A Festa sem Convidada A Página Arrancada · Capítulo 7 de 12
Obra Menu

A Festa sem Convidada

A prévia do lançamento aconteceu em um salão de eventos com cortinas beges, flores brancas e uma mesa onde duzentos exemplares sem capa definitiva esperavam influenciadores menores. Valentina aparecia em totens, telões e embalagens de chá, sempre sorrindo com a mesma inclinação de cabeça. Olívia circulava com crachá de equipe editorial, carregando uma taça de água que ninguém notava. Teresa apresentou a ghostwriter como consultora de texto, palavra escolhida para apagar autoria sem criar pergunta. Henrique beijava convidados no rosto e prometia que Valentina voltaria quando o coração permitisse.

Suzana Brás chegou atrasada, vestida de preto caro, recebendo abraços como mãe de artista morta e cumprimentos como dona de empresa viva. Olívia observou a facilidade com que ela mudava de expressão conforme a câmera se aproximava. Durante o discurso, Suzana disse que o livro respeitava o momento íntimo da filha e transformava ausência em legado. A plateia suspirou. Nuno, infiltrado como técnico de audiovisual, enviou a Olívia uma foto do teleprompter. O parágrafo final anunciava que parte das vendas financiaria o Retiro Santa Lira.

Olívia entendeu a arquitetura do golpe com uma clareza que quase a fez rir. A empresa não escondia apenas Valentina. Vendia o esconderijo como cura, garantia fluxo de receita e transformava qualquer tentativa de fuga em crise emocional. Se Valentina aparecesse confusa, seria ingrata. Se acusasse alguém, estaria frágil. Se ficasse calada, a marca falaria por ela. A página 143 precisava sumir porque era uma revogação de voz, e o lançamento precisava acontecer antes que qualquer juiz, jornalista ou familiar decente perguntasse por consentimento atual.

No banheiro do salão, Rita encontrou Olívia diante do espelho. A assistente parecia ter dormido pouco desde o desaparecimento, com maquiagem mal espalhada e mãos tremendo dentro da bolsa. Disse que ajudara Valentina a preparar a fuga, depois recuou quando Henrique ameaçou acusá-la de roubo. Tinha visto a página arrancada pela última vez dentro de uma mala de rodinhas azul, levada para a suíte presidencial na manhã do sumiço. Rita acreditava que Valentina conseguira esconder a folha em algum objeto pessoal antes de ser conduzida ao retiro.

Quando voltou ao salão, Olívia encontrou Henrique esperando perto da saída de serviço. Ele falou baixo, educado, com a violência tranquila de quem nunca precisou levantar a voz. Disse que ghostwriters inteligentes entendiam limites, que reputação destruída era uma forma de pobreza e que ninguém contrataria Olívia se a Muralha informasse instabilidade. Ela escutou sem interromper, reparando no perfume caro, na pele seca junto à aliança, no suor mínimo acima do lábio. Depois sorriu com cansaço profissional e pediu que ele enviasse tudo por e-mail. A ameaça perdia parte do charme quando precisava virar documento.

1/1
Menu

Fazer anotação