O Contrato da Ghostwriter A Página Arrancada · Capítulo 1 de 12
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O Contrato da Ghostwriter

Olívia Manso chegou ao décimo oitavo andar da Muralha Comunicação com a bolsa pesada de cadernos, uma blusa amassada pela viagem de metrô e a sensação antiga de entrar em lugar onde todos tinham sido avisados para sorrir pouco. A recepcionista pediu documento, entregou crachá provisório e apontou para uma sala de vidro fumê onde duas pessoas já esperavam com garrafas de água alinhadas, tablets virados para baixo e um envelope pardo no centro da mesa. O envelope tinha o nome de Valentina Brás escrito em caneta preta, com uma letra rápida, inclinada, diferente da assinatura redonda que aparecia nas capas de planner, nas embalagens de chá e nos cursos vendidos pela internet.

Olívia sabia quem era Valentina como se sabe de uma música tocada em farmácia, elevador e fila de banco. A influenciadora tinha começado com vídeos de rotina, ficou rica vendendo disciplina gentil e sumiu depois de uma transmissão interrompida por quinze segundos de silêncio. O público recebeu explicações editadas: exaustão, retiro privado, respeito à família. A conta dela continuou ativa, cheia de fotos em praias antigas, frases sobre recolhimento e anúncios de uma linha de suplementos. Três semanas depois, a autobiografia precisava ir para a gráfica, e era por isso que Olívia estava ali.

Teresa Gama, diretora de reputação da agência, empurrou o contrato com unhas vermelhas e voz treinada para não pedir desculpas. Explicou que Olívia fora escolhida pela discrição, pela velocidade e pela experiência em terminar livros de gente ocupada demais para lembrar da própria infância com ordem narrativa. Ao lado dela, Henrique Nara, noivo de Valentina e sócio da marca, observava cada reação como quem calcula perda. O pagamento cobria seis meses de aluguel atrasado, o conserto do notebook e a chance de sair da lista informal de ghostwriters difíceis que Olívia ganhara ao recusar a biografia limpa de um deputado.

O manuscrito tinha duzentas e nove páginas, segundo Teresa, e uma única lacuna técnica. A página 143 fora removida durante revisão jurídica, por conter informação comercial sensível, e deveria ser substituída por um trecho neutro sobre amadurecimento. Olívia abriu o envelope antes de assinar. A cópia impressa cheirava a toner novo, porém a falha no miolo denunciava outra história. A folha arrancada deixara fibras presas junto à lombada, e a página seguinte começava no meio de uma frase: "se eu desaparecer depois disso, procurem a pessoa que ainda sabe ouvir minha voz sem legenda".

Olívia pediu acesso aos áudios originais, aos arquivos de transcrição e às notas de Valentina. Henrique cruzou os braços, Teresa ofereceu uma pasta filtrada e o advogado da agência entrou na sala com um aditivo de confidencialidade já aberto na cláusula de multa. A pressa deles tinha cheiro de contrato caro e medo barato. Olívia leu tudo devagar, riscou uma palavra ambígua, pediu quarenta e oito horas para entregar a primeira versão e assinou porque precisava do dinheiro. Ao guardar o manuscrito, deixou a unha tocar a cicatriz da página 143. Aquela ausência tinha peso de frase escrita por alguém que esperava ser apagada.

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