A Noite do Lançamento A Página Arrancada · Capítulo 11 de 12
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A Noite do Lançamento

O salão do lançamento abriu mesmo assim. A Muralha Comunicação decidiu que cancelar pareceria culpa, e empresas assustadas costumam escolher espetáculo quando deveriam escolher silêncio. Teresa comandava a equipe com fone no ouvido, trocando ordem de entrada, cortando perguntas da imprensa e pedindo que o telão mantivesse vídeos antigos em rotação. Suzana chegou com expressão de martírio, pronta para explicar que a filha sofrera uma recaída emocional causada por pessoas interessadas em dinheiro. A versão estava ensaiada antes de Valentina sair do Retiro Santa Lira.

Olívia entrou pelos fundos com a advogada, Nuno e Rita. Valentina ficou em uma sala menor, acompanhada por uma médica indicada pela polícia e por uma jaqueta emprestada que cobria o pijama elegante do retiro. Ela não queria palco, entrevista ou abraço público da mãe. Queria impedir que o livro falso nascesse. Olívia respeitou isso e levou ao auditório apenas a página 143, os vídeos brutos e uma autorização escrita à mão, curta, na qual Valentina permitia a leitura de sua revogação. Pela primeira vez no projeto, a autorização vinha de uma pessoa olhando para a própria frase.

Quando Henrique subiu ao palco, o telão apagou. Nuno assumiu a mesa de vídeo com a ajuda de um técnico que preferiu fingir erro de sistema a participar do enterro profissional de uma mulher viva. Em vez do trailer oficial, surgiu Valentina no closet, dizendo que a página do meio explicava tudo. O salão primeiro silenciou por educação, depois por cálculo. Jornalistas levantaram celulares. Suzana tentou sair pela lateral, porém Rita já entregava à repórter mais próxima a cópia do caderno de campanha. Teresa olhou para Olívia com ódio limpo, quase admirável pela falta de disfarce.

Olívia leu a página 143 sem dramatizar. Sua voz de ghostwriter, treinada para desaparecer atrás de nomes alheios, serviu enfim para devolver autoria a alguém. Leu a revogação, a cláusula de voz, a denúncia sobre o retiro e a frase final de Valentina: "uma história contada por quem lucra com meu silêncio continua sendo venda, mesmo quando chamam de cuidado". Ninguém aplaudiu. Era melhor assim. Aplauso teria transformado denúncia em cena bonita. O que veio foi mais útil: perguntas, correria, chamadas, exemplares recolhidos, contratos suspensos.

Do lado de fora, perto da entrada de serviço, Olívia encontrou Nuno sentado no meio-fio com dois copos de água mineral. Ele tinha sangue seco no canto da boca, resultado de uma cotovelada de segurança, e parecia absurdamente satisfeito por isso. Olívia sentou ao lado dele, cansada demais para pose. Ele disse que ela lera como autora. Ela respondeu que autores costumavam receber menos do que deveriam. Os dois riram baixo, sem alívio completo. Valentina ainda enfrentaria processo, descrédito e família. A diferença era concreta. Agora havia registro, testemunha, página e voz.

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