A Marcha das Utopias - bloco 10
Dois acontecimentos na vida literária de Sartre produzi- ram-se ultimamente. Foram eles: a publicação do volume in- titulado Saint Genet, que é um livro de mais de quinhentas pá- ginas prefaciando as obras do escritor-ladrão, cuja celebridade transpôs de há muito os muros das penitenciárias que o deti- veram — e o comparecimento faustoso e decisivo do autor de UÊtre et le Néant ao Congresso da Paz de Viena, onde alar- deou uma intimidade absurda e explicável somente como ati- tude partidária, com o vermelho Aragon, que, depois de ser palhaço do Surrealismo, decidiu ser clown do comunismo. A oficialização de Jean Genet como grande escritor nada tem de excessivo. O extraordinário galé é de fato uma das maiores penas da França. Uma espécie de íoyce infantil que, na opinião autorizada de meu amigo Paul Sylvestre, atinge muitas vezes o lirismo de Rimbaud. Apenas acusam Sartre de exagero e parece tratar-se mais do aspecto moral com que ele exalta, elevando à categoria de santo, um empedernido valde- vinos que nem dez bispos de Victor Hugo converteriam ao chamado bom caminho. O que caracteriza Genet é um terrível corps à corps com a sociedade atual que ele não procura compreender ou trans- formar, e nisso vai uma adesão de Sartre à revolta individual que não parece compatível com o seu recente namoro com os dogmas disciplinar es do sovietismo. Genet, para mim, é uma vítima de seus complexos pa- triarcais. Talvez, no íntimo, quisesse do catecismo de sua pa- róquia passar à categoria de mariano e depois obter um em- prego, casar-se e viver como todo mundo. Não tendo a vida lhe concedido essa normalidade, declarou guerra ao meio em que nascera. £ iniciou uma espécie de pugilismo social, fa- zendo fila entre os bandidos espetaculares que desconhecem a evolução social, e querem apenas, a vingança imediata dos males que os afligem. Genet não deseja ver o fim da socieda- de burguesa e patriarcal a que são justamente atribuídos os seus desastres pessoais. Quer a luta, a vindita e a continuação do seu estado de fora-da-lei. £ assim que lamenta a liquida- ção dos cárceres coloniais da Guiana: "les derniers forçats ren- trent en France. Lafindu bagne nous empêche dacceder avec
notre conscience vive dans les régions mythiqves souterrai- nes". A volta do desterro não tem sentido. E mesmo depois de tornado célebre, não como ladrão mas como escritor, não parece ele querer tomar rumo diferente daquele que sempre seguiu. Não me admiraria de vê-lo, quem sabe, de parceria com Sartre, atirar-se aos pés de um cura de aldeia numa conversão sensacional. O livro de Sartre sobre o seu herói-ladrão é um livro bar- roco e enorme, quase ilegível O que interessa nele é a atitude. Como Genet, Sartre não deixa as coordenadas em que se for- mou, criança e adolescente, e por isso empalidecem as con- tradições que podiam trazer a defesa de um individualista terrível — Genet — e a adesão recente ao sistema disciplinar dos Sovietes. Sartre continua a admitir a categoria de Santo — no sentido cristão — e não parece ter abandonado de todo os alicerces de sua formação que vem milenariamente da con- versão do Rei Cldvis ao Cristo. O que o interessa, como a Ge- net, é a delícia do pecado e do escândalo. Mais importante do que o livro — prefácio às obras de Ge- net — é sem dúvida a aparição do existencialista francês num dos conhecidos e desmascarados Congressos da Faz que os par- tidos comunistas costumam promover pelo mundo afora. A pri- meira curiosa conseqüência foi ter Sartre — que é a inteligência — aparecido de braços dados com a tolice, que é Aragon. Este velho poeta — uma espécie de VictOr Hugo modernista — não pela grandeza do mestre romântico mas pela facilidade com que sua e poreja versos — depois de tomar parte nas batalhas iniciais do Surrealismo, que pelo menos tinham graça, conver- teu-se sinistramente ao que ele chama de marxismo, mas que não passa de uma deformação do marxismo — a doutrina polí- tica da URSS. A recente virada da União Soviética deixa Sartre à vonta- de. A sua adesão aos Sovietes é anterior à morte de Stalin e foi, portanto, nas malhas do dirigismo intelectual que ele vo- luntariamente chafurdou. Se há uma divergência fundamental entre a política de Stalin f a de Malenkov, foi aquela que atraiu Sartre. Anos pas- sados ele criticara, aliás, um discurso notável de Màlentcov, saudando intelectuais em visita a Moscou. Hoje, pois, deve se-
guir a mesma linha, isto é, não topar as diretivas do novo ha- bitante do Kremlin. Este tem a seu favor uma nobre atitude tomada no passado. Não engoliu Jdanov e a sua clainorosa ditadura, instituída contra a liberdade normal da literatura e das artes. Afirma-se mesmo que Malenkov foi o maior inimigo de Jdanov e isso constitui um bom ponto para o seu passado. Jdanov morreu ou foi assassinado, mas a sua cruel into- lerância fez escola até os últimos momentos de Stalin. Evidentemente, Sartre dêve estar hoje com a alma danada de Jdanov. £ preferível a sua compagnonniage covn Genet.
