A Marcha das Utopias - bloco 02
Um escritor, um sociólogo, um crítico podem rotular, nu- ma ampla latitude ideológica, um fenômeno que parecia restrito a certos compromissos de origem ou de destino. Assim, Eugê- nio Dors, no seu livro clássico sobre o barroco — admirável li- ção de história e de crítica — coloca dentro do conceito de barroco as coisas mais estranhas e longínquas. Rubens para ele é barroco, talvez por ter sido católico. Como barroco são Bach e Mozart e até a tauromaquia. Quando falo em Contra-Reforma, o que eu quero é criar uma oposição imediata e firme ao conceito árido e desumano trazido pela Reforma e que teve como área cultural particular- mente a Inglaterra, a Alemanha e os Estados Unidos da Amé- rica. Ao contrário, nós brasileiros, campeões da miscigenação tanto da raça como da cultura, somos a Contra-Reforma, mes- mo sem Deus ou culto. Somos a Utopia realizada, bem ou mal, em face do utilitarismo mercenário e mecânico do Norte. So- mos a Caravela que ancorou no paraíso ou na desgraça da sel- va, somos a Bandeira estacada na fazenda. O que precisamos é nos identificar e consolidar nossos perdidos contornos psíqui- cos, morais e históricos.
Karl Kautski (o renegado de Lênin) escreveu um dos mais curiosos tratados que conheço sobre o cristianismo. A chave central do seu estudo é o materialismo histórico e acerta gran- demente em muitas das suas .afirmações e pesquisas. Uma idéia nova que ele lança nesse livro é a de que as religiões monote- ístas são filhas do deserto, onde não há material plástico para a fabricação de ídolos ou fetiches, enquanto que os países ricos em cobre, ferro, mármore, etc. regalam-se numa infinita repe- tição de imagens que produzem o politeísmo. Ilustra ele essa tese com a Judéia e a Arábia que sem som- bra de possibilidades escultóricas deram os dois grandes ramos do monoteísmo, enquanto o Egito e a Grécia produziram to- das as figurações do numeroso de que seriam capazes os seus artistas plásticos. Que relação pode haver entre a asserção de Kautski e um estudo sobre as Utopias renascentistas? £ que estas são
filhas do impulso de uma raça exogâmica que fixou no mono- teismo guerreiro o seu destino histórico. Do ramo semita que saiu da Arábia veio a mescla numa decisiva oposição ao racis- mo fechado dos judeus, que trágica e sardonicamente iria pro- duzir, na época contemporânea, o seu mais gigantesco adversá- rio — Adolf Hitler. O Fuehrer vem direitinho do mosafsmo e constituiu, sem dúvida, a mais dramática lição que receberam os exclusivistas defensores do privilégio de raça, pais e reli- gião. O ramo semita dos árabes, ao contrário, empreendeu por milênios a excursão de seus gens fertilizadores por todos os caminhos abertos ou fechados da terra e do mar e levaria no encantamento das descobertas à modelagem e à criação dos paraísos utópicos que desviaram a Europa do seu egocentris- mo ptolemaico. Os árabes foram tão compreensivos que no grande Cali- fado de Córdoba era permitido o uso de meia dúzia de lín- guas, desde o árabe clássico dos escritores até o latim eclesi- ástico e o dialeto que daria o castelhano. Em oito séculos de dominação, não foi imposta a língua do vencedor. Afirma-se que na batalha de Poitiers, onde Charles Mar- tel deteve o élan muçulmano, foi salvo o destino da Europa. Salvo de quê? Da agricultura? Da técnica inicial que irriga- va os campos e construía os primeiros engenhos? Dos con- tatos iniciais com o pensamento grego? Fato é que, se os árabes vencessem, a Europa não se en- calacraria por séculos na torva visão do mundo que produziu a Idade Média. O grande Hohenstaufen Frederico II deveu a sua ilustração à cultura árabe e se foram suas violentas mãos de ferro que derrubaram o papado guerreiro, não se pode es- quecer a obra-prima de diplomacia e finura internacionalista que foi a sua cruzada, a sexta, quando, afrontando a excomu- nhão de Gregório IX, penetrou em Jerusalém aclamado por árabes e cristãos, depois de um acordo com o sultão do Egito.
