O Barco Vermelho A Ilha Indecifrável · Capítulo 3 de 16
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O Barco Vermelho

O rádio entregou a casa inteira. Depois da frase de Bento, os homens sob o assoalho pararam de falar. O silêncio deles subiu pelas tábuas com mais precisão que qualquer ameaça. Caio apagou a lanterna, segurou o pulso de Malu e apontou para a escada. Ela quis puxar a mão de volta, por orgulho, por medo, por tudo que aquela noite já tinha retirado dela, mas os passos de baixo começaram a procurar a saída da passagem. Não havia tempo para vencer disputa pequena. Subiram sem acender luz, pisando perto da parede para evitar rangido. No corredor do segundo andar, o quarto de Bento continuava com a janela aberta, cortina batendo para dentro e cheiro de maresia fresca. A presença de Bento ocupou o quarto pela ordem recente das coisas, pela janela aberta e pelo cheiro de maresia fresca. Alguém abrira a janela para eles, ou para quem viesse atrás.

Caio fechou a porta do quarto sem encaixar o trinco. Malu correu até a janela e olhou para o quintal. O poço ficava logo abaixo, tampado pela sombra da varanda lateral. Dois homens ainda estavam lá fora, um perto da rampa de pedra e outro junto à mata, ambos esperando ordem. A embarcação escura do lado oposto não aparecia dali. Dentro da casa, a passagem sob o piso rangeu. Caio puxou uma cômoda para bloquear a porta. Malu abriu a gaveta superior em busca de algo útil e encontrou camisas do pai dobradas por mãos recentes. O cheiro de sabão barato subiu inteiro, doméstico, quase vulgar diante do perigo. Bento não deixara roupas limpas oito anos antes. Alguém vinha mantendo aquele quarto pronto para uma volta que a cidade jurava impossível.

Na parede, acima da cama, estava a fotografia que Malu vira na sala, Bento diante de um barco vermelho. No quarto, a imagem era maior, presa por prego torto, com vidro rachado no canto. Ela se aproximou por instinto de fotógrafa. Havia algo errado no fundo da foto. A linha de pedras atrás do barco pertencia à enseada norte, perto da entrada da gruta, e durante anos ela a confundira com o cais velho. Caio percebeu ao mesmo tempo. Disse que aquele barco sumira do registro da capitania antes do desaparecimento de Bento. O pai de Malu alegou venda para sucata. Ninguém acreditou muito, porque Bento mentia mal quando não queria ser pego. Malu tocou a moldura. A fotografia soltou um clique pequeno. Atrás dela, havia um compartimento estreito aberto na parede. Dentro, uma chave vermelha e um rolo de filme esperavam em um saco plástico.

O rolo de filme acertou Malu com força maior que a chave. Bento tinha comprado para ela a primeira câmera analógica, ensinara a guardar negativo longe de calor, xingara laboratório que cortava borda errada. Se ele escondia filme, escondia imagem que não queria confiar a aparelho moderno. Caio pegou a chave vermelha sem comentar. Na cabeça arredondada, havia um número gravado. Doze. Malu lembrou do caderno verde, dos desenhos de rocha, das datas de maré. O número talvez fosse de armário, barco, caixa, quarto de marina. Antes que pudesse pensar, a porta do quarto recebeu pancada. A cômoda segurou, mas deslizou alguns centímetros. Um homem do outro lado mandou abrir. Caio respondeu com voz calma demais que a porta emperrara. Malu encarou ele, incrédula. Ele deu de ombros. Às vezes mentira ruim comprava cinco segundos.

Os cinco segundos bastaram para encontrar a escada externa. O quarto de Bento tinha uma janela lateral que dava para o telhado baixo da cozinha. Caio saiu primeiro, testando a calha com o peso do corpo, depois ajudou Malu a passar. Ela odiou precisar da mão dele, aceitou mesmo assim e sentiu os dedos firmes na cintura por uma fração de tempo longa demais. A porta do quarto cedeu quando os dois já estavam no telhado. Malu se agachou atrás da caixa dágua, segurando o rolo de filme entre os dentes para ficar com as mãos livres. Um homem apareceu na janela e iluminou o quintal com a lanterna. Caio puxou uma telha solta e arremessou para o lado oposto. O barulho fez o homem virar. Eles desceram pela parede da cozinha, arranhando braços, roupas e o resto de compostura que a noite ainda permitia.

No quintal, correr não era possível. O mato baixo escondia buracos, pedras e pedaços de ferramenta enferrujada. Caio conduziu Malu por trás do poço, passando perto demais da tampa aberta. Ela viu lá dentro uma escada de ferro presa à parede úmida e, no fundo, luz fraca subindo de um corredor subterrâneo. Os homens usavam a casa por baixo com a familiaridade de gente que tinha chave de serviço. Malu quase parou para olhar. Caio a puxou. Atrás deles, alguém gritou do telhado. A perseguição começou sem suspense elegante, com palavrão, galho quebrando e sapato escorregando na lama. Caio levou Malu para a trilha do antigo galpão de barcos, um barracão inclinado perto da enseada sul, onde Bento guardava bóias, remos e motores cansados. O lugar parecia abandonado. A chave vermelha queimava na mão de Caio como resposta atrasada.

