A Casa de Rômulo
A entrada de serviço da casa de Rômulo ficava escondida por hibiscos altos e por uma grade pintada de verde escuro, tão bem cuidada que fingia abandono com dinheiro. Caio segurou o metal para que não batesse no batente. Malu passou primeiro, levando a pasta da escritura sob a camisa, a fita de Bento no bolso e a chave vermelha apertada entre os dedos. A cozinha estava vazia, com bancadas limpas, copos virados em linha e cheiro de café recém-passado. A ordem do lugar irritou Malu. Do lado de fora, Zélia tinha sido empurrada para dentro de um carro; ali, as xícaras esperavam visita. Caio fechou a porta devagar e apontou o corredor que levava à biblioteca. Conhecia a casa pela rota dos empregados, nunca pela sala principal. Essa diferença aparecia no modo de pisar: ele olhava para o piso, para maçaneta, para câmera pequena no canto do teto. Malu seguia olhando para os móveis, procurando o aparador verde descrito pelo pai.
A biblioteca ocupava o centro da casa, cercada por janelas largas voltadas para a ilha. Mapas náuticos emoldurados cobriam uma parede inteira. Alguns eram oficiais, com carimbo da marinha e linhas antigas de rota. Outros tinham anotações a lápis, números de maré, círculos em torno da Cabeça do Frade e setas apontando para a gruta. Rômulo gostava de cercar crime com vidro, madeira encerada e etiqueta de coleção. Malu encontrou o aparador verde perto de uma mesa de leitura. A primeira gaveta guardava charutos, exatamente como Bento dissera. A segunda trazia recibos de manutenção de lancha, notas de combustível e um cartão de Nunes com número particular escrito à mão. Caio se ajoelhou para testar o fundo falso. A lâmina da faca entrou em uma fenda quase invisível. O painel soltou com um estalo seco. Dentro havia um livro de bordo sem capa, duas chaves prateadas e um envelope pardo cheio de cópias de transferência bancária.
Antes que Malu pudesse abrir o envelope, vozes chegaram pelo corredor principal. Rômulo falava ao telefone, irritado pela primeira vez desde que ela voltara a Porto das Garças. Dizia que a jornalista recebera apenas fotografia ruim, que prova sem original vira fofoca, que Nunes devia parar de improvisar ameaça em rua aberta. Depois mencionou Zélia pelo sobrenome e mandou que a colocassem no aposento de costura até a maré baixar. Malu registrou o destino da enfermeira e guardou a posição do corredor; se Zélia estava ali, a saída dos fundos ainda podia servir para as três pessoas. Caio tocou o braço dela, pedindo silêncio. Rômulo entrou na biblioteca com Nunes logo atrás. Os dois pararam diante da mesa, de costas para o aparador. Malu e Caio ficaram escondidos no vão estreito entre a cortina pesada e a estante. Ela sentia a respiração dele perto do ouvido e o livro de bordo prensado contra o peito.
Nunes queria resolver tudo no cartório. Disse que bastava prender Caio por invasão, acusar Malu de roubo de documento e internar Zélia por confusão mental até a escritura sair. Rômulo respondeu que cartório serve para gente pobre acreditar em final limpo. A ilha precisava ser fechada naquela noite, antes da maré revelar o acesso interno. Um barco chegaria ao Cabeça do Frade levando caixas pequenas, equipamento de sondagem e um homem que ainda podia comprometer todo mundo se resolvesse negociar com a filha. Malu apertou o livro de bordo com tanta força que a lombada machucou seus dedos. Caio ficou rígido. A frase não dizia o nome de Bento, e mesmo assim colocou o pai dela dentro da sala. Rômulo caminhou até a janela e olhou para a água lá embaixo. Nunes perguntou sobre a enfermeira. Rômulo mandou mantê-la inteira, porque idoso machucado produz simpatia em delegado de capital.