Frederico II é, sem sombra de dúvida, a maior figura de toda a Idade Média. A luta entre as duas culturas — a muçul-
mana e a cristã — não terminou em Poitiers. Nem, como quer o Sr. Tristão de Athayde, mais tarde, Lepanto foi uma decisi- va vitória da catolicidade. O grande embate é justamente esse, o do século XIII, que procede o exílio do papado em Avi- nhão. Frederico II, nascido na Itália meridional, foi muito mais um sidliano, portanto, um mesclado, do que um puro Ho* henstaufen e sua formação tinha mais de árabe que a impos- ta pela Germânia castelã de seu avô Barba-Roxa. Seus costu- mes eram muçulmanos. Locomovia-se como um califa, com ha- réns e ménageries de feras selvagens, entre poetas e filósofos. E seus exércitos eram sarracenos. Mesmo o seu pesado desas- tre de Parma deveu-se à existência folgada de sua corte fata- lista, no momento em que seria necessário apertar o sítio à ci- dade famélica.
De fato, no nosso meio o que há é uma "História" diri- gida em benefício das teses latinas que procuram denegrir o meridião semita. Mas nós, descendentes de portugueses, somos o produto de uma cultura miscigenada que nada deve à árida seara frei- rática de Port-Royal, a qual deu como chefe de fila o seco protestante Pascal. Lisboa até agora é uma cidade bárbara onde se mistura a mais bela humanidade da terra. Mais tarde, com a colonização fomos modelados por uma cultura de larga visão — a jesuítica — que infelizmente foi cortada pela incompreensão romanista quando estava le- vando aos limites pagões dos ritos malabares o seu afã de ecletismo e de comunicação humana e religiosa. Foram os moçárabes de Espanha e Portugal que povoaram os porões das caravelas e, no pórtico das Utopias, ficou para sempre aquele nauta luso bronzeado do sol atlântico que o chanceler inglês Thomas Morus conta ter encontrado na nave catedral de Antuérpia e que lhe abriu os olhos para os paraí- sos americanos da Descoberta.
Maomé se reclama de Abraão. E todo o seu destino não passa de um desvio da Bíblia e do Cristianismo, alentado pela comunhão do deserto, em condições particulares. Como um ramo bastardo de casa real que afronta a legitimidade, ele ata- ca o parente próximo com o fim absoluto de liquidá-lo. No século VII, a ruée muçulmana assenhoreou-se do mundo me- ridional conhecido e ameaçou o setentrião. "Nem sequer uma tábua cristã flutua no Mediterrâneo" — afirma Henri Pirenne. Talvez se reclamando longinquamente da Sabá matriar- ca], as tribos beduínas não eram rígidas praticantes da mo- nogamia. Como casar no deserto? E o Corão anuncia e prome- te o prazer na outra vida para seus crédulos beneficiários. Aí èstá a divergência máxima que daria São Jerônimo ba- tendo com uma pedra no peito a cada sintoma ae virilidade e o califa-sacerdote nada infenso aos prazeres terrenos. O cris- tianismo resistiu às invasões bárbaras e mesmo as modelou no arcabouço da Igreja Medieval porque os deuses trazidos da estepe longínqua por Atila ou pelos vândalos eram ídolos e fetiches que carros de guerra conduziam e facilmente se es- facelavam pelos percursos da alta Idade Média, não podendo oferecer resistência aos deuses e santos que se resguardavam nos recintos fechados das igrejas medievais. Outro fenômeno religioso era esse — o maometano — da transmutação de um puro valor espiritual, filho da rija e im- perecível comunicação produzida pela concentração do de- serto. E nisso entra a curiosa observação de Kautsld já citada. O monoteísmo poderia resistir e lutar contra outro monoteís- mo até se enxertar na Contra-Reforma e na lassidão compre- ensiva dos jesuítas. No Setentrião europeu se romperia o ramo ortodoxo cristão, entre o totemismo dos santos e das divin- dades locais (Itália e França) e o rijo tronco onde Calvino e Lutero temperam a doutrina da eleição. Enquanto o deus único do deserto, deus de caravana, se metamorfosearia transformado no Cristo, em deus de carave- la, sob a condução compreensiva da roupeta jesuíta na dire- ção da conquista da América. Foi essa religião de caravela que presidiu ao arfar das Utopias, principalmente das duas que se colocam na abertu- ra da era da navegação, sonhadas por Morus e Campanella.