A porta do galpão tinha doze pintado em tinta descascada. Malu riu uma vez, curta, porque a coincidência prática era quase ofensiva. Caio enfiou a chave na fechadura. O metal resistiu, girou e abriu com um estalo alto demais. Dentro, o cheiro de óleo antigo, madeira molhada e lona tomou a garganta. A lanterna do celular iluminou prateleiras, redes, galões vazios e uma forma comprida coberta por lona grossa. Caio ficou parado diante dela. Malu soube antes de puxar. Sob a lona estava o barco vermelho da fotografia, menor do que lembrava, pintura gasta, casco reparado, motor retirado. A aparência de sucata protegia um esconderijo. Dentro do porão do barco havia uma caixa de ferramentas fechada por cadeado e, presa ao volante, uma etiqueta de capitania com data de inspeção posterior ao sumiço de Bento.

Caio leu a data em voz baixa. Três meses depois da tempestade. Malu pegou a etiqueta da mão dele e conferiu de novo, porque o cérebro recusava a conta. Bento estava oficialmente desaparecido havia três meses quando aquele barco passou por inspeção. Alguém usara nome falso ou alguém viu Bento e registrou mesmo assim. Caio fechou os olhos. A reação dele não parecia surpresa pura. Malu percebeu, e a percepção doeu antes da confirmação. Perguntou o que ele sabia. Caio abriu a boca, fechou, olhou para a porta do galpão. Do lado de fora, os homens se aproximavam pela trilha. Não havia lugar para conversa longa. Ainda assim, Malu segurou a frente da camisa dele e repetiu a pergunta sem elevar a voz. O que ele sabia. Caio respondeu que vira Bento uma vez depois da tempestade, vivo, ferido, dentro daquele galpão.

A frase mudou tudo de lugar. Malu soltou a camisa dele depressa, com a mão parecendo queimada, embora os dedos continuassem tremendo. Caio disse que Bento apareceu de madrugada, pedindo que ele não chamasse polícia, não avisasse Malu, não deixasse Rômulo saber que sobrevivera. Tinha sangue no couro cabeludo, uma costela quebrada e uma bolsa com documentos. Caio era jovem o bastante para obedecer a homem mais velho e culpado o bastante para nunca se perdoar. Levou Bento até um barco de apoio no canal sul e recebeu uma promessa de que Malu seria protegida. Malu quis bater nele. Quis perguntar por que a proteção tinha vindo em forma de dívida, cartaz de desaparecido e compradores rondando a ilha. Antes de qualquer gesto, um tiro acertou a porta do galpão. A madeira estourou acima da cabeça deles.

Caio derrubou Malu atrás do barco vermelho. A queda arrancou ar e raiva. Outro tiro atravessou a parede, abrindo um buraco limpo na madeira. Os homens não tentavam assustar. Tentavam impedir saída. Caio rastejou até a caixa de ferramentas dentro do barco e arrebentou o cadeado com uma chave inglesa. Lá dentro havia sinalizadores vencidos, um saco de documentos enrolados em plástico e um pequeno revólver embrulhado em toalha. Malu olhou para a arma, depois para Caio. Ele disse que Bento deixava seguro onde guardava pecado. Não pegou o revólver. Pegou os sinalizadores. Acendeu um e arremessou pela janela lateral. A luz vermelha explodiu do lado de fora, forte o bastante para cegar quem se aproximava. Os homens xingaram. Caio puxou Malu para a parte de trás do galpão, onde uma porta estreita dava para o canal escondido.

O canal sul ficava atrás do galpão, oculto por pedras e mangue. A maré estava baixa, mas ainda havia água suficiente para uma canoa pequena. Malu viu, presa ao barranco, uma embarcação de alumínio quase coberta por folhas. A canoa oferecia fuga desconfortável e possível. Enquanto Caio empurrava a canoa para a água, Malu abriu o saco de documentos do barco vermelho. Encontrou cópias de escritura, fotos da gruta e uma carta de Bento dirigida a ela. A primeira linha bastou para prender a respiração. Minha filha, se Caio entregou isto, ele finalmente parou de me obedecer. Do galpão, veio outro disparo. A luz vermelha do sinalizador tingia tudo de sangue falso. Malu guardou a carta dentro da camisa e entrou na canoa. Antes que Caio empurrasse, a voz de Rômulo soou do alto das pedras, tranquila e próxima. Disse que a maré ainda era dele.

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