A Maré de Rômulo
Rômulo surgiu acima do canal com a camisa clara seca demais para aquela noite. A luz vermelha do sinalizador batia nas pedras e manchava o rosto dele sem tirar a calma de homem acostumado a chegar depois do estrago, já com o papel certo no bolso e a testemunha certa no telefone. Dois homens vinham atrás, um com lanterna, outro com arma baixa. A água subia contra a canoa em pancadas curtas. Caio fincou o remo no fundo lodoso e empurrou antes que Malu entendesse se a distância bastava para fugir. A carta de Bento continuava sob a blusa dela, quente contra a pele molhada. Rômulo disse que a maré ainda era dele. Malu respondeu segurando a borda da canoa, sem volume na voz, que maré muda. O homem da arma avançou um passo. A bala entrou no mangue e levantou folhas, lama, pedaços de raiz. Caio puxou Malu para baixo com uma mão e manteve a outra no remo, conduzindo a embarcação para uma fenda de pedra que, vista de cima, parecia parede fechada.
A fenda aceitava a canoa de lado. O casco raspou duas vezes, produzindo um som áspero que pareceu alto demais dentro da noite. Caio conhecia o caminho com o corpo inteiro, inclinando o peso antes da curva, afastando uma ponta de galho, segurando a respiração quando o teto de pedra baixava sobre a cabeça dos dois. Malu quis perguntar quantas vezes ele passara ali com Bento, porém a carta pediu os olhos dela. Abriu o papel com cuidado, protegendo-o da água que pingava do cabelo, e leu no escuro aos pedaços, usando os clarões do sinalizador que ainda sangravam atrás deles. Bento escrevera que os sete dias da escritura nunca foram capricho de velho. Eram tábua de maré, cálculo de passagem, tempo mínimo para que a ilha entregasse o que escondia sem matar quem entrasse pela boca errada. Se alguém exigisse a venda antes da sétima noite, o comprador buscava o caminho, a gruta e a prova guardada com sal.
Caio ouviu parte da leitura e apertou o remo com força. Disse que Bento o fizera decorar aquela passagem quando ele ainda vendia peixe no cais e aceitava qualquer serviço por dinheiro curto. Malu levantou o rosto. A raiva encontrou nele um alvo útil, talvez até justo. Caio admitiu que obedeceu ao pai dela por anos, afastando curiosos, inventando correnteza onde havia caminho, quebrando motor de lancha alheia quando homens de Rômulo apareciam com prancheta e educação demais. Também admitiu que deixou Malu ir embora de Porto das Garças sem a verdade, porque Bento ordenara e porque ele, Caio, tinha idade suficiente para cumprir uma ordem e pouca coragem para desobedecer. O remo bateu em pedra. A canoa girou. Por alguns segundos, os dois ficaram perto demais, joelho contra joelho, a carta entre os corpos, o barulho dos perseguidores ficando para trás. Malu disse que obediência comprada com silêncio costuma ficar parecida com traição.
O canal desembocava atrás do antigo mercado de peixe, um prédio comprido de telha baixa que a prefeitura prometia restaurar a cada eleição. Entraram por uma abertura aberta no muro e puxaram a canoa para a sombra de caixas plásticas empilhadas. O cheiro ali era de sal antigo, óleo e madeira podre. Caio abriu o saco retirado do barco vermelho sobre uma bancada quebrada. Havia cópias da escritura, duas fotografias da entrada da gruta, um caderno menor com contas de combustível e um rolo de filme protegido dentro de uma lata de sardinha vazia. Bento conhecia o descuido dos outros e usava lixo para guardar coisa séria. Malu pegou a lata e sentiu o metal frio morder a palma. No fundo do saco, havia um recibo de laboratório fotográfico, datado de oito anos antes, com o endereço de uma sala nos fundos da Pousada Tapera. O lugar pertencia a uma prima distante de sua mãe, uma mulher que fechava a recepção às nove e fingia surdez quando o assunto vinha da família Farias.
