A Capela de Santa Irene
A canoa raspou no cascalho da enseada norte quando o céu começava a clarear atrás das nuvens. Malu saltou antes que Caio terminasse de puxar a corrente e sentiu a água fria entrar pelos tênis, misturada à areia grossa e a pedaços de concha. A ilha, vista daquele lado, parecia menor e mais fechada, com o mato crescendo até perto das pedras e a casa de Bento escondida por uma fileira de amendoeiras antigas. Não havia luz na varanda. Não havia rádio ligado. O silêncio deveria trazer alívio, mas a noite tinha ensinado que silêncio em Porto das Garças quase sempre significava alguém esperando a vez de falar por outro. Zélia desceu com a bolsa apertada contra o peito, segurando a fita de áudio como se carregasse um remédio raro. Caio empurrou a canoa para dentro de uma reentrância de pedra e cobriu o casco com galhos. Quando terminou, olhou para Malu, esperando decisão. Ela já tinha a chave da capela na mão.
O caminho até Santa Irene subia por trás da casa, onde a vegetação tinha engolido o antigo trilho de procissão. Malu lembrava de ter passado ali quando criança, segurando um terço de plástico vermelho que a avó insistira em comprar na festa de pescador. A capela era pequena, caiada de branco, com telhado baixo e uma cruz de ferro torta na frente. Depois do raio, Bento dizia que o lugar tinha virado abrigo de lagarto e promessa quebrada. Mesmo assim, ele nunca deixava ninguém entrar. Quando perguntavam, respondia que santo sem teto ainda merecia porta fechada. Naquela manhã, a fechadura estava coberta de sal e ferrugem. Malu encaixou a chave com dificuldade. O metal resistiu, depois girou com um estalo seco que fez Zélia benzer o próprio peito sem perceber. Caio ficou do lado de fora, de costas para a porta, observando a descida para a praia e o canal por onde Rômulo poderia chegar.
O interior cheirava a madeira úmida e cera velha. Dois bancos quebrados ocupavam o centro, uma imagem de Santa Irene sem uma das mãos ficava sobre o altar, e flores de pano desbotadas pendiam em volta da base como se alguém tivesse tentado preservar uma festa por oito anos. Malu passou a lanterna pelo chão. Viu fezes de morcego, areia, pedaços de vidro colorido e marcas no pó perto do altar, feitas por sola de bota em semana de tempo seco. O X desenhado no caderno de Bento apontava para trás da imagem. Caio entrou quando Malu chamou. Juntos, afastaram a santa com cuidado e encontraram uma tampa de madeira embutida na parede, coberta por uma faixa fina de cal. Malu passou a unha na borda. A tinta saiu em farelos. Atrás dela havia um puxador de metal pequeno, quase infantil, feito para desaparecer sob a sombra do altar.
Dentro do nicho havia uma caixa de ferramentas embrulhada em lona encerada. O cadeado era simples, desses vendidos em mercado, e abriu com a mesma chave da capela. Malu puxou a caixa para o chão e ficou alguns segundos sem levantar a tampa. A última vez que abrira coisa deixada por Bento encontrara a prova de que o pai sobrevivera, e cada prova vinha acompanhada de uma dívida que ela não sabia se tinha força para pagar. Zélia se ajoelhou ao lado dela e disse que o morto falso já esperara demais. A frase saiu dura, sem consolo. Malu respirou fundo e abriu. Havia uma pasta plástica, um gravador pequeno envolto em pano, duas fitas numeradas, uma carteira de trabalho velha, uma certidão de óbito sem assinatura final e uma folha de contrato com o timbre da Atlântica Norte. No contrato, a ilha aparecia descrita como área estratégica para instalação de terminal privado, com autorização condicionada à aquisição limpa do terreno.
Caio pegou o gravador com cuidado e testou as pilhas. O aparelho tossiu uma chiadeira baixa, viva o suficiente para arrancar de Malu uma vontade absurda de rir. Zélia entregou a fita que trouxera da gruta. O encaixe rangeu. Por alguns segundos, só houve ruído de motor e vento. Depois veio a voz de Bento, rouca, próxima demais, como se ele estivesse falando de dentro da parede. Ele dizia a data, o nome completo, o número do barco e o nome de Rômulo. Dizia que a tempestade não derrubara o motor por acaso. Dizia que os homens da Atlântica Norte queriam a ilha sem inventário, sem filha, sem barqueiro curioso e sem velho fazendo pergunta em cartório. Malu levou a mão à boca, mas não interrompeu. Bento falou que tinha sido retirado do mar com vida, mantido dois dias numa enfermaria clandestina e depois levado para fora de Porto das Garças por gente paga para transformar sobrevivente em ausência.
A gravação parou de repente, cortada por uma pancada. Caio virou a fita e encontrou uma segunda parte, mais baixa. Bento parecia falar escondido, talvez deitado, talvez com dor. Disse que, se Malu estivesse ouvindo aquilo, Rômulo chegara perto demais da escritura. Disse que a filha deveria confiar em Zélia por uma noite e desconfiar de qualquer documento entregue por cartório limpo demais. Depois falou de um homem chamado Dário Salles, delegado aposentado, morador de uma vila na saída de Itaperuna, único policial que registrara a entrada dele na enfermaria antes de o registro sumir. O nome fez Zélia fechar os olhos. Ela conhecia Dário. Tinha trabalhado com ele numa remoção, anos antes, quando ainda acreditava que ficha assinada segurava alguma verdade. Malu perguntou se Bento podia estar vivo. Zélia demorou a responder. Disse que a gravação provava que ele saíra vivo de Porto das Garças. O resto precisava de estrada.