Quando os dois saíram, Caio esperou três batidas do próprio coração antes de puxar Malu para fora do esconderijo. Ela abriu o livro de bordo sobre a mesa. As últimas páginas traziam datas recentes, horários de maré, nomes de pilotos e uma sigla repetida ao lado de pagamentos em dinheiro. Havia também uma folha solta com cópia do relatório da tempestade, assinada por Nunes, e uma fotografia pequena de Bento sentado na proa de uma lancha, muito mais velho do que no negativo, barba branca nascendo sem corte e olhar duro voltado para quem segurava a câmera. No verso, alguém escrevera Cabeça do Frade, sétima noite. Malu sentiu o estômago fechar. Caio colocou a mão sobre a mesa, perto da dela, sem tocar. A prova já bastava para derrubar Rômulo em jornal, talvez em tribunal, porém o pai vivo puxava a história para um lugar que nenhum juiz resolveria por eles.
Encontraram Zélia no aposento de costura, sentada em uma cadeira baixa, com as mãos presas por uma braçadeira de nylon e a boca livre para insultar o guarda que ficara do lado de fora. Malu abriu a porta usando uma das chaves prateadas. Caio segurou o homem pelo colarinho antes que ele alcançasse o rádio, bateu sua cabeça contra o batente e tomou o aparelho. Zélia olhou para a cena com reprovação profissional. Disse que pancada em osso temporal dá trabalho, depois estendeu os pulsos para Malu cortar a braçadeira. Tinha ouvido o bastante para confirmar o que Bento escondera no posto: ele passara anos sendo movido entre barcos, casas de apoio e a própria ilha, sempre que Rômulo precisava de senha, mapa ou garantia contra a filha. Zélia contou que Bento tentou fugir duas vezes. Na terceira, mandou que ela esperasse Malu e entregasse a fita. Malu guardou a informação sem chorar. Ainda havia gente armada entre eles e a saída.
O alarme começou quando chegaram à cozinha. Nunes descobrira o aparador aberto ou o guarda caído; pouco importava. A casa encheu-se de passos, portas batendo e ordens curtas. Caio empurrou Zélia para a despensa e quebrou a janela com o cabo da faca. Malu colocou o livro de bordo dentro da pasta da escritura, junto das fotos e da fita, e viu um painel de câmeras aceso sobre a bancada de serviço. Quatro imagens mostravam portão, garagem, biblioteca e trapiche privado. A quinta vinha de longe, tremida pelo vento, apontada para a pedra redonda da Cabeça do Frade. Havia uma boia amarela presa a uma corrente e uma lancha baixa encostada no costão. Um homem de boné esperava ao lado de duas caixas metálicas. Quando virou o rosto para a câmera, o tempo de Malu encolheu até caber em um único detalhe: a cicatriz clara no supercílio esquerdo, feita quando Bento caíra da bicicleta dela e mentira para a mãe dizendo que o culpado fora o cachorro do vizinho.
Bento estava vivo. A câmera mostrava-o de pé, magro, envelhecido, segurando uma das caixas com as duas mãos e discutindo com o piloto da lancha. A imagem não tinha som. Mesmo assim, Malu reconheceu o jeito impaciente com que ele apontava para a corrente da boia, exigindo que alguém fizesse direito aquilo que ele já explicara. A descoberta doeu por abrir duas feridas ao mesmo tempo: a alegria brutal de haver pai no mundo e a certeza de que esse pai também guardara escolha, cálculo e omissão. Caio viu o rosto dela mudar e não disse nada. Zélia, já passando pela janela quebrada, chamou os dois com urgência. Malu arrancou do painel o cartão de memória da câmera, enfiou no bolso e saiu atrás deles para o telhado da garagem.
A fuga pela garagem levou os três até uma escada externa e depois ao mato raso da falésia. Rômulo gritou do pátio, prometendo acordo, dinheiro, proteção contra processos e uma versão menos dolorosa para o reencontro com Bento. Malu continuou descendo. Caio vinha logo atrás, ajudando Zélia nos degraus e segurando a pistola de sinalização voltada para a casa. Quando alcançaram a canoa escondida, a maré já corria para fora, descobrindo pedras que antes pareciam fundo seguro. Malu abriu a pasta para conferir o livro de bordo. As folhas estavam ali, secas, presas entre a escritura e as cópias do negativo. A chave vermelha brilhou no fundo, número doze ainda visível. Na água, a rota até a Cabeça do Frade começava a desenhar uma linha torta de espuma e pedra. Malu entrou na canoa sem esperar ordem. Se Bento queria a sétima noite, teria a filha chegando antes do escuro, com prova suficiente para salvar a ilha e perguntas suficientes para acabar com qualquer mentira que ainda restasse.