A Marcha das Utopias - bloco 07 A Marcha das Utopias · Capítulo 7 de 11
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A Marcha das Utopias - bloco 07

A palavra dialética, utilizada pela filosofia grega, revalo- rizada por Hegel, alcançou o seu clímax no Marxismo. Ficou sendo, para todos os efeitos, "um progresso por contradições". Entra ela aqui muito bem, quando agora vamos voltar ao corpo-a-corpo que esboçamos, no tratamento da Guerra Holandesa, entre a filosofia do negócio (a Reforma através de seus eleitos) e a filosofia do ócio (a negrada que esmagou duas vezes o invasor no solo de Guararapes). Seria através do negócio e não de seu oposto que o ho- mem iria atingir as verdadeiras alegrias do descanso, o que os judeus chamaram de "eterno sábado" e que cintila como engodo no fundo cínico de todas as religiões e de todas as por- messas sociais. O europeu faz sutilezas a propósito de tudo. Assim, o ilus- tre professor Bizarri, ativa abema da cultura italiana entre nós, distingue o ócio latino que admite o trabalho intelectual do ou- tro que apenas pode ser dado no regime em que vivemos, como uma noção de férias. Para mim, o ócio é um só e para ele cami- nha toda a humanidade. E é, diante do nivelamento crescen- te das classes, sempre cum dignitate. Acabou-se essa história dum funileiro não poder interpretar Brahms no violino. O ro- mancista Sinclair Lewis aconselha os novos escritores da Amé- rica a ganharem o seu pão em bombas de gasolina. E por que não, quando a literatura não produz? Aliás, seria dialeticamente através do negócio, estímulo dorsal da técnica, que o homem poderia concretamente as- >irar ao seu contrário, o ócio, e, enfim, conquistá-lo. O Brasil Íoi apenas a profecia e o horizonte utópico do ócio. Mas o foi esplendidamente. Se Thomas Münzer chamava o agitado Lutero de "o boa- vida de Wittenberg", que diria um calvinista holandês dum senhor de engenho pernambucano? Coloquemos em face da agreste moral dos invasores de seu brutal utiiitarismo, o quadro da nossa displicente salubridade humana, através de mestre Gilberto Freyre: "Ociosa mas alagada de preocupa- ções sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida na rede. Rede parada com o senhor descansando, dormindo, cochilando. Rede andando com o senhor em viagem ou a pas-

seio debaixo das cortinas e tapetes", etc. etc. Falava o Matri- arcado. Que queria o severo holandês invadindo Pernambuco e o Recôncavo senão isso mesmo? Através do açúcar, que lhe da- vam facilmente o escravo e a cana, uma vida de rede? Mas essa vida de rede que afinal é a geral preocupação humana, só poderia ser atingida através da técnica e, portan- to, do trabalho, do suor, da invenção, dos "fusos trabalhando sozinhos", de Aristóteles. Antes do longo e suarento caminho da desigualdade social, elevado a dogma pela Reforma, nada feito. E quem o quisesse conquistar tinha pau. Como tevel Essa curiosa contradição, que a condição do ócio é o tra- balho, figurou no miolo das Utopias. Tanto Morus como Campanella abriram os sonhadores olhos para as nuas praias descobertas, exaltando o trabalho. E deles sairia o codificador da ciência econômica que repousa inteira sobre o trabalho. Ouçamos Adam Smith numa tirada clássica, aproveitada por David Ricardo e mais tarde por Marx: "O trabalho, portanto, é a medida real do valor permutável de toda mercadoria". "O trabalho foi o preço primitivo, a moe- da original adquirente que se pagou no mundo por todas as coisas permutáveis. Não foi com ouro nem com prata e sim com trabalho, que se comprou primitivamente no mundo, todo gênero de riqueza e valor" (Natureza e Causas da Riqueza das Nações, 1776). Era a voz do Patriarcado. Século atrás, diante do tabuleiro das terras virgens da América, Morus exclamava ditirambos sobre as excelências do trabalho. O trabalho veio e com ele a invenção e a técnica. E justamente observando a evolução da existência laboriosa nas fábricas da América, é que um grande sociológo francês, Friedmann, respondeu ao título de seu livro admirável Oú ca le Travail HumainAo ócio.