Descoberta da África
H A QUEM afirme que Gilberto Freyre devia ter começado seus estudos sociológicos pela África. Ou melhor, que a sua recente viagem através do Império Português-Negro deveria ter percebido a fixação panorâmica de nossa formação. Não sou dos que pensam assim. Ê tal a honestidade, a convicção e a riqueza com que o mestre de Recife faz entrar pelas nossas retinas a água-forte de seus encontros com o Brasil, que seria difícil lhe ter escapado qualquer coisa da alta contribuição africana na composição de nossa originalidade. Ê evidente que essa viagem ao Continente Negro pode completar e enriquecer o amálgama de fatos e observações que juntou até agora em seus livros clássicos. E um dos mais efi- cientes triunfos de nossa autenticidade é ter o autor de Sobra- dos e Mocambos restituído, sem um falso pudor dólico-loiro, a realidade de mitivistas — o português, o índio, o negro. Tudo isso aflora da revelação da África — de que conheço apenas a escala mecânica e sofisticada de Dacar — que me aca-
ba de fazer o jovem dominicano Frei Benevenuto de Santa Cruz, que com o sociólogo de sua ordem, Padre Debret, reali- zou recentemente sua excursão a diversas: regiões do continen- te afro, atingindo o Sudão. Quando 'Artur Ramos, muitos anos atrás, almoçava co- migo, batendo eruditos papos sobre a sua especialização, que era o negro, eu mais de uma vez lhe perguntei se não seria o africano e não o germânico o representante típico do Herreti- votk, tal a finura e a aristocracia de seu porte, de suas manei- ras e sentimentos, quando não degenerado e desmoralizado pe- lo contato branco. Frei Benevenuto veio me dar razão, tal o deslumbramento que seus olhos guardaram da gente pura da África, de seus costumes e maneiras, de sua arte e de sua cultura inconfun- díveis. Disse-me ele que o sociólogo Debret espantou-se muitas vezes do transe em que colocavam o estudioso brasileiro, uma máscara, uma canção, um trecho arquitetura!, brotados de uma aldeia negra. £ que o europeu não podia sentir aquilo que "foi o Brasil" na expressão felicíssima do nosso beneditino. Uma li- gação ancestral enchia de profunda emoção o intelectual nor- destino, que, aliás, brada aos céus contra a destruição dos úl- timos redutos da nossa área cultural nos Estados do Norte. A máquina capitalista picotou a renda, o crivo, o pano da Costa, enfim, o que temos de sagrado como autenticidade e beleza. E consta mesmo que na Bahia há diversos alemães fabricando balangandãs destinados às grã-finas que os distribuem às ami- gas como exotismo. Em Salvador, dizem, desapareceram os «últimos sinais da grande cultura popular que ali floresceu. Contaram-me que o próprio Anísio Teixeira soube levar para a escola a arte de nossos dias, mas esqueceu de resguardar os tesouros ecológicos de sua terra. Aliás, foi o Modernismo que primeiro alertou o mundo culto para os cometimentos artísticos do orbe africano. Foi na década de 20 que se expuseram em Paris as estatuetas rupes- tres de Benin. E chamou-se a um grande período da pintura de Ficasso de "época negra".
Em sociologia, o alemão Frobenius levantou o véu que encobria os mistérios culturais da África. Foi até o seu oora- ção místico, sabendo exaltar a quase perdida expressão daque- le munificente passado. Apesar de barroco, metafísico, spengleriano e'às vezes con- fuso pelo excesso de material colhido, o sábio germânico com- preendeu a África e soube separá-la do superficial e do profa- no que amesquinham e deformam as mais sérias reservas do que o homem tem de melhor. Ele pode dizer do negro: "Toda sua vida está cheia do ritmo expresso pela transformação do futuro em perecer e voltar. Essa mudança do Ser é o conteúdo de sua vida. Regula o curso das coisas e de suas reflexões. Go- mo às sementeiras, ao crescimento e às colheitas sucedem as sementeiras, o crescimento e as colheitas, do mesmo modo, ao nascimento, à maturidade, à velhice e à morte, sucedem o re- nascimento, a maturidade, a velhice e a morte. O ritmo subs- titui a eternidade".
