A Primeira Noite A Ilha Indecifrável · Capítulo 2 de 16
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A Primeira Noite

Caio fechou a porta antes que Malu conseguisse obedecer à voz do rádio. O gesto foi rápido, quase agressivo, e a madeira bateu no batente com força suficiente para fazer a lamparina tremer sobre a mesa. Malu ficou no centro da sala, com a pasta da escritura apertada contra o corpo, ouvindo o aparelho chiar na prateleira. A luz fraca continuava acesa, embora ninguém tivesse tocado em botão nenhum. Luluca, fecha a porta. A frase repetiu com o mesmo defeito no final, um corte seco depois da última sílaba. Caio pegou o rádio com um pano, virou o aparelho e arrancou a tampa de pilhas vazia. Não havia energia ali. Não havia bateria. Havia apenas a voz de Bento, ou alguma coisa usando o lugar exato onde a voz dele ainda machucava. Malu sentiu raiva antes de sentir medo. A ilha começava mal, apelando para intimidade velha.

Caio colocou o rádio dentro do armário da sala e travou a porta com uma cadeira. Malu perguntou se aquilo era estratégia ou teatro. Ele respondeu que, em casa abandonada, qualquer móvel contra porta já melhorava a conversa. A resposta irritou porque era útil. A sala principal guardava pouco do pai. Uma mesa de madeira, quatro cadeiras, uma estante com livros inchados de maresia, uma rede enrolada no canto, uma fotografia antiga de Bento diante de um barco vermelho. Na imagem, ele sorria com uma alegria que Malu não lembrava ter visto nos últimos anos. A casa estava limpa demais. O chão varrido, as canecas lavadas, a lamparina com querosene novo, a janela aberta no quarto de Bento. O abandono havia sido editado por mãos recentes. Rômulo, homens dele ou alguém que morava ali sem admitir. Qualquer opção punha Malu dentro de armadilha com teto baixo e vista para o mar.

O primeiro trabalho foi apagar a casa para quem estivesse do lado de fora. Caio fechou janelas, puxou cortinas mofadas e cobriu frestas com panos achados na cozinha. Malu ajudou em silêncio até perceber que ele conhecia bem demais a posição de cada tranca. Perguntou quando fora ali pela última vez. Caio demorou a responder, prendendo um pedaço de madeira sob a porta dos fundos. Disse que levava Bento até a ilha quando o motor dele quebrava. Malu lembrou do pai falando de Caio como menino de confiança, depois parando de falar nele no ano anterior ao sumiço. Essa ausência ganhou forma. Ela perguntou se Caio vira Bento na semana da tempestade. Ele olhou para a janela coberta, não para ela. Disse que aquela pergunta precisava de noite inteira e talvez de garrafa. Malu respondeu que tinha noite, não garrafa. Ele aceitou o golpe com um movimento curto da cabeça.

O barco sem luz continuava do outro lado da ilha. Pela fresta da cozinha, Malu via apenas um recorte escuro entre as pedras, mas Caio garantia que havia gente a bordo. Ele conhecia mar parado demais, sombra regular demais, silêncio escolhido. A cada poucos minutos, subia ao quarto de Bento para observar pela lateral da janela, sempre de lado, sem encostar o rosto no vidro. Malu ficou na cozinha, abrindo armários. Encontrou arroz vencido, sal grosso, lata de sardinha, duas velas novas e um maço de recibos presos por elástico. Os recibos eram de combustível, peças de motor e mantimentos comprados nos últimos seis meses. Bento fora declarado ausente havia oito anos. Alguém mantinha a casa abastecida com método. No verso de um recibo, havia uma anotação escrita em letra pequena que não era de Bento. Se a herdeira vier, vigiar pela enseada norte.

Malu levou o papel para Caio. Ele leu, dobrou e guardou no bolso da camisa sem pedir licença. Ela estendeu a mão de volta. Ele devolveu, contrariado, e a velha intimidade entre os dois apareceu na briga pequena. Antes de tudo desandar, Caio passava férias inteiras na ilha, pescando com Bento e ensinando Malu a mergulhar nos pontos rasos. Aos quinze anos, ela achava que ele sabia respirar dentro da água por teimosia. Aos vinte e poucos, achou que ele tinha traído o pai ao aceitar trabalho para os homens de Rômulo. Agora, olhando a cicatriz na sobrancelha dele e o cuidado com que fechava a casa, nenhuma versão parecia suficiente. Caio disse que o papel confirmava uma coisa. Quem invadiu ali não esperava apenas comprador. Esperava Malu. Ela perguntou por quê. Ele apontou para a pasta da escritura. Porque seu pai obrigou você a vir pessoalmente.

A cozinha tinha uma despensa estreita, com prateleiras de madeira e cheiro de farinha velha. Malu entrou ali procurando fósforos. Encontrou uma caixa de metal atrás de sacos de sal, presa com fita isolante de cor azul. A fita grudara tanto que precisou usar a faca de Caio para abrir. Dentro havia um caderno escolar de capa verde, uma chave pequena e três fotografias impressas em papel comum. O caderno era de Bento. Não havia dúvida. A primeira página trazia uma lista de marés, datas e nomes de embarcações. A segunda, desenhos de rochas em volta da ilha. A terceira tinha apenas uma frase, escrita grande. Se Malu chegar com proposta pronta, Rômulo já comprou metade da cidade. Caio leu por cima do ombro dela. Perto demais. Malu sentiu o calor dele antes de sentir a raiva por ele ler junto. Deu um passo para frente, batendo o joelho na prateleira, e a dor salvou os dois de qualquer comentário inútil.

