O Costão Oeste A Ilha Indecifrável · Capítulo 10 de 16
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O Costão Oeste

O costão oeste ficava atrás de uma faixa de mata baixa que arranhava as pernas e escondia buracos de pedra sob folhas secas. Caio ia na frente, abrindo caminho com o corpo, sem usar facão, sem quebrar galho, pisando onde o terreno aceitava peso. Zélia vinha no meio, respirando pela boca, teimosa demais para pedir pausa. Malu fechava a fileira com a mochila colada ao peito e a pasta plástica presa por dentro da camiseta. A fita de Bento estava dentro de um saco de remédio que Zélia tirara da bolsa, enrolada em gaze para não bater contra nada. Atrás deles, Nestor continuava chamando perto da capela, primeiro com voz de conversa, depois com irritação. Quando uma segunda voz respondeu pelo rádio, Caio parou e levantou a mão. A lancha que chegara pelo trapiche tinha trazido mais gente. A ilha acordava ocupada.

Malu se abaixou atrás de um tronco caído e tentou enxergar a casa por entre as folhas. Via só pedaços do telhado e o brilho do vidro da varanda. A cada minuto, Rômulo ganhava terreno. Ele sabia que a ilha tinha esconderijos, conhecia ao menos parte dos caminhos de Bento e podia usar a polícia de Porto das Garças para transformar fuga em confissão. A lista de proprietários pesava na mochila como coisa viva. Havia nomes, preços, fraquezas estudadas, famílias inteiras reduzidas a uma palavra de canto de página. Malu pensou em sua própria linha, pressionar por urgência financeira, e sentiu vergonha da precisão do ataque. Rômulo soubera onde apertar. O erro dele tinha sido calcular a mulher que voltou para vender a ilha e esquecer a menina que aprendia maré com Bento antes de saber dividir conta de luz.

Caio apontou para baixo. Entre duas pedras, uma trilha quase invisível descia em zigue-zague até um corredor de rocha onde a água entrava com força e recuava cheia de espuma. O costão não tinha praia. Tinha uma sequência de lajes inclinadas, poças fundas, cracas e buracos que podiam quebrar uma perna. Ao longe, perto de uma pedra em forma de casco virado, aparecia uma canoa de madeira presa por corda grossa. Era pequena, velha, pintada de verde, muito diferente da canoa de alumínio usada na gruta. Caio disse que catador de polvo deixava embarcação ali quando a maré permitia. A travessia até a ponta do continente levaria vinte minutos remando com sorte, o dobro se o vento virasse. Zélia olhou para o mar e perguntou se ele chamava aquilo de sorte. Caio respondeu que sorte era Nestor procurar na casa enquanto eles ainda tinham água suficiente para sair.

Desceram devagar. Malu precisou usar as duas mãos em vários trechos, guardando a pasta sob a camiseta com o desconforto de quem protege ferida. Uma pedra cedeu sob o pé de Zélia, e Caio segurou a enfermeira pela cintura antes que ela batesse no chão. O susto arrancou um ruído curto dos três. Acima, alguém parou de andar. Malu ficou imóvel, com os dedos cravados na pedra quente, ouvindo o rádio de Nestor chiar. A voz dele veio mais perto, perguntando se o pessoal da lancha já tinha visto movimento no costão. A resposta se perdeu no vento. Caio fez sinal para continuarem. O último trecho era o pior: uma laje coberta de limo, atravessada por filetes de água, descendo até um platô estreito. Malu apoiou o joelho, desceu sentada parte do caminho e terminou com a calça rasgada, o antebraço arranhado e a escritura ainda seca.

A canoa verde tinha dois remos, uma garrafa vazia e uma rede embolada no fundo. Caio verificou a corda, depois empurrou a embarcação até a beirada da água. Zélia entrou primeiro, com uma careta que misturava dor e ofensa. Malu ia entrar em seguida quando viu, sob a pedra em forma de casco, uma caixa de isopor presa por um elástico preto. Não parecia coisa de pescador. Estava limpa demais, protegida demais. Ela puxou a caixa para perto e abriu. Dentro havia um rádio comunicador, duas lanternas novas, um pacote de abraçadeiras plásticas e um celular simples, ainda desligado, envolto em saco de mercado. Caio praguejou baixo. Rômulo tinha preparado o costão para cercar alguém ou receber alguém. Zélia mandou jogar tudo no mar. Malu pegou o celular antes que Caio pudesse obedecer. Aparelho comprado para coisa suja às vezes guardava número sujo.

