O Editor dos Vídeos Brutos
Nuno Vidal marcou o encontro em uma copiadora perto da rodoviária, lugar sem charme onde estudantes imprimiam trabalhos, motoboys plastificavam documentos e ninguém olhava duas vezes para uma mulher com manuscrito na mochila. Ele chegou antes, sentado ao lado da máquina de encadernação, com barba por fazer, jaqueta surrada e uma mochila pequena entre os pés. Tinha a cautela de quem aprendeu a medir câmeras antes de escolher mesa. Quando Olívia disse o próprio nome, ele pediu que ela guardasse o telefone no balcão e apontou para um cartaz escrito impressão colorida em promoção.
Olívia aceitou a regra, embora odiasse obedecer homem desconhecido em lugar estreito. Nuno começou sem cumprimentos. Disse que Valentina gravava tudo duas vezes, uma para a agência e outra para ela mesma, porque confiava mais em arquivos brutos do que em pessoas sentadas em reunião. Ele fora contratado para montar bastidores do livro, até perceber que os cortes pedidos por Henrique sempre apagavam cansaço, contradição e qualquer pergunta sobre direitos de voz. A demissão veio quando ele se recusou a entregar um disco externo sem recibo.
Ele abriu o notebook antigo e mostrou vinte segundos de vídeo. Valentina aparecia de roupão, sentada no chão de um closet, com um copo de água pela metade. A imagem tremia, provavelmente gravada por ela mesma. Ao fundo, alguém batia na porta pedindo que ela assinasse antes do café da manhã. Valentina dizia que a página do meio explicava tudo, e que Nuno devia guardar o áudio caso ela perdesse acesso às próprias contas. O arquivo terminava com um ruído seco, seguido da voz de Henrique perguntando com quem ela falava.
Olívia sentiu a mão apertar a caneta. A fala não provava sequestro, ameaça ou crime; provava intenção, e intenção era perigosa em livro vendido como superação. Ela perguntou por que Nuno procurara ajuda apenas agora. Ele riu sem humor, contou que enviara cópias a dois jornalistas e recebeu silêncio, depois um processo preventivo por violação de imagem. A Muralha sabia esmagar reputação antes da denúncia nascer. O vazamento que o culpava continha imagens cortadas de um arquivo que ele jamais tivera completo, sinal de que alguém precisava transformá-lo em vilão útil.
Na saída, Nuno entregou a Olívia um cartão de memória escondido dentro de um comprovante de cópia autenticada. Disse que ali havia gravações de oito dias antes do sumiço e um arquivo de áudio com nome estranho: pagina_143_tomada_2. Ele não conseguira abrir a segunda metade, corrompida depois de uma sincronização remota. Olívia guardou o cartão no forro da bolsa e devolveu o olhar dele. Nuno tinha medo, raiva e uma atenção incômoda para detalhes pequenos. Isso podia torná-lo aliado ou problema. Pela primeira vez desde que assinara o contrato, as duas opções pareciam igualmente necessárias.