As fotografias mostravam a enseada norte em dias diferentes. Na primeira, um barco de pesca descarregava caixas sem marca. Na segunda, dois homens arrastavam lona preta por uma entrada entre pedras, quase escondida pela maré. Na terceira, Bento aparecia ao fundo, de boné, olhando para a câmera sem surpresa. Aquilo mudou o peso da sala. O pai não apenas sabia. Observava. Talvez registrasse. Talvez negociasse. Talvez fugisse de algo que ajudara a abrir. Malu sentou no chão da despensa, porque a prateleira parecia instável demais para sustentar sua mão. Caio ficou à porta, impedindo que a luz da cozinha vazasse para a janela. Disse que aquela entrada entre pedras só aparecia em maré muito baixa, duas ou três vezes por mês. Malu perguntou se dava acesso a quê. Ele respondeu que, quando eram crianças, Bento dizia que levava a uma gruta sem fundo. Adulto mente melhor quando usa história antiga.

O chiado do rádio voltou dentro do armário. Desta vez, a voz de Bento não chamou Malu. Falou nomes de barcos. Santa Rita. Dois Irmãos. Estrela Baixa. O caderno caiu aberto no colo dela, exatamente na lista da primeira página. A voz repetia a ordem das anotações. Caio atravessou a sala com cuidado e colocou a mão na cadeira que travava o armário, sem abrir. Malu percebeu que ele tremia muito pouco, só nos dedos. Isso a assustou mais que pânico. Medo treinado costuma ter dono. O rádio parou depois do quinto nome. Do lado de fora, a embarcação escura ligou uma luz por menos de um segundo, sinal curto, apontado para a casa. Caio apagou a lamparina com um sopro. A ilha mergulhou em noite espessa. Malu escutou o mar batendo nas pedras e, por baixo, outro som. Um motor pequeno se aproximando da rampa.

Caio puxou Malu para baixo da janela da sala. O gesto não teve delicadeza. Teve cálculo. Ela quis reclamar, porém ouviu vozes no caminho da mata e calou. Eram dois homens. Um reclamava do limo na rampa. Outro dizia que a casa estava apagada porque o barqueiro tinha juízo. Malu reconheceu o nome de Caio na boca deles, e o corpo ao lado dela ficou duro. Os homens não entraram pela porta principal. Rodearam a casa até o poço desativado. Caio fechou os olhos por um segundo, xingando baixo sem som. Malu encostou a boca perto do ouvido dele, perto demais para o que a situação permitia, e perguntou o que havia no poço. Caio respondeu quase sem mover os lábios. Uma passagem que Bento jurava ter concretado. A frase abriu espaço frio dentro da barriga de Malu. O pai deixara uma casa cheia de recados e uma passagem que inimigos conheciam melhor que a filha.

A tampa do poço rangeu no quintal. Depois veio o barulho de metal arrastado, pedra contra pedra, e uma risada abafada. Malu segurou a faca de cozinha sem lembrar de tê-la pegado. Caio notou, mas não tirou da mão dela. Apenas ajustou os dedos dela no cabo, gesto rápido, íntimo, prático. Disse que faca servia para abrir caminho, não para bancar valentia contra homem armado. Malu perguntou se eles estavam armados. Caio respondeu que gente que entra por poço à noite raramente vem vender doce. O absurdo seco da frase quase fez Malu rir, e a vontade de rir a deixou mais nervosa. Passos soaram sob o assoalho. Não no quintal. Embaixo deles. A casa tinha fundo. O caderno de Bento guardava desenhos de rocha, não planta baixa. Ela começou a entender que a exigência das sete noites talvez não fosse superstição. Talvez fosse prazo de maré.

Os homens circularam sob a sala por alguns minutos, arrastando objetos e falando em voz baixa. Malu captou pedaços. Caixas. Maré. Documento. Herdeira. Um deles perguntou se a menina estava na casa. Menina. A palavra, dita por estranho, acertou um ponto que nem Bento deveria tocar. Caio levantou devagar e fez sinal para ela ficar. Malu ignorou. A raiva tinha ultrapassado o medo. Seguiu-o até a porta da despensa, onde uma tábua solta no piso deixava passar ar frio. Caio ajoelhou e ergueu a madeira o bastante para olhar. No vão abaixo, havia luz de lanterna e dois homens com roupas escuras abrindo uma caixa de metal. Sobre a tampa, Malu viu o mesmo símbolo impresso no cartaz das Villas do Atlântico, três linhas douradas formando uma onda perfeita demais. Um dos homens retirou da caixa um saco plástico com documentos. O outro segurava uma pistola.

Malu recuou antes que a luz alcançasse seu rosto. Caio baixou a tábua sem ruído e puxou-a para a despensa. Pela primeira vez desde o cais, ele parecia sem frase pronta. Disse que precisavam sair pela janela do quarto de Bento, descer pela pedra lateral e alcançar a lancha antes que os homens subissem. Malu perguntou pelo caderno. Ele pegou o objeto do chão e enfiou na mochila dela. A proximidade dos dois no espaço estreito tornou cada movimento difícil. Ombro contra peito, respiração contida, cheiro de sal, graxa e medo. Malu odiou a parte do corpo que percebeu Caio enquanto havia arma sob o assoalho. Ele pareceu perceber também e desviou o rosto com uma disciplina irritante. Antes que subissem a escada, o rádio no armário ligou outra vez, alto o bastante para os homens ouvirem de baixo. A voz de Bento disse que a porta do poço já estava aberta. Depois acrescentou, com calma impossível, que a primeira noite sempre cobrava entrada.

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