O Galpão da Lagoa A Ilha Indecifrável · Capítulo 13 de 16
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O Galpão da Lagoa

O carro de Rômulo deixou o asfalto numa entrada quase coberta por capim alto. A placa da antiga beneficiadora de pescado ainda existia, torta sobre dois postes de concreto, com letras descascadas que prometiam gelo, limpeza e entrega rápida para restaurantes que já deviam ter fechado. Dário reduziu a velocidade antes de seguir pelo mesmo caminho. A estrada de terra corria entre eucaliptos, valas de água parada e cercas de arame frouxo. No banco de trás, Malu sentiu a fotografia de Bento dobrar um pouco sob os dedos e afrouxou a pressão. A imagem era prova, mas também era rosto. Zélia observava os lados da estrada, procurando casa, curral, gente, qualquer sinal de rotina. Não havia cachorro, roupa no varal, fumaça de fogão, nada que pertencesse a vida comum. Só o carro prata adiante, levantando poeira, e o cheiro de lagoa antiga chegando antes da água aparecer.

A propriedade tinha três galpões compridos, dois deles sem portas, um fechado com corrente grossa. Atrás, uma lagoa escura encostava no terreno como um olho parado. Barcos de alumínio apodreciam de barriga para cima perto de uma rampa quebrada. Rômulo estacionou diante do galpão fechado e desceu devagar, como se recebesse visita em fazenda bem cuidada. Dário parou a uma distância calculada, deixando espaço para manobra. Caio e o cunhado chegaram logo depois, pelo caminho mais aberto, com o carro virado para a saída. Dário pediu que ninguém se aproximasse sozinho. Rômulo sorriu ao ouvir, abriu os braços e disse que a dramaticidade deles transformava um gesto de boa vontade em espetáculo. Malu percebeu que ele olhava pouco para ela e muito para a estrada. Esperava alguém ou temia alguém.

Dário avisou que a promotora sabia o endereço. Era mentira pela metade. Elisa sabia a direção geral, a estrada de acesso e o nome antigo da propriedade, mas não havia mandado mensagem confirmando equipe. A mentira servia para medir Rômulo. O rosto dele não mudou, só a mão direita fechou dentro do bolso. Disse que Bento estava fraco e que qualquer agitação poderia matá-lo. Zélia pediu para vê-lo primeiro como profissional de saúde. Rômulo recusou. Disse que Malu entraria com ele, sem telefone, sem Dário, sem Caio. A resposta de Malu saiu antes que o medo montasse frase melhor. Disse que entraria com Zélia. Rômulo riu, olhando para a enfermeira como quem avalia móvel velho. Zélia deu um passo à frente e perguntou se ele preferia explicar a morte de Bento para uma promotora com uma profissional de saúde do lado de fora. Rômulo abriu a corrente.

O galpão guardava o cheiro de peixe seco, cloro velho e metal quente. As janelas altas estavam cobertas por tábuas, deixando frestas de luz sobre o chão rachado. Havia caixas plásticas empilhadas, uma balança industrial, freezers desligados e um corredor montado com divisórias de compensado no fundo. Malu sentiu o estômago fechar. O lugar não parecia improviso de uma noite. Tinha cadeira, filtro de barro, medicamentos organizados sobre uma mesa, um ventilador antigo e uma cama hospitalar com lençol limpo demais para o resto do prédio. Bento estava sentado nela. Mais magro que na fotografia, barba branca irregular, pele fina nos braços, olhos fundos. Ainda assim, quando virou o rosto, Malu reconheceu a maneira de apertar a boca antes de dizer qualquer coisa difícil.