IX

No fundo de cada Utopia não há somente um sonho, há também um protesto. Não é outro o sentido do grande estudo

de Karl Mannheim intitulado Ideologia e Utopia, esse de que ao contrário da ideologia que procura manter a ordem esta- belecida, toda Utopia se torna subversiva, pois é o anseio de romper a ordem vigente. O fato de moderna sociologia ter feito desaparecer o Des- tino como fator de situações reais, desenlaces e resultados dra- máticos, esclarece profundamente o substrato tanto das ideo- logias como das Utopias, liquidando o clássico deus exmachi- na que encheu de terror do incompreensível a velha tragédia grega. Nos estudos da História, depois do poderoso afresco de Bossuet que colocava Deus no lugar do Destino, substituí- ram-se-lhe, primeiro, condutores e super-homens, depois, cau- sas materialistas. Agora já se concede direito de cidadania ao sonho, o

trário, e está aí Mannheim para esgotar o assunto, chama-se de Utopia o fenômeno social que faz marchar para a frente a pró- pria sociedade. Infelizmente há ilustres filósofos que desprezam a cultura geral, a favor da especialidade no existencialismo. Não houve no mundo medieval uma mentalidade utópica ou, para melhor historizar, uma mentalidade pré-utópica? A beleza do nome encontrado por Thomas Morus para a sua ilha da felicidade, faz com que se datem os anseios utópi- cos do aparecimento de seu livro, no século XVI. O fenômeno, porém, sempre existiu desde que uma sociedade se sentiu mal no seu molde enrijecido e sonhou outra conformação ideológi- ca para a sua existência. Oue nome tomaram as Utopias no lar- go percurso da Idade Média? Foram geralmente tratadas como "heresias" e quase todas liquidadas a ferro e fogo. Não foi, porém, um fenômeno historicamente medieval esse das Utopias tratadas como heresias e abatidas pela Igreja, ou melhor, pelo sacerdócio, tendo como executor o braço secular. O primeiro Cristianismo foi uma Utopia, uma Utopia herética tanto em face do Sanhedrim judaico como do poderio político romano. E por isso o Cristo da realidade ou aa lenda teve o lenho em cruz como coração de seu sonho social. Aí nesse momento valorizou-se um termo que julgo extre- mamente ligado às Utopias. £ o termo grego Parúsia — destina- do a indicar a volta do Deus vingador para repor as coisas em seus eixos numa situação social errada. Os apóstolos esperavam a Parúsia que foi sendo adiada mas nunca denegada até que, séculos depois um sabido, talvez Clemente de Alexandria, pas- saria para o justiçamento extraterreno e post-mortem, a deter- minação de se fazer justiça aos que sofreram e castigar os que abusaram. Os judeus não conheciam o inferno cristão, quanto mais dantesco. Tinham apenas uma noção imprecisa do Cheol. "O Cheol redobrou de atividade. Abriu sua desmesurada goela." Isaías. "As cadeias do Cheol me envolveram". Salmo 13. "Deus faz descer quem ele quer ao ventre do Cheol. Tira-o de lá quando quer" Jonas.

Há certos vocábulos atuais que servem extraordinariamen- te para a elucidação do passado. Assim, li um estudo curioso so- bre o " colaboracionismo" do profeta Jeremias que mandava os judeus, no exílio em Babilônia, não entrarem em choque com seus opressores, a fim de vencer um dia. Outro termo que ser- ve excelentemente é o da "resistência" para designar a teimo- sia dos judeus em manter a sua personalidade histórica e reli- giosa. A raiz dessa resistência foi o messianismo que já se di- visa na Gênese, sobretudo na eleição de Abraão. Há evidente- mente, unia Parúsia profética, isto é, a idéia de uma vinda pes- soal do Messias julgador e portador de justiça. Mas, através dos profetas e desde a Gênese, tanto em Amós como em Eze- quiel e em Jeremias, esse sentimento sonhador se espraia, so- bretudo, na recuperação histórica da liberdade. £ durante o des- terro babilônico que o profetismo anuncia a ressurreição histó- rica e a liberdade do "povo eleito". Sofonias é acusado dum incurável profetismo apocalítico. No entanto, é ele quem decreta sobre a "salvação". Eis trechos de um de seus poemas: "Dotarei meu povo de lábios puros". "Israel se converterá em bem". "Desaparecerá de sua Doca a "língua perniciosa". Mas seus filhos "repousarão sem que al- guém os inquiete". Em Jeremias, as promessas tornam-se coletivas, mais que em qualquer outrò. "Eu serei seu Deus e eles constituirão o meu povo". O messianismo tradicional assume as cores da Noca Ali- ança.

Enfim, há uma Parúsia evangélica que assume um aspec- to de austera proximidade na comunhão dos apóstolos que se seguiu em Jerusalém à morte do Cristo. Loisy, o grande sucessor da Renan o predecessor de Gui- gnebert, na alta cristologia, tem no seu volume sobre os Aatos aos Apóstolos, um comentário do seguinte texto: "Este Jesus Que foi levado de junto de vós

Para o céu Assim voltará Da maneira por que o vistes Ir ao céu**.

