O Capítulo Apócrifo
Teresa recebeu a nova versão de Olívia ao meio-dia, com atrasos calculados, perguntas de estilo e um capítulo falso encaixado onde a agência queria. O texto era obediente o bastante para acalmar, ruim o bastante para pedir revisão e cheio de pequenas armadilhas de data. Olívia trocara a ordem de dois eventos, atribuíra a Suzana uma frase que Henrique dissera e citara uma foto inexistente. Em menos de uma hora, a agência devolveu o arquivo corrigido com precisão impossível para quem alegava cuidar apenas de sensibilidade familiar. Alguém tinha mapa completo dos fatos reais e trabalhava para enterrá-los.
O capítulo apócrifo que Teresa anexou vinha assinado como fala final de Valentina. A personagem textual agradecia à mãe pela coragem, ao noivo pela paciência e ao retiro pela chance de reaprender limites. Olívia imprimiu as páginas e as leu em voz alta para Nuno e Rita. A cada frase, Rita apontava uma mentira concreta. Valentina detestava a palavra jornada. Valentina nunca chamaria Henrique de porto. Valentina tinha alergia ao chá anunciado no parágrafo de gratidão. O texto era uma boneca de ventríloquo vestida com roupa de lançamento.
A advogada respondeu no fim da tarde com cautela e utilidade. A página 143, isolada, podia virar disputa contratual. Somada aos vídeos, recibos, caderno de campanha e indício de internação sem contato livre, justificava denúncia urgente e pedido de busca. O problema era tempo. O lançamento seria na noite seguinte, e o Retiro Santa Lira tinha histórico de remover hóspedes especiais antes de inspeções. Olívia olhou para os papéis sobre a mesa e sentiu a tentação de fazer apenas o certo dentro da lei, com protocolo, carimbo e espera. Valentina já estava esperando havia semanas.
Nuno mostrou a rota até a Serra do Cedro. Quase três horas de estrada, uma portaria principal, um acesso de fornecedores e uma trilha lateral usada por funcionários. Ele conhecia o lugar porque gravara ali uma campanha antiga de detox corporativo, antes de saber que a palavra descanso podia servir para trancar gente inconveniente. Rita se ofereceu para ir, pois Valentina confiaria nela antes de qualquer estranho. Olívia recusou de primeira, depois entendeu que medo de envolver Rita era luxo de quem chegara por último.
Saíram em dois carros, com cópias dos arquivos enviadas a três pessoas diferentes e uma mensagem programada para disparar se Olívia não cancelasse até a manhã. No banco do passageiro, ela segurava a página 143 dentro de uma pasta transparente. Nuno dirigia sem música. Perto do pedágio, disse que Valentina lhe pedira desculpas no último vídeo bruto por arrastá-lo para uma briga que parecia maior do que os dois. Olívia respondeu que brigas grandes sempre dependiam de gente comum fazendo tarefas pequenas: guardar cartão, abrir zíper, imprimir folha, atender telefone. Ele sorriu sem tirar os olhos da estrada, e essa discrição foi mais íntima do que qualquer confissão.