A Mulher que Continuava Postando A Página Arrancada · Capítulo 2 de 12
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A Mulher que Continuava Postando

Naquela noite, Olívia espalhou o material na mesa da cozinha e desligou o celular pessoal, mantendo aberto apenas o aparelho descartável entregue pela agência. O livro de Valentina seguia o formato das grandes confissões vendáveis: infância simples, primeira vergonha pública, dieta, disciplina, perdão, sucesso, queda controlada e retorno com produto novo. Havia frases competentes demais, dor bem penteada demais, capítulos terminando em lições prontas para postagem. Olívia marcava as passagens onde a voz endurecia de repente, como se alguém tivesse trocado a pessoa pelo departamento de marketing.

A pasta digital trazia trezentos arquivos de áudio. Os primeiros tinham risadas, pausas, barulho de xícara, cachorro latindo longe. Valentina falava rápido, corrigia datas, chamava a própria mãe de Suzana quando estava irritada e de mãe quando queria encerrar assunto. Depois do capítulo dez, as gravações mudavam. A respiração ficava curta, as respostas pareciam lidas e certas perguntas sumiam da sequência. Olívia encontrou cortes secos antes de nomes de marcas, pausas longas depois de Henrique e uma anotação repetida em vários arquivos: revisar com Nuno antes de fechar.

O perfil público de Valentina seguia funcionando como vitrine de uma pessoa ausente. Às vinte e duas horas, entrou um vídeo novo em que ela aparecia de camiseta branca, cabelo molhado e legenda sobre descanso. Olívia baixou o arquivo, abriu em tela grande e percebeu a primeira rachadura. A cicatriz perto do queixo, quase invisível nas gravações recentes, estava no lado errado. Alguém invertera um vídeo antigo para parecer novo, e a legenda mencionava uma marca que só começara campanha depois do desaparecimento. O público comentava saudade, força, volta quando puder. A máquina respondia com corações.

Olívia procurou Nuno Vidal em contratos antigos, créditos de vídeos e fóruns de profissionais que reclamavam de clientes sem pagar. Encontrou uma conta fechada, um portfólio retirado do ar e uma entrevista curta em que ele dizia que vídeo bruto sempre denunciava mentira antes do roteiro. A demissão dele fora anunciada como quebra de confiança, depois que imagens de Valentina chorando vazaram para uma página de fofoca. A agência o tratava como risco, e esse tipo de unanimidade interessava a Olívia. Pessoas perigosas costumavam vir com versões concorrentes. Bodes expiatórios chegavam com versões prontas demais.

Antes de dormir, ela voltou ao manuscrito e leu os parágrafos em torno da folha arrancada. A página 142 terminava com Valentina dizendo que vender a própria imagem parecia liberdade até o dia em que outra pessoa soube sorrir por ela. A página 144 retomava com um texto impessoal sobre gratidão à equipe. Entre uma coisa e outra cabia um abismo prático, desses que envolvem senha, procuração, câmera e dinheiro. Olívia anotou no caderno: página 143, voz, Nuno, contrato de imagem, posts vivos. Depois escreveu uma última pergunta, menor e mais incômoda. Quem ganha quando uma mulher desaparecida continua trabalhando?

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