O Retiro Santa Lira A Página Arrancada · Capítulo 10 de 12
Obra Menu

O Retiro Santa Lira

O Retiro Santa Lira tinha portão de madeira clara, jardins impecáveis e uma placa que pedia silêncio antes mesmo de alguém falar. A portaria recebeu Nuno como prestador de manutenção, graças a uma credencial antiga e à convicção com que ele reclamou de um roteador inexistente. Rita entrou sentada atrás, cabeça baixa, segurando uma caixa de cabos. Olívia ficou no segundo carro, perto da estrada de terra, com a advogada ao telefone e a página 143 fotografada em três formatos. A chuva fina deixava tudo com aparência de anúncio caro para culpa lavada.

Dentro do complexo, Nuno enviou fotos rápidas. Corredores brancos, portas sem maçaneta interna, sala de meditação com câmera no teto, armários de remédio trancados. Rita localizou o alojamento das hóspedes privadas usando uma lista de lavanderia. Valentina ocupava o quarto 6, chamado suíte de recomposição, expressão ridícula para uma porta vigiada por homem de camiseta polo. A médica Sílvia Rangel apareceu em uma das imagens, conversando com Henrique no jardim interno. O noivo não estava em São Paulo preparando lançamento. Estava ali, conferindo se a mulher ausente continuava ausente.

Olívia decidiu sair do carro quando viu Henrique tocar o braço de Valentina no vídeo enviado por Nuno. A influenciadora estava magra, cabelo preso sem cuidado, rosto sem maquiagem e olhos atentos demais para alguém em descanso voluntário. Usava tênis cinza, como no plano de fuga. A cena durou seis segundos antes de Nuno guardar o celular. Bastou. Olívia caminhou até a portaria com a pasta de documentos, apresentou-se como representante editorial e disse que precisava colher autorização final de imagem para o lançamento daquela noite. A mentira usava a língua deles, por isso entrou fácil.

Valentina reconheceu Rita primeiro. O rosto dela mudou pouco, apenas o suficiente para mostrar que havia aprendido a sobreviver sem susto visível. Olívia explicou o mínimo, colocou a página 143 sobre a mesa e pediu que Valentina lesse em voz alta apenas se quisesse. Henrique tentou tomar a folha. Nuno segurou o pulso dele antes que tocasse o plástico, e a sala inteira parou em torno desse gesto. Sílvia chamou segurança. Rita abriu a transmissão de áudio para a advogada, que passou a narrar nomes, horários e impedimento de contato direto com cliente adulta.

Valentina não gritou. Pegou a folha, respirou com esforço e leu o primeiro parágrafo da própria revogação. A voz saiu falha, depois firme o bastante para que o aparelho de Rita captasse cada palavra. Disse que não autorizava posts recentes, não autorizava simulação de voz, não autorizava lançamento sem sua presença livre. A palavra livre ocupou a sala como móvel pesado. Quando a polícia chegou, chamada pela advogada e por uma denúncia anônima disparada antes da entrada, Henrique ainda argumentava sobre marca, crise e cuidado. Valentina ficou de pé ao lado de Rita. Parecia frágil e profundamente presente, duas coisas que a campanha jamais conseguiria vender juntas.

1/1
Menu

Fazer anotação