A Reconquista foi um fenômeno político e militar pura* mente de superfície. A arabização já tinha raciado a Penínsu- la e produzido esse minúsculo mas gigantesco Portugal, que marcou com a abadia guerreira de Tnomas o apogeu do bar- roco e de toda a arte de seu tempo. A arabização já se tinha transferido para a roupeta inau- gural de Loiola. Numa tese para consurso na Universidade, anos atrás, eu escrevi: M Os jesuítas são os maometanos de Cristo. Entra na sua arrancada um fogo estranho que não dissimula raízes ára- bes". São soldados mais do que sacerdotes e Pombal os acu- saria de descrença, dizendo: "Não é crível que trabalhem tan- tos homens para arruinarem o dogma da fe sem serem ateis- tas". Vinda da Arábia petrificada e saída do deserto, a gente sarracena se mesclaria na Península para continuar pelos ca- minhos do oceano o seu impulso exógamo e conquistador, que trazia em si o errático e o imaginoso, a aventura e a fatalida- de. E que só havia de estacar nos verdes da Descoberta. Na Ilha de Vera Cruz, Ilha de Santa Cruz, Ilha de Utopia, Brasil
III
O fato de ser virtude para os habitantes da Ilha de Uto- pia de Thomas Morus "viver segundo a natureza" decorre do susto amável e persuasivo que foi para os navegantes do século XVI a descoberta do índio nu nas selvas americanas. Isso, no entanto, em nada compromete o propósito firme com que se abre a nova era, de valorizar e impor o trabalho e portanto a civilização da roupa, como imperativo desse mo- mento histórioo. Aliás esse postulado ignora que é efêmero no tempo, pois supõe ser da própria natureza ao homem suar e penar como fora determinado por Deus a Adão na expulsão do paraíso ocioso para o qual parecia ter sido criado. E suar e penar é se vestir. O problema do ócio, face negativa do trabalho, toma aqui uma importância extrema, tendo havido evidentemente nessa
esquina da História, uma mudança radical de pontos de vis- ta. Finda a Idade-Média, quando o ócio é um respeitável pri- vilégio de classe, destinado a nobres e abades, inicia-se uma época em que o homem que trabalha e organiza procura em- palmar a dianteira da sociedade. Ê o instante em que se de- senha a primeira consciência burguesa. £ essa repele o ócio, senão como mácula, pelo menos como marca de inferioridade. Os países reformados fizeram dela a alavanca de seu expan- sionismo e de seu progresso. O ócio fora também, em todas as religiões, tido como um dom supremo, particularmente pelo sacerdócio, detentor de ócio sagrado que distingue e enobrece os mediadores de Deus. Na vida futura, é ele, o ócio, a recompensa das penas e atri- buições que sofremos neste mundo. Não está longe dos pra- zeres fantásticos prometidos por outros cultos, esse que para os cristãos é a alegria suprema da contemplação beatífica de Deus — Ócio puro. A Idade Média que modelou o Ocidente criara uma hierarquia do ócio, determinando e atribuindo em esca- la social decrescente, até o escravo, os encargos duros da vida social. Agora, na entrada do Renascimento, ve- mos o contrário. O trabalho começa a ser o que digni- fica o ser humano. Aí estão entre outros documentos os li- vros de contabilidade de Florença, estudados por Werner Som- bart n'0 Burguês e onde se vê a família Alberti conquistar a mais alta dignidade social pelo trabalho. Apenas nos países retardados continua vitorioso, como sobrevivência, o precon- ceito do ócio destinado a dignificar as classes parasitárias. Te- mos em nossa História um documento vivo que demonstra como esse atributo de ser ou de ter ascendentes ociosos, se faz necessário à ascensão cortesã. É o caso de Antônio Diniz da Cruz e Silva, mau poeta e péssimo sujeito, autor do Hissope (um plágio do Lutrin, de Boileau) e cuja máxima finalidade na existência de magistrado foi ser nobre, possuir um titulo, alegar uma distinção que o salvasse das origens plebéias don- de viera. Cruz e Silva, havendo atingido, em Portugal, uma situação, procurou por todos os meios se tornar um fidalgo, mas seus propósitos foram sempre contrariados pelo fato de trazer no sangue o que a época chamava de "nódoa de me-
