O Delegado Aposentado A Ilha Indecifrável · Capítulo 11 de 16
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O Delegado Aposentado

A estrada velha começava depois do mangue, atrás de uma porteira torta e de um curral vazio que cheirava a capim molhado. Malu subiu primeiro, puxando a boia com as fotos e os papéis amarrados dentro de dois sacos plásticos. A lama fazia cada passo parecer uma negociação. Caio vinha logo atrás com Zélia apoiada no ombro, os dois sujos até a cintura, com sal no cabelo e cortes pequenos demais para parar qualquer coisa. Do outro lado da água, a lancha de Rômulo ainda rondava a entrada do mangue, motor irritado, sem espaço para avançar. Nestor gritou o nome de Malu uma última vez, prometendo que a estrada estava fechada. Ela seguiu sem responder. Se ele dizia estrada fechada, havia alguém nela. Se havia alguém nela, precisavam sair do óbvio antes que o barulho do motor virasse carro na terra.

Caio conhecia um caminho de serviço que passava por trás de uma antiga fábrica de gelo, desativada desde que os caminhões frigoríficos tomaram o cais. O lugar ficava a quase quarenta minutos dali, pela mata rala e por um pasto usado por cabras. Zélia disse que quarenta minutos era medida de homem jovem, e que a mão dela latejava como se tivesse coração próprio. Malu quis oferecer ajuda, mas a enfermeira empurrou o ar com a mão boa e mandou guardar fôlego para mentir à primeira pessoa que perguntasse de onde tinham saído. A frase devolveu a Malu um pedaço de calma. Zélia, mesmo ferida, ainda observava o mundo como quem monta escala de plantão: quem sangra, quem mente, quem atrasa, quem morre se demorar. Caio cortou pelo pasto, evitando a cerca principal. A cada poucos metros olhava para trás, procurando sinal de carro ou de homem.

O telefone de Malu vibrou quando chegaram ao muro quebrado da fábrica. Era Elisa. A mensagem dizia que Dário Salles aceitara encontrá-los na oficina de um cunhado, fora da delegacia, porque a cópia enviada por Malu já tinha feito gente demais telefonar para gente demais. Elisa pedia que não entrassem na cidade pela avenida principal. Mandou uma localização, uma rua de chão batido atrás de um depósito de material de construção, e escreveu que o delegado aposentado queria ver a fita original. Malu leu em voz alta. Caio ficou calado. Zélia perguntou se Elisa era confiável. Malu respondeu que a colega tinha perdido um emprego por publicar a foto de um vereador recebendo dinheiro dentro de ambulância. Zélia aceitou a explicação com um movimento curto da cabeça. Gente que estragava a própria vida por prova, em geral, servia para uma manhã difícil.

Na fábrica de gelo, encontraram uma torneira funcionando por teimosia. A água saía fraca e amarelada, mas lavou sal dos olhos e tirou lama suficiente para que parecessem vítimas de atolamento, não fugitivos de lancha. Caio enfaixou a mão de Zélia com gaze nova. Malu abriu os sacos plásticos sobre uma mesa de madeira quebrada e conferiu tudo de novo: fotografia de Bento na maca, lista da Atlântica Norte, certidão de óbito incompleta, fita original, cópias no celular, pedaços do telefone encontrado no costão. A escritura continuava sob a roupa, dobrada contra a pele. Ela não sabia por que ainda a protegia com tanto cuidado. Talvez porque, sem aquela obrigação absurda de sete noites, nunca teria encontrado a gruta, a capela, a voz do pai. A armadilha de Bento tinha funcionado melhor que qualquer pedido de ajuda.

Um caminhão de entrega passou pela estrada de terra perto da fábrica, devagar demais. Caio apagou a lanterna, embora já fosse manhã, e puxou Malu para trás de uma pilha de caixas plásticas. O caminhão seguiu, levantando poeira, mas parou depois da curva. Zélia prendeu a respiração. O motorista desceu, abriu a carroceria e fingiu conferir carga. Tinha telefone no ouvido. Não olhava para a fábrica, olhava para a estrada. Caio sussurrou que Rômulo devia ter avisado todos os conhecidos com veículo em Porto das Garças. Malu guardou os documentos na mochila e pegou uma barra de ferro caída perto da mesa. Não sabia o que faria com aquilo contra homem armado. Servia ao menos para a mão entender que ainda podia escolher alguma coisa.

Saíram pelos fundos da fábrica, por um corredor estreito entre paredes sem telhado, e alcançaram uma rua de casas baixas que terminava num ponto de ônibus. A primeira condução para Itaperuna só passaria em vinte minutos, tempo demais para quem já aparecia em mensagem de motorista. Caio encontrou uma bicicleta velha encostada num poste, pneu murcho, corrente no lugar. Zélia olhou para a bicicleta, depois para Caio, com uma expressão que teria feito rir em outro dia. Malu viu uma mulher varrendo calçada duas casas adiante e pediu ajuda antes de pensar numa mentira perfeita. Disse que a enfermeira tinha caído no mangue atendendo gente ferida e precisava chegar à cidade. A mulher olhou para Zélia, para o curativo, para a roupa molhada dos três. Entrou em casa e voltou com a chave de um Gol branco, pintura queimada de sol, banco coberto por toalha. Mandou devolver no posto do sobrinho, em Itaperuna, e disse que não queria saber nome de ninguém.