A cidade estava acordada de um jeito errado quando voltaram pelas ruas estreitas. As janelas permaneciam fechadas, porém muita gente tinha luz acesa atrás da cortina. Rômulo sabia espalhar aviso sem gritar. Dois carros passaram devagar perto da praça, um deles sem placa dianteira. Caio levou Malu por vielas que cheiravam a roupa úmida e caldo de siri, sempre com a mão perto do bolso onde guardara a faca. Na Pousada Tapera, a recepcionista olhou para os dois ensopados, para a lama nas pernas deles e para a pasta da escritura apertada debaixo do braço de Malu. Em vez de fazer pergunta, entregou uma chave antiga e apontou o corredor dos fundos. Disse apenas que o laboratório ainda tinha luz, se a fiação não resolvesse pegar fogo. Malu agradeceu com a cabeça. Caio ficou um segundo a mais diante da mulher, e esse atraso bastou para Malu perceber que ele já estivera ali antes. A prima fechou a cara, sem carinho no olhar, e voltou para a televisão baixa.
O laboratório era um aposento estreito, sem janela, tomado por poeira e cheiro de químico vencido. Bandejas de plástico dormiam sobre uma pia manchada. Pregadores enferrujados pendiam de um arame preso entre duas paredes. Malu conhecia aquele lugar por lembrança de criança: Bento a colocava sentada em um caixote e prometia que fotografia era só paciência, água na medida certa e mão firme na hora de esperar. Ela preparou as bandejas com o pouco material ainda aproveitável, enquanto Caio ficava junto à porta, ouvindo passos no corredor e motores distantes na rua. A luz vermelha acendeu com um estalo. O mundo ficou menor, reduzido ao rolo de filme, às mãos dela, ao rosto de Caio duro de culpa. Malu cortou a ponta do negativo. Cada movimento simples exigia atenção, e essa exigência ajudou a impedir que o medo tomasse o trabalho.
As primeiras imagens nasceram sem pressa. Um pedaço de costão, uma corda presa à boia amarela do Cabeça do Frade, a proa de uma lancha com número raspado. Depois veio Bento, de camisa aberta no peito, ajoelhado junto a uma caixa de madeira. Estava mais magro do que nas fotografias guardadas em casa, com barba crescida e sangue seco perto da orelha, porém vivo. Rômulo aparecia de perfil, segurando uma pasta de couro. Um dos homens ao lado dele usava farda da fiscalização ambiental, e Malu reconheceu a postura antes de lembrar o nome: sargento Nunes, o mesmo que assinara o relatório curto da tempestade. Caio soltou um palavrão baixo. Malu pegou a folha pelos cantos e levou até a luz. O negativo não trazia mistério bonito. Trazia data, rosto e serviço. Alguém fotografara Bento depois do suposto desaparecimento, dentro da ilha que todos diziam vazia.
Caio quis explicar de imediato, com frases rápidas e mãos abertas, tentando chegar antes da acusação. Malu mandou que ele calasse até a imagem terminar de secar. A ordem saiu mais baixa do que ela esperava e funcionou melhor que grito. Fora do laboratório, o corredor rangeu sob passos cuidadosos. A recepcionista começou a falar alto na frente da pousada, perguntando se o senhor desejava quarto, café ou motivo para acordar a dona. Malu entendeu o aviso. Rômulo chegara. Ela prendeu duas cópias ainda úmidas dentro do caderno de combustível e guardou o negativo original no forro da pasta da escritura, onde a costura já estava aberta. Caio apagou a luz vermelha. Na escuridão breve, a mão dele tocou a dela procurando a saída. Malu permitiu o contato por um segundo, tempo suficiente para levantar, pegar a carta de Bento e decidir que a quarta noite da ilha acabara no continente com uma prova viva demais para caber em inventário.