A Marcha das Utopias - bloco 11 A Marcha das Utopias · Capítulo 11 de 11
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A Marcha das Utopias - bloco 11

ângulo da prisão em que nos fechamos e que são: a ortodoxia, o pietismo, as máximas morais e sentimentais, derivadas da Filosofia das Luzes e o instinto religioso universal". Ao contrário de Kierkegaard, que no seu Diário chama Deus de "inimigo mortal", e do maniqueu moderno Froudhon, que também trata Deus como adversário, ambos não se colo- cando longe do pensamento primitivista que deu o Tabu — Karl Barth exalta a soberana e indiscutível transcendência de Deus. E em Seu nome pulveriza a razão como a experiência. Trata-se de um existencialismo cristão radical que nada tem com as cogitações de um pigmeu como Mareei. De outro lado, reajusta-se o catolicismo, retornando à sua posição por assim dizer "socializante". Gomo é sabido, o cris- tianismo ergueu-se sobre duas bases concretas, uma psicológi- ca, outra social, quero dizer, o sentimento órfico e a subleva- ção ligada possivelmente ao apostolado político de João Ba- tista, e à seita dos Essênios. Assim, o "Reino dos Céus" seria uma senha revolucionária e Maurício Coguel, com sua autori- dade, afirma que: "A expressão se unir por um batismo é já característica porque implica a idéia duma comunidade ou de um grupo". Tem sido esgotada a matéria escrita sobre o cristianismo social, mas vimos a que desvios foi ele levado, deixando a pu- reza da palrística, para admitir, depois de Avinhão, o papado senão orgíaco, pelo menos libertino e mundano de Nicolau V e Leão A. NOS tempos modernos, a Igreja, tanto a reformada como a católica, tornou-se o esteio ideológico da burguesia triunfante e daí o "ódio ao padre" de Mirabeau e a grande ofensiva materialista moderna. O atual movimento dominicano, tendo à frente excelsas figuras como Lebret, Riquet, Danielou e os jesuítas como De Lubac, força as portas da simpatia, fazendo tender a Igreja à sua velha finalidade social. £ verdade que esse movimento desaparece diante das realizações técnicas dos Estados Unidos e da URSS e mesmo da evolução forçada pelo desenvolvimento da máquina, e do proletarismo no mundo moderno. Para mim, o que mais interessa no movimento de renova- ção do catolicismo é a figura central do alemão Romano Guar-

dini. Este líder empresta uma importância descomunal ao cul- to, ao rito e à liturgia e isso me parece de uma importância capital, pois procura destruir o nó reacionário do clericalismo moralizante. Guardini, no Espirito da Liturgia chega a colocar o Rito acima da Ética. Romano Guardini traz, com a realidade da vocação do homem para crer e adorar, um apaziguamento das questões que faziam do pecado o estorvo de consciência da maioria dos emites. Enquanto Barth manda crer, Guardini convida a adorar. São esses para mim os únicos caminhos efi- cientes encontrados hoje para um renovamento do cristianismo, dentro do utópico e do órfico e não fora do social.

E afinal nos encontramos neste roteiro com Rousseau. Ho- je, Jean-Jacques já não é subversivo. Tanta coisa se passou de- pois da Revolução que irrompeu não só por motivos econômi- cos, mas muito pelo impulso do pensamento enciclopedista, que é quase idílica a figura desse reformador social. Pelo me- nos, o seu índio, o índio bom, é perfeitamente utópico. No Manifesto de Antropofagia publicado em São Paulo no ano ainda modernista de 1928, vinha isto: "Contra o índio de lo- cheiro, o índio batizado e genro de Dom Antônio de Mariz". £ que todos os índios, conformados e bonzinhos de cartão pos- tal e de lata de bolacha, tinham saído de Rousseau. O Roman- tismo serviu-se dele à vontade e ele veio espraiar-se aqui, ni- nado pela suave contrafação de Alencar e Gonçalves Dias. Tempos' antes, no entanto, outro francês, este um podero- so e culto espírito humanista, havia definido genialmente o segredo bárbaro do índio. No Capítulo "Des Cannibales" dos sens Essais, Michel de Montálgnè narra que ouvira de um criado que se ligara ao Brasil recém-desooberto e que estivera na festa para que foram conduzidos índios autênticos, em Rouen, na metade do século XVI, o que era o selvagem. Con- ta ele que durante a estada em Rouen, perguntaram a um ín- dio que achava do luxo e do conforto dos palácios da cidade. E o brasileiro respondeu apoias isto — que muito se admirava com os produtos daquela civilização mas, que mais se admira- va ainda em ver que a população que vivia no frio e na lama

não queimasse aquilo tudo. Levado à presença do rei, que era uma criança doente, sentado no trono ao lado de um suíço barbado e terrível, o índio cometera outra terrível indiscri- ção. Perguntara por que não tiravam dali aquele incapaz e não soltavam no trono o suíço. Repousa nesta observação admirável toda uma tese da au- toridade, autoridade que deu alento e vida às monarquias sa- dias, como foram tanto o Império Romano como o Império dos Hohenstaufen.

E falamos de novo em Kelsen, sem dúvida, o maior ju- rista contemporâneo. Não se pode esquecer que num ensaio que se segue ao seu estudo sobre o Direito Natural ele cita um texto grego de Anaximandro, no qual, segundo a opinião de Capelle, se acha "captado", pela primara vez no pensa- mento humano, o conceito de uma legalidade que domina todo acontecer. Não estamos longe do pensamento de Empédocles de Agrigento que estabelecia e justificava a eterna polaridade do ódio e do amor. Heráclito também vê na natureza uma tensão de contraposição. "A guerra é a mãe de todas as coisas". "A luta é Direito". "Antes do cristianismo joànico dar ao Logos o sentido do Verbo ou do Cristo, na teologia grega o Logos era a Diké, "a deusa da vingança iniludívei". Não estamos longe, portanto, das formas posteriores de re- ligião, iniciadas com o masdaísmo ou o maniqueísmo, nem da posição de Montaigne, exaltando os canibais brasileiros.

Resta uma palavra sobre o Barroco. O estilo utópico. Nas- ceu com a America. Com a Descoberta. Com a Utopia. Ninguém me convencerá de que no Barroco há uma des- cendência direta do Renascimento. Nego a Bernini o direito de se colocar com seus lençóis na herança duma plástica vinda do mundo colonial que se abria entre flores, lianas e frutos dis-

formes. O Grego, sim. Ê Barroco. £ a alma disforme e trágica do Barroco. Da janela maravilhosa de Tomar ao César de Boma, o Barroco é o mundo novo. Aliás, nada conheço de maior na his- tória plástico-arquitetônica que a abadia guerreira de Tomar em Portugal. O nosso Aleijadinho está perto dela.

£ encerrando, nada mais tenho a dizer senão que também trago a minha Utopia, de caráter social. Por que não se orga- nizar o mundo numa política de dois tetos? Ninguém terá mais do que tanto. Ninguém menos do que tanto. No intervalo o homem poderá subir ou descer como quer a sua ambiciosa na- tureza. £ por que não se criar uma especialização vocacional? Inclusive um corpo político de eleitores formados para isso? Tenho dito.

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