O Estúdio das Onze Luzes A Página Arrancada · Capítulo 5 de 12
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O Estúdio das Onze Luzes

O Estúdio Onze ficava em um galpão reformado, escondido atrás de uma fachada de móveis planejados. Do lado de fora parecia uma empresa de armários; por dentro havia uma cozinha cenográfica, três quartos falsos, uma varanda com plantas de plástico e uma parede curva onde Valentina ensinara milhões de pessoas a beber água morna antes de responder mensagens. Nuno ainda tinha a senha da porta lateral, trocada apenas na entrada principal, sinal de que a agência se preocupava mais com narrativa do que com fechadura. Olívia entrou atrás dele, segurando a lanterna baixa.

O lugar mantinha cheiro de maquiagem, cabo quente e café esquecido. Em uma arara, roupas etiquetadas por humor: vulnerável, executiva, descanso, volta. Olívia tocou uma camisa branca idêntica à do vídeo postado na noite anterior e encontrou alfinetes presos na gola, ajuste feito para corpo diferente. Nuno fotografou tudo sem flash. Explicou que Valentina odiava aquela parede curva, porque a acústica fazia a voz voltar achatada ao monitor. Quando estava nervosa, ela pedia para gravar no depósito, perto das caixas, onde ninguém conseguia fingir praia, manhã perfeita ou serenidade.

No depósito, encontraram uma pasta com recibos de transporte, listas de objetos pessoais e um cronograma chamado presença mínima. Cada dia tinha três posts, duas respostas automáticas e uma janela de stories gravados com antecedência. Havia também instruções para uma dublê de corpo, sempre filmada de costas ou em sombra. Olívia sentiu a raiva subir com precisão doméstica. A vida de Valentina tinha sido desmontada em tarefas, como mudança de apartamento feita por gente que joga fora cartas sem perguntar.

Nuno achou uma caixa lacrada com o nome de Rita, assistente pessoal de Valentina. Dentro havia cartões de memória, fones, um chaveiro de hotel e um caderno pequeno com capa amarela. O caderno tinha listas de compras, remédios, horários de gravação e frases curtas escritas com pressa. Em uma página, Rita anotara: V. pediu mala pequena, tênis cinza, dinheiro vivo, ônibus das 6h40. Em outra, registrara uma ligação de Suzana Brás para Henrique: se ela sair andando, o livro morre com ela.

O alarme disparou antes que pudessem ler mais. Nuno puxou Olívia pelo corredor das cozinhas falsas, derrubando uma caixa de canecas promocionais. Eles saíram pela porta de carga quando as luzes principais acenderam, e a chuva da madrugada pareceu quase generosa depois do ar parado do estúdio. No carro, Nuno respirava como quem segurara susto por anos. Olívia percebeu um corte pequeno na mão dele, abriu um pacote de guardanapos e enrolou os dedos com cuidado. O gesto durou pouco, sem fala bonita. Ainda assim, alguma coisa entre eles deixou de ser apenas troca de prova.

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