O Caderno de Campanha A Página Arrancada · Capítulo 8 de 12
Obra Menu

O Caderno de Campanha

Rita apareceu no apartamento de Olívia às sete da manhã, usando boné, óculos escuros e a coragem atrapalhada de quem decidiu tarde, porém decidiu. Trouxe uma sacola de mercado com o caderno amarelo completo, duas credenciais antigas e a cópia de uma chave do depósito do Hotel Serpa. Antes de aceitar café, pediu que Olívia prometesse uma coisa simples. Se Valentina estivesse viva e quisesse sumir de novo, o livro não a arrastaria de volta para virar símbolo. Olívia respondeu que livro algum valia uma pessoa em cativeiro elegante. Rita sentou, enfim, como quem ouvira a primeira frase limpa em semanas.

O caderno de campanha desmontava a vida pública de Valentina com método brutal. Cada página ligava emoção a produto, fragilidade a data de venda, briga familiar a aumento de engajamento. Havia colunas para lágrimas, reconciliação, corpo, mãe, noivo, descanso. Olívia, acostumada a bastidores de autobiografias, conhecia exagero publicitário. Aquilo era outra coisa. Valentina tinha sido convertida em agenda, e qualquer gesto espontâneo entrava como matéria-prima para a próxima rodada de anúncios. Na última parte, as anotações mudavam de letra. Rita registrara pedidos reais: cancelar voz licenciada, desligar posts automáticos, buscar passaporte.

Nuno chegou com equipamento pequeno, mochila leve e uma pergunta que ficou no ar enquanto ele cumprimentava Rita. Olívia percebeu que ele queria ir à Serra do Cedro naquela mesma noite. Ela quis dizer que isso era loucura, risco, fantasia de filme ruim. Em vez disso, pediu vinte minutos para preparar cópias de tudo e enviar a uma advogada de confiança, uma antiga cliente que devia favor sem gostar de dever. Nuno assentiu. O alívio dele não vinha de obediência, vinha de encontrar alguém que pensava em saída antes de incêndio.

No Hotel Serpa, o depósito de achados e perdidos ficava atrás da lavanderia, protegido por uma câmera quebrada e um funcionário disposto a aceitar dinheiro por silêncio. A mala de rodinhas azul estava lá, sem etiqueta, com uma alça rachada e cheiro de perfume doce. Dentro havia roupas, um carregador, tênis cinza e um livro de receitas comprado em banca. Nenhuma folha solta. Olívia quase fechou a mala quando Nuno pediu para ver o forro. O zíper interno tinha sido costurado à mão, com linha amarela torta.

A página 143 estava dobrada em quatro, protegida por plástico de documento. A letra impressa vinha cheia de correções manuscritas de Valentina, algumas furiosas, outras quase calmas. Ela revogava o uso de voz e imagem, narrava a pressão para assinar o aditivo e deixava uma instrução direta: se a versão final do livro chegar às lojas sem esta página, procurem o lugar onde vendem silêncio como tratamento. No rodapé, havia um nome que nenhum documento oficial mencionava: Sílvia Rangel, médica responsável pelo Retiro Santa Lira. Olívia segurou a folha com cuidado. Agora o vazio tinha endereço.

1/1
Menu

Fazer anotação