Ela não correu. O corpo desobedeceu ao que tinha imaginado durante anos. Ficou parado no cimento, entre a porta e a cama, com Zélia ao lado e Rômulo atrás. Bento levantou a mão esquerda. A direita tremia sobre a manta. Malu deu três passos, parou outra vez, depois alcançou a beira da cama. O pai disse o nome dela sem enfeite, só Malu, como chamava quando ela deixava chinelo no barco ou esquecia panela no fogo. A voz estava menor, cheia de ar, mas era dele. Ela sentou na beirada da cama e encostou a testa na mão que ele ofereceu. O cheiro de remédio escondia quase todo o cheiro de mar. Quase. Bento pediu desculpa. Malu fechou os olhos. Tinha pensado em mil perguntas violentas, em acusações, em datas, em cada aniversário passado sem corpo para visitar. Na hora, só conseguiu perguntar se ele sabia que ela voltara.

Bento olhou para Rômulo antes de responder. Esse olhar deu a Malu a primeira resposta. Rômulo controlava visita, remédio, janela, notícia. Zélia se aproximou da mesa e examinou os frascos sem pedir licença. Havia calmante, remédio para pressão, antibiótico antigo e vitaminas baratas com rótulo de farmácia popular. Ela pegou um dos vidros, leu a dosagem e perguntou quem prescrevera. Rômulo disse que médicos discretos ainda existiam para famílias discretas. Zélia guardou o frasco no bolso. Rômulo percebeu e mandou devolver. Bento segurou o pulso de Malu com força inesperada. Disse que ela devia sair dali com Dário. Disse que a ilha já tinha dado o que precisava. Rômulo interrompeu com voz baixa, chamando aquilo de ingratidão. Bento riu de leve, uma tosse quase sem som. Disse que ingratidão era cobrar hospedagem de sequestrado.

Do lado de fora, Caio ouvia pouco e imaginava demais. A porta do galpão ficara aberta apenas o suficiente para que Dário visse sombras. O delegado aposentado não gostava de espera sem documento. Gravava no celular dentro do bolso e mantinha os olhos na estrada. O cunhado dele mexia no motor do carro como se consertasse alguma coisa, mas na verdade soltava o cabo de uma peça que poderia atrasar fuga de quem tentasse roubar o veículo. Caio viu primeiro o movimento perto da lagoa. Dois homens saíram de trás do galpão menor, carregando uma maca dobrável. Nestor vinha atrás deles, camisa seca, arma na cintura, rosto limpo como se não tivesse passado a manhã perseguindo gente pelo mangue. Caio tocou o braço de Dário e apontou. A troca nunca fora para devolver Bento. Era para mover Bento antes que a equipe de Elisa chegasse.

Dentro do galpão, Malu ouviu o ruído da maca sendo aberta. Rômulo fechou a porta com o pé. Zélia largou os frascos sobre a mesa e ficou entre ele e a cama. Bento tentou levantar, mas a perna esquerda não respondeu. Malu viu uma cicatriz grossa perto do joelho, mal escondida pela manta. Rômulo disse que todos estavam dificultando um cuidado necessário. Malu perguntou para onde levariam Bento. Ele respondeu que para um lugar onde a filha não pudesse transformar a doença do pai em circo. A palavra circo fez Bento erguer a cabeça. Disse que Malu tinha os olhos da mãe quando estava prestes a fazer burrice. Foi tão antigo e tão íntimo que por um segundo Rômulo perdeu o centro da sala. Malu entendeu o aviso. Bento não pedia calma. Pedia ação.

Zélia derrubou a bandeja de metal sobre o chão. O barulho estourou no galpão como queda de portão. Malu puxou a manta de Bento, encontrou a trava lateral da cama e soltou uma das rodas. Rômulo avançou, mas Zélia jogou contra ele o suporte de soro vazio, acertando o ombro e o paletó. Bento segurou a grade da cama com a mão boa e empurrou o corpo para o lado, usando o próprio peso para fazer a cama girar em direção ao corredor de compensado. Malu pegou a pasta de medicamentos da mesa e enfiou debaixo do braço. A porta abriu com força. Caio entrou primeiro, seguido por Dário, enquanto Nestor aparecia atrás deles com a arma já na mão. Dário gritou o nome completo de Nestor e avisou que tudo estava sendo gravado. Nestor hesitou menos por medo da gravação que por ver Bento vivo, sentado na cama, olhando para ele como quem reconhece um menino de recado antigo.

