papel assignado por quatro miseráveis estaria morta a esta hora. Salvou-me aquela ignomínia, Deus sabe para quantas mais atrozes. Nicolau de Mesquita, neste momento, sabe que eu vou pertencer-lhe...
— Infame! — exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços. — Que infame és tu, mulher sem pejo, que te vais vender ao homem que te abandonou!
— Vender não, meu amigo — atalhou ela com a brandura de um sorriso sem nome nas expressões variadas da agonia. — Eu não me vendo: compro o direito de me espedaçar lentamente.
— Não te entendo, miserável! — rebramiu Ricardo com os punhos cerrados, e os braços ameaçadores.
— Espero que me não insultes como um homem vil! — disse Margarida, retraindo a face aos punhos convulsos do alucinado.
Ricardo caiu na tormentosa consciência da sua indignidade, e fugiu da vista da francesa, que soluçava como na última entrevista com Nicolau, na estalagem de Vila Pouca.
No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de pistolas, e substituia por outros os fulminantes oxidados.
NOTAS DE RODAPÉ:
[3] Aos redactores da ata, modelo de continência da linguagem no gênero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar na integra.
O AUTOR.