Caio dirigiu porque conhecia melhor as curvas. Malu foi no banco de trás com Zélia, segurando a mochila entre os joelhos. A estrada de terra sacudia o carro inteiro. Em vários trechos, o mato encostava nas janelas, e galhos riscavam a lataria emprestada. O telefone de Malu perdeu sinal, voltou, perdeu outra vez. Quando a rede apareceu, chegaram três mensagens de número desconhecido. A primeira dizia que a mãe de Caio estava sendo levada para a delegacia de Porto das Garças. A segunda trazia uma foto da oficina do tio dele com a porta aberta. A terceira tinha só uma frase: entregue a fita e ninguém precisa virar cúmplice. Caio viu a tela pelo retrovisor e quase tirou o carro da estrada. Malu apagou o brilho do celular. Zélia disse que aquilo era isca com anzol grosso. Caio respondeu que isca também sangrava quando era mãe.

Pararam antes de entrar em Itaperuna, num trecho escondido por bambus. Caio queria voltar. Malu queria impedir que ele voltasse sozinho. Os dois falaram ao mesmo tempo, com medo demais para escolher palavra macia. Zélia acabou com a discussão batendo a mão boa no vidro. Disse que Rômulo precisava separar o grupo, e que a mãe de Caio só continuaria útil enquanto a fita estivesse fora do alcance dele. Se Caio voltasse, entregaria a única coisa que protegia a própria mãe. A lógica era cruel e ficou dentro do carro como cheiro de remédio vencido. Caio apoiou a testa no volante por alguns segundos. Depois respirou fundo, ligou o motor e seguiu. Malu colocou a mão sobre o ombro dele. Não pediu desculpa. Qualquer pedido ali seria pequeno demais.

A oficina do cunhado de Dário Salles ficava atrás de um depósito de cimento, numa rua onde cachorros dormiam no meio da passagem e homens de boné levantavam os olhos sem levantar o corpo. Elisa esperava no portão, jeans manchado de barro, cabelo preso às pressas, uma bolsa de couro atravessada no peito. Ao ver Malu, abraçou a amiga com força e logo se afastou para examinar a mochila, como jornalista que não esquecia a razão do afeto. Dário surgiu atrás dela, baixo, largo, camisa social dentro da calça, rosto de homem que envelhecera brigando com formulário. Mancava de leve e carregava uma pasta preta debaixo do braço. Não perguntou se estavam bem. Pediu a fita, a foto original e a certidão incompleta. Depois mandou todos entrarem antes que a rua começasse a guardar detalhes demais.

Dentro da oficina, havia um ventilador barulhento, cheiro de graxa e uma mesa limpa demais para aquele ambiente. Dário colocou luvas de farmácia antes de tocar nos papéis. Isso deu a Malu mais confiança do que qualquer fala. Ele examinou a fotografia de Bento, virou a certidão contra a luz, leu a lista de proprietários sem demonstrar surpresa e pediu que Caio repetisse, do começo, o que vira na noite da tempestade. Caio falou em pé, mãos apoiadas na mesa. Disse da lancha coberta, do trapiche da fábrica velha, do tio que mandara calar, do dinheiro que apareceu para consertar motor que ninguém tinha autorizado. Dário anotou pouco. Quando Malu estranhou, ele explicou que anotação demais virava mapa para advogado de bandido. O importante era registrar custódia da prova, gravar depoimento com data e levar cópia para duas autoridades diferentes antes do almoço.

Elisa conectou o gravador de Bento a um aparelho antigo que Dário tirou de uma gaveta. A voz de Bento ocupou a oficina. Dessa vez, com menos chiado. Dário ficou imóvel quando ouviu o próprio nome na fita. A mão dele fechou devagar sobre a caneta. Quando a gravação terminou, ele pediu que repetissem a parte da enfermaria clandestina. Elisa repetiu. Dário encostou as costas na cadeira e disse que lembrava da remoção, lembrava do ferimento, lembrava da ordem verbal para deixar o caso com Porto das Garças. Na época, tentou abrir procedimento interno e recebeu aposentadoria acelerada três meses depois. Guardara cópia de um livro de entrada porque desconfiava de rasura. Malu sentiu uma pontada de esperança tão física que precisou se sentar. Dário abriu a pasta preta. Dentro havia uma folha amarelada com o nome de Bento Farias escrito em letra de plantão.

Antes que Malu pudesse tocar no papel, o telefone da oficina tocou. O cunhado de Dário atendeu, ouviu por poucos segundos e empalideceu. Passou o aparelho ao delegado aposentado. Dário não disse o nome, só escutou. A voz do outro lado era baixa, masculina, educada. Mesmo sem ouvir as palavras, Malu reconheceu o tipo de ameaça pela postura de Elisa, que já pegava o celular para gravar o ambiente. Dário desligou sem responder e disse que Rômulo acabara de pedir um encontro. Oferecia a presença de Bento vivo em troca da fita original e da lista de proprietários. O ar saiu do corpo de Malu. Caio deu um passo para perto dela. Zélia murmurou que homem como Rômulo só oferecia coisa que ainda controlava. Dário concordou. Disse que aceitariam o encontro, em local escolhido por eles, com cópias já entregues antes. Malu olhou para a folha do livro de entrada, depois para a fita sobre a mesa. Pela primeira vez, a pergunta sobre Bento deixou de ser se ele sobrevivera. Passou a ser onde Rômulo o guardava.

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