A hesitação bastou. Caio bateu com o ombro em Nestor e os dois caíram contra uma pilha de caixas. A arma escorregou para baixo da balança. Dário ficou na porta, impedindo os homens da maca de entrar. Rômulo tentou alcançar a saída lateral, mas Zélia segurou a corrente que ainda pendia na porta e puxou com as duas mãos, mesmo ferida. O metal acertou a perna dele. Malu empurrou a cama pelo corredor estreito, com Bento segurando a grade e xingando baixo a cada solavanco. O caminho dava para uma área de lavagem, aberta para a lagoa. Havia uma rampa, dois tambores vazios e uma porta de tela enferrujada. Do lado de fora, o carro de Dário parecia longe demais. A cama não passaria pela porta sem virar de lado. Bento mandou que ela deixasse a cama. Malu recusou. Ele repetiu, mais duro, usando o tom de pai que ainda sabia mandar em tempestade.

Ela ajudou Bento a ficar de pé. O peso dele veio inteiro contra o corpo dela, ossos, remédio, medo e vida. Zélia chegou por trás e passou o braço dele sobre o próprio ombro. Caio apareceu com o rosto cortado, sem Nestor. Disse que precisavam sair pela rampa da lagoa porque o pátio estava travado. Dário vinha recuando, bengala numa mão, celular na outra, mantendo os homens da maca a distância com mais autoridade do que força. Rômulo gritava que Bento não sobreviveria sem os remédios, que Malu estava matando o pai por vaidade. Bento virou a cabeça para ele e respondeu que já tinha sobrevivido oito anos a cuidados de carcereiro. A frase saiu fraca, mas atravessou o galpão com uma precisão que calou até as caixas.

Na rampa, encontraram um barco pequeno preso por corda. O motor parecia velho, mas havia tanque cheio e chave no contato. Caio não perguntou quem deixara aquilo preparado. Entrou, puxou a partida e agradeceu a qualquer santo que cuidasse de carburador abandonado. O motor falhou duas vezes, pegou na terceira. Dário ajudou Zélia a acomodar Bento no fundo do barco. Malu entrou por último, segurando a pasta de medicamentos e a fotografia que quase perdera no corredor. Rômulo apareceu na porta de tela quando a corda já estava solta. Tinha perdido a compostura do terno, o ombro manchado, a calça suja, a voz sem verniz. Disse que a promotora nunca chegaria a tempo. Dário levantou o celular. A voz de Elisa saiu pelo viva-voz, cortada pelo vento, dizendo que a equipe já estava na estrada da lagoa e que a placa do carro prata tinha sido enviada.

Caio acelerou pelo canal estreito que ligava a lagoa ao rio. O barco sacudiu entre juncos, batendo em galhos baixos. Bento segurava a mão de Malu com pouca força e muita urgência. Disse que a Atlântica Norte tinha comprador maior, gente que não aparecia em contrato, e que a ilha era só a boca do canal. Malu pediu que ele guardasse fôlego. Bento apertou os dedos dela, teimoso, e disse que a prova final não estava com ele. Estava onde Rômulo nunca procuraria depois de ver a capela aberta. Malu entendeu antes que ele completasse. A casa de Bento, a primeira noite, o rádio que repetira a voz dele. Zélia mandou o velho calar e respirar. Dário olhou para trás, para o galpão diminuindo atrás da curva. Rômulo ficara no pátio, pequeno pela distância, cercado por homens que já não sabiam se obedeciam ou fugiam. Pela primeira vez, Bento estava fora da sala onde o mantinham. Pela primeira vez, Malu tinha o pai vivo ao lado e uma nova volta à ilha pela frente.

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