A Página 143 A Página Arrancada · Capítulo 4 de 12
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A Página 143

O arquivo pagina_143_tomada_2 abriu com chiado, respiração e o barulho de uma janela batendo. Valentina parecia caminhar enquanto ditava, longe do microfone, como se gravasse escondida dentro de um apartamento grande demais. Ela falava de um contrato assinado no início da marca, quando o dinheiro ainda vinha em boletos atrasados e permutas de creme facial. A cláusula permitia uso amplo de imagem, voz, nome e rotina em campanhas educativas, inclusive por edição, montagem e simulação. Na época, segundo Valentina, Henrique chamara aquilo de proteção contra agenda cheia.

Olívia escutou três vezes. A palavra simulação explicava os vídeos recentes, as legendas sentimentais e a ausência de improviso. Não bastava a equipe fingir que Valentina descansava. Eles podiam fabricar presença, vender cursos, publicar recados e manter contratos ativos sem mostrar a mulher real. A gravação seguia até um trecho quebrado, onde a voz dela dizia que a página 143 ficaria no livro como revogação pública de consentimento. Depois vinha ruído metálico. O restante virava uma massa de sílabas sem forma, como se o arquivo tivesse sido cortado com ferramenta errada.

Olívia levou o cartão a uma assistência técnica no centro, pagando em dinheiro e usando nome falso. O rapaz do balcão recuperou metadados suficientes para indicar origem, horário e um detalhe que fez a nuca dela esfriar. O áudio fora copiado de um celular registrado na suíte presidencial do Hotel Serpa, onde Valentina gravara a última leva de depoimentos. No mesmo dia, a agência reservara uma sala para fotos do livro, e o contrato de voz recebera aditivo emergencial. A página arrancada deixava de ser capricho editorial. Era uma tentativa de desfazer uma prisão assinada em papel bonito.

Teresa ligou enquanto Olívia ainda estava na rua. Queria saber se a primeira versão caminhava, se a lacuna fora resolvida com um texto inspirador, se Olívia compreendia a delicadeza emocional da família. A ghostwriter respondeu com frases profissionais e vagas, aprendidas em anos de lidar com gente rica que confundia prazo com propriedade. Do outro lado, Teresa avisou que Henrique gostaria de revisar pessoalmente o capítulo da virada. Olívia olhou para o reflexo no vidro de uma loja fechada e percebeu dois homens parados perto da banca de jornal.

Ela entrou no primeiro ônibus que parou, sentou no fundo e enviou a Nuno uma mensagem curta pelo aparelho descartável: Hotel Serpa, suíte presidencial, aditivo emergencial. A resposta veio cinco minutos depois, com um endereço e a palavra cuidado. Olívia quis achar exagero, porém um dos homens da banca subiu no ônibus na parada seguinte, sem pagar passagem, fingindo falar ao telefone. Ela desceu duas quadras depois, misturou-se a um grupo de estudantes e caminhou até uma padaria iluminada. Quando abriu a mochila no banheiro, o manuscrito ainda estava ali. Na cicatriz da página 143, uma lasca de papel tinha se soltado, revelando a marca de uma impressão em tinta rosa.

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