Muitas vezes, nós tempos passados, quando existia o gran- de carnaval do Rio com o poderio de seus ranchos e a magia espetacular de seu compasso, exclamei: — Isto aqui é a Gré- cia! Evidentemente, os literatinhos mestiços do Nordeste co- mo os brancaranos do Sul, punham-se a rir, tendo como má- xima expressão da África, a Frinéia de Bilac. Enquanto isso se dava, um sábio francês soube mergulhar no Sudão e na Núbia, procurando as fontes culturais do Nilo. Tratava-se desta vez também de um padre, que, aliás, eu ti- nha em suspeição por ser o autor de um opúsculo vulgaríssimo sobre Sócrates. Era Monsenhor Festugière. Pois esse homem trouxe, das ignoradas origens do Nilo, a prova provada do que eu dizia. Num estudo assombroso sobre o Hermes Trismegisto, ele acompanha através de um estafante itinerário erudito, a marcha da cultura órfica, da África, via Creta, para a Grécia precedente aos séculos apolíneos. Não seria da mesma origem mística, plástica e melódica que trou-
xeram, para o Brasil, os escravos da África oriental, os assom- bros populares da Praça 11? Depois dos Estados Novos, o que a gente vê no Rio não é mais a exaltação da Hélade frenética que produziu Êsquilo e sim caminhões motorizados com japoneses e turcos carregando, entre lâmpadas elétricas, cartazes e dísticos do Dasp. Daria um livro. Era estender em detalhe o assunto efeito. Ligadas à mentalidade pré-utópica, as Utopias começam com a descoberta do homem natural e seu cálido paraíso no sé- culo XVI. Morus e Campanella. O desenvolvimento que lhes demos nestes artigos não po- deriam tomar a devida extensão em jornal. Poderíamos alinhar ainda, dentro do espírito pré-utópico, o que eu chamaria de Utopia gibelina, antipapal, neterodoxa, que junta Averrois ao Dante e a Siger de Brabant, figurando este último, mestre de Paris, no Canto X da Divina Comédia, entre Santo Tomás, Alberto o Grande, Craciano, Pedro Lom- bardo, Dionísio e Areopagita, Paulo Orosio, Boccio, Beda, Isi- doro de Sevilha Ricardo ae São Vitor.
«ESSA é LA LUCE ETERNA DI SIGIERI"
O Estilo Utópico seria o Barroco. O Socialismo Utópico se representaria pela República Comunista Guarani que os je- suítas criaram e desenvolveram no Paraguai por um século e meio, de 1610 a 1768. Desconhecida, com certeza, de Marx e de Engels (ignoro qualquer referência deles a propósito), dela tomaram conhecimento, no entanto, os líderes socialistas Karl Kaustsky e Paul Lafargue. O Direito Utópico está no Direito Natural, também um maduro fruto do Humanismo. Essa "lei sem juiz" que Grotius e Pufendorf desligaram do Direito Po- sitivo e que Kelsen admiravelmente analisou. A Ilustração Utó- pica, a época chamada das Luzes; a Revolução Utópica ~ a Francesa. A Sociedade Utópica — a saída do apodrecimento da Santa Aliança no século XIX e que produziu as lutas libe* rais de 48. E, entrando pela século XX, iríamos encontrar a Paz Utópica, essa invenção romântica de Bernardin de Saint-
Pierre que teria dado o presidente norte-americano Wilson e a Liga das Nações. Depois a Linha Utópica, que não seria mais que a Linha Justa dos comunistas. Huxley compareceria com a Sátira Utópica, o seu Mundo Novo, essa obra-prima da tolice inglesa. A Distribuição Utópica ou seja o New-Deal de Rooseveit. E chegaríamos a Browder, o grande Browder e a nossos dias com a notável virada de Malenkov, sem dúvida, um hábil político.
Verdade, porém, que as Utopias, no seu desenvolvimento intelectual e histórico, ganham terreno e aproximam-se das so- luções da realidade. A experiência viva de suas conseqüências fá-Ias vigentes no'século. Assim, estamos assistindo, no campo religioso, a um reajustamento do cristianismo utópico, prenhe de esperanças e resultados. Há séculos que não se encontra, dentro da Igreja Reformada, um teólogo da força, da cultura e da novidade de Karl Barth. Mesmo considerando-se Kier- kegaard — a cuja trágica linha entreguista pertence Barth — vindos todos através de Calvino e Lutero, de Santo Agostinho — considerando-se, dizia, eu, Kierkegaard um teólogo (a mais alta categoria a que pode atingir o espírito), o alemão atual é dos maiores da história do pensamento religioso, não se si- tuando de modo algum aquém do criador do Tratado do De- sespero e da Repetição. Para Barth todas as orgulhosas conquistas do progresso humano fazem apenas uma coisa — colocar o homem no lugar de Deus. Karl Barth, como os grandes iluminados, ou melhor, os grandes deliberados, não discute nada que conduza a uma redução da fé, produto da Graça. Para ele, é preciso desmUóli- zar o cristianismo e reduzi-lo a uma gloriosa e pura decisão subjetiva. A salvo das tempestades do tempo. É preciso crer, crer e crer. O Protestantismo vai assim às suas finais conse- qüências irracionais. Ê preciso ser a favor ou contra o Cristo. Nada mais conta. Além disso, a polêmica levantada por Barth em matéria de eclesiologia e de culto abalou o mundo refor- mado. Ele começou com uma poderosa crítica ao tradicionalis- tno passivo de sua Igreja, denunciando as "quatro pedras de