Eis a nota:

"Os primeiros discípulos esperaram realmente a manifestação messiânica na forma pela qual tinha sido anunciada pelos pro- fetas".

Em seguida: "Assim pois, provisoriamente, o Monte das Oliveiras, que deve ser o lugar do grande acontecimento, da Parúsia, torna-se o lugar de partida ao Cristo".

No fundo de cada heresia há, pois, uma Utopia. E essa Utopia se dobra e recobre do ideal parusaico. É quase sem- pre a vinda justiçadora do Cristo que porá termo às situações insustentáveis para um certo grupo de crentes. Vindas do longínquo Arius que discutia a hierarquia da Trindade, até os valdenses, as heresias tiveram durante a Ida- de Média um longo e doloroso itinerário, ficando na História como uma das mais horríficas hecatombes essa destruição de Albi pelos ortodoxos da catolicidade comandados em pessoa por São Domingos de Gusman. Eis aqui as palavras do fundador glorioso da ordem dos pre- gadores: "Por muitos anos eu vos tenho exortado em vão, com bon- dade, pregando, orando e chorando. Mas, de acordo com o pro- vérbio de minha terra (São Domingos era espanhol) — onde nada consegue a bênção, pancadas podem dar resultado — va- mos agora levantar contra vós, príncipés e prelados, que, ai de vós, armarão nações e reinos contra esta terra... e assim fa- rão os golpes e a violência, o que não puderam fazer as bên- çãos nem a doçura" (Enciclopédia Britânica — Dominic).

Os cátaros que não são outros que os "puros" ou os "per- feitos" e que tiveram como centro a cidade de Albi, sentiram na pele as ameaças de São Domingos. Foram impiedosamente des- truídos, morrendo gente queimada dentro das igrejas, nos cas- telos e nas ruas dos burgos. Ê verdade que não se pode negar o caráter de sublevação social que tomou o catarismo. Eles renunciavam a criar uma família, a possuir bens, perdoavam as ofensas, recusavam-se a prestar juramento mesmo diante de um tribunal e de fazer a guerra mesmo para defender a pátria. Havia no fundo das teo- rias religiosas dos albigenses um vago maniqueísmo que amea- çava destruir a Trindade. Mas, sem dúvida, o esplêndido feito herético que nos le- gou a Idade Média foi o panteísmo de Joaquim de Flora. Ê in- crível como o calabrês extraordinário que foi o Abade de Flo- ra, escapou à vindita ortodoxa de todas as excomunhões. Ao contrário, seus sequazes foram queimados vivos. Entre eles fi- gurou o célebre Fra Dolcino que foi torrado na rua, andando com sua companheira Margarida. O curioso no fenômeno da divulgação do Evangelho Eterno de Joaquim de Flora, foi que se tratava de uma interpretação da interpretação apocalíptica, a qual às vezes tomou certa coloração comunista, ameaçando mesmo a legalidade das riquezas folgadas do Papado. O milenarismo, ou seja, a idéia de um reino de mil anos, onde reinaria a paz, e que na concepção tripartida de Flora, não passava da "primeira ressurreição", não é realmente fi- xado pelo seu indigitado inventor. Mas, de fato, Joaquim de Flora marcara para o fim do mundo o ano de 1260. Este veio e o milenarismo, como a antiga parúsia, foi adiado. Milenaristas foram então os principais sublevados dessa época até o Renas- cimento e a Reforma. Afirma-se, aliás que as ordens monacais — tanto a franciscana como a dominicana — saíram da inspira- ção religiosa de Joaquim de Flora. Atribui-se a criação e a divulgação do milenarismo aos ju- deus e particularmente aos apocalipses de Daniel e de Esdras. Os primeiros séculos cristãos adotaram essa idéia de uma paz de mil anos precedendo o final julgamento. Seria o reino ter- restre dos justos, cuja miragem chegou a tentar Santo Agosti- nho.

Foi, sem dúvida, essa utopia panteísta lançada pelo abade de Calábria e trazendo em si um fermento de revolução social, que tentou todos os cérebros inquietos e revoltados do final da íaade Média. Basta dizer que Thomas Münzer, o grande pre- decessor e opositor de Lutero, foi núlenarista. Como vemos, no desenrolar da mentalidade pré-utópica oomo da utópica, todos os sonhos de mudança e transformação social que estudamos se forram não somente de sonho mas de protesto. A utopia é sempre um sinal de inconformação e um prenúncio de revolta.

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