O telefone ligou com vinte e três por cento de bateria. Não pedia senha. Tinha três chamadas recentes para um contato salvo como Norte, duas mensagens apagadas e uma foto tirada naquela manhã: a fachada da capela de Santa Irene, vista do mato. Nestor não procurava às cegas. Alguém tinha passado pela capela antes deles ou vigiava o lugar desde a madrugada. Malu sentiu o couro cabeludo gelar. Abriu a galeria. Havia outra foto, mais antiga, da casa de Bento com as janelas acesas. A data era da primeira noite dela na ilha. Caio olhou para a imagem e fechou a mão no remo. O celular era prova e armadilha ao mesmo tempo. Se o levassem ligado, podia ser rastreado. Se deixassem ali, perderiam uma ligação possível com a Atlântica Norte. Malu desligou o aparelho, retirou a bateria e guardou as peças em bolsos separados.

O primeiro disparo bateu na pedra acima deles. Não foi sinalizador. A lasca que saltou acertou a borda da canoa e fez Zélia xingar tão alto que o som pareceu maior que o tiro. Caio empurrou Malu para dentro e soltou a corda. Nestor aparecia no alto da laje, arma baixa, rádio no ombro, rosto vermelho pela descida apressada. Ele gritou que queria só os papéis e que ninguém precisava cair no mar por teimosia. Malu segurou a mochila com as duas mãos. Caio empurrou a canoa com o remo, entrou de lado e quase virou tudo. A água recebeu a embarcação com pancada. Outro tiro bateu longe, na espuma, mais aviso do que mira. Nestor tinha medo de furar a canoa e perder o que procurava. Essa foi a primeira vantagem real que Malu viu desde a capela.

Caio remava com força demais, e a canoa respondia torta. Zélia pegou o segundo remo sem pedir licença e acertou o ritmo pela metade, com a mão ferida fechada em volta da madeira. Malu ficou no fundo, entre as duas, segurando a mochila e olhando para a linha do costão. Nestor descia pelas pedras sem coragem de chegar à água. Um dos homens da lancha surgiu atrás dele, de colete, carregando uma corda. Rômulo queria os documentos de volta antes que saíssem da ilha, e agora Malu entendia por quê. A gravação tinha nome, data e caminho. A lista mostrava método. A foto provava que Bento fora tratado como vivo depois de oficialmente desaparecer. Aquilo ainda precisava de delegado, jornal e estrada, porém já obrigava Rômulo a reagir. E homem reagindo deixava marca.

Quando a canoa alcançou a corrente aberta, o vento virou de lado. Caio mandou Zélia parar de remar por alguns segundos e corrigiu o rumo com golpes curtos. A ponta do continente parecia perto e impossível, uma faixa de mangue e pedras escuras onde nenhuma pessoa honesta escolheria desembarcar. Malu abriu a mochila com cuidado e tirou a lista de proprietários. Precisava de cópia antes que o mar, Rômulo ou a polícia tomassem tudo. O celular dela estava com pouca bateria, mas ainda ligava. Fotografou cada folha contra o fundo da própria perna, protegendo a tela com o corpo. Depois gravou quinze segundos da fita usando o alto-falante do gravador de Bento encostado no microfone do aparelho. A voz do pai saiu ruim, chiada, suficiente para dizer a data e o nome de Rômulo. Ela anexou as fotos e o áudio a uma mensagem para a única pessoa de fora que ainda poderia abrir aquilo sem pedir licença a Porto das Garças: Elisa, colega de faculdade que trabalhava num jornal regional em Itaperuna.