Do lado de fora, Caio ouviu motor antes dos outros. Desligou o gravador, guardou as fitas e apagou a lanterna. Uma lancha entrava pelo canal leste, escondida pela curva dos mangues. Não era a de Rômulo. Era menor, azul, com toldo rasgado e dois homens a bordo. Um deles usava colete da fiscalização ambiental. O outro tinha um boné branco e segurava um rádio no ombro. Caio reconheceu o boné de Nestor. Malu fechou a caixa e enfiou a pasta plástica dentro da mochila. Não dava para voltar pela trilha de procissão. A capela tinha uma porta lateral baixa, quase tomada por cipó, que dava para o antigo cemitério de pescadores. Bento não desenhara aquela saída no mapa, talvez por achar óbvia, talvez por querer que ela se lembrasse sozinha. Malu empurrou a madeira com o ombro. A porta abriu sobre um terreno irregular de cruzes tortas e pedras sem nome.
Corriam abaixados entre os túmulos quando a lancha encostou no trapiche da ilha. Rômulo não apareceu. Mandara homens, rádio e pressa, o que significava que ainda tentava controlar a história sem sujar o sapato no barro. Zélia tropeçou numa raiz e Caio a segurou antes que caísse. Malu queria voltar para ajudá-los, mas ouviu Nestor chamando pela casa, fingindo preocupação, dizendo que só queria conversar. A voz dele atravessava o mato com calma de quem sabia que a ilha não tinha muitos lugares para esconder três pessoas cansadas. Malu apontou para a antiga cisterna perto do muro do cemitério. Quando criança, Bento a proibira de chegar perto dali porque a tampa podia ceder. Agora a tampa estava afastada, e uma escada de ferro descia pelo lado interno. Caio prendeu a respiração e fez sinal para que entrassem. A cisterna estava seca.
Lá embaixo, o ar era pesado, mas havia espaço para os três. A parede de pedra guardava marcas de água antiga e nomes riscados por meninos de outras décadas. Malu acendeu a lanterna por menos de um segundo e viu uma passagem estreita no fundo, aberta na direção da casa. A ilha inteira parecia furada por caminhos de Bento. Aquilo a irritou e a salvou ao mesmo tempo. Nestor entrou no cemitério acima deles, pisando devagar, empurrando mato com uma vara. O homem do colete reclamou do cheiro e perguntou se valia a pena procurar ali. Nestor respondeu que Malu Farias tinha sangue de mergulhador e teimosia de defunto, então valia procurar onde qualquer pessoa normal desistiria. Malu segurou a respiração. O comentário deveria doer. Em vez disso, deu forma a uma certeza. Rômulo ainda pensava nela como filha de Bento, uma extensão previsível do pai. Isso podia servir.
Quando os passos se afastaram, Caio quis seguir pela passagem da cisterna até a casa e pegar o rádio. Malu recusou. Se voltassem à casa, entrariam no lugar onde Nestor esperava que entrassem. Ela abriu a pasta da Atlântica Norte no colo e procurou endereço, assinatura, qualquer coisa que ajudasse a sair da ilha com mais do que fuga. Encontrou uma folha anexada ao contrato, dobrada em quatro, com uma relação de proprietários que deveriam vender terrenos ao redor do canal. Alguns nomes estavam marcados com valores. Outros tinham observações curtas: dívida, filho preso, viúva, inventário. O nome de Bento aparecia com a palavra resistente escrita ao lado. O de Malu vinha abaixo, acrescentado depois, com outra observação: pressionar por urgência financeira. A raiva que ela sentira na gruta voltou mais organizada. Rômulo não queria só a ilha. Tinha estudado a fome de cada família de Porto das Garças.
Zélia pediu a folha e passou o dedo por um dos nomes. Era de sua irmã, morta havia três anos, dona de uma casa simples perto do mercado. A enfermeira ficou imóvel por tempo demais. Depois devolveu o papel a Malu e disse que a fita precisava sair da ilha naquele dia. Caio conhecia uma saída pelo costão oeste, usada por catadores de polvo, mas a maré só deixaria passagem por pouco tempo. Para chegar lá, teriam de cruzar a parte mais aberta do terreno, perto da casa. Malu escutou Nestor chamando de novo, agora mais distante, perto do poço. Pegou a certidão sem assinatura final, a fita principal, a lista de proprietários e a fotografia de Bento na maca. O resto ficou na caixa, escondido sob pedras no fundo da cisterna. Se fossem pegos, Rômulo levaria alguma coisa. Não levaria tudo.
Subiram pela escada quando a lancha buzinou no trapiche. O som cobriu o ruído da tampa sendo recolocada. Caio saiu primeiro, depois Zélia, depois Malu. A luz da manhã já mostrava o capim molhado, as cruzes pobres, o branco descascado da capela. Por um instante, Malu viu a ilha como Bento devia vê-la quando decidiu esconder provas ali: pequena, vulnerável, cheia de lugares onde um homem podia sumir e ainda deixar instruções. Ela guardou a chave de Santa Irene no bolso e seguiu Caio pelo muro caído do cemitério. Antes de desaparecer no mato, olhou para trás. Nestor vinha pela trilha da casa, rádio no ombro, a mão livre perto da cintura. Ele ainda não tinha visto os três. Zélia acelerou o passo. Caio segurou a mão de Malu para puxá-la pela descida. Dessa vez, ela não soltou.