Antes que Você Venda A Ilha Indecifrável · Capítulo 6 de 16
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Antes que Você Venda

A oficina vazia tinha cheiro de pneu, solvente e café velho. Caio empurrou uma bancada contra o portão enquanto Malu ajudava Zélia a subir por uma janela lateral aberta para o terreno dos fundos. A enfermeira reclamou da altura, da pressa e da falta de respeito com joelho antigo, porém não largou a sacola de curativos. Do outro lado do portão, Rômulo conversava com alguém no telefone em tom baixo, sem precisar levantar a voz para ocupar a rua. Nunes batia com dois dedos no metal, educado demais para parecer invasão. Malu ajoelhou no chão de cimento, abriu a caixa de Bento e tirou a fita pequena. Caio encontrou um gravador portátil dentro de uma gaveta de peças, daqueles usados por mecânico para marcar pedido de cliente. Funcionava com pilhas gordas, e uma delas ainda tinha carga suficiente. Antes que a batida no portão virasse arrombamento, Malu encaixou a fita e apertou o botão.

A voz de Bento entrou fraca, arranhada pela fita velha e pelo ruído do aparelho. Chamou Malu pelo apelido de infância, pediu que ela não confiasse em pressa, nem em comprador que oferecesse solução com caneta na mão. Disse que a ilha possuía duas entradas, uma para quem chega de barco comum e outra para quem conhece o fundo de pedra sob a boia Cabeça do Frade. Na maré certa, um bote baixo passava por dentro da gruta e alcançava uma câmara seca, escondida da fiscalização antiga. Rômulo descobrira parte do caminho por mapas roubados do farol, porém faltava a chave do armário doze e o horário exato das sete noites. Bento repetiu que venda assinada antes do prazo entregaria a escritura, os acessos e a desculpa legal para fechar toda a área. Depois disso, qualquer prova enterrada ali viraria obra, entulho ou acidente.

Malu ouviu sentada sobre uma caixa de ferramentas, com as mãos firmes demais para o resto do corpo. A voz do pai falava de modo prático, quase irritado, listando horários, nomes de barcos e o cuidado de não usar rádio aberto depois da meia-noite. A cada informação, a saudade cedia espaço para uma pergunta dura. Bento estivera vivo depois da tempestade. Bento escolhera esconder-se. Bento deixara a filha enterrada em dívida, inventário e luto por uma guerra que decidiu travar longe dela. Quando a fita citou Caio, o rapaz virou o rosto para a parede. Bento dizia que confiara nele por conhecer sua vergonha. Um homem com vergonha ainda tem onde ser segurado, dizia a voz. Um homem satisfeito com o próprio erro vira empregado de quem pagar melhor. Caio fechou os olhos. Malu não o perdoou ali. Também não desviou quando ele tentou encarar a consequência.

A fita terminou com um endereço: a casa de Rômulo na falésia leste guardava um livro de bordo fora de registro, dentro de um aparador verde, sob a gaveta falsa onde ele mantinha charutos cubanos para visitas. Bento descreveu o móvel com precisão doméstica, sinal de que já entrara ali ou de que alguém de dentro falara. Zélia soltou uma risada curta, sem alegria. Disse que rico adora gaveta falsa porque acredita que segredo caro merece madeira bonita. Caio arrancou as pilhas do gravador e colocou a fita no bolso de Malu. O portão da oficina gemeu sob o primeiro golpe forte. Nunes avisou que tinha ordem para entrar. Rômulo corrigiu ao fundo, dizendo que ordem sempre aparece depois que a porta abre. Malu pegou a chave vermelha, a pasta da escritura e o envelope com as fotos. Pela primeira vez desde a chegada a Porto das Garças, a fuga tinha destino claro.

O terreno dos fundos dava para o pátio de uma fábrica de gelo desativada. Passaram entre máquinas cobertas de ferrugem, caixas rachadas e poças onde a água da chuva misturava óleo. Caio conhecia uma saída pelo muro junto ao canal, porém Zélia ficou presa no alto da janela por alguns segundos, e esses segundos custaram caro. Um dos homens de Rômulo entrou pela lateral da oficina e viu a bolsa preta da enfermeira cair do peitoril. Caio voltou para ajudá-la. Malu puxou a chave vermelha do bolso, pronta para usar o metal como arma ridícula, quando Zélia empurrou Caio para longe e mandou os dois correrem. O homem segurou a enfermeira pelo braço antes que ela alcançasse o chão. Zélia bateu nele com a bolsa, acertando o nariz. Ganhou um xingamento, dois dedos torcidos na própria manga e uma ameaça sussurrada. Caio avançou. Malu agarrou sua camisa e arrastou-o para trás, porque a foto, a fita e a chave morreriam com eles naquele pátio.

Correram até o canal pelo corredor de gelo quebrado. Atrás deles, Zélia gritava ofensas que ainda tinham força de gente viva, depois a voz foi abafada pela porta de um carro. Caio tentou voltar de novo. Malu segurou seu rosto com as duas mãos, obrigando-o a olhar para ela. Disse que Rômulo levaria Zélia para onde pudesse controlar a prova e a testemunha, e a fita acabara de dizer o endereço. O raciocínio feriu os dois, porém colocou os pés no chão. Caio respirou com dificuldade, pegou a sacola de ferramentas e abriu caminho pelo muro, usando uma chave de roda para soltar a grade antiga. Do outro lado, uma canoa de serviço boiava presa por corrente. Ele quebrou o cadeado com três golpes. Malu entrou sem esperar convite. A cidade atrás deles começava a acordar com buzinas, vendedores e rádio de padaria. Na água estreita do canal, o dia parecia pouco interessado na verdade.

Remaram até um ponto cego sob a ponte do mercado, onde Caio guardava uma mochila seca. Havia ali uma camisa limpa, um boné, uma pistola de sinalização e um molho de chaves que Malu reconheceu tarde demais. Caio explicou que uma delas abria a entrada de serviço da casa de Rômulo. Tinha conseguido a cópia anos antes, quando fazia entrega de combustível para a lancha da família e entrava pela cozinha para evitar a sala. Malu perguntou quantas portas daquela história ele abrira antes de admitir que sabia onde ficavam. Ele aceitou a pergunta sem defesa. Disse que a diferença, agora, era a mão dela na fechadura. Malu odiou a frase pela beleza involuntária e pelo acerto. Guardou a chave no bolso, junto da vermelha, e trocou o envelope de fotos por um saco plástico vedado. A maré da manhã começava a descer. Se Bento calculara certo, a sexta noite terminaria com o caminho da gruta exposto por poucas horas.

A casa de Rômulo aparecia no alto da falésia leste, branca, larga, cercada por hibiscos e por um muro baixo que servia menos para segurança do que para declarar propriedade. De baixo, parecia vigiar a ilha inteira, o cais, o mercado e a estrada que deixava Porto das Garças para trás. Um carro da polícia estava parado diante do portão principal. Outro, sem placa, ocupava a entrada lateral. Caio amarrou a canoa sob uma escada de pescador e conferiu a pistola de sinalização. Malu prendeu a pasta da escritura por baixo da camisa e sentiu a fita de Bento contra a pele, junto das fotos. A chave vermelha ficou na mão direita. A outra chave, menor e lisa, abriu o portão dos fundos com um clique limpo. Antes de entrar, Malu olhou para Caio e disse que, dali em diante, qualquer silêncio dele contaria contra os dois. Ele respondeu que sabia. Depois empurrou a grade apenas o bastante para que ela passasse.

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