O sinal falhou duas vezes. Na terceira, a mensagem saiu com o círculo girando. Malu ficou olhando a tela como se pudesse empurrar dados com raiva. Caio perguntou se tinha enviado. Ela respondeu que ainda não sabia. A canoa subiu numa onda curta e desceu com violência. Zélia segurou a borda e pediu a Deus que aceitasse promessa retroativa. Atrás deles, a lancha do trapiche apareceu contornando a ilha. Era mais rápida, mas precisava evitar os recifes que Caio conhecia. Ele viu a aproximação e mudou o rumo, levando a canoa para uma faixa de água escura onde pedras ficavam logo abaixo da superfície. A lancha buzinou. O homem do colete acenou, mandando pararem. Malu olhou para o telefone. A mensagem ainda girava. Depois a tela vibrou uma vez, quase discreta. Enviado.

O alívio não durou. A lancha cortou caminho perto demais e levantou uma onda que empurrou a canoa contra as pedras baixas. Caio gritou para todos se jogarem para a esquerda. Malu segurou a mochila com uma mão e a borda com a outra. A canoa bateu, rangeu, girou, entrou água. Zélia perdeu o remo. Caio conseguiu manter o próprio, mas a embarcação ficou presa num recife raso. A lancha reduziu a distância. Nestor, agora a bordo, gritava que tinha acabado. Malu viu o continente a menos de cinquenta metros, mangue fechado, lama, raízes expostas. Caio tentou soltar a canoa e entendeu antes de falar que ela não sairia dali inteira. Malu colocou a mochila nas costas, enfiou o celular na roupa e passou a pasta para Zélia. Disse que iriam nadar até o mangue.

Zélia recusou com um olhar que quase devolveu Malu à infância. Não sabia nadar o bastante, estava ferida, e o mar batia contra as pedras com força. Caio amarrou a mochila de Malu numa boia velha presa à canoa e empurrou primeiro. Depois colocou a pasta dentro de um saco plástico, fechou com dois nós e entregou a Zélia. A enfermeira entendeu o plano e ficou furiosa. Ele entraria na água com ela, usando o resto da rede como apoio, enquanto Malu seguiria pela frente com a boia e os documentos mais leves. O motor da lancha diminuiu. O homem do colete preparava uma vara para puxar a canoa. Malu não esperou coragem. Entrou na água, fria até cortar a respiração, e chutou na direção das raízes. A boia veio atrás, batendo no ombro. Por trás do barulho do motor, ouviu Caio cair no mar com Zélia agarrada a ele.

O mangue recebeu Malu com lama até a coxa e cheiro de folha podre. Ela se agarrou às raízes e puxou a boia para dentro, arranhando os dedos na casca áspera. Quando virou, viu Caio se aproximando com Zélia, os dois engolindo água e raiva. A lancha não podia entrar ali. Nestor apontava a arma da proa, mas o homem do colete segurava o braço dele, talvez por medo de testemunha, talvez por medo de acertar a enfermeira. Malu puxou Zélia primeiro. Caio subiu depois, cuspindo lama, com o rosto pálido de esforço. Ficaram os três de joelhos entre as raízes, encharcados, vivos, com parte das provas ainda protegida. O telefone de Malu vibrou dentro da blusa. Ela tirou o aparelho com dedos trêmulos. Havia uma resposta de Elisa, curta e objetiva: recebi. estou indo para a delegacia de itaperuna com cópia.

Malu leu a mensagem duas vezes antes de mostrar aos outros. Caio fechou os olhos por um instante. Zélia riu sem som, apoiada numa raiz, a pasta plástica contra o peito. A lancha circulava do lado de fora do mangue, impedida pelas pedras e pela água baixa. Nestor gritava ameaças que já não chegavam inteiras. Pela primeira vez desde a escritura, Rômulo não tinha todos os caminhos na mão. Malu guardou o celular e olhou para a trilha de lama que subia em direção à estrada velha do continente. Dário Salles morava em Itaperuna. Elisa estava a caminho da delegacia. Bento talvez ainda existisse em algum lugar entre documento rasurado e corpo escondido. Ela se levantou com dificuldade, pegou a boia com as fotos e deu o primeiro passo pela lama. Precisavam chegar à estrada antes que Rômulo descobrisse que a prova já tinha saído da ilha.

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