cànico". Um de seus avós tinha sido calafate, isso é, maríti- mo. E foi preciso que viessem os martírios da Inconfidência Mineira para que o miserável pudesse resgatar a sua "mácula de origem". Cruz e Silva tornou-se o braço da vindita real contra os conspiradores de Vila-Rica. Foi ele quem determi- nou o enforcamento de Tiradentes e o exílio de seus cúmpli- ces, aliás todos grandes e nobres poetas, visados pela inveja do medíocre autor do Hissope. Liquidado o movimento nati- vista, Antônio Diniz da Cruz e Silva já é, por graça de D. Ma- ria I, "Cavaleiro de Avis". A maior transformação operada pelos costumes novos é em relação ao tempo. Enquanto a Idade Média mergulhava o seu conceito de vida na ausência de tempo, prolongando-a até a vida eterna ("quando não haverá mais tempo — no dizer de Dostoiévsld), o mundo novo divide o tempo e o con- ta avaramente. Está inventado o relógio mecânico. A primeira grande fi- gura de burguês, o comerciante Alberti de Florença, escrevia: "Quem não perde tempo, tudo consegue e quem sabe traba- lhar o tempo é mestre do que quiser". Estamos na Florença do século XV, a que se chamou de Nova Iorque do Quatro» centos. Ê onde alvorece o Capitalismo europeu e onde começa a escrituração comercial. As classes ociosas tinham tido o seu paraíso durante a Idade Média. Mas mesmo nessa época aparecem os primeiros sinais de regularidade e de segurança que faria o Ocidente as- senhorear-se do Mundo moderno. È assim que junto às aba- dias fixam-se as feiras e estende-se o comércio num anseio de lei, de respeito e de estabilidade. Divide-se a Europa ativa em duas zonas: o setentrião que acalenta e constrói a cidade, brotada da fusão do castelo com o burgo, enquanto o Sul, engolido pelas invasões semitas, ativa a exogamia e a mar- cha para o novo e o incerto, e aponta o Atlântico — horizon- te das Utopias. Mas por toda a parte, o relógio mecânico inau- gura a civilização da máquina que é a do trabalho e do tem- po contado. As classes ociosas, dividindo o poder entre guerreiros e sacerdotes, tinham dominado a Idade Média. Uma pequena excursão filológica pelas variações do vocábulo "ócio" elu-
cida o assunto. Assim, sacerdócio é ócio sagrado, como já dis* sèmos. Negócio é negação do ócio. A idéia de serviço e sobretudo de serviço braçal aterra e afugenta as classes nobres. Oportuna é aquela* anedota que conta ter certo rei se recusado a ir buscar o assento que devia lhe ter sido trazido por um funcionário relapso para junto da lareira de seu castelo e tendo se sentado no chão, muito per- to do fogo, por ele se deixou tostar e completamente destruir, a fim de salvar o princípio do ócio que fazia parte da sua dignidade. No entanto, é na Idade Média que deita raízes a era do trabalho. Nela se insere a criação do tempo medido. A arte da navegação como a indústria embrionária das minas tiveram aí o seu fecundo nascedouro. O ferro e o vidro começaram a ser utilizados. E por detrás das muralhas do burgo aponta a a indústria. O poder central de mais um país, pretendendo debilitas a nobreza ociosa, estimulou e protegeu o trabalho do vilão. De modo que, sob o signo das Utopias, é todo um evan- gelho de trabalho ativo, e ao mesmo tempo de igualitarispao, que se constrói e afirma nos sonhos de Morus e de Campanella. Ê um paradoxo profético esse de ter a descoberta do ho- mem ocioso da selva americana trazido à luz e à ação grandes propósitos de organização social e de trabalho. Como se os aois escritores do Renascimento houvessem compreendido que somente através das conquistas da técnica e do trabalho hu- mano, fosse possível, mais tarde, a reconquista do ócio para que o homem nasceu. "Quando os fusos trabalharem sozi- nhos" — dizia Aristóteles. Na Utopia de Morus, vemos uma contínua exaltação do labor humano, ao lado da afirmação de avançadas idéias so- ciais. Morus começa seu requisitório contra os ociosos, compa- rando os soldados aos ladrões "mandriões que são uma se- menteira inesgotável para os exércitos". E profligando os se- nhores que mantêm para sua guarda lacaios em armas, excla- ma: "Têm eles, dizei vós, mais coragem a grandeza d'alma que os artesãos e trabalhadores. Eu acredito que um lacaio não faça muito medo senão àqueles em que a fraqueza do